Paolo Cugini
Para Jean-Luc Marion, um dos
nomes mais expressivos da fenomenologia contemporânea, a subjetividade não
começa na certeza solitária do "penso, logo existo" de Descartes. Em
vez disso, Marion propõe uma inversão radical: a existência humana não é uma
conquista da autoafirmação, mas uma resposta a um apelo que nos precede.
Na obra de Marion, o sujeito
cartesiano, aquele que define a realidade a partir da sua própria capacidade de
pensar e representar o mundo, é substituído pelo "adonado" (l'adonné).
O adonado é aquele que recebe a si mesmo como um dom.
Enquanto Descartes buscava uma
base sólida no Cogito, Marion argumenta que o "eu" só passa a
existir quando é interpelado. Não sou eu quem dou sentido ao mundo; é o mundo,
ou melhor, o Outro, que me convoca à existência. Como ele afirma em Sendo
Dado:
"O adonado se define pelo
que ele recebe, e recebe a si mesmo a partir do que lhe é dado."
A frase "Eu não existo
porque penso, mas porque alguém me ama" sintetiza a transição da
metafísica para a fenomenologia da doação. Para Marion, o conhecimento
intelectual é secundário em relação à experiência de ser amado. O amor é o
fenômeno saturado por excelência — aquele que transborda nossa capacidade de
compreensão e nos coloca em um estado de recepção pura.
Em O fenômeno erótico,
Marion é incisivo ao descrever que a certeza de existir não vem de uma prova
lógica, mas da segurança de ser desejado por outro:
"O amante não pergunta
'o que posso saber?', mas 'alguém lá fora me ama?'. É essa pergunta que decide
a minha existência, pois só existo plenamente se for recebido pelo amor de
outro."
Nessa perspectiva, o
"alguém me chama" indica que a iniciativa nunca é minha. Antes de eu
dizer "eu sou", eu ouvi um "onde estás?". A identidade não
é algo que eu construo sozinho no meu quarto; é algo que me é endereçado. A
subjetividade, portanto, é essencialmente passiva e gratuita.
Existir, para Marion, é
descobrir-se como o destinatário de um dom que não pedimos, mas que nos
constitui. Ao sermos amados ou chamados, saímos do isolamento do pensamento e
entramos na dinâmica da vida real, onde a verdade não é uma ideia, mas um
encontro.
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