sexta-feira, 13 de março de 2026

A desordem dos afetos em Max Scheler

 



 

Paolo Cugini

 

 

Para o filósofo Max Scheler, a crise da modernidade não se resolve apenas com reformas parlamentares ou ajustes no PIB. Embora a economia e a política sejam esferas reais da vida, elas são, na verdade, sintomas de algo mais profundo. O diagnóstico scheleriano aponta para uma patologia invisível: a desordem emocional coletiva.

Para Max Scheler, os valores não são subjetivos; eles existem em uma escala objetiva que o ser humano sente por meio da intuição emocional. O colapso social ocorre justamente quando subvertemos essa escala, tratando o que é passageiro como se fosse absoluto. Scheler aponta que a sociedade industrial inverteu a pirâmide, colocando o lucro e a eficiência (útil) acima de tudo. Como ele afirma em Da Reviravolta dos Valores: "A civilização moderna consiste na subordinação dos valores vitais e espirituais aos valores da utilidade."

O conceito central da proposta antropológica de Scheler é o Ordo Amoris (a ordem do amor). Para o autor o ser humano não é apenas um animal rationale, mas um ens amans, um ser que ama. Neste sentido, o amor é o descobridor de valores. No entanto, esses valores possuem uma hierarquia objetiva: o sagrado acima do espiritual, o espiritual acima do vital, e o vital acima do útil. Como afirma Scheler em Morte e Sobrevivência: "O homem, antes de ser um ser pensante ou um ser de vontade, é um ser que ama."

Quando uma sociedade passa a amar o útil (dinheiro, eficiência) mais do que o espiritual (justiça, verdade) ou o vital (saúde, comunidade), ela entra em colapso axiológico. Essa desordem gera o que Scheler chama de ressentimento. Em sua obra O Ressentimento na Construção das Morais, ele explica que, ao perdermos a capacidade de perceber os valores superiores, passamos a depreciar o que é genuinamente nobre para justificar nossa própria mediocridade. "O ressentimento é uma autointoxicação psíquica, com causas e efeitos muito definidos. Ele consiste numa atitude emocional de duração prolongada."

Na prática, isso se traduz em polarizações e conflitos sociais onde o outro não é apenas um adversário político, mas um alvo para a descarga de uma frustração emocional interna. A política torna-se, então, um campo de batalha de afetos desregulados, onde o ódio substitui a cooperação. Portanto, a solução para os problemas sociais não é apenas técnica, mas pedagógica e espiritual. É necessário "reordenar o coração". Para Scheler, a saúde de uma nação depende da sua capacidade de restaurar a sensibilidade para os valores que realmente importam. Enquanto continuarmos a buscar soluções puramente externas para uma desordem que é, em sua essência, do sentir, continuaremos a enxugar gelo. A verdadeira reforma social começa pela restauração da capacidade de amar as coisas na ordem em que elas merecem ser amadas. Neste sentido, o pensamento de Max Scheler é em sintonia com Charles Péguy quando afirmava que: “a revolução será moral e espiritual ou nunca será”.

 

 Se quiser aprofundar o assunto pode ler aqui:

https://www.academia.edu/165149677/FENOMENOLOGIA_DE_MAX_SCHELER

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