sexta-feira, 31 de julho de 2026

Contaminação e Mistério: Profecia de uma Identidade Alternativa

 



 

Paolo Cugini

 

Chegará o tempo, e esse tempo já chegou, em que as identidades construídas como muros mostrarão suas rachaduras. Chegará o tempo em que o que foi chamado de pureza se revelará pelo que muitas vezes foi: medo do contato, pavor do diferente, defesa ansiosa de uma fronteira. Então entenderemos que nenhuma identidade nasce inocente, porque toda identidade é construída pela escolha, pela separação, pela nomeação do que está dentro e do que permanece fora. Todo pertencimento carrega consigo um limiar; todo "nós" contém, em seu interior, um "eles" excluído.

Contudo, o Espírito não habita apenas dentro de recintos fechados. O Espírito geme fora dos portões, atravessa campos impuros, fala línguas desconhecidas e repousa sobre corpos não convidados pela lei. Onde a instituição vê contaminação, o Mistério pode abrir a revelação. Onde a doutrina teme a confusão, um novo significado pode germinar. Pois a contaminação não é necessariamente perda: pode ser uma visitação, uma ferida fértil, uma transgressão capaz de revelar a verdade mais profunda da identidade.

Ai daqueles que confundem Mistério com sua fórmula, a vida de Deus com sua definição, o eco da Palavra com a posse da verdade! O dogma surge como uma palavra de proteção, como uma tentativa de expressar, dentro da história, aquilo que transcende a história. Mas quando a proteção se torna controle, quando a definição pretende abarcar o que é inexaurível, então o dogma corre o risco de se tornar uma barreira contra a própria revelação. O que deveria indicar o fogo torna-se cinzas ordenadas; o que deveria guiar o caminho torna-se fronteira intransponível.

O caminho da evolução do dogma é também um caminho de identificação: a Igreja, ao declarar aquilo em que crê, reconhece-se a si mesma, molda a sua memória e protege o cerne da sua narrativa. Mas toda identificação implica uma escolha, e toda escolha cria uma margem. Definir significa iluminar um rosto, mas também deixar outros rostos possíveis nas sombras. Dizer "isto é" muitas vezes significa declarar implicitamente "isto não é". É aqui que a identidade eclesial encontra a sua tentação: a de acreditar que a separação é fidelidade, que a exclusão é garantia, que a fronteira é mais sagrada do que a passagem.

Mas o Mistério não pode ser administrado como um território. O Mistério não é propriedade guardada por mãos autorizadas, nem um depósito inerte a ser defendido contra os ventos da história. O Mistério é excesso, promessa, um abismo convidativo. Sempre que uma comunidade alega esgotar suas possibilidades reveladoras, não está defendendo a Deus: está defendendo sua própria imagem de Deus. Não está protegendo a transcendência: está protegendo seu próprio medo de ser transformada.

É por isso que a contaminação pode se tornar profecia. Ela desestabiliza o ídolo da identidade fechada e lembra à fé que a revelação nunca coincide plenamente com suas sedimentações históricas. A contaminação introduz uma questão, uma fissura, uma possibilidade inesperada na identidade. Contaminar-se não significa dissolver-se, mas permitir-se ser transformado pelo encontro. Significa aceitar que o outro não é meramente uma ameaça, mas um locus teológico; não meramente uma diferença a ser rejeitada, mas uma palavra capaz de restaurar uma verdade esquecida à própria identidade.

Bem-aventurada a identidade que não teme ser contrariada. Bem-aventurada a comunidade que não confunde fidelidade com imobilidade. Bem-aventurada a Igreja que, em vez de erguer novas pedras em suas fronteiras, aprende a reconhecer a voz do Vivente mesmo em lugares não autorizados. Pois o Mistério que se revela não permanece prisioneiro de nossos pronunciamentos: ele os atravessa, os perturba, os transcende. Ele ainda fala, e muitas vezes fala precisamente onde a doutrina aprendeu a se calar.

A tarefa, portanto, não será abolir todas as formas, nem desprezar todas as palavras recebidas. A tarefa será purificá-las da pretensão de propriedade. Será transformar o dogma de uma parede em um limiar, de um fechamento em uma orientação, de uma definição absoluta em uma memória viva de um encontro que permanece sempre maior do que qualquer coisa que possamos dizer. Será reconhecer que a verdade não teme o contato, porque o que é verdadeiramente vivo não se preserva no isolamento, mas atravessando a história sem cessar de gerar.

E uma voz se erguerá no deserto das certezas fechadas: não chamem de impureza o que pode se tornar revelação; não chamem de traição o que pode ser conversão; não chamem de confusão o que abre caminho para o Mistério. Pois a identidade que não acolhe a contaminação torna-se uma estátua de sal, uma memória congelada de um caminho torto. Mas a identidade que se permite ser ferida pelo outro pode renascer como uma promessa, pode descobrir que não é uma cerca a ser defendida, mas uma cortina a ser movida, uma palavra a ser protegida em seu constante desdobramento, um nome que assume um novo significado a cada vez que ousa encontrar o que não havia previsto.

 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Contaminação e identidade cultural: caminhos percorridos e problemas em aberto

 


 


Uma jornada através de teorias, práticas e desafios contemporâneos.

Paolo Cugini

 

A contaminação cultural é um dos temas mais debatidos nas ciências humanas e sociais da atualidade, abrangendo disciplinas como antropologia, sociologia, filosofia e estudos literários. A identidade cultural, longe de ser uma entidade monolítica e estática, apresenta-se como uma construção dinâmica, moldada pelo encontro, intercâmbio e, por vezes, conflito entre diferentes culturas. Num mundo cada vez mais interconectado, a contaminação cultural gera possibilidades criativas, mas também tensões, suscitando questões sobre as formas como indivíduos e comunidades se definem.

A noção de contaminação cultural tem sido objeto de reflexão desde o início dos estudos interculturais. Edward Said, em sua célebre obra Orientalismo (1978), destacou como a identidade ocidental foi moldada pela relação dialética com o outro oriental, demonstrando que nenhuma cultura é verdadeiramente pura, mas sempre fruto de intercâmbio e apropriação. De forma semelhante, Homi K. Bhabha, em A Localização da Cultura (1994), introduziu o conceito de hibridismo, sublinhando como as identidades emergem precisamente nos espaços fronteiriços onde as culturas se encontram e se transformam. Stuart Hall, um dos maiores teóricos da cultura contemporânea, definiu identidade como um processo de produção e representação, e não como algo original e imutável. Em sua coletânea Identidade Cultural e Diáspora (1990), Hall argumenta que as identidades estão sempre em fluxo, constantemente renegociadas em relação ao contexto histórico e social.

A contaminação cruzada, longe de ser apenas uma fonte de conflito, também gera novas formas de expressão. Salman Rushdie, autor de Os Filhos da Meia-Noite (1981), celebrou a miscigenação cultural como uma riqueza e uma oportunidade para criar novas narrativas e visões de mundo. Umberto Eco, em seu ensaio Apocalíptico e Integrado (1964), também observa que o contato entre culturas produz inovações na linguagem, na literatura e na mídia. Franco Moretti, em sua obra sobre o romance mundial , enfatiza como a literatura contemporânea é resultado de uma constante contaminação cruzada e de uma circulação global de formas, onde autores e obras se alimentam de diferenças, adaptações e reinterpretações.

Ao longo do último século, a contaminação cultural assumiu muitas formas. O fenômeno da migração gerou novos espaços de encontro, onde línguas, religiões, tradições e costumes se fundem, transformando tanto as comunidades de chegada quanto as de partida. Paul Gilroy, em O Atlântico Negro (1993), analisou como a diáspora africana produziu uma cultura transnacional, caracterizada por contínuas trocas e contaminações entre a Europa, a África e as Américas. No campo da arte, a contaminação se manifesta por meio do multiculturalismo e da interculturalidade. A arte contemporânea é povoada por artistas que incorporam linguagens visuais, materiais e símbolos de diversas tradições, dando vida a obras que desafiam fronteiras e cânones. A Bienal de Veneza, por exemplo, oferece um espaço privilegiado para a expressão dessa pluralidade. No mundo da música, a contaminação produziu gêneros híbridos como jazz, reggae, hip hop, afrobeat e world music, resultado do encontro de ritmos, instrumentos e experiências de diferentes continentes.

A contaminação, contudo, nem sempre ocorre de forma pacífica ou simétrica. O encontro entre culturas pode gerar conflitos de identidade, processos de marginalização e fenômenos de apropriação cultural. O filósofo ganês Kwame Anthony Appiah, em seu livro Cosmopolitanism (2006), defende a distinção entre trocas equitativas e apropriações que apagam a voz e a história das culturas minoritárias. Um problema em aberto é o da resistência à contaminação, frequentemente associada a formas de nacionalismo, xenofobia ou fundamentalismo identitário. Judith Butler, em Frames of War (2009), argumenta que as identidades também são construídas por meio da exclusão e da delimitação de fronteiras, destacando o risco de fechamento que dificulta o diálogo intercultural. Os processos de globalização também levantam questões: embora facilitem a troca e a contaminação, podem levar à homogeneização, à perda de especificidades locais e à construção de identidades consumistas e superficiais. Zygmunt Bauman, em Modernidade Líquida (2000), reflete sobre a fragilidade das identidades contemporâneas, constantemente expostas aos fluxos globais e à precariedade do sentimento de pertencimento.

Muitos autores sugerem estratégias para lidar com as tensões geradas pela contaminação cultural. Homi K. Bhabha propõe o conceito de um terceiro espaço, um lugar simbólico onde as diferenças podem dialogar e gerar novas identidades. Stuart Hall nos convida a pensar a identidade em termos de diáspora, como um caminho, uma jornada, uma transformação. No campo da educação, a pedagogia intercultural, promovida por autores como Massimiliano Tarozzi e Dario Ianes, visa valorizar a pluralidade e desenvolver habilidades para viver na diversidade. O objetivo é fomentar o respeito, a solidariedade e a capacidade de negociar entre diferentes visões de mundo.

A fertilização cruzada e a identidade cultural representam dois polos em um diálogo contínuo entre abertura e a defesa da singularidade. Os caminhos trilhados até agora demonstram como a fertilização cruzada pode ser uma fonte de criatividade e crescimento, mas também de tensão e conflito. Problemas em aberto exigem respostas que valorizem a pluralidade, promovam o diálogo e previnam dinâmicas de exclusão. Nesse contexto, as reflexões de autores como Said, Bhabha, Hall, Gilroy, Rushdie, Appiah, Bauman, Butler e Eco constituem um recurso valioso para pensar a identidade cultural como um espaço de negociação, transformação e encontro. Somente por meio da gestão consciente da fertilização cruzada será possível construir sociedades inclusivas, capazes de abraçar a diversidade como um valor, e não como uma ameaça.

 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Quem defende as mulheres? Quando a religião é cúmplice da cultura patriarcal.

 





Paolo Cugini

 

Nestes dias, enquanto participo do Congresso organizado pela SOTER (Sociedade de Teologia e Ciência da Religião) sobre o tema Violência e Religião, muitas das palestras são apresentadas a partir de diversas perspectivas religiosas, filosóficas e sociais. Fiquei particularmente impressionado com as reflexões de várias teólogas feministas, que suscitaram algumas breves considerações, que aqui compartilho.

Como argumenta Saffiotti: “a cruel realidade da violência contra meninas e mulheres não é um fenômeno isolado, mas a manifestação concreta de estruturas sexistas, patriarcais, misóginas e capitalistas profundamente enraizadas que moldaram e continuam a moldar a sociedade” [1] (Safiotti, 2024). O patriarcado é um sistema que administra a desigualdade entre os sexos, tendo o sexismo como sua tecnologia política, enquanto a misoginia é o discurso de ódio que sustenta essa tecnologia política e o sistema patriarcal. “Não há patriarcado sem sexismo, não há sexismo sem misoginia” [2] .

O patriarcado é, portanto, uma forma de organização social em que as relações são regidas por dois princípios fundamentais: as mulheres são hierarquicamente subordinadas aos homens; os jovens são hierarquicamente subordinados aos homens mais velhos. A violência de gênero, portanto, não é simplesmente o comportamento individual de alguns homens, mas um sistema institucionalizado legitimado pelo patriarcado, razão pela qual é tão difícil romper o ciclo de violência sem mudar toda a estrutura social.

O discurso religioso, especialmente nos movimentos tradicionalistas, reforça a ideia simbólica de que a família tradicional salvará a sociedade. Na família tradicional, o homem é o chefe da família, enquanto a mulher é a esposa, sempre pronta para servir o marido, e a mãe dedicada aos filhos. A violência contra meninas e mulheres é reforçada pelo discurso religioso, que é entendido como norma, como verdade, porque é Deus quem fala por meio do pastor, do padre, do líder religioso, como parte integrante do cristianismo patriarcal.

Líderes religiosos cristãos de grupos tradicionalistas e aqueles próximos a movimentos políticos de extrema-direita propõem leituras e interpretações fundamentalistas de textos bíblicos, afirmando a submissão e o silêncio das mulheres, desencorajando a denúncia, aconselhando-as a orar por seus maridos, pois estes devem estar possuídos, ou mesmo declarando que, assim como Jesus carregou a cruz, as mulheres também devem carregar a sua, sugerindo submissão e invisibilidade da violência dentro das famílias. Muitas mulheres obedecem e permanecem em silêncio sem questionar as palavras do líder religioso, o que pode levá-las a se tornarem vítimas de violência e até mesmo de feminicídio. Uma pseudoespiritualidade é incentivada por líderes religiosos que apenas reforçam o modelo cultural patriarcal, com seus derivados de misoginia e homofobia.

Dessa perspectiva e seguindo esse caminho, a sexualidade feminina é arrancada de seus corpos e confinada à esfera da maternidade, da reprodução e da família. Em suma, a sexualidade e o erotismo não são sagrados. O corpo sagrado é assexuado; tudo é reduzido ao útero. A tradição cristã tem sérios problemas com o corpo e a sexualidade, negando-lhes a esfera do sagrado. "Na encarnação simbólica de Eva, a pecadora, e de Maria, a redentora, por meio da submissão e da virgindade, reside a 'vara do patriarcado' na mão de Deus Pai, que pune e redime. Essa vara é dirigida especificamente à dimensão erótica da mulher" (Jarschel; Nanjarí, 2008, p. 4).

Neste ponto da discussão, surge imediatamente uma questão: como participar da comunidade cristã e da Eucaristia ou da Ceia do Senhor quando os corpos de meninas e mulheres continuam sendo violados, estuprados e assassinados com a cumplicidade "espiritual" da própria instituição que deveria valorizá-las e protegê-las?

A Igreja deve denunciar profeticamente o direito da mulher à autonomia, ao poder e à responsabilidade de decidir sobre o próprio corpo, sobre o seu bem-estar espiritual em todas as suas dimensões e sobre a sexualidade entendida como prazer e não meramente como um propósito procriativo. Portanto, é essencial questionar a exclusão das mulheres da ordenação ministerial nas diversas tradições cristãs.

É urgente adotar uma nova hermenêutica religiosa e teológica, bem como práticas eclesiais e pastorais que garantam a plena inclusão das mulheres à mesa da comunhão, entendida aqui como a totalidade da vida familiar, social, cultural e espiritual.




[1] SAFIOTTI, Heleieth. Violência de Gênero: Poder e Impotência. São Paulo: Expressão Popular, 2024.

[2] TIBURI, Marcia. Como Derrotar o Turbomachismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2023.

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

O Cristianismo patriarcal e a legislação da violência contra a mulher

 




Paolo Cugini

 

A violência contra meninas e mulheres no Brasil não constitui um fenômeno isolado. Ela reflete a manifestação concreta de estruturas profundas machistas, patriarcais, misóginas e capitalistas que moldam a sociedade. Essa opressão estrutural se perpetua por meio de discursos que institucionalizam a desigualdade. Segundo Safiotti (2024), essa realidade brutal decorre de uma construção histórica contínua. Entre esses discursos, as narrativas religiosas fundamentalistas atuam como potentes normalizadoras da submissão feminina.

A engrenagem do sistema patriarcal

O patriarcado funciona como um sistema de administração da desigualdade de gênero. Para operar, ele utiliza o machismo como sua tecnologia política e a misoginia como o discurso de ódio legitimador (TIBURI, 2023). Não há separação entre essas forças: o patriarcado depende do machismo, que por sua vez se alimenta da misoginia.

Essa organização social rege-se por dois princípios básicos de dominação que determinam a rigidez das posições de poder dentro das comunidades e famílias, como explica Millet (1970):

[...] as mulheres estão hierarquicamente submetidas aos homens: os jovens estão hierarquicamente subordinados aos homens velhos.

Portanto, a violência de gênero ultrapassa o comportamento individual de homens agressores. Ela é um sistema institucionalizado e legitimado pela estrutura social, o que torna o rompimento desse ciclo complexo e dependente de reformas estruturais.

O discurso religioso e a violência doméstica

Os discursos religiosos frequentemente reforçam a ideia simbólica de que a família tradicional salvará a sociedade. Esse modelo idealizado define o homem como o "chefe" e a mulher como a esposa servil e mãe dedicada. Essa assimetria de poder encontra respaldo em leituras literalistas e fundamentalistas feitas por lideranças cristãs, que transformam a submissão em norma divina. Como a palavra do pastor ou do padre é recebida como a verdade de Deus, o cristianismo patriarcal acaba por chancelar a opressão. Os dados estatísticos revelam o impacto destas narrativas no ambiente doméstico. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública detalha a prevalência da violência de acordo com o pertencimento religioso das vítimas (2025, p. 18):

42,7% das mulheres que se identificam como evangélicas sofrem violência por parceiro íntimo ou ex-parceiro íntimo, e 35% das que se identificaram como católicas. de acordo com estes dados do fórum, 77,8% das mulheres violentadas se autodeterminaram pertencentes a tradição religiosa cristã.

Esses indicadores demonstram que a fé cristã não imuniza as mulheres contra o abuso. Pelo contrário, os discursos de lideranças religiosas muitas vezes silenciam as vítimas, que passam a enxergar o sofrimento e a submissão como provações espirituais ou deveres sagrados. Para combater a violência de gênero de forma eficaz, torna-se indispensável questionar as bases teológicas que instrumentalizam a fé para subjugar os corpos e as vidas femininas.

 

Políticas públicas atuais no Brasil: avanços institucionais

Para conter o avanço estrutural da violência descrita pelos autores, o Estado brasileiro busca formular respostas que integrem a repressão criminal e o acolhimento institucional das vítimas. Entre as principais ações contemporâneas, destacam-se:

  • O Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio: Lançada de forma conjunta pelos Três Poderes, a medida articula ações federais, estaduais e municipais para unificar canais de denúncia, estruturar Casas da Mulher Brasileira e implementar ações preventivas de segurança.
  • Sistema Nacional de Enfrentamento da Violência contra Meninas e Mulheres: Aprovado pelo parlamento para unificar a governança dos recursos públicos e otimizar o monitoramento estatístico, garantindo verbas carimbadas para redes assistenciais e delegacias especializadas.
  • Ampliação do Atendimento Psicossocial no SUS: Medidas de saúde que estenderam a prioridade de assistência psicológica e cirurgias reparadoras gratuitas no Sistema Único de Saúde a todas as mulheres vítimas de abusos, removendo barreiras burocráticas como a exigência prévia de laudos periciais.

O redesenho dessas políticas públicas — incluindo o lançamento de um novo Plano Nacional de Políticas para as Mulheres — busca justamente quebrar a barreira cultural e religiosa que, historicamente, naturalizou as agressões de gênero no âmbito privado.

A Articulação entre Estado e estrutura: uma análise teórica

A consolidação de políticas públicas protetivas dialoga diretamente com as reflexões de Safiotti (2024) e Tiburi (2023), evidenciando que a resposta estatal não pode se limitar ao punitivismo penal. Ao compreender o machismo como uma "tecnologia política" e a misoginia como sua sustentação discursiva (TIBURI, 2023), fica claro que o acolhimento institucional e a autonomia financeira são essenciais para desmontar os mecanismos que aprisionam a mulher na dependência do agressor. Da mesma forma, as ações governamentais enfrentam o nó estrutural apontado por Safiotti (2024), pois a violência doméstica deixa de ser vista como um "problema familiar privado" e assume o status de violação de direitos humanos fundamentais. Assim, ao investir em redes integradas de saúde, assistência social e segurança, o Estado atua para desmantelar os pilares do patriarcado capitalista, oferecendo caminhos reais de emancipação para além das barreiras ideológicas e religiosas que perpetuam a opressão.

 

Referências

FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública: 2025. São Paulo: FBSP, 2025. p. 18.

MILLET, Kate. Política Sexual. Tradução de Alice Sampaio. Lisboa: Dom Quixote, 1970.

SAFIOTTI, Heleieth. Violência de Gênero: Poder e Impotência. São Paulo: Expressão Popular, 2024.

TIBURI, Marcia. Como Derrotar o Turbomachismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2023.

 

terça-feira, 7 de julho de 2026

A intolerância religiosa no Brasil. Uma análise a partir dos dados do Disque 100

 





PUC MINAS

38 CONGRESSO SOTER

 


Ma. Macaé Evaristo

 

Síntese: Paolo Cugini

 

A liberdade religiosa nasce da República. Defesa do Estado laico ancóra o direito e a liberdade das pessoas de poder escolher a melhor forma de congregar. O Estado laico não é um movimento contra as religiões, mas é afirmar que o Estado favorece a liberdade Religiosa. A laicidade é condição de democracia, porque impede que uma religião tome conta do espaço político.

Disque 100 é um canal Nacional gratuito, e, muitas vezes, é a única forma de proteção contra as violências. Tem segmentos que são vítimas de violências por questões políticas e religiosas. Existe sofrimento de pessoas. Atrás de números tem pessoas, situações.

Dados: 2270 denúncias de violências religiosas entre 2025e 2026. Tivemos uma ampliação de 64% de denúncias no último ano. É uma curva que mostra um crescimento de intolerância religiosa. Quanto mais cresce a confiança das pessoas no Disque 100, mais as pessoas se sentem seguras.

Quem são alvos? Todas as religiões, mas sobretudo as religiões afrodescendentes, que são as mais perseguidas: se trata de racismo religioso. Se trata de um estado permanente de persecução contra as religiões afrodescendentes. Minas Gerais está dentro os Estados de maiores incidências. A intolerância ganha força quando alcança figuras públicas.

Muitos líderes religiosos do mundo religioso afrodescendentes foram vítimas de situações de intolerâncias religiosas. Quanto maior é a casa religiosa quanto mais é vítima de violências. Precisa a coragem de denunciar.

Ma. Macaé Evaristo

Outra cifra é dentro das delegacias, que são relatados como crime de briga de vizinhos a invés de intolerância religiosa. Foram décadas de violências por parte da polícia. O racismo religioso é uma continuidade com uma concepção do Estado Brasileiro que produziu intolerância.

O avanço de um projeto político que incrementa a intolerância religiosa no Brasil é preocupante. Precisa garantir que o Estado seja laico. Precisa pensar políticas públicas que saibam favorecer caminhos de luta contra a intolerância religiosa.

A ONU reconheceu o crime do tráfego de escravos entre África e Brasil. A diáspora espalhou afrodescentes em muitos lugares. No Brasil tem uma lei, a 11635, que convida ao combate contra a intolerância religiosa. A intolerância religiosa mata. Por isso é importante afirmar a democracia e a laicidade do Estado.

Precisa do reconhecimento das casas religiosas. A solução não vem somente de cima, mas é construída nas bases.

Políticas públicas. Fortalecer delegacias especializadas, que intendam o que é intolerância religiosa. Além disso, é necessário formar agentes públicos.

Durante a ditatura militar foram criminalizadas as casas religiosas afrodescendentes. Precisa reconhecer as religiões de origem africana como patrimônio, que deve ser protegido.

É preciso escutar, conhecer o território antes de tomar decisões que possam machucar comunidade religiosas. Defender o Estado leigo é defender a dignidade humana. A laicidade é a condição da existência da liberdade religiosa.  

 

 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

CONHECE O PROGRAMA PÉ-DE-MEIA?

 



O Pé-de-Meia é um programa de incentivo financeiro-educacional do Governo Federal do Brasil, criado pela Lei nº 14.818 de 2024, que funciona como uma poupança para estudantes de baixa renda do ensino médio público. Seu principal objetivo é evitar a evasão escolar e garantir que os jovens concluam os estudos.

Quem tem direito?

  • Estudantes de 14 a 24 anos matriculados no ensino médio regular da rede pública.
  • Estudantes de 19 a 24 anos integrados na Educação de Jovens e Adultos (EJA).
  • Famílias que fazem parte do Cadastro Único (CadÚnico) com renda per capita de até meio salário-mínimo.
  • É obrigatório possuir o CPF regularizado

 

Como funcionam os pagamentos?

O programa divide o dinheiro em quatro tipos de incentivos:

  • Incentivo-Matrícula: R$ 200 pagos uma vez ao ano no ato da matrícula.
  • Incentivo-Frequência: R$ 1.800 por ano, divididos em parcelas mensais de R$ 200, para quem mantiver pelo menos 80% de presença nas aulas.
  • Incentivo-Conclusão: R$ 1.000 depositados ao final de cada ano letivo aprovado. Este valor acumula e só pode ser sacado após a formatura no ensino médio.
  • Incentivo-Enem: R$ 200 pagos em parcela única aos alunos do 3º ano que participarem dos dois dias do exame.

Ao concluir os três anos de estudos cumprindo todos os requisitos, o estudante pode acumular um total de até R$ 9.200.

Como se inscriver?

Não é necessário fazer inscrição por conta própria. As próprias escolas públicas enviam os dados de matrícula diretamente ao Ministério da Educação (MEC). A Caixa Econômica Federal abre uma conta poupança digital de forma automática e gratuita para o estudante selecionado. O acompanhamento de datas e liberação de valores pode ser feito diretamente pelo App CAIXA Tem ou pelo portal oficial de Consulta Pé-de-Meia

sexta-feira, 19 de junho de 2026

AS RUAS DE MANAUS NA COPA

 




Em Manaus os moradores pintam as ruas durante a Copa do Mundo

Paolo Cugini

 

A criatividade do povo manauara converte os desafios da infraestrutura urbana em verdadeiras obras de arte a céu aberto durante a Copa do Mundo. Em Manaus, a proximidade do mundial de futebol desperta uma mobilização comunitária única. Diante da histórica falta de legados duradouros em mobilidade e do asfalto muitas vezes desgastado, os moradores assumem o protagonismo. Eles limpam, reparam e cobrem as vias com cores vibrantes. O asfalto vira uma grande tela de expressão cultural e paixão pelo esporte.



 Arte onde havia buraco nas periferias e bairros tradicionais de Manaus, o mutirão comunitário começa muito antes do apito inicial dos jogos. Moradores e trabalhadores locais se unem para nivelar o pavimento, varrer as vias e iniciar os trabalhos de pintura. Desenhos de craques da Seleção Brasileira, da mascote oficial e taças cobrem imperfeições no chão. Servidores e garis utilizam materiais rda mascote oficial erguer pórticos e esculturas temáticas. O tradicional verde e amarelo divide espaço com os rostos de lendas do futebol mundial. Essa engenhosidade coletiva transformou ruas comuns em atrações turísticas oficiais, reconhecidas internacionalmente pela própria FIFA.



Rua 3 (Alvorada): Referência mundial com mais de 30 anos de tradição. Coberta por um teto de mais de 1,2 milhão de bandeirolas e pinturas gigantescas no chão.

Rua da Copa (Compensa): Planejada e executada por profissionais de limpeza urbana. O local destaca-se pelo uso de materiais reciclados e iluminação temática especial.

Rua Santa Isabel (Praça 14): Ponto histórico da comunidade do samba e da cultura popular local. As bandeirolas conectam um telhado ao outro formando as bandeiras das nações.

Rua 24 de Agosto (Morro da Liberdade): Integra a pintura decorativa a eventos sociais, como feijoadas comunitárias e rodas de samba.



O esforço dos manauaras vai além da estética. Onde o poder público por vezes falha em entregar vias perfeitas, o morador responde com união. Os investimentos comunitários movimentam o comércio de bairro. Ambulantes, costureiras e pintores locais encontram nas ruas decoradas uma fonte de renda temporária. A resposta de Manaus para o mundo é o afeto. Em vez de apenas lamentar as dificuldades do trânsito diário, o povo limpa a própria calçada, pinta a própria rua e ergue os olhos para assistir aos jogos em comunidade. As "Ruas da Copa" provam que a maior riqueza da capital amazonense é a capacidade de seu povo de reinventar o próprio espaço com criatividade e orgulho.