segunda-feira, 18 de julho de 2022

UM MUNDO CRISTÃO DESMORONANDO

 



 

Paolo Cugini

Não existe mais o sistema que sustentava tudo, e é por isso que há uma sensação de vazio. Aquela estrutura cultural, o sistema cristão, que ao longo do tempo, ao longo dos séculos, havia criado ritos, formas de pensamento, um modo de vida pontuado por momentos religiosos, rapidamente desapareceu. Era um sistema que governava tudo, que dava sentido aos dias, às escolhas, nos mínimos detalhes. Nada se movia fora dele. Ao longo dos séculos o cristianismo se infiltrou no labirinto da cultura e da sociedade, que tudo falava dele, do cristianismo, tudo era profundamente cristão. Não só o assunto da vida corriqueira tornou-se inteiramente cristão, mas também a consciência humana, a ponto de, uma decisão, uma ação que estava fora da perspectiva cristã, causava um sentimento de culpa muito forte, uma dor no peito irresistível, a ponto de que se percebia a necessidade de confessá-lo, expulsá-lo do corpo, para continuar a viver pacificamente no mundo cristão. Tudo era cristão. Havia missa dominical, à qual toda a família compareceu. Havia a confissão mensal. Em todos os países havia o padre, figura fundamental na estruturação da vida social. E depois havia as precessões, as festas dos padroeiros, o catecismo para crianças e também para adultos. Toda a vida social era marcada pelo calendário do tempo religioso. Porque, em certo sentido, tudo era religioso. Os cavalheiros eram religiosos e os pobres também. Tudo remontava à religião: a distinção entre o bem e o mal, o justo e o injusto, o puro e o impuro. Era impossível viver fora do sistema religioso. Por isso, quem desobedecesse a um preceito religioso era severamente punido.

A sociedade era toda religiosa, era intrinsecamente religiosa. Cada cidade tinha sua própria igreja de culto e sua torre sineira que ditava os ritmos religiosos do dia. Era impensável que alguém crescesse sem o sentimento religioso, o desejo de fazer a vontade de Deus. Era impensável porque o medo do inferno, da condenação eterna, da alma para sempre imersa no fogo eterno, causava uma dor excruciante na consciência de quem ousava desobedecer aos mandamentos de Deus que, na verdade, eram os preceitos da igreja, que não é a mesma coisa. Lá estavam os senhores e os servos, os ricos e os pobres, os camponeses e os fazendeiros: todos estavam na missa ouvindo o padre que, do púlpito, xingava os pecadores e ameaçava a condenação eterna no inferno.

Tudo girava em torno da figura de Jesus, mesmo que ninguém o conhecesse. Este é o aspecto mais significativo da história do cristianismo ocidental, o paradoxo dos paradoxos, se quisermos colocar assim. Toda a civilização cristã foi construída na Idade Média, inspirada num personagem que o povo não teve a oportunidade de conhecer. A inspiração moldou uma narrativa que criou uma realidade, mas a fonte, ou seja, o Evangelho, não era acessível à maioria. Toda uma sociedade foi modelada durante séculos em torno da figura de Jesus, filtrada pela casta sacerdotal, pelos presbíteros, pelos bispos, pelo Papa, o sumo pontífice. Não tendo acesso às fontes, as pessoas podiam acreditar em qualquer coisa e, sobretudo, a casta sacerdotal podia impor qualquer coisa, como de fato aconteceu. Toda a sociedade, todo o mundo cristão, construído, modelado, inspirado por aqueles Evangelhos, que ninguém folheou e ninguém conhecia, que ninguém teve a oportunidade de ler, que nem mesmo a casta sacerdotal conhecia, senão algumas páginas. Nesse estado de ignorância coletiva, tudo podia ser repassado e passado como algo bom, religioso, vontade de Deus. Séculos de civilização cristã, que inspiraram uma copiosa produção literária e artística, filosófica e teológica, fundada na ocultação das fontes. Isso parce engraçado, mas é fortemente dramatico.

Talvez seja por isso que, uma vez que os evangelhos foram colocados nas mãos dos fiéis, os palácios da gloriosa civilização cristã começaram a ranger? Será que vai sobrar alguma coisa?