sexta-feira, 15 de maio de 2026

A HERMENÊUTICA DE GADAMER E A TEOLOGIA DO BAIXO

 




Paolo Cugini

 

A hermenêutica filosófica de Hans-Georg Gadamer auxilia a teologia de baixo ao validar a experiência histórica e existencial do intérprete comum como o ponto de partida legítimo para a compreensão do texto sagrado. Enquanto a teologia de alto prioriza definições dogmáticas descendentes e pressupostos metodológicos rígidos, a teologia de baixo se desenvolve a partir da realidade concreta, das dores e das vivências cotidianas da comunidade. A obra do filósofo alemão, especialmente em Verdade e Método, fornece o arcabouço epistemológico necessário para fundamentar essa abordagem sem cair no subjetivismo arbitrário.

Na modernidade iluminista, os pré-conceitos ou pré-juízos eram vistos como entraves que precisavam ser eliminados para alcançar uma interpretação neutra. Gadamer subverte esse paradigma ao afirmar que os pré-juízos constitutivos da nossa historicidade são, na verdade, as condições iniciais que tornam qualquer entendimento possível. "Não é a história que nos pertence, mas nós é que pertencemos a ela. Muito antes de nos compreendermos a nós mesmos na reflexão, já nos compreendemos de uma maneira autoevidente na família, na sociedade e no Estado em que vivemos." (GADAMER, Verdade e Método)

Para a teologia de baixo, essa premissa é libertadora. Ela válida a realidade social, a pobreza, a exclusão e a cultura do leitor marginalizado não como barreiras para ler a Bíblia, mas como a única lente real através da qual Deus pode ser ouvido de forma viva. O ponto de partida de baixo deixa de ser um defeito interpretativo e passa a ser reconhecido como a própria condição ontológica da recepção da verdade revelada.

O conceito de fusão de horizontes descreve o encontro entre o horizonte histórico do texto (o passado) e o horizonte histórico do intérprete (o presente). Compreender não significa anular a si mesmo para viajar ao passado do autor, mas permitir que o texto questione a nossa própria realidade. Na teologia de baixo, o texto bíblico dialoga diretamente com as demandas comunitárias atuais. O significado teológico emerge justamente dessa tensão dialética, onde as perguntas do presente resgatam sentidos latentes nas Escrituras que uma exegese puramente técnica e fria ("de alto") jamais conseguiria desvelar.

Para Gadamer, a experiência hermenêutica é movida pela estrutura da pergunta e da resposta. Um texto só fala quando o intérprete o aborda com questionamentos reais criados pela própria vida. "Para poder perguntar, é preciso querer saber, isto é, saber que não se sabe." (GADAMER, Verdade e Método)

A teologia de baixo se caracteriza por interrogar a tradição cristã a partir das urgências existenciais mais cruas: o sofrimento, a desigualdade e a busca por justiça. A hermenêutica gadameriana assegura que essa postura inquisitiva é a atitude mais honesta diante da verdade, transformando o clamor que vem de baixo na força motriz de uma revelação teológica continuada e dinâmica.

 

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