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sexta-feira, 10 de abril de 2020

SÁBADO SANTO: O SILÊNCIO DE UM DIA TERRÍVEL





Paolo Cugini


Devemos ter a coragem de ouvi-lo, sem subterfúgios, sem enche-lo de significados, sem querer adoçá-lo a todo custo. Não podemos adoçar o que não é doce, não pode sorrir no dia mais triste do ano: Sábado Santo. O que, então, tem de santo esse dia horrendo eu nunca entendi. De fato, como podemos chamar o dia mais vazio de todos, de santo o dia do absurdo absoluto, o dia em que toda a humanidade ficou sem fôlego, com o respiro suspenso? Porque, na realidade, toda a humanidade naquele dia se levantou sem saber para quem orar, sem poder orar a nenhum Deus, porque Deus havia morrido no dia anterior, assassinado barbaramente.  Nem sempre podemos fingir, sem querer ver, sem querer ouvir. Não temos mulheres como Maria Madalena, que sabem chorar pelo seu mestre morto, que sabem sofrer intensamente sem fingir, sem esconder nada: isso é amor. Aquele amor que flui do coração e não do cálculo, esse amor que é pura paixão e não racionalidade controlada, que calcula, que sabe fazer cálculos mesmo com sentimentos. E não podemos fingir e correr imediatamente no domingo, não podemos passar por este dia terrível, o sábado santo, porque temos medo do escuro e fingir que nada aconteceu; não podemos cobrir os olhos e os ouvidos para ir diretamente para a manhã de domingo. Acima de tudo, porém, não podemos antecipar o domingo de ressurreição ao sábado de manhã, como infelizmente acontece com frequência e de bom grado em certas igrejas, que começam preparar as decorações de domingo, como se o sábado do grande silêncio não existisse. Que desrespeito!

É preciso o silêncio para escutar o nada, entender o que seria o mundo sem significado, ou seja, sem Deus. O vazio deve poder penetrar no coração do homem e na consciência da mulher pelo menos uma vez na vida, para ter, então, a possibilidade de avaliar todas as ideologias que nada mais são do que vazios disfarçados de sentidos, nas quais nos apegamos para não morrer de asfixia. Forçados a inventar significados, quando é possível perceber que não há sentido, que estamos subindo nos espelhos, que estamos conversando ao vento e que não temos coragem de ficar calados por medo de sentir o vazio, de sermos penetrados pelo nada. Este é o significado do Sábado Santo, que é santo por esse motivo, porque nos permite tocar as cinzas da nossa vida, o nada dos nossos projetos sem Deus.

Pendurar-se no vazio, pelo menos uma vez na vida, pode ser de grande ajuda para entender a quem e ao que estamos amarrando a nossa vida, a quem estamos entregando a nossa existência, esforçando-se, pelo menos uma vez na vida, de não mentir pra nós mesmos. Mergulhamos todos os dias em rios de palavras inúteis para embelezar o que é feio por natureza, o que sai mal de nós, que não tem forma, porque não pode ter nenhuma forma, pelo fato que esta forma sai da nossa fantasia e não é real. Seria suficiente ter um dia a coragem, de percorrer os lugares onde as reuniões entre adultos acontecem para ouvir, prestar atenção, abrir bem os ouvidos no que é dito, no nada sobre o qual falamos por horas e horas. Falamos sobre o que somos e o que fazemos, onde o fazer vem substituindo o nada do nosso ser.

 É por isso que demoramos para ficarmos calados no Sábado Santo, lutamos para compreender a profundidade do vazio criado pela ausência de Deus no mundo, porque esse vazio, esse silêncio é revelador, esse vazio daquele dia terrível revela o vazio que temos por dentro e que cresce lentamente em todos os momentos do dia. O significado das coisas vem de dentro do mundo, de dentro do homem, da mulher, de seu coração. Apreendemos quando estamos calados, quando entramos em nós mesmos, percebemos nesses momentos que o sentido da vida, o profundo senso de existência não pode advir da matéria, não pode ser algo de material, temporal, acidental.

Deve haver algo a mais, mais duradouro, mais verdadeiro e profundo. Talvez este seja um dos presentes mais profundos do dia terrível, daquele dia cheio de desespero que é o Sábado Santo. É, de fato, neste dia que podemos tocar o nada da matéria, o nada de todos os pensamentos vazios quando são ditados pela pressa de preencher com significado aquilo que significado não tem. É neste dia terrível que descobrimos a nostalgia de Deus, o desejo de seu amor, a beleza de estar com Ele, o significado que Ele e somente Ele pode dar à vida em todos os seus aspectos. É a partir do terrível dia do Sábado Santo que, ao pôr do sol, podemos ver a luz radiante do amanhecer de domingo, o dia mais radiante e brilhante do ano: o domingo da ressurreição do Senhor.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Páscoa, a vida que vence a morte

ARQUIVO (Avril 2006)





Paolo Cugini

1.A liturgia do assim chamado “sábado do aleluia” é rica de símbolos e de sentidos, que ajudam os fieis a entrar no mistério da ressurreição de Jesus Cristo. Mistério que transforma a realidade  e a vida daqueles que o acolhem.
 Ressuscitar quer dizer voltar a viver: isso aconteceu com Jesus. O mundo massacrou o corpo de Jesus, mas o Pai o ressuscitou: a vida venceu a morte. Tudo isso é simbolizado na vigília do sábado santo com a liturgia do fogo. O povo se reúne  num lugar escuro, fora da Igreja, no redor de uma fogueira. Depois da benção do fogo o povo entra devagarinho na Igreja atras do círio  Pascal aceso: a luz que vence as trevas.

2. Quer dizer esta simbologia litúrgica para a nossa vida corriqueira? 
Quem acredita que Jesus ressuscitou da morte, sabe que a ultima palavra da historia é de Deus. Se é verdade que o mal exerce no tempo cotidiano um poder extraordinário, que arrasta multidões, é também verdade que o dono da vida é Deus e, quem confia nele, não ficará desamparado. É isso que nos ensina a historia de Jesus: ficou fiel até o fim. Acreditou no amor de seu Pai também debaixo dos golpes do carrasco. E agora Ele está vivo enquanto aqueles que o mataram estão mortos: esta é a verdade que a Palavra de Deus nos ensina.

3. Estamos mergulhados numa realidade aonde os corruptos dominam a historia. Quantos pobres são humilhados, massacrados, esculhambados! Os poderosos deste mundo ( que na realidade são um monte de idiotas e ignorantes, muitas vezes chegando ao poder com o dinheiro dos outros, explorando a influencia dos amigos e roubando o que puder roubar) gostam de judiar  dos pobres, também porque o pobre não tem como se defender. Estes poderosos sem escrúpulo e sem vergonha, não sabem, porem que, atrás de cada pobre que é por eles massacrado, é presente o mesmo Cristo. E Cristo ressuscitou e é vivo, enquanto todos os poderosos deste mundo estão de baixo do chão, comidos pelos vermes. Esta é a realidade misteriosa, que nós aprendemos na caminhada da Igreja e que nos impulsiona a continuar alegres e cheios de coragem gritando ao mundo, com as palavras e com a nossa mesma vida:
“Jesus Cristo é vivo!” “Vocês mataram o Autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos” (Atos dos Apóstolos 3, 15). Durmam com um barulho deste!