Paolo Cugini
Para o filósofo Max Scheler, a
crise da modernidade não se resolve apenas com reformas parlamentares ou
ajustes no PIB. Embora a economia e a política sejam esferas reais da vida,
elas são, na verdade, sintomas de algo mais profundo. O diagnóstico scheleriano
aponta para uma patologia invisível: a desordem emocional coletiva.
Para Max Scheler, os valores
não são subjetivos; eles existem em uma escala objetiva que o ser humano sente
por meio da intuição emocional. O colapso social ocorre justamente quando
subvertemos essa escala, tratando o que é passageiro como se fosse absoluto. Scheler
aponta que a sociedade industrial inverteu a pirâmide, colocando o lucro e a
eficiência (útil) acima de tudo. Como ele afirma em Da Reviravolta dos
Valores: "A civilização moderna consiste na subordinação dos
valores vitais e espirituais aos valores da utilidade."
O conceito central da proposta
antropológica de Scheler é o Ordo Amoris (a ordem do amor). Para
o autor o ser humano não é apenas um animal rationale, mas um ens
amans, um ser que ama. Neste sentido, o amor é o descobridor de valores. No
entanto, esses valores possuem uma hierarquia objetiva: o sagrado acima do
espiritual, o espiritual acima do vital, e o vital acima do útil. Como afirma
Scheler em Morte e Sobrevivência: "O homem, antes de ser um
ser pensante ou um ser de vontade, é um ser que ama."
Quando uma sociedade passa a
amar o útil (dinheiro, eficiência) mais do que o espiritual (justiça,
verdade) ou o vital (saúde, comunidade), ela entra em colapso
axiológico. Essa desordem gera o que Scheler chama de ressentimento. Em
sua obra O Ressentimento na Construção das Morais, ele explica que,
ao perdermos a capacidade de perceber os valores superiores, passamos a
depreciar o que é genuinamente nobre para justificar nossa própria
mediocridade. "O ressentimento é uma autointoxicação psíquica, com
causas e efeitos muito definidos. Ele consiste numa atitude emocional de
duração prolongada."
Na prática, isso se traduz em
polarizações e conflitos sociais onde o outro não é apenas um adversário
político, mas um alvo para a descarga de uma frustração emocional interna. A
política torna-se, então, um campo de batalha de afetos desregulados, onde o
ódio substitui a cooperação. Portanto, a solução para os problemas sociais não
é apenas técnica, mas pedagógica e espiritual. É necessário "reordenar
o coração". Para Scheler, a saúde de uma nação depende da sua
capacidade de restaurar a sensibilidade para os valores que realmente importam.
Enquanto continuarmos a buscar soluções puramente externas para uma desordem
que é, em sua essência, do sentir, continuaremos a enxugar gelo. A
verdadeira reforma social começa pela restauração da capacidade de amar as
coisas na ordem em que elas merecem ser amadas. Neste sentido, o pensamento de
Max Scheler é em sintonia com Charles Péguy quando afirmava que: “a
revolução será moral e espiritual ou nunca será”.
Se quiser aprofundar o assunto pode ler aqui:
https://www.academia.edu/165149677/FENOMENOLOGIA_DE_MAX_SCHELER

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