sexta-feira, 8 de maio de 2026

O PARADIGMA DE THOMAS KUHN PARA ANALISAR AS MUDANÇAS EM TEOLOGIA

 




Paolo Cugini

 

 

Para analisar a teologia sob a lente de Thomas Kuhn, precisamos primeiro entender que, para ele, um paradigma não é apenas uma teoria, mas um pacote que inclui métodos, critérios de verdade e uma visão de mundo compartilhada por uma comunidade. Quando aplicamos isso ao campo teológico, vemos uma transição de ciência normal para uma revolução científica (ou teológica). A teologia de matriz tomista (baseada em Tomás de Aquino) operou durante séculos como o paradigma dominante da Cristandade. É predominantemente dedutiva. Parte-se de princípios universais e imutáveis (a Revelação, os Dogmas) para explicar a realidade particular. A verdade está no topo. O teólogo utiliza a lógica aristotélica para desdobrar as verdades da fé. Se a realidade vivida não se encaixa no dogma, a falha está na interpretação da realidade, não na premissa doutrinária. Aqui, o trabalho do teólogo é resolver quebra-cabeças dentro do sistema. O objetivo é harmonizar novos problemas com a tradição já estabelecida.

Kuhn afirma que um paradigma começa a cair quando surgem anomalias, problemas que o sistema atual não consegue resolver. No século XX, a pobreza extrema na América Latina e a opressão política tornaram-se anomalias para a teologia clássica. A pergunta era: como falar de um Deus que é Amor em um mundo de injustiça estrutural? A teologia dogmática, focada no abstrato e no além-vida, parecia insuficiente para responder ao clamor histórico. A Teologia da Libertação (TdL) surge como uma revolução paradigmática. Ela inverte a pirâmide epistemológica.  O ponto de partida não é o dogma abstrato, mas a práxis e a realidade concreta, onde o lugar teológico é a história. Utiliza o metodo Ver-Julgar-Agir. Primeiro, analisa-se a realidade social, frequentemente com auxílio das ciências sociais; depois, julga-se essa realidade à luz da Bíblia; por fim, propõe-se a ação. Enquanto o tomismo busca a ortodoxia (doutrina correta), a TdL busca a ortoprática (ação correta). Deus não é apenas um conceito a ser definido, mas uma presença a ser encontrada na libertação dos oprimidos.

Um dos conceitos mais famosos de Kuhn é a incomensurabilidade: defensores de paradigmas diferentes vivem em mundos diferentes e falam línguas e teologias diferentes. É por isso que o diálogo entre um teólogo dogmático clássico e um teólogo da libertação é tão difícil: Para o Tomista, a TdL parece sociologia mascarada de fé porque abandona a precedência do dogma. Para o Teólogo da Libertação, o Tomismo parece alienação metafísica, porque ignora o sofrimento real em favor de silogismos.

Utilizar Kuhn para analisar a teologia nos mostra que a mudança da teologia dogmática para a da libertação não foi apenas uma mudança de opinião, mas uma mudança de lente. A TdL alterou as regras do que conta como conhecimento teológico, movendo o eixo da especulação metafísica para a análise histórica e a transformação social.

 

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