Paolo Cugini
Segundo Espinosa a superstição religiosa presente na
igreja do seu tempo, era imbuída de preconceitos provocados pelo desprezo da
luz da razão por parte dos fiéis, que liam as Escrituras Sagradas ao pé da
letra e: “supõem desde o princípio a divina verdade do seu texto integral”
(Espinosa, 1954, p. 612). Espinosa
defende a liberdade de crença, de pensamento e de expressão e, por isso, no
prefacio ao Tratado teológico-político chega a afirmar que: “a liberdade de filosofar
não ameaça nenhuma piedade verdadeira, nem a paz no seio da comunidade pública.
Sua supressão, pelo contrário, desencadeia a ruína tanto da paz quanto da
piedade”. O mesmo discurso não vale pelas monarquias,
culpadas, segundo Espinosa, de enganar os homens, utilizando o medo do inferno
para sujeitar os povos em nome da religião. Espinosa espera “desmascarar as
engrenagens profundas da pseudo-religião fundada sobre a superstição e desvelar
assim os vestígios de uma antiga servidão da alma”. É a partir
desta tomada de consciência que Espinosa se propõe a ler a Escrituras com a
ajuda da razão, para melhor compreender o contexto histórico no qual esses
textos foram escritos, assim como as intenções dos autores.
A principal tese de Espinoza é que a Bíblia não é a palavra inerrante de um Deus transcendente, mas sim um produto humano e histórico, sujeito a erros e falhas. “Toda revelação divina passa primeiro pelas luzes naturais da mente” (Espinosa, 2013, p. 98). Espinosa trata os textos bíblicos como qualquer outro documento antigo, utilizando métodos de exegese que seriam revolucionários para a época. Spinoza questiona a autoria do Pentateuco por Moisés, observando que o texto fala de Moisés na terceira pessoa e inclui o relato de sua morte. Ele aponta para o comentarista judeu do século XII, Ibn Ezra, que já havia levantado dúvidas sobre a autoria, mas de forma alusiva. Espinoza conclui, de forma mais direta, que o Pentateuco foi escrito por alguém que viveu muito depois de Moisés.
Ele chega a sugerir o sacerdote Esdras como possível editor, uma ideia que antecipou as hipóteses documentais da crítica bíblica posterior. A hermenêutica de Espinoza estabelece uma separação clara entre a razão filosófica e a teologia. Para ele, a filosofia busca a verdade através da razão e da observação da natureza, enquanto a teologia tem como objetivo principal a obediência e a piedade. O conteúdo da Bíblia deve ser entendido em seus próprios termos, e não reinterpretado para se encaixar em conceitos filosóficos. "A Escritura não se destina a nos ensinar verdades filosóficas abstratas" (Espinosa, 2013, p. 46). O seu propósito é moral, direcionado à conduta. A análise de Espinoza não se detém apenas na autoria dos textos. Ele estende sua crítica a elementos centrais da fé judaico-cristã, como milagres e profecias. De fato, Espinoza nega a possibilidade de que milagres violem as leis fixas e imutáveis da natureza. Ele argumenta que, o que as pessoas chamam de milagres são, na verdade, eventos naturais cuja causa é desconhecida ou mal compreendida pelos autores bíblicos, que careciam de conhecimento científico. Em vez de inspirar fé, a crença em milagres mina a fé, pois sugeriria um Deus que age de forma arbitrária e não consistente. A mesma critica Espinosa a moveu para as profecias dos profetas que, segundo ele, não possuíam um intelecto superior ou filosófico. A profecia era, em vez disso, um tipo de conhecimento imaginativo, adaptado à capacidade de compreensão e às crenças culturais dos profetas e do povo a quem eles se dirigiam.
Como a profecia é baseada na imaginação e não na razão, sua
autoridade se restringe ao âmbito moral, não podendo se sobrepor à verdade
filosófica. O cerne do projeto hermenêutico de Espinoza não é apenas
criticar a religião, mas também defender a liberdade de pensamento e a
tolerância religiosa. Ao delimitar o escopo da Bíblia a questões morais e de
obediência, Espinoza abriu espaço para que a filosofia pudesse investigar a
natureza e a verdade sem ser censurada por autoridades religiosas. A partir
dessa leitura, Espinoza defende que o verdadeiro ensinamento da Escritura é um
simples imperativo moral: amar a Deus e ao próximo. As disputas teológicas
sobre dogmas metafísicos são irrelevantes para a verdadeira piedade e não devem
ser motivo para perseguição ou controle do pensamento. Sabemos que, por causa
destas posições, Espinosa foi perseguido sobretudo do mundo religioso hebraico .
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