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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

A crise dos fundamentos: o homem e a mulher na pós-modernos

 

A crise da fundação representa não apenas uma perda, mas também uma provocação cultural. Ela força homens e mulheres contemporâneos a escaparem da segurança de sistemas fechados e a confrontarem a complexidade da realidade.






Paolo Cugini

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A cultura pós-moderna em que vivemos apresenta um panorama complexo, permeado por múltiplas tensões, fragmentos e possibilidades. Dentre suas muitas nuances, uma das mais decisivas é certamente o que poderíamos chamar de crise de fundamentos. Esse termo se refere à perda da fé em um princípio estável, absoluto e universalmente reconhecível, capaz de sustentar a realidade, o conhecimento, a moralidade e a existência humana.

Para compreender o significado dessa transformação, precisamos analisar a modernidade. O pensamento moderno, de fato, tem sido marcado por uma busca apaixonada e, por vezes, exaustiva por um fundamento da realidade. De Descartes a Kant, de Hegel às grandes construções metafísicas e sistemáticas do século XIX, a filosofia moderna buscou a verdade objetiva, fundamentada em critérios seguros, racionais e indiscutíveis. O sujeito moderno buscou compreender o mundo, dominá-lo pela razão, ordená-lo segundo princípios claros e guiar a história rumo à sua plenitude.

Modernidade e o desejo por uma verdade incontestável

Descartes inaugura simbolicamente essa jornada ao buscar um ponto fixo, uma certeza capaz de resistir à dúvida. Seu famoso cogito não é meramente uma fórmula filosófica, mas a expressão de uma necessidade cultural: encontrar um princípio original a partir do qual reconstruir todo o edifício do conhecimento. Kant, embora abra uma profunda crise na metafísica tradicional, não abandona a busca pelas condições universais do conhecimento. Hegel, por sua vez, tenta conceber a realidade como uma totalidade racional, como um processo no qual o Espírito atinge progressivamente a plena autoconsciência. De maneiras diferentes, esses pensadores testemunham a força da modernidade: a convicção de que a razão pode acessar a estrutura profunda da realidade e indicar uma orientação estável para a ação humana. Mesmo quando a metafísica é criticada, como ocorreu com Kant, persiste o desejo de estabelecer o conhecimento, de distinguir o verdadeiro do discutível, o necessário do contingente, o universal do particular.

O pós-modernismo como uma crise da proposta moderna

A era pós-moderna pode ser interpretada como resultado da crise dessa poderosa proposição moderna. A fé em uma verdade única, objetiva e definitiva parece hoje enfraquecida. As grandes narrativas que pretendiam explicar o significado da história, da sociedade e da humanidade já não se impõem com a mesma autoridade. A razão não desaparece, mas perde seu caráter absoluto; a verdade não é necessariamente negada, mas é percebida como plural, frágil, situada, exposta ao diálogo e a interpretações conflitantes.

Nesse sentido, falar de uma crise de fundamentos significa reconhecer que está se tornando difícil identificar elementos objetivos e compartilhados capazes de orientar indivíduos e comunidades de forma estável. Não existe mais um centro claro em torno do qual organizar a experiência. A cultura parece fragmentada, atravessada por diversas línguas, identidades mutáveis ​​e valores frequentemente provisórios. O que antes parecia sólido agora se mostra fluido, mutável e reversível.

As questões da antropologia filosófica

Do ponto de vista da antropologia filosófica, esse clima cultural levanta questões cruciais. Se não é mais possível identificar um fundamento último da realidade, sobre quais valores podem homens e mulheres construir sua existência? Se verdades absolutas universalmente reconhecidas não existem mais, como podemos orientar nossas escolhas morais, emocionais, sociais e políticas? Se a história não se apresenta mais como uma jornada rumo a um objetivo comum, que sentido tem o compromisso diário?

Não é coincidência que, na cultura pós-moderna, se fale frequentemente do fim da história, do declínio das grandes ideologias e de uma vida imersa no presente. Os indivíduos contemporâneos parecem não mais habitar uma época guiada por uma forte promessa de futuro; em vez disso, vivem em um presente expandido, no qual as oportunidades se multiplicam, mas lutam para se transformar em planos. A liberdade aumenta, mas a incerteza também. A possibilidade de escolha se expande, mas os critérios para escolher parecem menos claros.

Homem e mulher na cultura pós-moderna

Que tipo de homem e mulher são apresentados pela cultura pós-moderna? Não mais, antes de tudo, sujeitos definidos por uma identidade compacta, um papel estável ou um senso definitivo de pertencimento. O homem pós-moderno é frequentemente descrito como um sujeito em movimento, chamado a se reinventar continuamente, a negociar sua própria identidade, a viver em redes de relacionamentos, consumo, comunicação e possibilidades em constante transformação.

Dessa perspectiva, filósofos como Gianni Vattimo, Zygmunt Bauman e Jürgen Habermas ofereceram interpretações diferentes, porém convergentes, reconhecendo que a condição contemporânea não pode mais ser compreendida com as categorias rígidas da modernidade clássica. Vattimo fala de pensamento fraco, isto é, uma razão que renuncia à pretensão de possuir o fundamento último e se abre à interpretação. Bauman descreve a modernidade líquida, na qual vínculos, papéis e instituições perdem consistência e permanência. Habermas, ao defender o valor da razão, insiste na dimensão comunicativa, dialógica e intersubjetiva como o lócus no qual se devem buscar critérios compartilhados.

Viver o presente sem perder o sentido.

A tarefa da antropologia filosófica, neste contexto, não é simplesmente lamentar o passado ou restaurar artificialmente fundamentos há muito contestados. Em vez disso, trata-se de compreender quais capacidades humanas devem ser cultivadas para habitar o presente de forma responsável. Se a existência não pode mais ser guiada por um propósito absoluto e universalmente imposto, torna-se essencial desenvolver a capacidade de discernir, dialogar, interpretar, escolher e assumir a responsabilidade pelas próprias decisões.

Segundo Bauman, os indivíduos contemporâneos tendem a não se identificar rigidamente com um papel, uma ideologia ou uma forma definitiva de pertencimento. Preferem permanecer livres, móveis e disponíveis para aproveitar o que o momento presente oferece. Essa liberdade, contudo, é ambivalente: pode levar à abertura criativa, mas também à precariedade existencial; pode fomentar a autonomia, mas também gerar solidão; pode libertar de restrições opressivas, mas também impedir a formação de laços profundos e duradouros.

O desafio, portanto, é vivenciar plenamente o presente sem reduzi-lo ao consumo imediato. O presente pós-moderno não deve ser apenas o locus das oportunidades a serem aproveitadas, mas também o espaço no qual responsabilidades, relacionamentos e significados amadurecem. Na ausência de fundamentos absolutos, o significado não pode simplesmente ser recebido de fora: ele precisa ser buscado, construído, compartilhado e continuamente reinterpretado.

A crise de fundamentos representa não apenas uma perda, mas também uma provocação cultural. Ela força homens e mulheres contemporâneos a escaparem da segurança de sistemas fechados e a confrontarem a complexidade da realidade. A pós-modernidade, com todas as suas ambiguidades, nos convida a vislumbrar uma existência menos segura, mas talvez mais consciente; menos ancorada em certezas indiscutíveis, mas mais aberta ao diálogo, à pluralidade e à responsabilidade.

 

sábado, 2 de dezembro de 2023

COMO FALAR DE DEUS NO MUNDO PÓS-MODERNO?

 



Paolo Cugini

 

 

Mudando a cultura e o contexto cultural deve mudar também a maneira de falar de Deus. Aquilo que aparece com sempre mais evidência é uma cultura da indiferença pela qual todas as posições são iguais, e nenhuma tem o direito de se impor as outras. É a Koiné da tolerância que está sempre mais se difundindo no quadro cultural do relativismo. Se os valores Ocidentais foram varridos pelo fracasso das grandes narrações da modernidade, então agora não existe mais nenhuma autoridade que possa se impor aos outros. Se Deus é colocado no ângulo das pertenças parciais e se é considerado relativo à uma cultura ou tradição, então tudo é colocado no mesmo patamar. Neste novo quadro cultural relativista que abre o caminho a toda forma de pluralismo os grandes problemas da sociedade se resolvem de forma democrática, no redor de uma mesa. A teoria da comunicação de Jürgen Habermas indica que, num debate tipicamente pós-moderno, onde nenhuma autoridade tem moral para impor aos outros a própria posição, o único caminho a ser percorrido consiste no dialogo da forma tal que tudo aquilo que é colocado deve ser entendido por todos. Isso quer dizer que, neste diálogo pós-moderno na busca de uma solução a um problema, qualquer discurso tipicamente religioso deve ser traduzido para que fique inteligível para todos os interlocutores.  

Aprender a dialogar de maneira não autoritária e agressiva, talvez seja um dos grandes desafios que a cultura pós-moderna está levando para o cristianismo, ou melhor, para o catolicismo. Vinte séculos de conversa arrogante exige uma conversão muito dura e difícil, mas necessária e possível, pois não se muda de um dia para o outro. Quem é acostumado a dialogar dando ordens de cima para baixo, tem dificuldade de fazer o pequeno exercício importante da escuta do outro.  É difícil porque por trás do catolicismo estão séculos de intolerância, da incapacidade atávica de lidar com o diferente, com ideias diferentes, com culturas diferentes. A história da Igreja Católica, nesta perspectiva, é assombradora porque é alastrada de paginas terríveis, de imposições de uma fé que exigiria a adesão pessoal, imposições amiúde violentas. Esta violência se tornou ao longo dos séculos herança maldita, forma cultural, mentalidade que moldou a maneira da Igreja se relacionar com o mundo. O filosofo italiano Gianni Vattimo, ao longo da sua obra, dedica diversas páginas para argumentar sobre a maneira da Igreja fazer teologia e como esta seja marcada por um cunho violento, devida a mesma metafisica assumida como esquema referencial. Um pensamento forte não pode que gerar argumentos agressivos e absolutistas, saindo de uma entidade que se acha dona da verdade e pouco disponível ao confronto. Passar séculos alimentando este estilo autoritário, esta maneira unilateral de considerar as coisas, cria um costume que se transforma em mentalidade, em jeito de ser.

A cultura pós-moderna está criando um clima onde não tem muito espaço por posturas arrogantes e autoritárias. Neste clima novo até uma instituição como a Igreja é destinada a mudar de tom se quiser veicular os próprios conteúdos. Hoje em dias não é mais possível falar de Deus com o dedo na cara, ou impondo uma moral. A cultura pós-moderna exige um discurso mais manso, delicado, atento ao interlocutor e, por isso, exige uma grande capacidade de escuta. Além do mais, nesta época pós-moderna é difícil pensar de anunciar o Evangelho somente esperando nos próprios perímetros os interlocutores, mas é necessário sair, entrando nos perímetros dos outros. Esta saída fora enfraquece a força dos argumentos e provoca a capacidade da escuta atenta e desinteressada, pois qualquer forma de interesse é considerada com suspeita. É preciso sair da complexidade das estruturas e amiúde dos documentos, para voltarmos á simplicidade dos evangelhos. Uma fé simples numa sociedade complexa: este é o grande desafio.

 Talvez estamos vivendo numa época que favorece mais do que nunca o estilo do Evangelho: é bom pensar nisso.

 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

A VIDA PÓS MODERNA COMO ESCUTA DA REALIDADE E FUGA NO PRESENTE

 




Como está se delineando a vida neste novo contexto cultural? Como viver numa realidade que não oferece mais um quadro de referência e orientação? Com quais critérios as pessoas podem tomar decisões importantes quando falta uma estrutura de valores fixa? Nesse nível do discurso, mais que apontar ideias certas e seguras, podemos humildemente esboçar algumas veredas que estão se apresentando no horizonte cultural pós-moderno.

Uma primeira mudança significativa consiste em buscar as soluções perante situações conflitantes, não mais se apoiando sobre sistemas metafísicos cuja fundamentação objetiva encontra-se no além, fora do mundo fenomênico e ao alcance da vida real, mas utilizando uma forma dialógica, sinodal. Como vimos nos parágrafos anteriores, uma característica fundamental da cultura pós-moderna consiste no fim da racionalidade metafisica, naquele tipo de mentalidade que buscava apoio para a confirmação das próprias decisões. O filósofo alemão Jürgen Habermas há anos vem desenvolvendo uma reflexão que busca uma nova objetividade para orientar as decisões a serem tomadas, sobretudo quando envolvem a sociedade, que não são mais fundamentadas numa ontologia de tipo metafisico, mas sim na busca de uma convergência entre as pessoas envolvidas na discussão. Na sociedade moderna, as religiões (e em especial o Cristianismo) estão num contraste crescente com as estruturas da racionalidade, que se emancipam e cada vez mais se diferenciam e se especializam. Habermas, do ponto de vista empírico, observa uma tendência à subjetivação e à privatização da fé, que perde a função de imagem do mundo capaz de fornecer uma interpretação unitária do ser e apresentar um sentido do todo, capaz de estabilizar as contingências inevitáveis, justificando-as à luz de um imperscrutável plano de salvação da humanidade e de todo o cosmos (HABERMAS, 1998). Com a passagem ao pensamento moderno, as interpretações religiosas do mundo, assim como acontece com todo passo evolutivo crucial, “são desvalorizadas no seu sistema categorial, seja qual for o seu conteúdo, uma vez que não é mais esta ou aquela razão que não convence, mas o tipo de razão utilizada” (HABERMAS, 1998, p. 89). A esses elementos de contraste com a racionalidade moderna, que são todos eles comuns também às concepções metafísicas do mundo, poder-se-ia acrescentar um outro, que é, por sua vez, específico das religiões: o fato de ligarem a interpretação global, indissoluvelmente verídica e normativa, a uma oferta de sentido capaz de propiciar consolo diante das situações individuais de negatividade insuperável uma tarefa que, segundo Habermas, a filosofia pós-moderna jamais assumiria.

Fora da igreja, fora do governo e fora da vida doméstica, existe um espaço para as pessoas discutirem sobre vida. Habermas chama isto de esfera pública onde ideias são examinadas, discutidas e argumentadas. O espaço dessa esfera pública tem diminuído sob a influência das grandes corporações e do poder da mídia. Uma implicação óbvia é que isto é uma estratégia de divisão e conquista. Um recente evento interessante é o surgimento da Internet como uma nova esfera pública. Habermas argumenta que qualquer um que usa a linguagem, presume que ela pode ser justificada em quatro níveis de validade:

a.                  Que o dito é inteligível, ou seja, a utilização de regras semânticas compreendidas pelos outros;

b.                 Que o conteúdo do que é dito é verdadeiro;

c.                  Que o emissor se justifica por certos direitos sociais ou normas que são invocadas no uso de idioma;

d.                 Que o emissor é sincero no que diz, não tentando enganar o receptor.

Isto é o que o Habermas classifica de comunicação não distorcida (HABERMAS, 2012, p. 134). Quando uma das regras é violada, ou seja, o locutor está mentindo, então a comunicação está distorcida. Esta teoria de comunicação tem muitas implicações, inclusive uma definição de verdade de caráter universal. E em cada um desses temas expressa-se a característica de Habermas, herança explícita da Escola de Frankfurt, isto é, a abordagem dita crítica a respeito das teorias, das ciências e do próprio presente, construindo, assim, um conhecimento engajado e revolucionário. Seguindo esse eixo e introduzindo uma nova visão a respeito das relações entre a linguagem e a sociedade, em 1981 Habermas publicou aquela que é considerada sua obra mais importante: A teoria da ação comunicativa.

Para Habermas a linguagem serve como garantia da democracia, uma vez que a própria democracia pressupõe a compreensão de interesses mútuos e o alcance de um consenso. Contudo, para que a linguagem assuma este papel democrático, no pensamento habermasiano é necessário que a comunicação seja clara. “O conceito do agir comunicativo pressupõe a linguagem como médium de uma espécie de processos de entendimento ao longo dos quais os participantes, quando se referem a um mundo, manifestam de parte a parte pretensões de validade que podem ser aceitas ou contestadas”. (HABERMAS, 2012, p. 191)

Para Habermas, a distorção de palavras e de sua compreensão impede uma comunicação efetiva, o consenso e, portanto, a prática efetiva da democracia. O uso correto das palavras, entretanto, só ocorreria quando fosse abandonado o uso exclusivo da razão instrumental – ou iluminista – a razão utilizada pelo sujeito cognoscente ao conhecer a natureza com o fim de dominá-la, ou seja, a confusão do conhecimento com a dominação, exploração e poder.  Dessa maneira, a razão torna-se um instrumento de uma ciência que, deixando de ser acesso a conhecimentos verdadeiros, torna-se meio de dominação e poder da Natureza e dos próprios seres humanos.  Dessa maneira, torna-se necessária uma razão que não seja instrumento de dominação, mas de democracia: a razão comunicativa. A razão comunicativa, além de compreender a esfera instrumental de conhecimentos objetivos, alcança a esfera da interação entre sujeitos, marcada por simbolismo e subjetivismo, experiências pessoais e a contextualização dialógica de agentes linguísticos. A prática da ação comunicativa não se limita apenas à busca do consenso da democracia, mas também é instrumento para pedagogia, filosofia e muitos outros campos da ação humana. (HABERMAS, 2014)

Outra mudança que nos chama atenção consiste na dificuldade de levar em frente as decisões tomadas, sobretudo aquelas que deveriam ser definitivas. É o para sempre que assusta. Essa mudança percebe-se folheando as páginas dos registros de matrimônio que se encontram nas paróquias: simplesmente despencaram. A mesma atitude se percebe nas vocações religiosas. Os conventos são vazios, os seminários também. Há algumas décadas, como nos ensinou o filósofo canadense Charles Taylor, a identidade pessoal era construída sobre convicções sólidas, alicerçadas em valores que pareciam eternos, inquebrantáveis. Hoje, esse modelo existencial não aguenta mais. O desmoronamento das metanarrações está nos mostrando o caráter fictício dos assim chamados valores eternos que, aos olhos do novo contexto cultural, não são tão eternos. O novo contexto cultural nos mostra que aquilo que era chamado de vocação, produzindo rios de escritos espirituais sobre este aspecto, na realidade trata-se de um fato sociológico. Até a chamada vocação religiosa é fruto de um contexto sociocultural. Esta análise não tira a bondade da existência de tantas pessoas que, ao longo dos séculos, abraçaram este específico estilo de vida, mas simplesmente é possível salientar, graças ao novo contexto que desmascara as construções culturais, que aquilo que era chamado de vocação com um sentido marcadamente espiritual e, por isso, algo que tinha uma proveniência extra fenomênica, que dava a este estilo de vida um marco de definitividade, é o fruto de um específico contexto cultural que molda também o mundo religioso. A fenomenologia da religião nos ensina há anos as interligações entre religião e os vários setores da sociedade (VAN DER LEEUW, 2017).

O fracasso dos sistemas produzidos, seja na época medieval, seja na modernidade, está desmascarando a alegada eternidade dos valores apontados. Esse aspecto abre o caminho para o niilismo de um lado e o relativismo ético do outro. Em âmbito religioso, niilismo e relativismo sempre foram marcados negativamente, mas escondem algo de positivo, que vale a pena analisar. Como nos alertava Nietzsche, o niilismo é a consequência do fim da metafísica, ou seja, daquela forma de pensar o mundo antecipando a realidade, para interpretá-la e colocá-la dentro de esquemas pré-constituídos. O niilismo, assim entendido, não aponta simplesmente o fim dos valores construídos na modernidade, mas indica também um novo caminho. O desmoronamento dos valores da modernidade revela uma maneira errada de abordar a realidade que, forçando a natureza, constrói um mundo e uma realidade fictícia, irreal, tornando a mesma existência irreal e, então, falsa. Dessa maneira, o niilismo não indica apenas o esvaziamento dos valores metafísicos, mas sobretudo, o desmascaramento de uma realidade construída sobre conjeturas. A cultura pós-moderna abre o caminho para uma nova maneira de se relacionar com a realidade, com o cosmo, enfim, uma maneira mais respeitosa. Não precisamos mais viver uma existência moldada em valores eternos, mas simplesmente buscando o bem corriqueiro que brota das relações humanas, do concreto viver. O sentido de valores se descobre vivendo no dia a dia, em contato direto com as pessoas e com a natureza. Acostumados a sacrificar o presente em prol de bens futuros, a sacrificar a vida real no altar do paraíso futuro, ficamos desnorteados perante esta perspectiva: não somos preparados e, por isso, não sabemos para onde ir, nem por onde começar. É estranho pensar que o homem e a mulher não estejam preparados para viver o presente, a realidade corriqueira, mas infelizmente é aquilo que percebemos. Vem à nossa mente as palavras pronunciadas por Nietzsche em “Assim Falou Zaratustra” quando, depois de ter anunciado a morte de Deus e a vinda do super homem, constatando o sarcasmo e a incompreensão das pessoas que escutaram a mensagem, se questiona se talvez o anúncio não foi adiantado demais. (NIETZSCHE, 2018).

Aprofundando o discurso, podemos nos questionar: o que significa viver no presente, escutar a realidade? Do ponto de vista geral, significa aprender a não antecipar o contato com o fenomênico, mas acolhê-lo assim como se oferece à consciência. O momento da elaboração racional deveria acontecer numa segunda fase. É isso que nos ensina o Papa Francisco, quando afirma que a realidade é mais importante do que a ideia.

 A ideia – as elaborações conceituais – está ao serviço da captação, compreensão e condução da realidade. A ideia desligada da realidade dá origem a idealismos e nominalismos ineficazes que, no máximo, classificam ou definem, mas não empenham. O que empenha é a realidade iluminada pelo raciocínio (FRANCISCO, 2016, n. 231-233).

O grande risco que acompanhou ao longo dos séculos o mundo ocidental é a possibilidade de viver um mundo artefato e, por isso, irreal. Os idealismos como construções racionais voltadas a sistemas que organizam a realidade, conforme princípios pré-constituídos, é uma forma de se defender da realidade, percebida como perigo. Este dado cultural é altamente paradoxal, pois nos alerta sobre uma cultura que se estruturou não para viver a realidade, mas para defender-se dela. Como nos lembrou Jean Luc Marion, um dos maiores fenomenólogos da atualidade: “O ser não pode ser pensado que no momento em que se oferece” (MARION, 2010, 46). Acolher o ser, como se manifesta no presente da história, é o único caminho para não deformar a realidade, moldá-la ao nosso gosto, subjugá-la para que realize os nossos desejos. É também, o único caminho que temos para experimentar a realidade que se manifesta no tempo presente. Antes der ser uma ameaça, é um dom.

A intuição de Papa Francisco acenada anteriormente, é bem visível no princípio da encarnação do Verbo. Depois da vinda de Jesus, não é mais possível falar de Deus sem se deparar com a realidade histórica do Verbo encarnado. É a realidade de Jesus que precede qualquer ideia ou ideologia sobre Deus. A teologia só pode ser reflexão a partir da escuta da realidade que se manifestou em Jesus e continua se manifestando através da ação do Espirito Santo na Igreja e fora dela. Quanta teologia foi produzida sem levar em conta este princípio fundamental do Cristianismo. Muita teologia não foi nada mais que ideologia a serviço de interesses particulares. Ainda hoje, toda vez que uma teologia se declara em defesa de valores eternos, imóveis, inalteráveis, fixos uma vez por todos, está se colocando fora da realidade de Jesus, que viveu uma dinâmica histórica feita de nascimento, existência concreta, relações humanas, morte e ressureição. Acompanhar a realidade da encarnação do Verbo significa a humildade de depor as armas filetadas das ideologias cômodas elaboradas num escritório, para se colocar a serviço da vida, que é dinâmica, em movimento e, por isso, sujeita à mobilidade. 

No plano da vida social, a tentativa de viver a realidade presente deveria significar elaborar uma política, uma economia não como projeção de cálculos que devem demostrar um sistema previamente elaborado, mas sim levando em conta as reais condições das pessoas. Como nos lembra o economista francês Thomas Piketty, a desigualdade social é interligada ao sistema econômico dominante (PIKETTY, 2015). Uma economia, que não leva em conta a realidade e o contexto social das pessoas, não pode produzir uma proposta solidária, de partilha entre todos e, ao mesmo tempo, uma política que ajude as pessoas a viverem bem. Enquanto a justiça, o bem e a solidariedade forem considerados conceitos, ideias abstratas, continuaremos a viver mal, a produzir monstros e a destruir o planeta. Mas agora, quando estamos assistindo ao desmoronamento das projeções dos sistemas elaborados no passado, desmoronamentos bem visíveis na eterna crise econômica, na crescente desigualdade social, no contundente colapso ecológico, é possível mudar de rumo, deixando de elaborar projeções que passam por cima da realidade para finalmente focar o nosso interesse no bem da humanidade na sua totalidade, que abrange também o mundo animal e o mundo material. É ainda este desmoronamento que está manifestando a verdade das economias e das políticas produzidas na modernidade, que se revelam ideologias a serviço não da vida do povo, mas de interesses particulares de poucos.

Nesta fase intermediária, que gera ansiedade e insatisfação pela incapacidade de encontrar novas resposta que oriente a vida, a tentação existencial é a fuga. A relativização dos valores absolutos e a perda de sentido do fim, provoca como consequência um esmagamento existencial no presente. Nesse sentido, a tentação da fuga, que acompanha a fantasia da geração pós-moderna, não é num mundo fantasioso, como poderia ter sido na época moderna, mas, pelo contrário, trata-se de uma fuga no tempo presente, um mergulho em tudo aquilo que pode oferecer o instante atual, liberado de toda forma de estrutura metafisica, que forçava a existência e a coletividade a projetar-se num mundo futuro a detrimento do tempo presente. Não é um caso que encontramos, logo após a queda do muro de Berlim, considerado por muitos pensadores como um dos eventos que marcaram o fim da época moderna (VATTIMO, 2002), alguns assim chamados profetas da pós-modernidade que falaram de fim da história (FUKUJAMA, 1992) e do fim da era das utopias (FEST, 1992). Faltando uma estrutura metafísica que justifique valores transcendentes, toda a atenção é dada àquilo que o tempo presente pode oferecer. Enquanto, num tempo, as pessoas se apoiavam sobre valores eternos partilhados pela comunidade, que ajudava as pessoas a levar em frente por toda a vida as decisões tomadas na juventude, agora esse esforço de fidelidade parece sem sentido. Ninguém, de fato, quer mais sacrificar o presente por algo que não se percebe e talvez não exista mesmo. O mundo dos valores espirituais, que fundamentavam as decisões da época moderna, deixa livre o campo para aproveitar ao máximo aquilo que a realidade presente oferece. Essa mudança radical de perspectiva, incide, também na estruturação da identidade pessoal. Bauman sustenta que, no mundo líquido, como ele define a cultura pós-moderna, não é mais possível agarrar-se num único tipo de identidade, como acontecia na modernidade. A rapidez de mudanças do mundo líquido exige a capacidade de um grande espirito de adaptação. O risco é ficar de fora e tornar-se inatual, fora do tempo e do lugar (BAUMAN, 2005).

A inquietação provocada pela rapidez das mudanças torna difícil se apegar a uma única opção de vida e, sobretudo, a levar em frente essa única opção pela vida toda. Papa Francisco, em várias circunstâncias[1], alertou os fiéis sobre a tentação de viver uma vida dupla, seja no matrimônio, seja na vida religiosa. A frustração causada por uma escolha que não satisfaz mais, leva a pessoa a buscar outro caminho mantendo válida, porém, a primeira escolha. Tudo isso, é causado pela necessidade de salvar de um lado a aparência social, do outro, a não causar uma fratura na identidade forte, que exige uma continuidade com as escolhas tomadas. Essa necessidade de salvar a aparência típica da cultura moderna, brota da necessidade de permanecer fiel à única possibilidade de vida escolhida. Talvez seja esse um dos limites daquela proposta que exige das pessoas uma identificação única, pela qual o ser da pessoa é identificado com a tarefa que assume no contexto social em que vive. Se de um lado esta proposta, que moldou o ocidente por muitos séculos, facilita a vivência numa específica sociedade, que assim permite classificar as pessoas e identificá-las, do outro lado, essa identificação, tão estrita, aperta demais a existência, sufocando a liberdade das pessoas, que se sentem forçadas a viver no único modelo escolhido. A fuga desse modelo existencial era, anteriormente, considerada um ato desafiador pela inteira sociedade, porque se sentia questionada no seu alicerce moral. No novo contexto cultural, não apresenta notas tão negativas. De fato, a pós-modernidade, concentrando-se na vida real do tempo presente, ajuda a aliviar a pressão de salvar, a qualquer preço, escolhas que, com o passar do tempo, perdem sentido, visando verificá-las continuamente, buscando novos sentidos a partir das mudanças vivenciadas. Viver no presente significa abandonar as fáceis seguranças oferecidas pelos horizontes metafísicos, mas que lentamente esvaziam o sentido de escolhas realizadas e nunca atualizadas, em prol da coragem de levar responsavelmente em frente a própria vida, renovando em cada momento o rumo da existência pessoal. Nesse sentido, a fuga na realidade como paradigma da pós-modernidade, longe de ser algo negativo, apresenta aspectos positivos. É verdade que uma vida esmagada na realidade presente, perdendo um horizonte de vida mais abrangente, corre o perigo constante de uma deriva materialista. Famosas são, a este respeito, as páginas de Bauman quando analisa o vazio que o consumismo está gerando no mundo líquido. Sem pontos referenciais aos quais se apoiar, a vida pessoal, acostumada a se escorar neste apoio estrutural, preenche sempre mais o vazio com a matéria (BAUMAN, 2008). É também verdade, porém, que o esforço de acolher a realidade como um dom, aprendendo a viver no presente da história permite resgatar aqueles elementos da vida que a tradição ocidental deixou de lado e muitas vezes menosprezou. Talvez seja nesta época que o dionisíaco e o apolíneo podem voltar a viver em harmonia, sem querer que um prevaleça sobre o outro. Uma harmonia alcançada como fruto de uma atenta escuta da realidade mergulhada no presente da vida, mas não esmagada nele. A fuga na realidade presente não significa esquecimento do passado nem recusa de pensar o futuro. Pelo contrário, aprender a escutar a realidade para acolher os dons que ela traz consigo, significa valorizar a experiência que vem do passado, porque no presente da história encontramos traços significativos do tempo que foi. Ao mesmo tempo, a vida no presente, contextualizada na comunidade em diferentes níveis de pertencimento, ajuda a assumir a responsabilidade que as relações humanas exigem. Caminhar no presente da história, levando consigo os ensinamentos do passado rumo a uma meta que não está planejada de antemão, mas que é construída dia após dia, é o sentido desse itinerário. Trata-se, então, de uma fuga do mundo irreal planejado com antecedência, que não permite às pessoas viverem o presente, para finalmente poder sentir na pele o ar da vida real. Mais uma vez, é a este nível que é possível reconstruir a antiga harmonia de apolíneo e dionisíaco,  sentimento e racionalidade, espírito e matéria. É esta harmonia que, respeitando profundamente a realidade da nossa estrutura antropológica, nos ajuda a saborear a novidade que a realidade manifesta a cada dia no tempo presente.



[1] Na homilia do 5 de maio 2017, na capela de Santa Marta, o Papa Francisco falou: “São os rígidos de vida dupla: se mostram belos, honestos, mas quando ninguém os vê, fazem coisas feias. Ao invés, este jovem era honesto, acreditava nisso. Quando falo disso, penso em muitos jovens que caíram na tentação da rigidez, hoje, na Igreja. Alguns são honestos, são bons, devemos rezar para que o Senhor os ajude a crescer no caminho da mansidão”. É interessante notar a ligação intrínseca entre rigidez, típica da formação da cultura moderna, e vida dupla produto negativo da mesma.