Paolo Cugini
O Antropoceno, conceito originalmente proposto pelo químico Paul Crutzen
para designar uma nova época geológica em que a humanidade se tornou uma força
planetária capaz de alterar os ciclos biofísicos da Terra, transformou-se em um
dos temas mais urgentes e férteis da reflexão filosófica contemporânea. A filosofia é provocada pelo Antropoceno
porque ele colapsa a histórica distinção ocidental entre História Humana (o
reino da cultura, da política e da liberdade) e História Natural (o reino dos
processos geológicos e biológicos deterministas). Se o ser humano agora escreve
a história das rochas, do clima e dos oceanos, a própria definição do que
significa ser humano precisa ser profundamente revista.
Por séculos, o pensamento moderno ocidental (fortemente influenciado por
figuras como René Descartes) operou sob a lógica de que o homem é um sujeito
separado de uma natureza mecanizada, a qual ele deveria dominar e explorar. Pensadores
contemporâneos apontam que essa ilusão de separação nos trouxe à crise
climática atual. O Antropoceno força a filosofia a adotar uma ontologia
relacional, onde os seres humanos são vistos como intrinsecamente enredados na
biosfera, dependentes e afetados por agentes não humanos (bactérias, oceanos,
vírus, correntes atmosféricas). Uma das
maiores críticas filosóficas e sociológicas ao termo Antropoceno é a sua
pretensa universalidade. Ao culpar o Anthropos (o ser humano genérico),
o conceito dilui responsabilidades históricas. Filósofos e ecologistas
políticos como Jason Moore e Andreas Malm sugerem o termo Capitaloceno. Eles
argumentam que a destruição do sistema Terra não é o resultado da biologia
humana em si, mas sim de um modo de produção específico: o capitalismo
globalizado, o colonialismo e a busca pelo lucro infinito. Povos indígenas e
comunidades tradicionais historicamente mantiveram modos de vida em simbiose
com a Terra, sendo injusto culpá-los igualmente pela pegada de carbono global.
O filósofo francês Bruno Latour tornou-se uma das referências centrais
nessa discussão. Em obras como Diante de Gaia, Latour propõe que
deixamos de ser meros humanos (seres abstratos que vivem flutuando sobre o
mundo) para nos tornarmos terrestres, radicalmente vinculados ao solo. A Terra
não é um cenário estático onde a história humana se desenrola. A Terra responde
ativamente às nossas provocações por meio de feedbacks sistêmicos (aquecimento,
acidificação de oceanos). A filosofia estuda essa reatividade sob o conceito de
Gaia, uma rede complexa de interações biológicas e geológicas que possui sua
própria agência e que não se curva à nossa governança tecnológica ou ao chamado
capitalismo verde.
O Antropoceno impõe um abismo temporal que desafia a nossa imaginação
ética tradicional. Geralmente, nossas decisões morais cobrem o tempo de uma ou
duas gerações. Responsabilidade com o
profundo: O plástico que descartamos e o dióxido de carbono que emitimos hoje
permanecerão registrados nos estratos geológicos por centenas de milhares de
anos. Filósofos éticos usam o Antropoceno para pensar na nossa responsabilidade
radical para com o futuro distante e com as espécies não humanas que estão
sendo extintas pelas nossas escolhas presentes.
Diante do colapso, surgem duas grandes correntes de pensamento
filosófico, como a Tecnofilia, uma visão que confia que a mesma razão técnica
que causou o problema pode consertá-lo através de manipulação climática
artificial, transição energética puramente corporativa ou maquiagem verde. A justiça
cosmopolítica, que é inspirada por pensadoras como Isabelle Stengers e Donna
Haraway, além de filosofias ameríndias como as reflexões de Ailton Krenak e
Davi Kopenawa no contexto brasileiro, essa vertente argumenta que a saída exige
adiar o fim do mundo mudando radicalmente nossos modos de existência. Trata-se
de descentralizar o ego humano e aprender a compor mundos com a alteridade
radical da Terra
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