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terça-feira, 14 de outubro de 2025

AMOR E PROFECIA

 



O vínculo insolúvel que transforma o mundo


Paolo Cugini

Em uma época em que frequentemente nos detemos nas aparências e as relações correm o risco de se tornarem superficiais, aproximar as palavras amor e profecia pode soar quase como um oxímoro. No entanto, essas duas dimensões estão unidas por um vínculo profundo e indissolúvel: apenas quem ama de verdade consegue enxergar além do que é imediatamente visível aos olhos. O amor, na verdade, não se limita a sentimentos passageiros ou emoções efêmeras, mas torna-se uma força capaz de penetrar as trevas e perceber a luz, mesmo quando tudo parece escuro.

Amor e profecia. Parece estranho, mas é uma relação íntima. Só quem ama consegue ver além das aparências. Amar não significa aceitar passivamente aquilo que nos cerca, mas saber perceber os sinais ocultos de esperança e mudança até nos momentos mais difíceis. O amor autêntico nos torna capazes de ouvir o coração da realidade e reconhecer a promessa do amanhecer mesmo na escuridão mais profunda. Apenas quem ama profundamente deseja uma justiça que vá além do próprio interesse. Só quem ama deseja justiça, pois não suporta desigualdades e clama contra todo tipo de abuso. A indiferença é o verdadeiro inimigo da profecia: quem ama não pode virar o rosto diante da injustiça, mas se torna voz de denúncia e braços para construir. Amar também significa não se calar diante do mal, mas tomar posição, arriscar, envolver-se pessoalmente.

Essas são as características do profeta, que nasce de uma profunda experiência de amor, da busca cotidiana pelo rosto do mistério que vislumbra na história. O profeta não é um visionário isolado ou um simples pregador, mas alguém que, através do amor, se coloca à escuta do Mistério que habita a realidade. É a paixão pelo bem e a constante busca de sentido que o impulsionam a ler a história com novos olhos e enxergar possibilidades onde outros veem apenas limites. É o profeta, homem ou mulher do profundo amor pelo Mistério, quem se torna portador de paz, construtor de pontes, trabalhador incansável na formação de alianças. Num tempo marcado por divisões, desconfianças e conflitos, o profeta é quem sabe derrubar muros e lançar pontes entre as pessoas. Sua obra é silenciosa, mas extraordinária: busca a paz, semeia esperança, constrói alianças duradouras porque estão enraizadas na autenticidade do amor.

Num mundo que precisa de profetas, cada um de nós pode escolher amar profundamente, olhar além das aparências e empenhar-se por uma justiça verdadeira e uma paz possível. Assim, a profecia não será apenas palavra, mas vida vivida, testemunho concreto de que outro mundo é possível quando o amor se torna nossa luz guia.

domingo, 10 de maio de 2020

A PROFECIA DAS MULHERES NA IGREJA




Paolo Cugini

Os estudos da teologia feminista já há anos alcançam não apenas um nível de cientificidade de valor valioso, mas estão levando o entendimento da dinâmica cultural estratificada no texto bíblico e na tradição eclesial a resultados impensáveis. Afinal, para aqueles acostumados a uma abordagem do texto bíblico transmitida pela tradição predominantemente masculina, é difícil compreender as nuances que o olhar feminino pode perceber. É estranho pensar que fazemos parte de uma tradição cultural que tratou as mulheres como inferiores, como seres cuja alma foi questionada até o século VII0 d.C. Houve uma concentração de mundos que se uniram para nocautear o pensamento feminino As culturas que fazem fronteira com o Mediterrâneo e, em particular as semitas, gregas e romanas, não pouparam golpes e argumentos imaginativos para demonstrar a inferioridade do que mais tarde será chamado de sexo mais fraco. Por um lado, o pensamento grego preparou os fundamentos filosóficos para a elaboração de uma antropologia misógina, que apoiou a cultura patriarcal já existente. Então os romanos chegaram, com Sêneca, Plínio o Jovem e Juvenal, só para citar alguns, reforçando a abordagem antropológica dualista e tendenciosa a favor do homem, mostrando como precisamente essa estrutura antropológica justificava a subordinação da mulher em relação ao homem. Subordinação que deveria ser muito clara também no nível social, na distribuição dos espaços: o homem na praça, a mulher em casa para cuidar dos filhos e tudo mais.

A batalha dos sexos é disputada em nível social. No debate cultural dos primeiros séculos do cristianismo, um dos principais temas, que já aparecerão nos escritos do Novo Testamento, será a decisão de quem começa a ensinar em um lugar público. O tema adquire significado precisamente no advento do cristianismo, à medida que a casa doméstica se torna o lugar do estabelecimento das primeiras comunidades cristãs. E é precisamente no lar, um espaço onde culturalmente a mulher não é apenas relegada, mas é chamada a cumprir sua identidade, que as comunidades cristãs testemunham o protagonismo das mulheres, que tomam a palavra para ensinar. O pensamento cristão antigo usará todas as ferramentas possíveis, também adotadas pela cultura pagã circundante, para restaurar a ordem, ou seja, silenciar as mulheres. Ponto de viragem deste declínio cultural, serão as palavras do autor da primeira carta a Timóteo que intimará mulheres para manter a calma: " A mulher aprenda em silêncio em total submissão. Não permito que a mulher ensine, nem domine o homem, permaneça antes em uma atitude calma "(1 Tim 2: 11-12).



A partir deste momento, forma-se uma aliança cultural real para demonstrar a inferioridade das mulheres sobre os homens e a necessidade de os homens guiarem as mulheres, que devem permanecer submissas a elas. O que o pensamento patrístico acrescentará à produção cultural misógina abundante do mundo grego e romano não será apenas o aprofundamento da antropologia platônica sobre o assunto, mas, sobretudo, o fundamento bíblico da subordinação da mulher ao homem. Primeiro, ela enfatiza o fato inegável de que o primeiro a ser criado por Deus era Adam, e só mais tarde criou Eva, a famosa costela. Existe, portanto, uma subordinação que encontra apoio até da vontade de Deus. Além disso, e será um dos cavalos de produção da produção homilética medieval contra a mulher, está fora de questão que foi Eva ser enganada pela cobra e não Adam. A fraqueza natural da mulher, sua fragilidade física e mental, sua inconstância e a consequente necessidade de um homem para poder levar em frente sua existência, doravante encontra no texto bíblico um aliado irrefutável.

Como Selene Zorzi mostrou em um estudo recente[1] , a produção cultural cristã contra as mulheres é desencadeada atingindo níveis paroxísticos, após 1115 depois de Cristo, isto é, após a imposição do celibato obrigatório ao clero. " A marginalização e a difamação das mulheres teriam sido uma espécie de tática para incentivar a continência do celibato " (ZORZI, P. 142) . Um dos textos mais famosos e mais repulsivos desta esquálida produção cultural cristã, o que diz muito sobre o patriarcado e as estruturas misóginas é a pregação do século XIo Peter Damian: "Eu digo a você, feiticeiras, carne voluptuosa do diabo, que você expulsou do paraíso, você, poção de mentes, espadas de almas, veneno de quem bebe e banquetes, questão de pecar, ocasião de se perder [...] Venha agora, me escute, putas , prostitutas com seus beijos lascivos, lugares onde porcos gordos rolam, camas para espíritos impuros, semideuses, sirenes, bruxas [...] " (ZORZI, P. 146). .



A leitura dessas passagens ajuda a entender por que a igreja acha tão difícil admitir mulheres no sacerdócio ministerial. Houve muitos séculos de pregação, manipulação da realidade, alianças culturais, que relegaram as mulheres não apenas ao lar, mas também às favelas da história. A estratificação paternalista e misógina no Ocidente chegou ao ponto de convencer as mulheres a serem inferiores. Basta folhear as páginas de alguns textos produzidos na esfera cristã, que incitam as mulheres a permanecerem submissas aos homens para serem felizes diante de Deus, a perceber o desastre cultural e espiritual posto em prática. A mulher serve para a reprodução e o cuidado das crianças e do lar: ponto. Essa abordagem permanecerá normativa por toda a Idade Média até recentemente. A única diferença que ocorre na era moderna será a perda de importância do argumento antropológico em favor do argumento baseado em papéis sociais. O objetivo explícito desses argumentos será justificar a exclusão das mulheres da ordenação sacerdotal. Ao longo da era moderna, o trabalho de denegrir as mulheres consideradas inconstantes e de coração fraco, inconstante e muito loquaz continua: todos os assuntos consideravam obstáculos à ordenação.
Folheando a literatura cristã da era patrística, medieval e moderna sobre o tema do papel da mulher na sociedade, além de estar chocado com o vazio dos argumentos e com a malícia em relação a eles, percebe-se a total ausência de argumentos significativos em relação ao tema tão delicada da exclusão das mulheres da ordenação sacerdotal. Sem dúvida, percebe-se que o clima altamente hostil criado ao longo dos séculos, dificultou sua inserção na hierarquia eclesial. Hoje, no entanto, não é mais justificado. De fato, esses são tópicos culturais, entre outras coisas, argumentos de nível muito baixo, até repugnantes para as mulheres e não elementos significativos nos quais basear uma decisão tão firme.

Na minha opinião, a admissão de mulheres ao ministério na igreja católica seria um gesto profético. Em um clima cultural cada vez mais hostil às mulheres, que as vêem cada vez mais fracas, objeto sexual mais do que pessoas, menor ao ponto de não receber o mesmo salário que os homens quando fazem o mesmo trabalho, um clima que parece confirmar todos os preconceitos misóginos da cultura patriarcal ocidental, a admissão de mulheres no ministério sacerdotal seria um gesto de contra tendência, o que faria a sociedade pensar muito.  Das palavras dos documentos oficiais, nos quais o "gênio feminino" é exaltado, ao fato de considerá-las dignas de assumir papéis que sempre foram considerados exclusivos para os homens. Além disso, a Bíblia está cheia desses gestos proféticos, de sinais que provocam o povo de Israel, sinais que indicam um novo caminho, que revela, ao mesmo tempo, o erro dos antigos. A profecia vem da capacidade de olhar para longe, da força para se libertar dos fechamentos asfixiais do tempo presente, das lógicas de poder nas quais alguém permanece entrelaçado. A profecia é sempre a vitória da misericórdia sobre a dureza da lei, é o espaço oferecido ao Espírito para entrar na história de homens e mulheres para perturbá-la, reorganizá-la. A profecia é um sinal de liberdade que abre novos caminhos, seguindo o exemplo do que Jesus realizou: a profecia é a força desmascaradora da religião dos homens, que obscurece a beleza libertadora da Palavra de Deus com tradições humanas, com uma lógica perversa, que discrimina e coloca um contra o outro.


É essa profecia que precisamos hoje. E é precisamente essa profecia que esperamos da igreja hoje: a profecia do ministério feminino. Para remover todas as dúvidas, para poder dizer claramente que, se ainda existem no mundo pessoas que consideram as mulheres inferiores aos homens, a Igreja não. Se ainda há quem considera a mulher incapaz de ensinar e explicar a Palavra de Deus em público, a Igreja não. Se ainda há alguém que afirma que a mulher não é capaz de liderar uma comunidade, que não possui carisma suficiente para discernir e orientar, dizemos claramente que isso não é verdade. Querida igreja, pedimos a você: não nos deixe sem argumentos. Acima de tudo, porém, perguntamos a você: não nos negue esta profecia.


[1] ZORZI, S., além do "gênio feminino". Mulheres e gênero na história da teologia cristã, Carocci, Roma 2015


terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

“Entre nós não deve ser assim” Reflexão sobre as recentes eleições municipais


ARQUIVO


Paolo Cugini

As eleições municipais terminaram; graças a Deus! Ninguém   estava mais agüentando a confusão, os carros de som, as músicas (de péssimas qualidade) dos candidatos. Nas próximas eleições iremos exigir mais atenção contra a poluição sonora. Foi muita falta de respeito, muita falta de educação cívica. Os cidadãos têm direito para serem respeitados, também no período eleitoral.

Nesse contexto o Movimento Fé e Política fez a própria parte. Desde o começo, o movimento apontou a direção da própria ação; conscientizar o povo sobre os direitos e deveres dos eleitores, sobre a importância do voto para o bom desenvolvimento da democracia, explicando,   aonde foi possível, as exigências da lei 9.840, contra a corrupção eleitoral. No primeiro programa que o Movimento Fé e Política realizou pela Rádio Comunitária Canabrava FM, foi salientado que a mudança de mentalidade do eleitor e do candidato era  uma conquista civil  impossível para ser alcançada no breve período. Foi com esta consciência, que entramos na campanha política de uma forma alegre e tranqüila. Realizamos vários eventos de conscientização, utilizando métodos diferentes, avaliando semanalmente o nosso trabalho. Foi uma semente que queremos, de agora em diante, cultivar para que a consciência democrática de nossa cidade, possa crescer sempre mais.

Na homilia do último dia do ano passado alertei os católicos sobre as eleições políticas deste ano, dizendo que teriam sido uma avaliação da nossa maturidade espiritual. Interiorizar a Palavra de Deus é viver esta Palavra na vida do dia-a-dia. A Palavra de Jesus é uma Palavra profética de denúncia contra as injustiças sociais, contra as hipocrisias. Além disso, é uma Palavra de amor, de conversão, de perdão. Um cristão que participa da mesa eucarística do domingo, não pode considerar o irmão, que participa da mesma mesa, um inimigo, pelo simples fato que vota num candidato diferente. Infelizmente isso aconteceu. Várias pessoas começaram tratar o irmão de forma diferente, como um inimigo, pelo simples fato de que votava num outro candidato. Interiorizar a Palavra de Deus e o seu Espírito leva as pessoas ao respeito da liberdade do voto. É Jesus mesmo que fala: “Entre nós não deve ser assim: mas quem quiser ser o primeiro seja o último”.
O respeito da liberdade do outro, do pensamento do outro, da possibilidade do outro agir e pensar de uma forma diferente da minha, não é apenas uma conquista de vida espiritual, mas também é uma atitude democrática. A existência de uma oposição na cidade é uma bênção pelo andamento democrático. É absurdo querer que todo mundo pense do mesmo jeito. É absurdo, antidemocrático e desumano. O espírito democrático fortalece na pluralidade de opiniões, na comunhão da diversidade e não na uniformidade.

Somente cultivando esta diversidade, este espaço democrático da pluralidade de opiniões, poderemos evitar o risco do totalitarismo. De fato, na história os regimes totalitários- fascismo, nazismo, comunismo- se mantiveram ao poder com o controle das massas. O pensamento único não existe, a não ser na cabeça de alguém, que quer viver em paz e, para isso, obriga  todos a pensarem como ele.
 Os grandes derrotados destas eleições foram os pobres. Esquecidos nestes anos, foram  visitados de uma forma maciça nestes últimos três meses.“Ali vem o outro”. Parecia brincadeira, a procissão corriqueira dos candidatos caçando votos. Porque os candidatos não foram da mesma forma insistentes nas casas dos comerciantes, dos professores, dos moradores das ruas  do centro?
Mais uma vez o pobre foi considerado como simples mercadoria, possível a ser comprado, também a preço baixo. O pobre sabe que não tem voz nem vez: deve aceitar tudo. Forçado a escutar projetos mirabolantes até com palavras dificílimas (“Padre, quer dizer esta palavra, que o fulano de tal usou para dizer o que vai fazer?”), o pobre abre a porta pra todo mundo. O pobre é assim considerado como prostituta, que abre a porta de casa a todos aqueles que oferecerem dinheiro. Para considerar os pobres como filhos e filhas de Deus, com uma dignidade, Miguel Calmon, deve amadurecer muito. Ao meu ver o futuro de Miguel Calmon não está na frente, mas atrás.

Explico-me. Pessoalmente acredito muito no trabalho de base que está sendo desenvolvido nas comunidades de base, seja na zona rural que na sede.
Se tivermos a paciência de regar cada dia a semente  que está sendo plantada, sem dúvidas colheremos frutos. Os homens novos que Miguel Calmon precisa, ainda não chegaram, ainda não são formados. Mas chegarão. Os homens novos que Miguel Calmon precisa são aqueles que falam de Deus, agem e pensam como Ele. Nos comícios que assisti, vários candidatos falavam de Deus e de Maria e depois lançavam palavras de ódio contra os adversários. É esta a hipocrisia que deve ser tirada do meio. Isso é possível. Através de um caminho de conversão, de mudança de atitude, mudança que somente o Espírito do Senhor pode realizar. Por isto digo que o futuro de Miguel Calmon está por trás. Está naqueles adolescentes e jovens apaixonados pelo Senhor, que estão dedicando horas de joelho por Ele, meditando a sua Palavra.
O homem novo não nasce de um dia para o outro. É um longo caminho, silencioso, escondido. Até que um dia...