domingo, 2 de maio de 2021
quarta-feira, 31 de março de 2021
CAMPANHA DA FRATERNIDADE: UNIDADE OU DIVISÃO?
Recebi e com muito prazer publico:
Não é novidade para ninguém que temas polêmicos sempre
foram divisores dentro das instituições religiosas, de modo ainda mais preciso,
dentro da Igreja Católica: desde o grande cisma provocado pela divergência
quanto ao Filioque, perpassando as heresias e chegando ao problema da
iconoclastia e, tempos depois o protestantismo, divisões não faltaram no
cristianismo católico e não católico. Mas o fato é que, segundo a minha pobre
visão, já vivemos hoje um cisma prático que abarca questões ideológicas muito
mais do que questões de fé. Faço-me entender:
Hoje na Igreja temos dois grandes pólos: de um lado, a
corrente conservadora que, em suas convicções, preza por resguardar a moral, a
“tradição” e os bons costumes cristãos. Por outro lado, encontramos uma
corrente progressista que provoca reflexões e busca mudanças no seio do
catolicismo. Ambas as alas vivem numa eterna guerra para provar os erros uma da
outra. Mas o fato é que estas duas correntes estão bem distantes de viver um
consenso, aquela justa medida aristotélica que é, na realidade, o cerne do
ensinamento de Jesus, pois o Evangelho conduz a uma visão límpida das coisas, a
Boa Nova reclama para si um equilíbrio humano.
Na Igreja do Brasil, nunca se viu um conservadorismo
tão forte como aquele que existe hoje, tal conservadorismo é fruto de todas as
deturpações e más vivências da Teologia da Libertação e das Ceb’s que, em
muitos lugares e situações, ganharam apenas uma conotação social e política e,
por hora, deixaram a espiritualidade em segundo plano caindo quase um laicismo
travestido de fé. Aqui quero deixar claro que não sou contra a TL e as Ceb’s no
que elas são em essência (uma proposta eclesial libertadora e autêntica), mas me
refiro especificamente às deturpações que fizeram delas.
Um fato importante nesse contexto é que o crescimento
e o empoderamento da ala conservadora se dá também pela explosão do movimento
carismático que virou febre e se misturou ao conservadorismo dando-lhe
popularidade. Aqui no Brasil está em alta no meio católico assuntos do tipo:
uso do véu pela mulheres, a modéstia no vestir, uma ênfase exacerbada no pecado,
Missa Tridentina, um devocionismo que extrapola os níveis da normalidade e um
ideal cristão que às vezes foge da realidade humana que se apresenta nos nossos
tempos.
Sob o influxo de argumentos de que a Igreja teria
condenado a Teologia da Libertação, o conservadorismo ataca qualquer temática
que possa ao menos lembrar questões sociais. Não é à toa que o Papa Francisco é
largamente taxado de comunista e criticado por seu ministério marcado por um
acento social, ecológico e humanitário. Além do Papa Francisco, um grande alvo
dos ataques conservadores é a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil)
que segue a linha do pontificado do Papa Francisco. A cada ano, com a Campanha
da Fraternidade, que acontece sempre no Tempo da Quaresma, a CNBB propõe a
conversão dos cristãos para assuntos ligados ao bem comum, ao meio ambiente,
problemas sociais e humanos que assolam os nossos tempos.
A cada ano tem crescido a objeção à Campanha da
Fraternidade, há muitos padres, leigos, institutos e até bispos (pasmem!) que
se manifestam contrários. Acusam a Campanha de ser comunista (Imagine se existe
comunismo no Brasil! Risos...), laicista e sem espiritualidade. Reclamam o
direito de viver a Quaresma no seu espírito “genuíno” como se refletir sobre a
situação do mundo não fosse oportunidade de conversão, de vida nova, de novos
tempos. Esse grupo conservador não consegue perceber que a nova criação, os
“novos céus e a nova terra” prometidos por Cristo já começam quando nos
convertemos ao amor pelo próximo e pela criação.
O tema da CF deste ano talvez tenha sido um dos mais
polêmicos de todos os tempos porque envolve a diversidade e, falando deste
tema, além de tratar sobre a diversidade religiosa (sendo uma campanha
ecumênica), traz à luz da reflexão cristã, o tema da diversidade sexual que
está em alta no Brasil. É impossível não falar de conversão quanto à homofobia,
transfobia, LGBTQI+fobia, no país onde mais se mata homossexuais e pessoas
trans no mundo. É impossível não chamar à conversão uma cultura de intolerância
e agressão a quem vive uma orientação sexual diferente dos padrões patriarcais
das culturas cristãs. Não dá para fazer vistas grossas a um assunto de tamanha
relevância no cenário nacional. O Evangelho toca estas realidades. O que dizer
então quando o próprio Catecismo da Igreja manda acolhermos as pessoas
homoafetivas com caridade? Acaso está sendo o Catecismo herético e
contraditório?
O fato evidente aqui é que falar sobre estes temas na
Igreja é ter que tocar na própria ferida, é ter que olhar para dentro da
própria instituição e enxergar com objetividade que a questão da
homoafetividade não é só ad extra, mas ad intra! A homossexualidade é uma
questão teológica séria que precisa ser discutida para além de um parágrafo do
Catecismo e para além de uma recomendação a “guardar a castidade” como se fosse
simples assim. Na prática, como podemos acolher com caridade, pastoralmente e
espiritualmente as pessoas LGBTQI+ se estamos fechamos a perceber que esta
realidade está camuflada dentro da própria instituição? É lógico que é mais
fácil tomar o caminho da “moral e dos bons costumes”, pois assim, não precisamos
mexer em nós mesmos, não precisamos nos expor e não precisaremos passar a
vergonha de admitir perante o mundo que estamos errados.
A Campanha da Fraternidade é um ponto cismático na
Igreja do Brasil. Torno a repetir: este cisma não existe formalizado e oficial,
mas trata-se de uma divisão de cunho prático, uma guerrilha que se expande
desde os ambões das Igrejas até as redes sociais onde o bombardeio ideológico é
ainda mais forte e descontrolado. Embora o tema da CF trate da unidade:
“Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”, vemos que ela gerou muito mais
divisões, mas ainda assim, creio que ela esteja cumprindo seu papel, pois onde
não há tensões e crises, não há também crescimento e purificação. Se dentro da
Igreja, essa bonita proposta não consegue atingir sua finalidade, ao menos nos
espaços extra-eclesiais ela tem gerado diálogo, reflexão e propostas de
mudanças.
Sigamos de cabeça erguida! Possamos nos firmar no
texto bíblico que é lema da CF 2021: “Cristo é a nossa paz: do que era dividido,
fez uma unidade”. (Ef 2, 14a) O caminho das tensões não pode ser visto
negativamente, mas acredito firmemente que Cristo se utilizará disso para
continuar chamando ao diálogo e à unidade. Sejamos nós instrumentos nas mãos do
Senhor, geradores de comunhão, de acolhimento, de respeito e de amor ao
próximo. Como nos ensina o Papa Francisco na “Fratelli Tutti”: sejamos
construtores de pontes e não de muros!
Pe. Cláudio Gonçalves | Bahia, Brasil.
quinta-feira, 18 de março de 2021
O OLHAR DO OUTRO
Paolo Cugini
Existem olhares e olhares. Nem
todas as aparências são iguais.
Existem olhares anônimos e
outros que te deixam empolgado. Olhares que te levam e outros que te deixam.
Olhares que escapam, como chuva nas folhas e olhares que penetram, como chuva
na terra ressecada. Há olhares que te magoam e outros que te dão vida. Há
olhares que te deixam indiferente e outros que te levam embora.
O olhar do outro é o bálsamo
da vida. Sem o olhar do outro não sei quem sou e corro o risco de ser envolvido
por ilusões, por ideias sobre mim e não pela realidade. Sem um olhar sincero
não me torno o que posso ser. E se esse olhar estiver cheio de amor, posso
finalmente me tornar eu mesmo. Por favor, olhe para mim.
Se ninguém olhar para mim, a
solidão mata a vida. Se alguém me olha, a vida volta nas veias e provoca a
vontade de organizar o futuro, de fazer planos.
Procuro
o seu rosto: não me deixe sem o teu olhar.
terça-feira, 16 de março de 2021
POLIEDRO
Paolo Cugini
Vem do grego: polis, muitos e èdron, rosto, portanto muitos rostos. É, portanto, um sólido geométrico limitado por superfícies poligonais planas. Depois, há os poliedros regulares, feitos de faces iguais, e os poliedros irregulares. É uma figura que exerce um certo encanto porque realça especificidades. É, de fato, da perspectiva da unidade na diversidade. O realce das partes, por outro lado, não é implementado pela esfera que, por sua característica específica, cancela qualquer aresta, pois na esfera tudo deve ser homogêneo. Poliedro e esfera indicam, portanto, formas de compreender a relação entre indivíduos e comunidades, ou entre comunidades diferentes em relação umas às outras.
Esta figura geométrica é frequentemente citada pelo Papa Francisco para indicar sua visão da Igreja, como uma união de todas as parcialidades que na unidade mantêm a originalidade das singularidades. É exatamente o oposto do que acontece na esfera em que a superfície não apresenta rebarbas. Sempre que a Igreja se impõe aos fiéis sem possibilidade de ouvir ou responder, manifesta a sua intenção de nivelar a relação para que apareça uma uniformidade, que acalma quem está no poder, mas gera tensão e rebeldia nos que estão no poder. Nesta perspectiva, São Paulo, em mais de uma ocasião, expressou o desejo de estabelecer comunidades cristãs no modelo do poliedro, isto é, tentando alcançar a unidade salvaguardando a diversidade. São Paulo estava convencido de que o Espírito Santo é aquele que desperta a diversidade, manifestando às pessoas que o acolhem os carismas específicos que permitem à comunidade cristã existir à imagem de Cristo.
No nível social e político, o poliedro e a esfera indicam duas formas de entender as relações dentro de uma comunidade, uma nação. Enquanto, de fato, no modelo da esfera o cidadão se anula ou, muitas vezes e de boa vontade, é anulado por medidas autoritárias e violentas, no modelo do poliedro o cidadão mantém sua peculiaridade. O modelo poliedro permite que os cidadãos interajam com a estrutura sociopolítica, mantendo a sua própria autonomia. Percebe-se o estilo multifacetado de governar um país na antiga polis, uma das raras experiências políticas em que os governantes não apenas agiam pelo bem dos cidadãos, mas os envolviam nas decisões a serem tomadas. Enquanto o modelo esférico anula a parte, a singularidade em benefício do todo, o modelo multifacetado valoriza e acredita que cada cidadão é chamado a dar o melhor de si para o bem da comunidade e consegue fazê-lo com precisão porque ele é instado em sua especificidade.
Eu amo o poliedro e odeio a esfera. Gosto de me envolver e envolver as pessoas nos projetos que estão na minha cabeça. Não gosto quando encontro no meu caminho pessoas com uma mentalidade “esférica”, que asfaltam as vontades dos indivíduos para se imporem. O pior é quando este modelo esférico é visto implementado na Igreja fazendo-se passar pela vontade de Deus, rasgando assim páginas após páginas do Evangelho.
sexta-feira, 5 de março de 2021
NÃO MALTRATE SEUS LIMITES
Paolo Cugini
Não é fácil tornar-se adulto
no contexto em que vivemos, porque, ao invés de aprender a nos conhecer e
aceitarmos, somos constantemente provocados por mensagens que nos convidam a
desejar ser outra coisa. Ao deslocar a atenção para além do nosso horizonte,
corremos o risco de, por um lado, perder o contacto com a nossa realidade e,
sobretudo, massacrar aquela parte de nós que não consegue atingir objectivos
que não respeitam a nossa própria identidade. É com os limites que temos de
lidar, os nossos limites que, neste contexto, correm o risco de serem
considerados um obstáculo. Pelo contrário, são precisamente os nossos limites
que nos revelam quem somos, para onde podemos ir, que caminho seguir.
Portanto, se quiser ser você
mesmo, se quiser aprender a se aceitar como você é, não maltrate os seus
limites, mas considere-os parte integrante da sua personalidade. O perigo de
maltratar o limite também pode ocorrer no caminho espiritual quando a pessoa,
perdendo de vista seus próprios limites, sacrifica sua própria realidade para
atingir seus próprios objetivos, ou os objetivos que a cultura lhe propõe, sem
levar em conta e sem escuta de si mesmo, do que constitui a verdade de si
mesmo. Sem dúvida, vivemos em um contexto cultural que estimula a ambição, de
atingir metas, quase todas de espessura material, de mostrar algo de nós ao
mundo, ainda que esse algo pouco corresponda ao que realmente somos. Quantos
sofrimentos internos são causados pelo esmagamento constante de nossa
consciência que nos grita para parar, para interromper o caminho que nos levará
ao fracasso. Quantos subterfúgios aprendemos a usar para não deixar que nossa
consciência nos censure, até o dia em que o mundo inteiro cair ruinosamente
sobre nós.
Antes de iniciar os caminhos
da recuperação da personalidade, indo em busca do tempo perdido, seria mais
importante buscar ajuda para discernir as escolhas certas a fazer na vida.
Entre os sinais mais significativos que devemos aprender a ouvir estão os
nossos limites, que indicam as reais condições de possibilidade da nossa
existência, dos caminhos possíveis que podemos seguir. Para aprendermos a
considerar o limite como algo positivo, parte de nossa estrutura humana, um
indicador importante de nossas reais condições de possibilidade, precisamos
aprender a nos ouvir, a dedicar tempo à nossa vida espiritual, a aprender a
calar. De vez em quando, decidir ficar à margem para pensar na própria vida,
nas suas escolhas, para verificar o caminho percorrido, não é perda de tempo,
mas em nosso benefício.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021
PERSPECTIVA
Paolo Cugini
Querida amiga,
tudo depende da perspectiva em
que você olha as coisas: é isso que nos preocupa. Passamos a vida toda nos
lamentando pelos supostos erros cometidos, a ponto de fazer com que o
sentimento de culpa se transforme em algo tão incômodo, que não podemos mais
escondê-lo. Há toda uma dor que vai do interior ao exterior, que também assume
formas físicas pelo seu peso. Em vez disso, bastava olhar de outro ponto de
vista, perceber que se tratava apenas de um problema de perspectiva, de pontos
de vista, de diferentes pontos de vista. Dito assim, parece tão banal que dá
origem a um leve sorriso. No entanto, há tantas pessoas que estão doentes,
porque foram acostumadas a olhar para certos acontecimentos de suas vidas de um
único ponto de vista, um ponto que causa dor, lacerações profundas na alma, a
tal ponto que não conseguem resistir tanta dor e, com o tempo, eles se tornam
sua dor.
E ao invés, de repente, sem
nem pensar nisso, por acaso, só por acaso, nos encontrarmos em outro espaço,
percebemos que aquela coisa que consideramos negativa, aquela situação que
sempre foi avaliada como terrível, abominável, tão feia de chegar ao ponto de esconde-la
até aos nossos olhos, na realidade não era mais do que um erro de perspectiva,
quer dizer, minha pequena amiga, uma história mal contada, mal vista. Bastava, aliás,
ir a um outro lugar para entender que não se tratava de erro ou, para dizer com
palavra de religiosos, de pecado, mas simplesmente de um ponto de vista
diferente, de uma diferente, poderíamos dizer, nova maneira de ver as coisas,
tão nova de considerar o que antes era considerado negativo, como positivo,
algo de que você não precisa se envergonhar, mas como um presente. Até isso! Você
viu, querida amiga, quão importante é a perspectiva? Você viu como é importante
não ficar parada, mas se mover, buscar novos horizontes, diferentes espaços,
novos olhares que possibilitem uma nova visão do mundo, do nosso mundo?
E aí minha amiga, bota a mochila
nas costas e vai, em busca da perspectiva que nos faz feliz, que seca nossas
lágrimas e nos faz ficar no mundo com toda a riqueza de nossa humanidade, pois
não há nada de que precisamos nos envergonhar, senão tantas situações que
devemos começar a ver e contemplar de uma nova forma, de uma perspectiva
diferente.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2021
O TUDO NO FRAGMENTO
Paolo Cugini
Não tenha medo do que é pequeno, do que parece menor,
porque a grandeza não se identifica com a qualidade.
Não tenha vergonha da humildade do seu
lar, porque a beleza está nas pessoas com quem você vive.
Não pense que você está sem sorte, porque a maior
sorte está em seu respiro.
Não procure além, aquilo que é perto de você.
Não despreze os fragmentos que encontra na vida,
porque em cada um deles está tudo o que procura.
Todo o amor no fragmento de minha casa, minha aldeia,
minha família, minha comunidade. Portanto, não faz sentido procurar em outro
lugar o que está sob o nariz. Basta prestar um pouco mais de atenção, para
perceber que o dom é exatamente onde eu moro.
Vencer, então, a tentação de acreditar que a
felicidade está longe de onde vivemos, que devemos buscá-la em outro lugar,
enquanto, na realidade, outro lugar é justamente onde vivemos, onde se tecem as
relações cotidianas, que exigem tempo, paciência, dedicação.
Todo o amor nas pessoas que você encontra todos os
dias.
Todo amor no fragmento de uma flor.
A vida inteira no fragmento de um pardal voador.
Toda a alegria do mundo, no fragmento do solo que você
pisa todos os dias.
Toda a alegria de viver está em seu fragmento de
quintal.
Então, se você quiser gostar tudo, presta atenção para
os fragmentos.
-
Paolo Cugini Apesar de ter passado muito século desde que os gregos desenvolveram um pensamento filosófico, alicerçado na razão e susten...
-
A Faculdade Católica do Amazonas em Parceria com o Setor Avenida Brasil da Arquidiocese de Manaus, organiza um curso de extensão em homile...
-
A comunidade dos fiéis antes das Escrituras Paolo Cugini Demorou, mas até que chegou o tempo de entender Demorou vários sécu...





