sexta-feira, 9 de outubro de 2026

A relevância de um mito. Por que devemos nos lembrar de Che Guevara quase sessenta anos após sua morte

 

 





 

 

 

Paulo Cugini

O dia 9 de outubro marca o aniversário da morte de Ernesto "Che" Guevara, uma figura que, décadas após sua execução na Bolívia, continua a ocupar um lugar central no imaginário coletivo global. Lembrar de Che hoje significa não apenas celebrar um ícone estampado em camisetas ou bandeiras, mas sim refletir sobre a complexidade de um homem que personificou radicalmente as tensões, esperanças e contradições do século XX.

O poder duradouro de sua mensagem reside principalmente em sua profunda sensibilidade à desigualdade social. Médico de formação, Guevara descobriu sua vocação não nos limites de uma clínica burguesa, mas durante suas viagens de motocicleta pela América Latina na juventude. Foi o impacto direto na pobreza dos mineiros chilenos, no desespero dos leprosos e na exploração dos camponeses indígenas que transformou o jovem médico em revolucionário. Essa jornada despertou sua paixão visceral pelos direitos dos mais vulneráveis ​​e a convicção de que o status quo não era um destino inevitável, mas uma injustiça a ser combatida.

 

Entre suas ações mais significativas, além de seu papel crucial na revolução cubana que derrubou a ditadura de Batista, está seu compromisso concreto com a alfabetização e a saúde pública. Guevara acreditava firmemente que a emancipação de um povo dependia da cultura e da saúde, pilares fundamentais para restaurar a dignidade daqueles que sempre foram marginalizados pela história. Sua humanidade frequentemente transparecia em sua correspondência com a família e em seus diários, que retratam um homem movido por um profundo amor pela humanidade — o mesmo amor que, segundo ele, deveria ser a força motriz de todo revolucionário autêntico.

Contudo, a memória de Che não pode ser dissociada de uma profunda reflexão sobre o tema da violência. Sua escolha de abraçar a luta armada e a guerra de guerrilha como o único meio eficaz de derrubar a opressão representa o aspecto mais problemático e controverso de seu legado. É uma doutrina que, com as atuais sensibilidades democráticas e pacifistas, não pode ser compartilhada. A história nos ensinou que o uso da força, mesmo quando motivado pelas melhores intenções de justiça social, traz consigo um legado de dor e autoritarismo que corre o risco de contaminar os próprios ideais de liberdade dos quais se origina.

Contudo, rejeitar o método da violência não significa anular o valor do seu testemunho moral. Recordar Ernesto Guevara no aniversário da sua morte é um exercício necessário precisamente para separar a nobreza dos seus objetivos — o fim da exploração humana, a igualdade, a solidariedade internacional — dos meios trágicos do seu tempo. Num mundo contemporâneo ainda assolado por profundas desigualdades económicas e indiferença, a sua intransigência contra a injustiça permanece um poderoso alerta para não desistirmos.

1964: Discurso de Che Guevara na ONU contra o modelo econômico americano.

 

A importância histórica e intelectual de Guevara reside em sua capacidade de combinar a guerra de guerrilha com uma profunda reflexão sobre a estrutura econômica da sociedade, unindo a ação no terreno a uma visão utópica, porém rigorosa, de um novo mundo. Para compreender a relevância de Che hoje, é necessário analisar o contexto em que ele atuou. A América Latina do século XX era considerada o quintal dos Estados Unidos, uma vasta região fragmentada, sujeita a um sistema econômico extrativista. Grandes multinacionais americanas, como a United Fruit Company, ditavam as políticas dos governos locais, mantendo as populações em estado de pobreza e analfabetismo. Guevara compreendia que a libertação política não poderia existir sem soberania econômica. O modelo americano, baseado no livre mercado e no lucro privado, não poderia ser exportado para contextos subdesenvolvidos sem gerar ainda mais desigualdade e subordinação. Sua crítica ao capitalismo não era meramente ideológica, mas baseada em uma observação material: o capitalismo financeiro global tendia inerentemente a empobrecer a periferia do mundo para enriquecer o centro.

Nomeado Ministro da Indústria e Diretor do Banco Nacional de Cuba após a revolução de 1959, Che Guevara enfrentou a árdua tarefa de traduzir a teoria marxista em prática administrativa. Ele rejeitou modelos econômicos predefinidos, chegando a criticar abertamente a União Soviética, que considerava muito inclinada a empregar conceitos capitalistas (como a lei do valor e os incentivos materiais) na transição para o socialismo.

Guevara propôs e implementou o Sistema de Financiamento Presupuestario . Essa visão econômica baseava-se em pilares radicalmente opostos aos do Ocidente: as empresas não deveriam competir pelo lucro, mas sim operar como subsidiárias de uma única e grande empresa estatal, coordenada para atender às necessidades coletivas da população. O objetivo era romper com a monocultura da cana-de-açúcar, imposta pelo mercado colonial, e criar uma economia autossuficiente e tecnologicamente avançada. O dinheiro deixaria de ser uma mercadoria e voltaria a ser um mero instrumento de contabilidade e troca.

O aspecto mais revolucionário da proposta de Guevara, contudo, não reside nas fórmulas matemáticas do planejamento, mas em sua dimensão ética. Em seu famoso ensaio "Socialismo e Homem em Cuba ", Che argumentou que uma revolução econômica não teria sucesso a menos que fosse acompanhada por uma transformação espiritual e cultural do indivíduo.

Enquanto o capitalismo prospera no individualismo, no egoísmo e na competição, a proposta alternativa de Che Guevara baseava-se na criação do "Homem Novo". Esse novo cidadão deveria ser guiado por sentimentos de solidariedade, empatia e dever social. Por essa razão, Guevara defendia veementemente a adoção de incentivos morais em detrimento dos materiais. Os trabalhadores não deveriam produzir mais para acumular riqueza pessoal (a lógica do bônus capitalista), mas sim para o bem da comunidade, encontrando satisfação no progresso coletivo. O trabalho voluntário, que o próprio Che exemplificava constantemente nos canaviais ou em canteiros de obras, era a principal ferramenta para forjar essa nova consciência.

Hoje, em um mundo que enfrenta crises globais sistêmicas, da desigualdade econômica extrema às mudanças climáticas, aceleradas pelo consumo desenfreado, a busca por uma alternativa ao capitalismo não é mais apenas um debate ideológico, mas uma necessidade de sobrevivência. A proposta de Guevara demonstra que a ordem econômica ocidental não é a única ordem natural possível, mas uma construção histórica que pode ser renegociada. Seu fracasso prático a longo prazo, devido tanto ao sufocante embargo dos EUA quanto às rigidezes burocráticas internas, não apaga o valor de sua visão: a economia deve ser subordinada à dignidade humana, e não o contrário. Ernesto Che Guevara permanece imortal não por como morreu, mas por como viveu e pelo que ousou sonhar. Seu maior legado é o convite a não nos resignarmos a um pensamento unilateral e a continuarmos buscando um caminho onde o valor de uma sociedade seja medido pelo bem-estar dos mais vulneráveis, e não pelos balanços das grandes corporações.

 

domingo, 27 de setembro de 2026

SETEMBRO AMARELO 2026 NA COMPENSA

 



Paolo Cugini


O mês de setembro marca o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, com debates e ações em órgãos públicos e instituições de saúde de todo o país.  O Setembro Amarelo de 2026 tem como tema principal “Escutar é estar presente”, destacando a importância do acolhimento e da escuta sem julgamentos. Objetivo é conscientizar sobre a prevenção do suicídio, a valorização da vida e a importância dos cuidados com a saúde mental.

Tema oficial: “Escutar é estar presente”, promovido pelo Centro de Valorização da Vida (CVV). No âmbito internacional, o período de 2024 a 2026 adota o mote “Mudar a Narrativa” para incentivar diálogos abertos sobre o sofrimento emocional.

Como Identificar Sinais de Alerta: isolamento social e perda de interesse por atividades habituais, mudanças drásticas no apetite ou no padrão de sono, expressões de desesperança ou frases como “quero desaparecer”.



A Paróquia de São Vicente de Paulo reuniu-se na tarde de sábado, 26 de setembro, em uma das praças do bairro Compensa, em Manaus, para uma manifestação pública. O objetivo era demonstrar nossa presença, como uma mão amiga para todos aqueles que atravessam um momento delicado de saúde mental. Todas as oito comunidades estiveram presentes, juntamente com muitos grupos que animam nossas comunidades ao longo da semana, como grupos de capoeira, grupos da terceira idade e grupos de catequese. As crianças do projeto Margens apresentaram uma dança, e a peça teatral preparada pelos jovens das comunidades foi emocionante.

 


No início da caminhada, que os participantes da manifestação fizeram de uma praça a outra no bairro Compensa, dez estagiários de psicologia de duas universidades diferentes de Manaus, que colaboram com as duas psicólogas da paróquia, se apresentaram. O atendimento diário dos psicólogos no centro paroquial é de grande importância, pois demonstra concretamente nosso desejo de estender a mão e oferecer um ouvido atento àqueles que enfrentam sofrimento mental. A vida na Compensa não é fácil. A alta taxa de desemprego, famílias numerosas com idosos dependentes e o cotidiano em meio aos perigos de uma área dominada pelo narcotráfico, que envolve muitos adolescentes e jovens, causam tensão e preocupação nos adultos que, as vezes, levam a doenças, isolamento e ao desejo de suicídio. Ao percorrer as ruas de Compensa com faixas e cartazes exibindo o tema deste ano: "Escutar é estar presente", a paróquia quis mostrar à população que estamos aqui, presentes, prontos para ouvir.



Também presente estava a Irmã Rose, secretária da Conferência Episcopal Brasileira para a Região Amazônica, que falou sobre a importância de momentos como esse, pois é necessário estar presente e mostrar a quem está passando por dificuldades, que existe alguém disposto a ajudar. A Irmã Rose concluiu seu discurso convidando-nos a dar as mãos e abraçar nossos vizinhos como sinal de fraternidade. A tarde do evento terminou com apresentações de dança do grupo "Vida Melhor", um projeto que abrange três comunidades. Eles se reúnem três vezes por semana para se exercitar e passar tempo juntos, pois só na proximidade com os outros a vida se torna melhor.



 

Onde buscar ajuda

CVV (Centro de Valorização da Vida): Ligue 188 (atendimento gratuito, sigiloso e 24 horas por dia) ou acesse o site oficial do CVV para chat.

Em casos de urgência em saúde mental, procure unidades de pronto atendimento ou postos de saúde de sua região.

 

 

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O patriarcado é o ar que respiramos

 O patriarcado é a estrutura que molda a linguagem que usamos, os critérios que utilizamos para julgar e as hierarquias que consideramos naturais. Libertar-nos dessa prisão cultural é a nossa tarefa.




 

 

 

 

Paulo Cugini

 

 

Chegará o dia em que perceberemos que o patriarcado não se restringia aos corredores do poder, aos códigos escritos por homens ou às exclusões mais óbvias. Perceberemos que ele estava no ar. Envolvia tudo: as palavras ditas e as omitidas, os gestos permitidos e os proibidos, os sonhos incentivados e os sufocados antes mesmo de nascerem. Era um clima, uma temperatura moral, uma paisagem invisível na qual aprendemos a viver, a ponto de confundi-la com o próprio mundo.

Lembremos: o patriarcado é, antes de tudo, um habitat cultural. Não uma ideologia confinada a um livro, não uma falha individual a ser atribuída a alguém, mas um ambiente que respiramos sem ver. É o tecido que molda a linguagem que usamos, os critérios pelos quais julgamos, as hierarquias que consideramos naturais. Ele decide quem pode falar com autoridade e quem precisa pedir permissão; quem é treinado para ocupar espaço e quem para se diminuir; quem é reconhecido pelo que produz e quem desaparece em meio ao que oferece.

É nas relações humanas que esse ambiente deixa suas feridas mais profundas. Durante séculos, ele codificou comportamentos, estilos de vida, maneiras de ser e agir: força separada da ternura, autoridade da reciprocidade, cuidado do reconhecimento, desejo da liberdade do outro. Ensinou muitos a comandar sem ouvir e muitos a servir sem serem vistos; mas empobreceu a todos, porque toda relação fundada na dominação perde a possibilidade do encontro.

A política transformou a competição em destino e o comando em virtude. A economia mediu o valor pela produtividade, relegando o cuidado à margem, como se nutrir, acompanhar, educar e cuidar não sustentassem todas as outras atividades. Os sistemas educacionais muitas vezes recompensaram a obediência em detrimento da consciência crítica, reproduzindo antigos papéis com novos nomes. Até mesmo os espaços criados para libertar acabaram administrando hierarquias, confundindo estabilidade com justiça.

A religião, especialmente o cristianismo, é impressionante. No cerne do Evangelho ressoa uma das proclamações de igualdade mais radicais da história: nenhuma pessoa se reduz a posição social, sexo, origem ou função; o mais humilde é colocado no centro, o poder se transforma em serviço, a grandeza se mede pela capacidade de se curvar diante da vida. Contudo, mesmo as comunidades cristãs se deixaram enganar pela lógica do patriarcado. Ocultaram palavras de libertação em estruturas de exclusão; proclamaram a dignidade universal enquanto mantêm o acesso desigual à tomada de decisões, à voz de autoridade e à representação.

Essa contradição não pode ser escondida por trás do costume. Não basta venerar figuras femininas se as mulheres reais continuam marginalizadas; não basta pregar o amor se a ordem eclesiástica continua a temer a reciprocidade; não basta dizer que todos são iguais perante Deus se, na Terra, alguns detêm o privilégio de interpretar, decidir e abençoar para todos. A mensagem não é fraca: são as nossas instituições que enfraqueceram o seu poder.

Mas nenhum habitat é eterno. O que foi construído pode ser reconhecido, nomeado e transformado. Chegará o tempo da desobediência paciente e radical: desaprender a dominação, resgatar o cuidado da invisibilidade, restaurar a dignidade dos corpos e a autoridade das vozes excluídas. Não se trata de substituir um poder por outro, mas de romper com a própria gramática da posse para aprender a da relação.

Como, então, escapar deste abraço mortal que sufoca a fé e a reduz a uma guardiã do passado? Por onde começar a reconstruir os muros desmoronados? A reforma não começará com nossos sínodos exclusivamente masculinos, nem com decretos escritos com a tinta do compromisso. O caminho para fora começa no deserto, onde o invisível se revela como realmente é. Devemos profanar o ídolo do patriarcado que colocamos no trono do Todo-Poderoso. O terreno a partir do qual devemos recomeçar é a linguagem da oração e do ritual: rasguemos os véus que escondem a face materna e fraterna do divino. Reconheçamos a igualdade radical nos gestos mais simples, devolvendo a voz e a orientação àqueles que foram marginalizados por séculos. Somente quando libertarmos Deus da jaula do patriarcado, a humanidade finalmente poderá caminhar livremente.

Então a política voltará a ser sobre cuidar da nossa casa comum, a economia sobre servir à vida, a educação sobre exercer a liberdade e a fé sobre manter viva a memória de uma igualdade que não conhece senhores. Então entenderemos que nos libertar do patriarcado não significa guerrear contra ninguém, mas sim restaurar a cada pessoa a plenitude da sua humanidade. E talvez, finalmente, respiremos um ar novo.

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

As Alianças do agronegócio e o Governo Bolsonaro: o desmonte das políticas ambientais no Brasil

 




Paolo Cugini (org)

 

A gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019–2022) foi marcada por uma profunda reconfiguração nas relações entre o Poder Executivo, as forças econômicas do campo e a preservação ecológica. Acadêmicos e analistas políticos convergem ao apontar que o período consolidou uma aliança estratégica entre o governo federal e setores majoritários do agronegócio, representados no Congresso Nacional pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), a chamada bancada ruralista. Essa coalizão resultou no enfraquecimento e no desmonte deliberado das políticas e órgãos de proteção ambiental no Brasil.

 

1. A Base ideológica e política da aliança

A sustentação política de Bolsonaro no campo baseou-se em uma agenda comum que via a legislação socioambiental e a fiscalização como "entraves" ao desenvolvimento econômico e à soberania nacional. Essa convergência de interesses manifestou-se na ocupação de cargos estratégicos. A nomeação da deputada federal e ex-líder da FPA, Tereza Cristina, para o comando do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) simbolizou o alinhamento direto do Palácio do Planalto com as demandas da elite agropecuária. Conforme aponta a pesquisa da Universidade Federal do Paraná, o governo federal e as lideranças ruralistas compartilhavam o discurso de flexibilização legislativa, a oposição ferrenha à demarcação de Terras Indígenas (TIs) e o afrouxamento da fiscalização no campo.

2. Mecanismos do Desmonte Institucional

De acordo com o estudo publicado na Revista de Administração Pública (RAP/FGV), o desmonte ambiental não ocorreu necessariamente pela revogação de grandes leis no Congresso, mas sim por meio de estratégias infralegais (decretos, portarias e instruções normativas) e pelo esvaziamento das capacidades do Estado. As principais ações incluíram:

  • Esvaziamento de órgãos de controle: Houve cortes orçamentários severos, precarização e perseguição técnica a servidores do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Fiscais foram desautorizados publicamente pela cúpula do Executivo em operações contra o desmatamento ilegal e a extração de madeira.
  • Centralização no Ministério da agricultura: Já no início do mandato, por meio da Medida Provisória 870, a gestão do Serviço Florestal Brasileiro e atribuições sobre a regularização fundiária e a reforma agrária foram retiradas do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e transferidas para o MAPA, sob o domínio ruralista.
  • Redução da Participação Social: Conselhos colegiados com participação ativa da sociedade civil e de ambientalistas, como o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), foram reestruturados para garantir maioria e controle total por parte do governo e do setor produtivo.

 

3. Flexibilização de Agrotóxicos e Terras

O pacote de concessões ao agronegócio incluiu uma velocidade recorde na liberação de novos registros de agrotóxicos. Dados consolidados na Wikipédia sobre o Governo Jair Bolsonaro indicam que mais de 2.100 pesticidas foram autorizados ao longo do quadriênio, um volume sem precedentes históricos na regulação química nacional.

Paralelamente, a pauta legislativa da bancada ruralista avançou com projetos focados na flexibilização do licenciamento ambiental e na facilitação da regularização de áreas públicas ocupadas ilegalmente, apelidados por críticos e movimentos sociais de "PLs da Grilagem".

 

4. Consequências e a divisão do setor

A consequência direta da desidratação da fiscalização foi a explosão dos índices de desmatamento e queimadas, especialmente na Amazônia e no Cerrado. O enfraquecimento do monitoramento alimentou o avanço da fronteira agrícola sobre terras protegidas e impulsionou os conflitos no campo.

No entanto, essa política gerou contradições internas no próprio setor agrário. Enquanto a ala do agronegócio focada na expansão de terras e no mercado interno respaldava integralmente as ações governamentais, o setor agroexportador mais moderno e integrado às cadeias globais demonstrou forte preocupação. Um artigo do Instituto Humanitas Unisinos (IHU) ressaltou que a destruição da reputação ecológica do Brasil no exterior prejudicou a imagem do país, ameaçou grandes acordos comerciais (como o tratado entre Mercosul e União Europeia) e provocou o boicote de compradores estrangeiros de commodities.

 

Referências Bibliográficas e Fontes

  1. UFPA. As Ideias antiambientais do agronegócio e a gestão socioambiental no governo de Jair Bolsonaro (2019 a 2022). Repositório Institucional da Universidade Federal do Pará. Disponível em: Repositório UFPA.
  2. Revista de Administração Pública (RAP). Desmonte ambiental no Brasil: avanços e lacunas no conhecimento acerca do fenômeno político. SciELO Brasil. Disponível em: SciELO - Revista RAP.
  3. Instituto Humanitas Unisinos (IHU). Agronegócio, a inesperada resistência ao desmonte ambiental de Bolsonaro. Publicado por Naiara G. Gortázar / El País. Disponível em: IHU Unisinos.
  4. Fundação Perseu Abramo. A agenda socioambiental sob ameaça no governo Bolsonaro. Disponível em: FPA Abramo.
  5. Wikipédia. Governo Jair Bolsonaro e atuação no agronegócio. Dados consolidados sobre liberação de registros de defensivos e reformas econômicas. Disponível em: Wikipédia - Governo Bolsonaro.
  6. Instituto Socioambiental (ISA). Bancada da devastação e o monitoramento legislativo (Ruralômetro). Disponível em: Socioambiental.org.

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

REFLEXÕES FILOSOFICAS SOBRE O ANTROPOCENO

 




Paolo Cugini

 

O Antropoceno, conceito originalmente proposto pelo químico Paul Crutzen para designar uma nova época geológica em que a humanidade se tornou uma força planetária capaz de alterar os ciclos biofísicos da Terra, transformou-se em um dos temas mais urgentes e férteis da reflexão filosófica contemporânea.  A filosofia é provocada pelo Antropoceno porque ele colapsa a histórica distinção ocidental entre História Humana (o reino da cultura, da política e da liberdade) e História Natural (o reino dos processos geológicos e biológicos deterministas). Se o ser humano agora escreve a história das rochas, do clima e dos oceanos, a própria definição do que significa ser humano precisa ser profundamente revista.

Por séculos, o pensamento moderno ocidental (fortemente influenciado por figuras como René Descartes) operou sob a lógica de que o homem é um sujeito separado de uma natureza mecanizada, a qual ele deveria dominar e explorar. Pensadores contemporâneos apontam que essa ilusão de separação nos trouxe à crise climática atual. O Antropoceno força a filosofia a adotar uma ontologia relacional, onde os seres humanos são vistos como intrinsecamente enredados na biosfera, dependentes e afetados por agentes não humanos (bactérias, oceanos, vírus, correntes atmosféricas).  Uma das maiores críticas filosóficas e sociológicas ao termo Antropoceno é a sua pretensa universalidade. Ao culpar o Anthropos (o ser humano genérico), o conceito dilui responsabilidades históricas. Filósofos e ecologistas políticos como Jason Moore e Andreas Malm sugerem o termo Capitaloceno. Eles argumentam que a destruição do sistema Terra não é o resultado da biologia humana em si, mas sim de um modo de produção específico: o capitalismo globalizado, o colonialismo e a busca pelo lucro infinito. Povos indígenas e comunidades tradicionais historicamente mantiveram modos de vida em simbiose com a Terra, sendo injusto culpá-los igualmente pela pegada de carbono global.

O filósofo francês Bruno Latour tornou-se uma das referências centrais nessa discussão. Em obras como Diante de Gaia, Latour propõe que deixamos de ser meros humanos (seres abstratos que vivem flutuando sobre o mundo) para nos tornarmos terrestres, radicalmente vinculados ao solo. A Terra não é um cenário estático onde a história humana se desenrola. A Terra responde ativamente às nossas provocações por meio de feedbacks sistêmicos (aquecimento, acidificação de oceanos). A filosofia estuda essa reatividade sob o conceito de Gaia, uma rede complexa de interações biológicas e geológicas que possui sua própria agência e que não se curva à nossa governança tecnológica ou ao chamado capitalismo verde.

O Antropoceno impõe um abismo temporal que desafia a nossa imaginação ética tradicional. Geralmente, nossas decisões morais cobrem o tempo de uma ou duas gerações.  Responsabilidade com o profundo: O plástico que descartamos e o dióxido de carbono que emitimos hoje permanecerão registrados nos estratos geológicos por centenas de milhares de anos. Filósofos éticos usam o Antropoceno para pensar na nossa responsabilidade radical para com o futuro distante e com as espécies não humanas que estão sendo extintas pelas nossas escolhas presentes.

Diante do colapso, surgem duas grandes correntes de pensamento filosófico, como a Tecnofilia, uma visão que confia que a mesma razão técnica que causou o problema pode consertá-lo através de manipulação climática artificial, transição energética puramente corporativa ou maquiagem verde. A justiça cosmopolítica, que é inspirada por pensadoras como Isabelle Stengers e Donna Haraway, além de filosofias ameríndias como as reflexões de Ailton Krenak e Davi Kopenawa no contexto brasileiro, essa vertente argumenta que a saída exige adiar o fim do mundo mudando radicalmente nossos modos de existência. Trata-se de descentralizar o ego humano e aprender a compor mundos com a alteridade radical da Terra

 

A homilia entre a Palavra e a vida: sentido, exigências e riscos

 




Paolo Cugini

 

 

A homilia ocupa um lugar singular na liturgia: ela não é um intervalo explicativo entre as leituras e os demais ritos, nem uma palestra religiosa acrescentada à celebração. Seu sentido está em tornar audível, no presente concreto da comunidade, a força do Evangelho proclamado. Por isso, a fidelidade da pregação não se mede apenas pela correção das ideias, mas pela capacidade de aproximar a Palavra da vida sem reduzir uma à outra. A homilia deve interpretar o texto bíblico a partir da fé da Igreja e, ao mesmo tempo, escutar as perguntas, as feridas e as esperanças do povo reunido.

Falar de uma reflexão atualizada do Evangelho exige atenção crítica. Atualizar não significa tornar a mensagem conveniente, suavizar suas exigências ou submetê-la às modas culturais e às preferências pessoais de quem prega. Significa reconhecer que a Palavra, embora recebida de uma tradição viva, dirige-se a pessoas situadas em circunstâncias históricas determinadas. A boa homilia faz emergir a atualidade do texto sem instrumentalizá-lo. Ela evita tanto o literalismo, que repete fórmulas sem iluminar a existência, quanto a acomodação, que usa o Evangelho apenas para confirmar opiniões previamente estabelecidas.

A afirmação de que a homilia deve brotar do coração não autoriza o sentimentalismo nem a exposição indiscriminada da intimidade do pregador. Ela indica, antes, que a Palavra anunciada precisa ter sido acolhida, meditada e confrontada com a própria vida. Quem prega não fala como observador externo, mas como alguém também julgado, consolado e convertido pelo Evangelho. Sem esse trabalho interior, a homilia corre o risco de se tornar exercício retórico: correta na forma, porém desprovida de densidade espiritual.

Entretanto, a autenticidade do testemunho não deve deslocar o centro da celebração para a personalidade de quem fala. A experiência pessoal só serve à homilia quando se torna mediação discreta da Palavra, e não quando transforma o ambão em palco de autorreferência. O pregador partilha algo de sua caminhada não para se apresentar como modelo acabado, mas para testemunhar que também permanece a caminho. Sua autoridade nasce menos da exibição de certezas do que da coerência entre aquilo que proclama e a disposição de se deixar transformar. A caminhada espiritual de quem prega é inseparável de sua presença no meio do povo. Uma homilia elaborada apenas no gabinete pode ser culta e organizada, mas permanecer alheia à comunidade real. Conhecer o povo não significa presumir suas necessidades nem falar em seu nome de modo paternalista; significa conviver, escutar e perceber os sinais concretos da vida: o trabalho, os conflitos familiares, a pobreza, o luto, as alegrias, as injustiças e as formas cotidianas de esperança. Essa proximidade impede que a pregação se reduza a abstrações e permite que o Evangelho seja anunciado como palavra que toca situações reconhecíveis.



Essa sensibilidade também exige prudência. A homilia perde sua qualidade pastoral quando oferece respostas fáceis a sofrimentos complexos, transforma problemas sociais em culpa individual ou usa o medo como instrumento de convencimento. Do mesmo modo, falha quando evita toda palavra exigente para não incomodar. O desafio consiste em unir verdade e misericórdia: denunciar o que desumaniza sem humilhar pessoas, chamar à conversão sem impor condenações precipitadas e anunciar esperança sem ocultar a gravidade do sofrimento.

Recusar uma exposição puramente estética não significa desprezar a linguagem, a preparação ou o conhecimento. Uma homilia confusa, excessivamente longa ou improvisada pode obscurecer a mensagem tanto quanto uma fala vaidosa. A forma está a serviço da comunicação: clareza, brevidade, imagens adequadas e encadeamento coerente ajudam a comunidade a escutar. O problema surge quando a beleza verbal se torna finalidade, quando a erudição cria distância ou quando as citações substituem o encontro vivo com o texto proclamado. A preparação responsável, portanto, precisa integrar estudo, oração e escuta pastoral. Separados, esses elementos produzem deformações previsíveis: o estudo sem oração pode gerar frieza; a oração sem estudo pode favorecer interpretações arbitrárias; e ambos, sem escuta do povo, podem resultar numa palavra incapaz de alcançar a assembleia. A homilia madura nasce do encontro dessas dimensões e aceita o limite de não dizer tudo. Sua tarefa não é esgotar o Evangelho, mas abrir uma porta para que a comunidade continue a meditá-lo e vivê-lo.

A homilia, compreendida conforme o horizonte pastoral da Igreja, é um serviço de mediação entre a Palavra proclamada e a vida concreta da comunidade. Ela exige do pregador interioridade, estudo, proximidade e humildade. Não pode ser espetáculo, aula autossuficiente nem discurso moralizante; tampouco pode reduzir-se a impressões pessoais. Sua força aparece quando o Evangelho atravessa a vida de quem anuncia e encontra, por meio de uma linguagem simples e responsável, a vida de quem escuta. Nesse encontro, a pregação deixa de ser demonstração de saber e se torna partilha de fé: uma palavra humana que procura servir, com fidelidade, à Palavra que a precede e a supera.

 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O Ícone e o Invisível: educando o olhar além da aparência

 



 

 

 

Paulo Cugini

 

 

A distinção entre ídolo e ícone não se resume a dois tipos de imagem, nem pode ser reduzida à diferença entre um objeto falso e um autêntico. Mais profundamente, descreve duas maneiras opostas de ver e se relacionar com a realidade. O ídolo corresponde a um olhar que se detém: encontra diante de si uma forma capaz de satisfazê-lo e a adota como a realização de seu desejo de conhecer. O ícone, por outro lado, não permite que a visão se limite ao que aparece. Faz do visível um limiar e convida o olhar a transcender sua própria pretensão de posse.

Por essa razão, o ícone não é simplesmente uma imagem mais rica ou mais evocativa. Sua peculiaridade reside em alterar a posição do observador. Diante do ídolo, o sujeito tende a sentir-se no controle da visão; diante do ícone, ao contrário, ele descobre que está sendo interpelado. Ele não é mais apenas aquele que vê, mas aquele que é tocado por uma abundância de significado. O ícone, assim, inaugura uma relação na qual ver se torna escutar, disponibilidade e transformação.

Um ídolo surge quando o olhar confunde o que vê com a totalidade do que é. Ele oferece uma presença imediata, clara e aparentemente autossuficiente: o olhar se reconhece nele, encontra confirmação e cessa de buscar. Nesse sentido, um ídolo não é definido primordialmente pelo material de que é feito, mas pela função que assume. Mesmo uma ideia, uma imagem de sucesso, uma representação de poder, ou até mesmo uma concepção religiosa podem se tornar idólatras quando pretendem esgotar o mistério que evocam.

O ídolo, portanto, restitui ao olhar a medida de seus desejos. Mostra o que o sujeito já está disposto a ver e, precisamente por isso, o tranquiliza. Não cria uma distância, mas a elimina; não levanta uma questão, mas oferece uma resposta definitiva. Sua força reside na saturação: tudo parece presente, disponível, definível. Contudo, no exato momento em que promete uma presença plena, o ídolo empobrece a realidade, pois a reduz à capacidade humana de representá-la e controlá-la. Esse risco está particularmente presente na cultura contemporânea, dominada pela proliferação de imagens. A abundância do visível não equivale necessariamente a uma maior profundidade de visão. Pelo contrário, a rápida sucessão de figuras, telas e mensagens pode gerar habituação: vemos muito, mas contemplamos pouco. Quando tudo precisa parecer imediatamente compreensível e consumível, o visível perde sua profundidade e se torna superficial.

O ícone interrompe essa dinâmica porque não pode ser reduzido a um objeto disponível. Certamente possui uma forma visível: cores, linhas, material e composição. No entanto, seu significado não se limita a esses elementos. A forma não retém o olhar em si, mas o direciona para aquilo que não pode ser contido em nenhuma forma. O visível torna-se, então, um limiar: não uma barreira que oculta, mas uma passagem que se manifesta sem esgotar.

 

Afirmar que o ícone não é resultado de uma visão, mas sim a provoca, significa reconhecer que ele não se limita a reproduzir algo já possuído pelo olhar. O ícone instaura uma nova forma de ver. Desestabiliza hábitos perceptivos, liberta o observador da passividade e o conduz a uma profundidade que não pode ser apreendida num único ato. A visão torna-se uma jornada: requer tempo, silêncio e disposição para se surpreender. Nessa experiência, a distância não é um defeito a ser eliminado. Ela preserva a alteridade daquilo que se manifesta. O ícone está próximo porque se oferece aos sentidos, mas permanece distante porque aquilo a que se refere não pode ser possuído. Essa mesma tensão impede que o olhar transforme a realidade em objeto. O ícone permite ser visto, mas não permite ser dominado. A transformação mais radical introduzida pelo ícone consiste na inversão da direção do olhar. Normalmente, ver significa voltar-se para um objeto, analisá-lo e inseri-lo em categorias próprias. Diante do ícone, porém, o sujeito percebe que a visão não procede por si só. O que aparece parece atraí-lo, expô-lo e exigir uma resposta. O olhar deixa de ser um poder unilateral e se torna o locus de uma relação.

Ser observado não significa atribuir magicamente consciência à imagem. Significa, antes, reconhecer que a realidade pode transcender nossas intenções e nos colocar em xeque. O ícone retira o sujeito da centralidade absoluta: lembra-o de que ele não é a medida definitiva daquilo que encontra. Portanto, sua ação também é crítica. Desmascara a ilusão do conhecimento neutro e demonstra que toda visão autêntica implica responsabilidade. Aqueles que aceitam essa experiência não permanecem inalterados. O olhar é treinado para não consumir o que vê, para não reduzir o outro a uma imagem preexistente e para tolerar a ambiguidade e a expectativa. A transformação, portanto, diz respeito não apenas à maneira como observamos uma obra, mas à maneira como habitamos o mundo. Aprender a ver iconicamente significa permitir que as coisas, os rostos e os eventos conservem uma profundidade que não depende de nós.

O invisível a que o ícone se refere não é simplesmente algo que, por acaso, ainda não foi visto. Não é um objeto oculto que um dia poderá se tornar totalmente acessível. É, antes, aquilo que, por sua própria natureza, transcende qualquer tentativa de representação completa. O invisível não anula o visível, mas o atravessa e lhe confere profundidade. No ícone, a matéria não é negada: torna-se o lugar onde uma presença se anuncia sem se deixar circunscrever. Essa relação evita dois extremos. Por um lado, impede que a imagem seja absolutizada, como se contivesse aquilo que representa; por outro, impede a desvalorização da realidade sensível, como se o visível fosse um mero obstáculo. O ícone, ao contrário, testemunha que o sensível pode ser transparente a um significado mais profundo. Sua verdade reside não na semelhança fotográfica, mas em sua capacidade de tornar perceptível uma transcendência que permanece irredutível. O paradoxo do ícone consiste precisamente nisso: ele mostra o que não pode ser totalmente mostrado. Não resolve o mistério, mas sim o abriga. Sua presença visível não substitui o invisível; mantém sua distância. Portanto, o ícone não satisfaz o desejo do olhar de uma vez por todas, mas o purifica, libertando-o da pretensão de possuir o que busca.

A dinâmica do ícone assume um valor ético quando aplicada ao encontro com o outro. Mesmo uma pessoa pode ser percebida de forma idolátrica, se reduzida à sua aparência, à sua função ou à imagem que construímos dela. Nesse caso, o olhar apenas confirma nossos próprios padrões. Um olhar icônico, no entanto, reconhece que o rosto do outro manifesta uma profundidade que nenhuma definição consegue esgotar. Acolher o invisível, então, significa respeitar o que permanece inacessível no outro: sua interioridade, sua liberdade, sua história e seu potencial de mudança. Não se trata de renunciar à compreensão, mas de retirá-la da lógica da dominação. O conhecimento autêntico não elimina o mistério da pessoa; ele o protege. Portanto, a abertura gerada pelo ícone se traduz em escuta, atenção e responsabilidade. Numa época em que indivíduos e eventos são frequentemente transformados em perfis, dados ou imagens a serem consumidos rapidamente, o ícone propõe uma disciplina do olhar. Ele nos convida a desacelerar, a suspender o julgamento e a abrir espaço para o que não corresponde às nossas expectativas. Essa disposição não é passividade: é uma forma exigente de vigilância, porque requer que abandonemos a segurança das representações imediatas para entrarmos em uma relação mais verdadeira.

 

A diferença entre ídolo e ícone revela, portanto, duas possibilidades fundamentais do olhar. O ídolo detém a visão e a reconduz à medida do sujeito; o ícone a abre para um excesso que não pode ser possuído. O primeiro oferece uma presença fechada e reconfortante, o segundo transforma cada presença em um limiar. Por isso, o ícone não se limita a adicionar conteúdo à nossa visão: ele transforma sua estrutura. Diante do ícone, ver não significa dominar, mas receber; não significa esgotar, mas reconhecer; não significa apropriar-se, mas permitir-se ser questionado. O invisível não se opõe ao visível: ele se anuncia como aquilo que o torna inexaurível. Educado por essa experiência, o olhar torna-se capaz de contemplar sem reservas e de encontrar sem reduzir. O ícone indica, assim, uma forma de conhecimento fundamentada na humildade. Ele nos lembra que a realidade mais verdadeira nem sempre coincide com o que imediatamente nos impressiona, e que, por vezes, só vemos verdadeiramente quando aceitamos que não possuímos plenamente aquilo que contemplamos.