domingo, 17 de setembro de 2023

UMA IDADE PÓS-CRISTIANA?

 





Paolo Cugini

Falamos cada vez mais da era pós-cristã. Isso significa que há uma percepção de uma mudança radical que ocorreu e que, em alguns aspectos, ainda não terminou. Afinal, é difícil pensar que em pouco tempo uma cultura que marcou séculos de história desaparecerá no ar, muito rapidamente. De qualquer forma, se é verdade que os sinais do que se definia como um processo de descristianização eram presentes desde o final do século XIX, também é verdade que, nas últimas décadas, essa mudança de época se acelerou significativamente. O fato é que o cristianismo, embora tenha uma influência flagrante na formação da cultura ocidental, agora parece ter ficado sem influência. Se tentarmos olhar de perto esse fenômeno, o qual é ao mesmo tempo histórico e cultural, percebemos que o cristianismo começou a ranger quando as metanarrativas ocidentais começaram a mostrar seus limites, dando lugar ao advento da era pós-moderna. A modernidade e o cristianismo ocidental entraram em colapso e, em alguns aspectos, não é possível apreender as causas de um sem considerar o outro. O aspecto mais interessante, que vale a pena analisar, é o patrimônio de rituais religiosos e de sacralidade que o cristianismo produziu e manifestou não apenas nas celebrações religiosas, mas também na arte e na cultura. Qual é o destino de todo esse patrimônio espiritual, cultural e artístico? A impressão geral que se tem, é que o Ocidente vive essa transição de forma serena, como se nada estivesse acontecendo. Este aspecto, a nosso ver, revela o grau de exteriorização do cristianismo que, mais do que representar a alma de uma cultura, era sobretudo um modo de estar no mundo, ou seja, uma política, um poder entre os poderes, assim como uma estética.

Folheando as páginas dos livros que apresentam as análises e reflexões sobre o fim do cristianismo, impressiona que, a maioria da produção desses textos, ser oriunda, de autores franceses. Na França, mais do que em outros países, a reflexão sobre a descristianização do mundo ocidental, começou na época da Revolução Francesa. Além disso, não poderia ser de outra forma, também porque a Revolução Francesa afetou significativamente o cristianismo, ao ponto de considerar o ano da revolução como o ano zero. Além desse fato, há outro, a saber, a maioria dos autores franceses que analisam o processo de descristianização são tradicionalistas, preocupados, portanto, em salvar o que pode ser salvo, em procurar os defeitos e os culpados, mais do que indicar novos caminhos no contexto que está surgindo. Dentre essas análises, vale destacar a do sociólogo francês Guillaume Cuchet (2018), que, ao invés de buscar a origem da descristianização, indica seus sinais incontornáveis. Segundo Cuchet, os sinais evidentes da descristianização em curso, devem ser identificados na queda vertiginosa de alguns aspectos do culto católico, como a confissão individual e a escassa presença de jovens na missa dominical. Além disso, outros sinais são o fim da prática obrigatória e no silêncio sobre os "fins últimos", ou seja, sobre os mistérios da Igreja sobre o que será depois da morte: inferno, purgatório e paraíso. É especialmente digno de nota que, esses sinais, são indicados com um tom acusatório, e não como um sinal de uma cultura em mudança. De qualquer forma, segundo Cuchet, a causa que incentivou o processo de descristianização deve ser identificada no Concílio Vaticano II, considerado o verdadeiro événement déclencheur sem possibilidade de reparação (Cuchet, 2018, p. 143). São análises que revelam uma dificuldade em aceitar a mudança de época em curso e, sobretudo, considerá-la como definitiva.

 

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