quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O Negacionismo como instrumento de poder político e a estratégia da mentira na extrema direita

 




Paolo Cugini

 

Introdução

O negacionismo é um instrumento político que serve para manter o poder. Negar a realidade, sobretudo aquela realidade que provocaria uma mudança das atitudes políticas adotadas por um determinado poder, é uma necessidade intrínseca aos poderes totalitários, que tendem a impor a própria visão do mundo. Este é a entidade do problema. Os partidos políticos de extrema direita que, por própria essência são conservadores, tendem a se instalar no poder para impor uma visão do mundo, uma maneira de pensar a realidade. Tudo aquilo que pode interferir a mudar esta visão torna-se um obstáculo que deve ser superado. Nessa altura o negacionismo ´um instrumento de persuasão das massas, porque tem como objetivo manter a própria visão do mundo declarando tudo aquilo que pode atrapalhar como falso. A mentira é outro aspecto fundamental dos sistemas de extrema direita.

negacionismo contemporâneo, particularmente evidente em movimentos de extrema direita, transcende a mera ignorância ou ceticismo. Trata-se de uma estratégia política deliberada para consolidar e manter o poder, impondo uma visão de mundo monolítica e combatendo realidades que desafiam essa narrativa. A negação da realidade factual, aliada ao uso sistemático da mentira, torna-se um pilar fundamental desses regimes e movimentos.

A Negação da realidade como tática de controle

A necessidade de negar fatos concretos surge quando a realidade ameaça as atitudes políticas adotadas por um determinado poder. Como observa a filósofa política Hannah Arendt, em seu ensaio "Verdade e Política", regimes totalitários demonstram um profundo desprezo pelos fatos objetivos. Para Arendt, "o sujeito ideal do domínio totalitário não é o nazista convicto ou o comunista convicto, mas pessoas para quem a distinção entre fato e ficção (isto é, a realidade da experiência) e a distinção entre verdadeiro e falso (isto é, os padrões de pensamento) não mais existem" (Arendt, Entre o Passado e o Futuro).

A imposição de uma "visão do mundo" (Weltanschauung) exige que tudo o que possa interferir ou mudar essa visão seja declarado falso. O sociólogo e filósofo Jürgen Habermas argumenta que a comunicação política deve se basear em pressupostos de veracidade e racionalidade. O negacionismo, ao subverter esses pressupostos, corrompe o próprio espaço público democrático.

O Negacionismo como persuasão das massas e a instrumentalização da mentira

O negacionismo serve como um instrumento de persuasão das massas, visando manter a coesão em torno da ideologia dominante. A negação de consensos científicos (como as mudanças climáticas ou a eficácia das vacinas) ou de fatos históricos (como o Holocausto) não é um debate racional, mas um ataque à autoridade do conhecimento compartilhado.

A mentira é, nesse contexto, um aspecto fundamental dos sistemas de extrema direita. O historiador Robert Paxton, em Anatomia do Fascismo, descreve como os movimentos fascistas utilizavam a "banalização da mentira" e a manipulação da informação para criar uma realidade paralela que servisse aos seus propósitos.

O filósofo político Leo Strauss, discutindo a natureza da dissimulação política, sugeriu que a mentira pode ser usada para proteger a ordem social, mas nos regimes modernos e totalitários, ela é empregada para destruir a ordem social existente e impor uma nova.

Conclusão

O negacionismo, munido da mentira e da manipulação, é, portanto, uma ferramenta intrínseca aos poderes totalitários ou autoritários. Ele não busca o debate ou a verdade, mas sim a subjugação da realidade aos ditames ideológicos, visando a manutenção do poder a qualquer custo, como evidenciado na ascensão e operação de partidos políticos de extrema direita na contemporaneidade

 

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