Paolo Cugini
Para analisar a teologia sob a
lente de Thomas Kuhn, precisamos primeiro entender que, para ele, um paradigma
não é apenas uma teoria, mas um pacote que inclui métodos, critérios de verdade
e uma visão de mundo compartilhada por uma comunidade. Quando aplicamos isso ao
campo teológico, vemos uma transição de ciência normal para uma revolução
científica (ou teológica). A teologia de matriz tomista (baseada em Tomás de
Aquino) operou durante séculos como o paradigma dominante da Cristandade. É
predominantemente dedutiva. Parte-se de princípios universais e imutáveis (a
Revelação, os Dogmas) para explicar a realidade particular. A verdade está no
topo. O teólogo utiliza a lógica aristotélica para desdobrar as verdades da fé.
Se a realidade vivida não se encaixa no dogma, a falha está na interpretação da
realidade, não na premissa doutrinária. Aqui, o trabalho do teólogo é resolver
quebra-cabeças dentro do sistema. O objetivo é harmonizar novos problemas com a
tradição já estabelecida.
Kuhn afirma que um paradigma
começa a cair quando surgem anomalias, problemas que o sistema atual não
consegue resolver. No século XX, a pobreza extrema na América Latina e a
opressão política tornaram-se anomalias para a teologia clássica. A pergunta
era: como falar de um Deus que é Amor em um mundo de injustiça estrutural? A
teologia dogmática, focada no abstrato e no além-vida, parecia insuficiente
para responder ao clamor histórico. A Teologia da Libertação (TdL) surge como
uma revolução paradigmática. Ela inverte a pirâmide epistemológica. O ponto de partida não é o dogma abstrato, mas
a práxis e a realidade concreta, onde o lugar teológico é a história. Utiliza o
metodo Ver-Julgar-Agir. Primeiro, analisa-se a realidade social, frequentemente
com auxílio das ciências sociais; depois, julga-se essa realidade à luz da
Bíblia; por fim, propõe-se a ação. Enquanto o tomismo busca a ortodoxia
(doutrina correta), a TdL busca a ortoprática (ação correta). Deus não é apenas
um conceito a ser definido, mas uma presença a ser encontrada na libertação dos
oprimidos.
Um dos conceitos mais famosos
de Kuhn é a incomensurabilidade: defensores de paradigmas diferentes vivem em
mundos diferentes e falam línguas e teologias diferentes. É por isso que o
diálogo entre um teólogo dogmático clássico e um teólogo da libertação é tão
difícil: Para o Tomista, a TdL parece sociologia mascarada de fé porque
abandona a precedência do dogma. Para o Teólogo da Libertação, o Tomismo parece
alienação metafísica, porque ignora o sofrimento real em favor de silogismos.
Utilizar Kuhn para analisar a
teologia nos mostra que a mudança da teologia dogmática para a da libertação
não foi apenas uma mudança de opinião, mas uma mudança de lente. A TdL alterou
as regras do que conta como conhecimento teológico, movendo o eixo da
especulação metafísica para a análise histórica e a transformação social.
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