Paolo Cugini
A Teologia das margens
encontra suas raízes históricas e teológicas mais profundas no período da Patrística.
Embora o termo "margem" seja contemporâneo, os Padres da Igreja do
Oriente e do Ocidente formularam uma contundente crítica socioeconômica ao
Império Romano. Eles colocaram o pobre, o órfão, a viúva e o estrangeiro no
centro do mistério eclesial e litúrgico.
Para esses teólogos
primitivos, os marginalizados não eram meros objetos de caridade
assistencialista, mas personificações do próprio Cristo sofredor. A injustiça
social era denunciada como uma quebra do plano criacional de Deus.
1. O Destino universal dos bens
em Ambrósio de Milão
Santo Ambrósio de Milão (339–397) foi um dos mais radicais defensores da
justiça social no Ocidente. Em seu tratado De Nabuthe Jezraelita (Sobre
Nabote de Jezrael), Ambrósio utiliza a narrativa bíblica do rei Acabe, que
confisca a vinha do camponês Nabote, para atacar o acúmulo egoísta de riquezas
de sua própria época.
Ambrósio subverte a lógica da
propriedade privada absoluta ao afirmar que a terra foi criada para o uso comum
de todos. Quando o rico partilha com o pobre, ele não realiza um ato de
generosidade opcional, mas devolve o que por direito de criação já pertencia à
coletividade.
2. A Liturgia do pobre em João
Crisóstomo
Conhecido como o "Boca de
Ouro" por sua eloquência, São João Crisóstomo (347–407) desenvolveu
uma teologia urbana voltada para as massas marginalizadas de Antioquia e
Constantinopla. Crisóstomo cunhou o conceito teológico do "Sacramento
do Irmão", correlacionando diretamente a reverência ao altar e o
cuidado com o faminto.
Ele argumentava que é uma
contradição hipócrita adornar a igreja com cálices de ouro e sedas finas
enquanto o corpo de Cristo encarnado nas sarjetas morre de frio e fome.
- Homilia 50 sobre o Evangelho de Mateus: Crisóstomo adverte de forma contundente: "Queres
honrar o corpo de Cristo? Não o desprezes quando o vires nu. Não o honres
aqui no templo com tecidos de seda, para depois o abandonares do lado de
fora, onde ele sofre o frio e a nudez" (PG 58, 507).
- Homilia 21 sobre a Primeira Epístola aos Coríntios: Ele aponta a esmola e a partilha como deveres
estruturais de justiça e correção socioeconômica, combatendo o pecado da
acumulação injusta.
3. A Função Social da Riqueza
em Basílio de Cesareia
No Oriente, São Basílio de
Cesareia (329–379) enfrentou crises severas de fome na Capadócia. Sua
resposta uniu a teorização teológica à práxis concreta por meio da criação da Basilíade.
Esse complexo arquitetônico nas margens da cidade funcionava como hospital,
hospedaria e centro de distribuição de alimentos para desabrigados e enfermos.
Em sua famosa Homilia sobre
a Riqueza (Homilia in Divites), Basílio argumenta que os bens
materiais se assemelham à água de um poço: se ninguém a retira, ela apodrece;
se é distribuída, mantém-se pura e abundante.
- Homilia 7 contra a Avareza: Basílio afirma que o pão que guardas na
dispensa pertence ao faminto; a túnica mofada no teu armário pertence ao
homem que está nu; os sapatos que apodrecem na tua gaveta pertencem ao
descalço (PG 31, 277).
- Teologia da Criação: Para Basílio, o acúmulo desmedido transforma o ser humano em um
"ladrão" social, pois retém para si o que Deus destinou à
subsistência da comunidade humana em geral.
4. O Impacto Eclesiológico
Contemporâneo
O resgate dos textos
patrísticos ao longo do século XX — impulsionado principalmente pelo movimento
europeu de retorno às fontes primitivas (Ressourcement) — forneceu a
base acadêmica para as teologias sociais contemporâneas. O foco na centralidade
dos marginalizados e na dignidade humana, amplamente defendido pelos primeiros
Padres, redefiniu o entendimento da missão da Igreja e a própria conceituação
teológica de ortodoxia.
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