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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O tempo das migalhas e o julgamento sobre a cidade

 


Existe uma relação muito estreita, quase sacramental em sua perversão, entre a corrupção política e o desinteresse do público pelo bem comum. Políticos corruptos prosperam na ignorância, especialmente na ignorância imposta aos pobres.




A campanha política no bairro Compensa de Manaus

Paolo Cugini

 

 

O período de campanha política é um tempo de revelação. É o momento em que a máscara cai, quando vemos o que, em anos normais, é varrido para debaixo do tapete da propaganda, das promessas vazias e das fotos sorridentes. É o momento em que entendemos como as coisas realmente são: de um lado, candidatos tentando comprar a consciência do povo com migalhas; do outro, um povo que, após anos de negligência, foi educado para sobreviver com migalhas, para ser grato pelo que deveria ser um direito, para vender seu futuro por um favor momentâneo.

Esta é a tragédia de cidades feridas como Manaus: não é a falta de dinheiro, é a falta de visão. Não é a falta de orçamento, é a falta de um plano urbano. É a falta de diálogo, é a falta de objetivos claros capazes de empoderar a população para viver com dignidade. E quando uma cidade não tem um plano, as pessoas se tornam uma massa a ser governada, um número a ser contado, um voto a ser conquistado, uma pobreza a ser preservada.

Existe uma relação muito estreita, quase sacramental em sua perversão, entre a corrupção dos políticos e o desinteresse do público pelo bem comum. Políticos corruptos se alimentam da ignorância, especialmente da ignorância imposta aos pobres. Eles não querem cidadãos: querem dependentes. Não querem pessoas livres: querem mãos estendidas. Não querem bairros organizados e conscientes, capazes de reivindicar; querem comunidades cansadas, amedrontadas e divididas, obrigadas a pedir como favor o que a justiça deveria garantir como direito.

Quanto mais pobreza existe, mais terreno fértil a corrupção encontra. E quanto mais a corrupção governa, mais pobreza é produzida, mantida e administrada. A política corrupta não combate a pobreza: ela a explora. Não liberta os pobres: mantém-nos em cativeiro. Não constrói condições de dignidade: distribui migalhas em anos eleitorais, para que a fome enfraqueça a memória e a necessidade enfraqueça a liberdade.

Vamos dar uma olhada no bairro da Compensa, em Manaus. Basta olhar para ele sem desviar o olhar. Um bairro cortado ao meio por um canal de esgoto com quilômetros de extensão, em cujas margens vivem centenas de famílias e, consequentemente, milhares de pessoas. Durante as chuvas, a água suja invade as casas, trazendo mau cheiro, doenças, humilhação e medo para dentro dos lares. Notícias recentes relataram mais uma vez o transbordamento do igarapé e as inundações na região da Avenida Brasil, evidência de um problema recorrente que já não pode ser considerado uma emergência: o abandono de imóveis.



No entanto, nos últimos anos, quantas vezes os políticos entraram nessas casas sem precisar pedir votos? Quantas vezes caminharam ao longo daquele canal não para fazer promessas, mas para ouvir, avaliar, planejar e resolver? Quantas vezes olharam nos olhos das mães que limpavam lama e esgoto do chão, das crianças que cresciam respirando o que uma cidade decente não deveria permitir, dos idosos que esperavam não por uma visita eleitoral, mas por políticas públicas? Nunca!

Compensa carece de espaços públicos para a vida comunitária. Faltam locais para a realização de eventos, para a promoção da saúde, cultura, encontros, educação e esportes. Por isso, as pessoas batem às portas da Igreja. A Igreja as abre, porque não pode fechar o coração às necessidades das pessoas; mas se recusa a ser explorada, usada como palco ou ridicularizada, especialmente durante o período eleitoral. Há anos, a comunidade eclesial abre seus espaços para projetos de saúde para adultos, arcando com os custos, as responsabilidades e os esforços. Por outro lado, as autoridades públicas não constroem espaços adequados para acolher esses projetos, apesar dos recursos disponíveis.

Não se trata de falta de dinheiro. Para 2025, o orçamento municipal de Manaus foi projetado em aproximadamente 10,5 bilhões de reais, com recursos destinados a áreas como educação, saúde e planejamento urbano. Assim, a questão se torna profética e urgente: se o dinheiro existe, onde estão os projetos que devolvem a dignidade aos bairros? Se o orçamento existe, onde está a cidade? Se os valores chegam a bilhões, por que a população continua recebendo apenas migalhas?

No bairro de Compensa, não há uma quadra publica esportiva suficiente para que os jovens possam praticar esportes, aprender disciplina, descobrir talentos e se manter longe da violência e das drogas. Não há um espaço digno para lamentar os mortos, porque até mesmo a dor dos pobres parece indigna de infraestrutura, respeito, silêncio ou rituais. E quando uma cidade não oferece espaços para viver, brincar, se curar, se encontrar e até mesmo chorar, essa cidade está dizendo às suas crianças mais pobres: vocês não importam.

Mas ai da cidade que se acostuma a essa blasfêmia civil! Ai da cidade que transforma direitos em favores, cidadania em clientelismo, o voto em mercadoria, a pobreza em instrumento de governo! Ai daqueles que governam e só aparecem nos subúrbios quando precisam do povo, porque chegará o dia em que o povo exigirá responsabilidade não pelas palavras proferidas no palco, mas pelos esgotos que invadiram as casas, pelos campos nunca cultivados, pelos espaços nunca concebidos, pela dignidade negada.



O período de campanha política deve ser um tempo para discernimento, não para o mercado. É hora de dizer não às migalhas. Chega de políticos que visitam os pobres sem amá-los, que usam a Igreja sem respeitá-la, que prometem projetos sem planejar as cidades, que distribuem favores para encobrir injustiças. Manaus não precisa de candidatos generosos com dinheiro público em época de eleição: precisa de líderes justos, capazes de ouvir, planejar, construir e prestar contas.

Porque uma cidade não será julgada pelo tamanho de seus orçamentos, mas pela dignidade de seus bairros. Não será julgada pelas luzes de seu centro, mas pela escuridão de seus subúrbios. Não será julgada por manifestações, mas por casas alagadas com água suja. E se a política continuar oferecendo migalhas, então o povo finalmente terá que se levantar da mesa da humilhação e dizer: não queremos mais migalhas, queremos justiça.

 

 

sábado, 29 de agosto de 2026

A campanha eleitoral da incivilidade

 

Durante as horas em que as pessoas voltam para casa cansadas do trabalho, após dias muitas vezes exaustivos, os candidatos enviam seus apoiadores para as ruas como se a cidade fosse propriedade privada.

 



Paolo Cugini

 

Há algo insuportável, e francamente vergonhoso, na forma como certos candidatos estão ocupando as ruas durante a campanha política deste ano. Não se trata apenas de propaganda barulhenta, bandeiras agitadas nos semáforos ou alto-falantes tocando em volumes indecentes. Trata-se de uma ideia específica de política: arrogante, intrusiva, grosseira. Uma política que exige atenção não com a força das ideias, mas com a perturbação organizada; não com respeito aos cidadãos, mas com o cerco ao espaço público.

Durante as horas em que as pessoas voltam para casa cansadas do trabalho, após dias muitas vezes exaustivos, esses candidatos enviam seus apoiadores para as ruas como se a cidade fosse propriedade privada. Bandeiras, slogans, alto-falantes, marchas improvisadas, engarrafamentos, buzinas, caos. Enquanto isso, trabalhadores, famílias, idosos, estudantes e aqueles já exaustos pela rotina diária permanecem presos em filas sem sentido, criadas não por uma emergência, não por um serviço público, não por uma necessidade coletiva, mas pelo ego eleitoral daqueles que querem ser vistos a todo custo.

Esse comportamento não é um detalhe folclórico da campanha eleitoral. É um teste moral. É um teste inicial de governança. Porque se um candidato, mesmo antes de ser eleito, demonstra incapacidade de respeitar o descanso, o tempo e a paciência dos cidadãos, então devemos nos perguntar seriamente o que ele fará quando chegar ao poder. Se hoje ele já considera normal transformar as ruas em um palco barulhento para sua própria ambição, será ele realmente capaz de governar a cidade com equilíbrio, escuta e responsabilidade amanhã?

 


A política deveria começar com respeito. Deveria ser sobre educação para a convivência, a capacidade de organizar a participação sem atropelar os outros, atenção concreta à vida real das pessoas. Em vez disso, testemunhamos um triste desfile de arrogância disfarçado de entusiasmo popular. Eles fingem falar sobre o futuro enquanto arruínam o presente daqueles que estão simplesmente tentando chegar em casa. Prometem ordem, desenvolvimento, segurança e qualidade de vida, enquanto, em vez disso, produzem desordem, barulho, estresse e desrespeito.

O problema é ainda mais sério porque esses candidatos não apenas se comportam mal: eles ensinam seus apoiadores a se comportarem mal. Eles os empurram, aberta ou tacitamente, pelo caminho da incivilidade. Eles os autorizam a ocupar espaços, a perturbar, a se impor, a confundir a participação democrática com a invasão arrogante da vida de outras pessoas. E é precisamente aqui que a questão se torna política no sentido mais profundo: aqueles que não sabem como guiar seus apoiadores para o dever cívico, como podem guiar uma comunidade inteira?

Não basta encher a boca com palavras como cidadãos, bem comum, democracia e participação. As palavras, quando contraditas pelo comportamento, tornam-se ruído. E já há ruído demais nesta campanha eleitoral. O candidato verdadeiramente credível não é aquele que grita mais alto, não é aquele que bloqueia mais cruzamentos, não é aquele que transforma cada rua numa plataforma improvisada. O candidato credível é aquele que sabe dizer aos seus apoiantes: façam-se ouvir, sim, mas sem perturbar; participem, sim, mas respeitem aqueles que não querem ou não podem ouvir; apoiem ideias, mas não pisoteiem a cidade.

Uma cidade não é um megafone. Uma rua não é uma comissão eleitoral. A paciência dos cidadãos não é material a ser consumido para ganhar alguns votos. Qualquer pessoa que aspire a governar uma comunidade deve demonstrar, desde o início, que sabe respeitá-la até aos mais simples detalhes: trânsito, silêncio, horários, o direito de voltar para casa sem ser refém da propaganda. Esses são detalhes apenas para quem não tem ideia do que significa viver nas cidades; para os cidadãos, no entanto, eles representam qualidade de vida.

É por isso que seria necessário avaliar os candidatos também sob essa perspectiva, a partir desses comportamentos aparentemente marginais, mas na verdade reveladores. A ética pública não começa depois das eleições: começa durante a campanha eleitoral. Começa na maneira como você pede votos, na maneira como ocupa o espaço comum, na maneira como trata aqueles que não pertencem à sua base política. Se você está disposto a irritar, atrapalhar e perturbar os cidadãos para obter consenso, então esse consenso já está contaminado por uma compreensão deficiente do poder.

Precisamos de candidatos capazes de dar o exemplo, não de fomentar a desordem. Precisamos de pessoas que demonstrem senso cívico antes mesmo de pedir confiança. Precisamos de um sistema político que possa falar com firmeza, mas também com educação; que possa mobilizar, mas sem arrogância; que possa engajar, mas sem transformar a cidade em um campo de batalha barulhento.

Aqueles que não respeitam os cidadãos enquanto pedem seus votos dificilmente os respeitarão depois de obtê-los. Portanto, o melhor é dizer isso claramente, até mesmo com raiva: uma campanha eleitoral incivilizada não é apenas irritante, é um sinal de alerta. É o primeiro indício de um sistema político que não ouve, não entende e não respeita. E tal política não merece aplausos, não merece confiança, não merece consenso. Merece apenas ser julgada pelo que é: uma terrível lição de grosseria pública.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Fé, política e consciência: a paróquia a caminho da votação


 Como já é tradição, durante os anos de eleições políticas, a paróquia de San Vincenzo de Paoli na Compensa de Manaus realiza um trabalho de sensibilização através do Movimento Fé e Política.

 

Paulo Cugini

 

 

Como já é tradição em anos eleitorais, a paróquia de São Vicente de Paulo optou por caminhar ao lado do povo, percorrendo as ruas do bairro Compensa, em Manaus, e promovendo pacientemente a conscientização e a divulgação da mensagem. O objetivo não é promover um partido político ou um candidato, mas sim ajudar as pessoas a redescobrirem o valor do voto como um ato de responsabilidade, liberdade e preocupação com o bem comum.

O caminho foi pavimentado por meio de uma série de reuniões comunitárias, nas quais estudamos as diretrizes políticas elaboradas pela Arquidiocese de Manaus. Essas diretrizes incentivam os eleitores a fazerem escolhas informadas, avaliando a trajetória dos candidatos, sua integridade pública, seus antecedentes criminais limpos, em conformidade com o espírito da lei Ficha Limpa, e, sobretudo, sua presença genuína na vida da comunidade. Um candidato não deve apenas aparecer durante o período de campanha: sua credibilidade provém de sua trajetória, compromisso visível e proximidade tangível com as pessoas.

 

O perigo sempre presente é que indivíduos corruptos, ligados a interesses privados, grupos econômicos obscuros, tráfico de drogas ou crime organizado, sejam eleitos. Quando a política se torna uma ferramenta para enriquecimento pessoal ou para a proteção de poderes criminosos, os mais pobres pagam o preço mais alto. Faltam recursos para escolas, saúde, moradia, segurança e todas as políticas públicas que poderiam melhorar o cotidiano da população.

Neste ano, no primeiro domingo de outubro, o Brasil irá às urnas para eleger o Presidente da República, governadores estaduais, deputados federais e deputados estaduais. É um momento decisivo, pois a votação não se trata apenas dos nomes que ocuparão os cargos, mas do projeto de sociedade que queremos construir. As escolhas políticas impactam a vida concreta das famílias, a distribuição de recursos, a proteção da Amazônia, a dignidade do trabalho e a possibilidade de um futuro mais justo para os jovens.

O contraste entre os privilégios da política e a realidade da maioria da população é um dos aspectos que mais fere a consciência. Segundo informações publicadas na imprensa local, no Amazonas, discutiu-se um subsídio mensal para deputados estaduais no valor aproximado de 34.774 reais; outras reportagens apontaram pagamentos maiores e disputas sobre os valores recebidos. Mesmo considerando os valores menores, a disparidade permanece evidente em comparação com aqueles que vivem com salário mínimo, insuficiente para suprir integralmente as necessidades básicas de uma família. Essa desproporção nos ajuda a compreender por que a política não pode ser encarada como uma carreira de privilégios, mas sim como um serviço público a ser exercido com sobriedade e transparência.

 

A desigualdade social continua sendo um grande problema no Brasil. Estamos falando de um país rico em recursos naturais, culturais e humanos, mas ainda marcado por profunda pobreza, famílias vivendo em condições desumanas, periferias negligenciadas e comunidades lutando diariamente pelo acesso a direitos básicos. Nesse cenário, o voto não pode ser tratado como moeda de troca. Vender o voto significa entregar o próprio futuro àqueles que, depois de eleitos, muitas vezes desaparecem das ruas e das comunidades que prometeram defender.

Por isso, estamos comprometidos, com humildade, mas também com determinação, a tentar mudar a situação, ao menos incentivando as pessoas que encontramos no bairro da Compensa a não venderem seu voto, mas a se informarem, dialogarem, compararem propostas e escolherem pessoas honestas, competentes e próximas da realidade do povo. A consciência política nasce da escuta e da proximidade: constrói-se por meio de visitas, conversas em frente às casas, reuniões comunitárias e grupos de jovens e adultos que desejam um Brasil mais justo.

É maravilhoso ver jovens e adultos unidos nesta obra do Movimento Fé e Política. A fé, quando autêntica, não fecha os olhos à realidade, mas ensina responsabilidade, participação e a defesa da dignidade dos pobres. A política, quando vivida como serviço, pode se tornar um espaço de transformação social e esperança. Nossa tarefa, como comunidade cristã, é ajudar as pessoas a compreenderem que votar é um ato moral, um gesto que diz respeito à justiça, à paz e ao futuro das próximas gerações.

Em tempos marcados pela corrupção, violência e desconfiança nas instituições, escolher com sabedoria torna-se uma forma concreta de resistência. Não podemos mudar tudo sozinhos, mas podemos semear a consciência. Podemos ajudar uma pessoa a não vender o seu voto, uma família a discutir assuntos com mais clareza, um jovem a compreender que a política não é apenas um lugar de escândalos, mas também um lugar onde se decide se a vida dos pobres será respeitada ou esquecida. É a partir destas pequenas sementes que pode crescer uma sociedade mais fraterna, mais transparente e mais fiel ao Evangelho da justiça.

 

 

segunda-feira, 31 de março de 2025

O VERGONHOSO ESPETACULO DO ASSENTEISMO DOS VEREADORES DE MANAUS

 



No centro o vereador José Ricardo organizador do evento


Paulo Cugini

Na última semana aconteceram duas audiências públicas na Camara dos Vereadores de Manaus. A primeira, realizada no dia 27 de março 2025, na ocasião da apresentação da Campanha da Fraternidade com o tema: Ecologia Integral. Entre as várias autoridades presentes e os representantes de alguns movimentos sociais, que atuam na cidade, estava o cardeal de Manaus dom Leonardo Steiner. Nesta ocasião somente dois vereadores se fizeram presente: José Ricardo e Pai Amado. 

O segundo evento realizado no dia 31 de março, foi uma audiência pública articulada pelo vereador José Ricardo, para debater sobre a cobrança da tarifa de esgoto. Tema, este, de grande importância pela população que, em vários casos, como foi relatado por alguns moradores presente na Camara, recebem o boleto para o pagamento da taxa, mas sem receber o serviço. Neste evento os vereadores presentes foram cinco: José Ricardo, Pai Amado, Rodrigo Guedes, Paulo Tayrone, Sergio Baré. 

Nas últimas eleições municipais, que aconteceram o ano passado, foram eleitos 41 vereadores. Come se encontra no site do Tribunal Superior Eleitoral: “Cada vereador é eleito de forma direta, pelo voto, tornando-se um representante da população. Por isso, deve propor projetos que estejam de acordo com os interesses e o bem-estar do povo”. Este é o ponto delicado sobre o qual quero chamar a atenção. 

Membros do Movimento fé e cidadania da paróquia São Vicente de Paulo
presentes ao evento

Todos nós lembramos o grande trabalho realizado o ano passado pelos candidatos a vereadores, que fizeram de tudo para serem eleitos. Muitas foram as promessas pronunciadas nos comícios. Muitas, também, as apertadas de mãos, os sorrisos, os abraços. Muitas foram as pessoas que, de uma forma ou de outra, colaboraram para que, os candidatos que apoiavam, fossem eleitos. Grupos de rua, ou até grupos religiosos se articularam para ver o próprio candidato sentado numa das preciosas 41 cadeiras da Camara Municipal de Manaus. Isso é louvável pois, se o vereador, como fala a constituição, representa o povo e é chamado a propor projetos com os interesses e o bem-estar do povo, para depois elaborar leis – outra tarefa importante do vereador -, é de suma importância que alguém do povo esteja sentado na Camara Municipal, para trabalhar em prol do povo.

A sensação que tivemos nesta semana participando destes dois eventos públicos é que, na realidade, a maioria dos vereadores que foram eleitos, não estão nem aí com o povo. Parece que fizeram de tudo no ano passado, não para trabalhar quatro anos em prol do povo, vivendo perto do povo, para pensar com o povo como melhorar a vida, mas o único interesse parece tenha sido botar no bolso uma boa grana sem fazer absolutamente nada. Falando de grana é bom lembrar que, no dia 8 de janeiro 2025, saiu uma matéria no jornal Globo dizendo que os vereadores de Manaus passam a receber a partir do 2025 o maior salário entre os legisladores municipais do Brasil, igualando os parlamentares de São Paulo. O subsidio, lembra sempre a Globo, foi fixado por 26080 Reais mensais, acompanhando o teto estabelecido pela legislação para cidade com maior população. Além disso, devem ser levados em conta outros benefícios que, conforme os cálculos encontrados na matéria da Globo, chega ao numero espantoso de 98 000 reais por mês.  Este dado aumenta ainda mais a nossa decepção, a nossa revolta: é muita falta de vergonha na cara. 


Não se fazer presente num evento na casa onde eles são chamados a representar o povo, pagados além de qualquer imaginação, para demonstrar a própria solidariedade com o povo pobre que sofre injustiça, revela a falta de compromisso da maioria dos vereadores de Manaus, que não se fizeram presente á eventos que teriam exigidos como minimo uma presença, além da possíbilidade de manifestar a opinião como represntantes eleitos pelo povo.

Isso não vai ficar aqui. O Movimento fé e Cidadania da Igreja Católica que está presente na paróquia de São Vicente de Paulo, vai ficar de olho aberto, atento, registrando tudo de bem e também de mal que está acontecendo e que vai acontecer na casa do povo, sendo os vereadores nossos representantes. 

O objetivo do nosso trabalho é acumular um material suficientemente documentado para orientar melhor o povo na escolha dos nossos representantes, para que sejam verdadeiramente a serviço das causas do povo, sobretudo os mais pobres e carentes. 


sábado, 21 de dezembro de 2024

ASSOCIAÇÃO CULTURAL MORINGA DE TAPIRAMUTA' (BAHIA): UMA HISTÓRIA EXEMPLAR

 





Paolo Cugini


Quase vinte anos se passaram desde que a Associação Moringa, fundada em Miguel Calmon para apoiar a biblioteca, também se instalou em Tapiramutà. 

Moringa é o nome de uma planta que purifica a água além de possuir propriedades antioxidantes que podem ajudar a regular o estresse oxidativo, reduzindo os níveis de açúcar no sangue e protegendo as células do corpo. Quando eu e Gianluca, no início de nossa aventura brasileira, procurávamos um nome para dar à associação cultural que estávamos formando, ao descobrirmos a planta da moringa não tivemos mais dúvidas: a associação se chamará moringa. 

A ideia por trás do projeto moringa era fornecer ferramentas, especialmente aos jovens que conhecemos das classes mais pobres, para poderem construir o seu próprio futuro. O primeiro projeto foi o de uma biblioteca, criada a pedido dos jovens que conhecemos. Em torno do espaço da biblioteca, construído através da reabilitação de um edifício da paróquia de Miguel Calmon, surgiram muitos projetos culturais, como o curso de preparação para o acesso à universidade, a par de outros cursos, alguns realizados em colaboração com a vizinha cidade universitária de Jacobina. Entre os projetos mais significativos destes vintes anos elaborados e levados em frente pala Associação Moringa, foram os projetos de conscientisação política em parceria com o Movimento fé e política (Miguel Calmon e Tapiramutá) e o Movimento Moringa em Pintadas. 

O Movimento Fé e Política de tapiramutá numa ação na cidade de Miguel Calmon


Essa ideia cultural deu frutos diversos nas cidades onde foi plantada. Em Pintadas e Ruy Barbosa, por exemplo, não deu muito certo e foi extinto. O local onde a associação da Moringa até agora trouxe mais frutos foi Tapiramutà. De fato, em torno do projeto da biblioteca, em Tapiramutà, foram desenvolvidos alguns projetos direcionados aos menores de rua, em colaboração com a paróquia e, de modo especial, na pastoral dos adolescentes. 

Uma virada fundamental na Moringa foi a descoberta da organização que repassa recursos do Estado da Bahia para entidades que desenvolvem projetos sociais para as classes mais pobres da sociedade. Ao longo do tempo, este contacto produziu a possibilidade de realização de cursos profissionais de diversas naturezas: pedreiro, eletricista, cabeleireiro, etc. Buscou-se contato com o estado. Este é um ponto importante. De facto, muitas vezes os projetos iniciados em terras de missão pelos missionários italianos, terminavam quando o missionário regressava à sua terra natal, até porque os projetos ativados geralmente dependem de dinheiro vindo de Itália. Com Gianluca, desde o início, tivemos ideias claras, também graças a algumas leituras que esclareceram as nossas ideias. 

Alguns dos tantos cursos de formação política realizados pela Moringa


Li o primeiro durante minha primeira viagem  Milão Salvador: O Banqueiro dos Pobres, de Yunus, ganhador do Prêmio da Paz 2006. Li-o porque uma resenha o indicou como um livro fundamental para os missionários. Yunus ensina como ativar o microcrédito em áreas de pobreza. O dinheiro não é doado, mas deve ser investido para produzir. Trata-se de permitir que as pessoas pobres saiam da pobreza, aprendendo a trabalhar, a produzir e a escapar de uma mentalidade de mendicância.

O segundo livro que nos abriu os olhos também vai nessa direção: A caridade que humilha da economista zambiana Dambisa Moyo. Dambisa afirma que o que destruiu África, reduzindo os africanos à pobreza, foi a ajuda humanitária. Pode parecer um paradoxo, mas não é. Na verdade, Moyo, com dados em mãos, afirma que os milhares de milhões de dólares doados pelas grandes potências e entidades de caridade acabaram nos bolsos de políticos corruptos nos países africanos. Esta ajuda, ao longo do tempo, contribuiu, portanto, para manter no poder políticos corruptos e ditadores inescrupulosos, impedindo os africanos de zelarem pelo seu próprio território. 

Um momento da confraternização deste ano em Tapiramutá


Apenas três anos após a fundação da Associação Moringa, Gianluca deixou não só a gestão, mas a própria associação. Eu o segui logo depois. A ideia desta escolha foi na ordem do que havíamos lido e meditado: deixar o povo brasileiro administrar os projetos criados por suas indicações específicas e, sobretudo, não criar novas formas de dependência colonial. O dinheiro que os amigos italianos ofereciam era sobretudo pra dar o pontapé e nada mais. 

Em Ruy Barbosa e Pintadas a experiência não durou muito. Apesar das aparências e dos muitos projetos realizados, não despertou muito interesse. Em Miguel Calmon a experiência continua ativa, sobretudo ligada à biblioteca. Atualmente está em fase de impasse e precisaria de uma reforma, principalmente no pessoal que administra a experiência.

A experiencia de Tapiramutà é diferente. Nesta cidade quem tem o comando é um grupo de pessoas, quase exclusivamente mulheres, que abraçaram a causa, considerando o projeto não só importante, mas necessário para a sua cidade. Entre estas mulheres há algumas com condições económicas significativas e com uma atitude crítica em relação à classe política. Como disse o dominicano Frei Betto, um dos protagonistas do caminho das comunidades eclesiais brasileiras: a opção preferencial pelos pobres é feita pela classe média e, sem ela, é difícil provocar mudanças radicais. E assim foi em Tapiramutà.



Além de acionarem um contacto com o município para pagar os salários dos responsáveis do projeto, estas mulheres conseguiram envolver muitas pessoas – cerca de oitenta – para apoiar o projeto, inclusive financeiramente. Este grupo de pessoas acompanha os projetos há vinte anos, fechando alguns, ativando outros e desde o início sempre procuramos incluir os vários projetos em colaboração com a pastoral social das paróquias e, consequentemente, aproveitando os seus espaços . A associação, com o contributo dos seus associados, compromete-se a manter a ordem e a renovar os espaços que utiliza. 


Nos últimos dias recebi fotos da festa de confraternização Natalina da associação Moringa presente em Tapiramutà. Muita gente festejando, feliz por contribuir para a realização de um sonho: ajudar os pobres a se levantarem e caminharem com os próprios pés, sem esperar durante toda a vida receber esmolas. Entre os que passaram pela aventura da ACMOR (Associação Cultural Moringa) nos últimos anos estão pedreiros, eletricistas, cabeleireiros, mas também engenheiros, arquitetos, farmacêuticos e até dois médicos. A maior satisfação para mim é que só estive presente no início deste projeto: elas, eles cuidaram do resto. 


segunda-feira, 23 de setembro de 2024

PORQUE O POVO SE ENTREGA TÃO FACIL E POR TÃO POUCO?

 




Análise da sociedade dos urubus

 

 Paolo Cugini

 

 

A pergunta é daquelas de tirar o sono. Pelas pessoas que lutam pela justiça, que não engolem tamanha corrupção, por todos aqueles e aquelas que buscam a realização de um mundo mais justo e mais fraterno, não dá pra entender o porquê do comportamento do povo, que entrega as prefeituras a um bando de incompetentes e sem vergonha, que saqueiam o cofre publico com a maior cara de pau, beneficiando a si mesmo e os próprios familiares, não se importando do sofrimento do povo.  Pesquisando na internet sobre a situação sócio-política das cidades das regiões do Norte e do Nordeste brasileiro, tão massacrado e humilhado por um grupo de políticos corruptos e sem escrúpulo percebe-se que é raro encontrar um município dirigido por pessoas competentes e que trabalham para servir o povo e não para encher o próprio bolso (estou falando somente dos políticos corruptos, pois, graças a Deus, temos também políticos de grande competência e moral),.

 De um lado, então, temos todo um povo que não pensa dois minutos para vender o próprio voto ao primeiro oferente, do outro temos toda uma turma esquisita de políticos (?) que não têm receio nenhum a comprar o voto do povo pra depois fazer o que quiser com o dinheiro publico. A pergunta simples é esta: por quê? Porque o povo não pensa as conseqüências da própria entrega aos corruptos? Porque o povo fica satisfeito por um brinde, que não dura três dias e passando depois necessidade pelo resto dos quatro anos? Porque o povo acha legal ganhar uma mixaria, entregando na bandeja o Município a um bando de corruptos?

De fato, aquilo que assistimos neste ano de eleições é uma verdadeira loucura. É festa pra lá, churrasco pra cá, argolinha, jogo de bola, carreatas, ou seja, toda uma serie de atividade que, de uma certa forma, não tem nada a ver com a política. O objetivo claríssimo é juntar gente naquilo que o povo mais gosta, ou seja, uma festa com muita cerveja e cachaça, e ali esbanjar sorrisos, fazer uma média com um povo alienado, acostumado a viver das migalhas que o poder espertamente, aprendeu a distribuir nas horas certas. E ali vai se perpetuando todo um costume, todo um estilo de vida que deixa todo um povo com o gostinho na boca de algo de bom, mas que depois, acordando na segunda feira, percebe que de bom tem somente a lembrança daquilo que foi.

 A pergunta nessa altura é esta: como é possível passar a vida toda mergulhados neste nada? Como é possível não enxergar o engano que está por trás da palhaçada das eleições? Paciência ser enganado uma vez, mas como é possível que o povo se deixe enganar sempre e, sobretudo, com alegria, como se fosse algo de legal? Como é possível não enxergar que atrás do candidato da vez, está escondido um lobo, que está visando nada mais que o cofre publico e cujo pensamento é saber o quanto poderá botar no seu bolso com a aprovação do povo? Como é possível depois de tantas décadas, não entender que atrás das inaugurações realizadas nos últimos meses antes das eleições, existe todo um projeto, existe todo um esquema, existe todo um pensamento negativo que visa botar fumaça nos olhos do povo, para que não lembre nada, para que não recorde o nada que foi realizado nos anos anteriores?

Do outro lado, podemos perguntar pensando aos falsos políticos (isso quer dizer que temos também bons políticos, graças a Deus): como é possível ficar tão insensíveis roubando o dinheiro do povo pobre? Come é possível permanecer com o coração tão duro e ruim, a ponto de não sentir nada roubando o dinheiro que deveria servir para comprar alimentos para crianças carentes? Como pode acontecer que uma pessoa não sinta absolutamente nada tirando da boca o pão do pobre, para satisfazer os próprios vícios? Que cara de pau é esta?



É todo um sistema podre se perpetuando no tempo, com pobres acostumados a cobrar aos políticos migalhas para sobreviver e festas para esquecer a sensação péssima de não ser nada e, do outro lado, pessoas sem escrúpulos, que exigem e adoram de serem chamadas de políticos ou doutores, que vivem da carniça do povo pobre. É a sociedade dos urubus, uma sociedade que fede, uma sociedade que, na realidade, sociedade não é, pois pra ser sociedade um povo precisa pelo menos se respeitar, que é aquilo que não está acontecendo. A “sociedade” dos urubus é o sistema da não vida, do costume de viver sem futuro, sem sonhos, entregando esta nobre atividade para um grupo de pessoas acostumadas a pisar sobre os direitos do povo com a maior cara de pau do mundo. Na “sociedade” dos urubus o tempo parece eterno porque é sempre a mesma coisa, porque não tem nada pra fazer. É só esperar a morte chegando e os urubus se aproximando. Na “sociedade” dos urubus o povo vale na medida que engorda pra depois morrer e servir como alimento dos urubus que pairam no ar na espera da refeição.

 

Problema: é possível sair da “Sociedade” dos urubus? É possível transformar a “sociedade” dos urubus em sociedade de gente? O que precisa fazer pra sair dessa?

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

O vergonhoso espetáculo da politicagem nos anos de eleições municipais

 




 

 

Paolo Cugini

 

Nos anos das eleições municipais não importam as ideologias, os programas, os projetos: que nada! Importa é ganhar e acabou.

Sabemos como acontece a compra de voto. O candidato passa nas casas e pede para o povo pegar uma cesta básica naquele mercadinho cujo dono já sabe de tudo. Às vezes a mercadoria é levada de antemão num lugar, numa casa de noite para o povo buscar. Procuramos o povo para testemunhar o ato de corrupção, mas se negam para este ato de justiça civil. O desastre social e moral que este tipo de porcaria política está provocando é arrasador. E pior ainda perceber que os “políticos” não estão nem ai: querem ganhar a qualquer preço, seja o que for.

Que povo é este que vende o próprio voto por uma cesta básica? São os pobres coitados acostumados a viver recebendo de graça as migalhas do governo o do político da vez. Na realidade, não se trata de uma pobreza apenas material, mas, sobretudo cultural e espiritual. Cultural porque, o estilo de político corrupto que ganha as eleições comprando votos, coloca na cabeça deste povo que a vida para os pobres é assim mesma, uma vida feita de nada e uma sociedade na qual existe quem tem e quem não tem nada. Os poucos que têm algumas coisas se alimentam com a multidão que não tem nada. Os pobres são essenciais por estes parasitas de políticos que ganham um dinheiro bravo sem fazer nada. É também uma pobreza espiritual porque dificilmente uma pessoa que tem Deus no coração, que ama a Deus aceitaria de vender o próprio voto, a própria liberdade por algo de material. E aqui vem o grande paradoxo: num País lotado de igrejas, assistimos à maior desigualdade do planeta. É verdadeiramente estranho este dato, que deveria provocar uma reflexão. Que tipo de espiritualidade estamos gerando nas nossas capelas se não somos capazes, nos anos das eleições municipais, reverter esta lógica da compra de voto, que gera corrupção?

Que mundo é este? Estamos nas mãos de quem? Quem é que está tomando conta do povo? Pessoas sem escrúpulos sedentas de dinheiro e de poder, que para alcançar isso são dispostas a tudo, passam por cima de tudo, dos sentimentos, da moral, de Deus.

domingo, 15 de setembro de 2024

Quando a religião mexe com sociedade e a política

 





A ROMARIA MARIAL DE IPIRÁ


Paolo Cugini

 

 

A caminhada da Igreja Católica no Brasil, desde os anos ’70 do século passado e, sobretudo, depois do Concilio Vaticano II (1962-65), se caracteriza por uma busca da ligação entre fé e vida. As Comunidades Eclesiais de Base (Cebs) foram o berço de uma experiencia de igreja incarnada na realidade, caminhando perto do povo, sobretudo os mais pobres e excluídos. É verdade que a caminhada atual da Igreja do Brasil, mudou o foco, tornando-se mais carismáticas, renunciando ao compromisso sociopolítico que a caracterizou no começo da caminhada. Apesar disso, as características principais das Cebs, como o engajamento dos leigos, a ministerialidade, a centralidade da Palavra permanece ainda hoje como um estímulo pela Igreja do mundo todo.

As grandes manifestações religiosas, como as romarias, sempre foram eventos e ainda hoje são, que envolvem não apenas o povo das comunidades, mas também pessoas que manifestam a própria religiosidade de forma espontânea, sem ser necessariamente ligada a uma caminhada de Cebs ou de paróquia. Romarias como de Padre Cicero ou de Bom Jesus da Lapa, que reúnem milhares de fiéis, atraem pessoas simples cuja devoção os leva a buscar lugares considerados sagrados, ponto de referência dos caminhos espirituais dos fiéis das mais variadas proveniência e pertença.

A Romaria Marial de Ipirá, sendo um evento organizado pela equipe paroquial, envolve quase exclusivamente o povo das comunidades, aliás é o evento que marca o caminho anual das Cebs desta paróquia. Este evento nasceu nos anos ’80, numa época de grandes tensões sociais, ligadas sobretudo ao problema da terra, do latifúndio. A diocese de Ruy Barbosa dos anos ’80, era muito sensível ao grito do povo das comunidades, que clamava por um pedaço de terra, numa região castigada pela seca e pela corrupção política. Padre Riccardo Camellini, um padre italiano que, naquele período, era pároco de Ipirá, em linha com a caminhada da diocese, abraçou a causa e orientou a Romaria Marial como um evento que, envolvendo as Cebs da paróquia, representasse, também, um grito pela terra. Como se deram os eventos não cabe a mim narrar. Aquilo que importa é o marco de luta social e política que, uma manifestação religiosa de grandes proporções, como a Romaria Marial, tomava naquela época, manifestando publicamente que, a capela da comunidade não era um lugar fechado em si mesmo, mas sabia traduzir em lutas sociais aquilo que escutava no Evangelho.

Com a virada carismática da Igreja do Brasil, também a Romaria Marial de Ipirá mudou de sentido, focando exclusivamente na dimensão religiosa. Sem dúvida esta mudança de rumo, afetou a caminhada das Cebs, que perderam o marco importante do profetismo visualizado nas denúncias contra o poder político corrupto e a arrogância dos latifundiários locais, totalmente insensíveis no que concernia a pobreza do povo. Dava até medo, nos dias de Romaria, ver caminhões lotados de fiéis, com bandeira, faixas e cartaz, manifestando a própria indignação contra uma desigualdade, que não permitia uma vida digna para a maioria das pessoas. Maria, mãe de Jesus, mãe pobre e exilada quando Jesus era criança, era identificada como protetora, pois ela mesma tinha passado pelo sofrimento da humilhação dos poderosos. Não a caso, o cântico Magnificat, lembra que Deus: Manifestou o poder do seu braço: desconcertou os corações dos soberbos.  Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes.  Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos (Lc 51-53). Existe uma espiritualidade bem fundamentada na Bíblia, que não precisava de grandes explicações exegéticas, porque o povo simples das Cebs, pela maioria camponeses, agricultores, entendia muito bem que Maria era com eles, apoiava a causa dos pobres e humilhados. A Romaria Marial dos primeiros tempos, em Ipirá, representava esta grande intuição evangélica: Deus está sempre do lado dos pobres, dos injustiçados.

Não é um caso que, no mesmo Brasil, depois da experiencia negativa da ditadura militar, no 1989 nasceu o Movimento Nacional Fé e Política com o objetivo de alimentar a dimensão ética e espiritual que deve animar a atividade política. Deixar-se animar pelo Espírito de vida, é a essência do Movimento Fé e Política, “que não propõe diretrizes para ação política dos cristãos, nem se comporta como se fosse uma tendência político-partidária, mas que luta pela superação do capitalismo por meio da construção de um sistema sócio-econômico solidário e respeitoso da vida do Planeta”.[1] Este Movimento, que se espalhou em todo o território Nacional e até mesmo na Bahia, ajudou bastante e continua a formar as consciências dos cristão[2] que desejam levar na sociedade as indicações assimiladas na leitura do Evangelho feita na comunidade. É isso que falou Frei Betto, um dos fundadores e assessores do Movimento que, no último encontro afirmou que: “O Reino de Deus é a proposta para o futuro da humanidade. Jesus não estava falando lá de cima, mas aqui na terra. Que o seu reino venha até nós. O Reino para Jesus indica a relação no amor e na partilha dos bens. Compartilhar os bens da terra e os frutos do trabalho humano. Até que a humanidade compartilhe os bens da terra, não realizaremos o Reino de Deus”[3].

 

 



[2] O XII0 encontro Nacional do Movimento Fé e Política aconteceu em Belo Horizonte no mês de abril 2024: https://fepolitica.org.br/12-encontro-nacional-2/

[3] ´possível encontrar um relatório do XII encontro do Movimento Fé e Politica neste site: https://matutan.blogspot.com/2024/04/12-encontro-nacional-de-fe-e-politica.html

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

MENSAGEM POR OCASIÃO DAS ELEIÇÕES MUNICIPAIS DE 2024

 


 

 “Ninguém pode exigir-nos que releguemos a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social” (Papa Francisco, Evangelium Gaudium,182)

Reunidos no V Encontro da Igreja Católica na Amazônia Legal, em Manaus-AM, de 19 a 22 de agosto de 2024, fazemos chegar às irmãs e aos irmãos em Cristo e a todas as pessoas de boa vontade, nossas esperanças e preocupações a respeito das eleições municipais que se aproximam.

No dia 6 de outubro próximo iremos às urnas para escolher aqueles e aquelas que estarão à frente do Poder Executivo (prefeitos e prefeitas - vice-prefeitos e vice-prefeitas) e do Poder Legislativo (vereadores e vereadoras) de nossos municípios. Essas eleições têm uma importância particular pela proximidade dos candidatos e candidatas com os eleitores, bem como com suas preocupações mais concretas, por exemplo, a educação de qualidade para as crianças e adolescentes, o sistema público de saúde eficiente e universal, a segurança para vivermos em sociedade, a moradia digna e acessível à população de baixa renda, o cuidado com o meio ambiente – nossa Casa Comum, a atenção especial aos povos indígenas, ribeirinhos, pescadores, quilombolas, população em situação de rua e outros grupos em situação de risco e vulnerabilidade social. Diante dessas preocupações, e de tantas outras que afligem os povos, espera-se a garantia de políticas públicas que atendam principalmente os empobrecidos.

Um dos meios para dar a devida resposta a essas preocupações é identificar e escolher bem os candidatos e as candidatas. Dos prefeitos e prefeitas espera-se uma conduta ética nas ações públicas, nos contratos assinados, nas relações com os demais agentes políticos e com os poderes econômicos. Dos vereadores e das vereadoras requer-se uma ação correta de fiscalização e legislação que não passe pela simples identificação com a bancada de sustentação ou de oposição ao Executivo. O equilíbrio e a complementariedade entre os poderes Legislativo e Executivo são indispensáveis para a consolidação da democracia e o avanço da justiça social nos municípios. Portanto, deve ser dada igual atenção à escolha dos prefeitos e prefeitas e dos vereadores e vereadoras, visto que ambos devem ter um compromisso irrenunciável com a defesa integral da vida, que passa necessariamente pelos direitos humanos e sociais. Defender a vida é defender a Casa Comum em toda a sua complexidade. Para isso, nossos candidatos e candidatas devem ter a capacidade de colocar afetiva e efetivamente o bem comum acima de seus interesses pessoais ou corporativos.



Votemos responsavelmente pela Amazônia! É urgente, nos municípios de nossos territórios, políticas públicas que minimizem os efeitos das mudanças climáticas, favoreçam a agricultura familiar e as iniciativas agroecológicas, enfrentem o escandaloso problema do saneamento básico dando, por exemplo, tratamento eficaz aos resíduos sólidos urbanos através de aterros sanitários que possam recebê-los e tratá-los de forma segura e ambientalmente correta. Ao mesmo tempo, o apoio à fiscalização, identificação e punição dos crimes ambientais deve ser compromisso dos gestores públicos municipais. De quem pede o nosso voto, é importante verificar a história e os processos vividos, conhecer as trajetórias e o passado, identificar suas alianças políticas. A Igreja Católica no Brasil tem longa tradição na valorização da Ficha Limpa e na denúncia da imoral e antiética compra de votos que, além de crime, passou a cassar os mandatos dos culpados.

Votar por troca de favores ou simplesmente por amizade pode comprometer seriamente nosso futuro. Voto não tem preço, tem consequência! Lembramos que todas as informações sobre os candidatos e candidatas em que se pretende votar são importantes. É preciso examinar em fontes seguras se as propostas apresentadas correspondem à realidade. Infelizmente as desinformações, hoje potencializadas pela internet, têm a capacidade de mudar a vontade do voto popular, comprometendo assim a democracia.



Eleitor e eleitora, não permitam que a mentira determine seu voto. Outra atitude fundamental é repudiar quaisquer formas de violência e divisão. Numa sociedade plural e democrática, é legítimo que todos tenham a possibilidade de chegar às suas próprias conclusões, que nem sempre serão e nem precisam ser, iguais às dos outros. Um traço essencial do cristianismo é chamarmos a Deus de Pai-Nosso e, assim, assumimos que somos todos irmãos e irmãs. Nossa sociedade e os municípios em que vivemos não podem sair do processo eleitoral ainda mais divididos, pois “se um reino se divide contra si mesmo, ele não poderá manter-se” (Mc 3,24). Sendo assim, vamos aproveitar a oportunidade de, num período eleitoral pacífico e participativo, ajudarmos a construir uma sociedade de comunhão e amizade social.

Concluímos conclamando a todos e todas que se unam e rezem pelo bom êxito das próximas eleições. Que Nossa Senhora de Nazaré, rainha e padroeira da Amazônia, nos conduza pelos caminhos da justiça, da fraternidade e da paz. Manaus, 21 de agosto de 2024.

 

Participantes do V Encontro da Igreja Católica na Amazônia Legal

segunda-feira, 8 de julho de 2024

UMA IGREJA QUE COMBATE À CORRUPÇÃO POLÍTICA

 




 

Paulo Cugini

 

Em ano de eleições municipais, que elegem prefeitos e vereadores, nas cidades brasileiras, vemos de tudo. A disputa para eleger seu prefeito está muito tensa e acirrada. A campanha propriamente dita, tendo em conta as eleições que habitualmente se realizam de quatro em quatro anos no primeiro domingo de outubro, começa em agosto. Por isso, também sabendo da confusão que a campanha eleitoral gera, avançamos a tempo de ajudar as comunidades a não perderem de vista o Evangelho e a ajudar as pessoas a viverem com responsabilidade o seu compromisso político.

Há anos, a Arquidiocese de Manaus estruturou o Movimento Fé e Cidadania, que oferece cursos de formação, em colaboração com a Faculdade Católica da Amazônia, para ajudar os fiéis a se conscientizarem de suas responsabilidades sociais e políticas e, sobretudo, orientar os católicos em um ano eleitoral. O Diretório Pastoral convida as paróquias a criar centros de reflexão política e a estimular o protagonismo profético dos leigos contra todas as formas de corrupção e impunidade. Além disso, os leigos, que têm tarefas específicas nas comunidades como ministros da Palavra ou da Eucaristia, ou como catequistas e que pretendem candidatar-se nas eleições municipais, são convidados a abandonar o seu papel na comunidade até ao final do ano. as eleições. A razão desta postura radical, reside no facto de querermos evitar que um candidato utilize o espaço eclesial para se promover a si mesmo e ao seu próprio partido.



Na paróquia de São Vicente de Paulo começamos a nos preparar desde o início do ano com treinamentos específicos. O facto mais interessante vivido nos últimos meses é o envolvimento de adultos e jovens nas ações concretas propostas pelo Movimento. Em uma das reuniões de capacitação, aliás, decidimos imprimir em grande quantidade o texto da lei 9.840 contra a corrupção eleitoral, que diz que quem vender seu voto ou, no caso do candidato, oferecer dinheiro ou qualquer coisa para comprar um votar, você corre o risco de uma pena de prisão muito pesada. Durante o curso de formação constatou-se que várias pessoas não tinham conhecimento desta lei promulgada em 1999, o que contou também com o contributo da Igreja Católica que, na Quaresma de 1997, propôs uma reflexão sobre o tema da corrupção política.

Teatro de rua dos jovens


Há cerca de um mês, nas tardes de domingo, vamos de casa em casa pelas ruas da comunidade escolhida, para distribuir o texto da lei e discutir com quem quiser falar connosco. A ação do Movimento Fé e Cidadania começa sempre na capela da comunidade para um momento de oração e troca de ideias. Depois nos movemos em grupos, nos dividindo pelas ruas da comunidade. Por fim, encontramo-nos todos em frente à capela e assistimos a um pequeno espetáculo de teatro de rua organizado pelos jovens da paróquia, para envolver os presentes num debate. Já visitamos três comunidades e o entusiasmo em torno do Movimento cresce a cada dia. Há a sensação de que estamos a fazer algo de bom, útil num contexto social onde a corrupção política é uma das principais causas da desigualdade e da pobreza. Ontem (domingo, 7 de julho) a alegria estava estampada no rosto daqueles que distribuíram a lei 9.840 nas ruas da comunidade de Santo Inacio de Loyola. Há a consciência de que aquilo que vivemos na celebração eucarística, o sentido de amor e de justiça que Jesus nos comunica, estamos levando para as ruas, assim como Ele, o Mestre, fez. E então, vamos continuar a jornada.