quarta-feira, 17 de maio de 2023

A técnica dos meios espirituais e o compromisso revolucionário no pensamento de Emmanuel Mounier

 








A revolução espiritual, declara Mounier, não é uma revolução feita por pessoas impotentes: querem uma maior pureza para conseguir uma maior eficácia. Ele, porém, se pergunta: “Toda ação não é condenada a ser ineficiente enquanto é pura, e não é impura enquanto eficaz?”. A resposta tenta ligar o rigor ético com a eficácia prática. Se, de fato, os meios materiais são os mais queridos, eles geram a hipocrisia, a mentira, enquanto os meios puramente espirituais realizam uma silenciosa ação de presença, mas não levam ao sucesso. Mounier pensa que o contraste pode ser superado através de:

 

Meios que sejam temporais, encarnados, que exigem uma técnica cuja alma, cujo fim e então o mesmo rosto pertencem a um mundo diferente daquilo dominado pela utilidade da força. Por isso torna-se necessária uma técnica da ação espiritual, não apenas de uma ética da ação, mas também de uma técnica, pois não se trata simplesmente de sugerir algumas ideias, mas de apontar os meios para rendê-las eficazes. (MOUNIER, 1984, p. 273).

 

Essa técnica dos meios espirituais baseia-se numa ligação estreita entre meios e fins, ações e valores. É preciso elaborar uma lúcida consciência do valor da ação, das suas características e dos seus limites, evitando de se jogar na ação sem antes avaliar os fins que ela envolve e os meios da qual precisa. Essa lucidez nasce somente de uma decidida assunção das próprias responsabilidades. A ação revolucionária, portanto, não pode prescindir de uma precisa referência a um parâmetro de valores. Cada ação revolucionária é destinada à falência sem este compromisso pessoal, sem ser também uma revolução pessoal. Chamamos de pessoal aquela prática que nasce a cada momento de uma consciência, de ter uma cativa consciência revolucionária, de uma revolta que num primeiro momento cada um dirige contra si mesmo, contra a própria participação ao desordem estabelecido, entre o espaço admitido entre aquilo que serve e aquilo que diz servir, e que num segundo tempo, brota numa conversão contínua de toda a pessoa. (MOUNIER, 1984, p. 294).  Manter a ligação entre ação e pessoa é o único caminho que permite não cair no mito da revolução, que se forma quando a ação e o sucesso são procurados por si mesmos. A revolução, sendo feita por homens, nunca poderá ser o bem total, assim como não existe estrutura que seja o mal total. “Nós mereceremos a nossa revolução – afirma Mounier – somente se tivermos a coragem de começar a revolucionar nós mesmos” (MOUNIER, 1984, p.307).

Mais uma vez o discurso passa das estruturas à pessoa. Além de todo mito de esquerda e de direita, a revolução é sempre uma conquista difícil e também uma conquista permanente, que precisa ser renovada a toda hora, através de um renovado impulso revolucionário. Dessa maneira, voltamos à pessoa. Os Principes d’action personaliste do Manifeste au servisse du personnalisme, que deveriam representar a tradução prática das ideias que se encontram em Revolução personalista e comunitária, terminam em marcar muito mais a ligação entre ação e pessoa, que as dimensões operativas da mesma ação. Como linhas de ação para construir a nova sociedade personalista são, de fato, apontadas: a tomada de consciência de si, a dissolução dos falsos mitos, a exigência de ser antes de fazer e de conhecer antes de agir. Nessa fase do seu pensamento, Mounier insiste muito sobre a necessidade de uma conversão integral, para evitar uma adesão apenas superficial ao compromisso revolucionário. “Ser para fazer, conhecer para agir: a revolução personalista realiza uma ligação interior entre espiritualidade da pessoa, pensamento e ação, que o idealismo tinha despedaçado e que o marxismo se recusa a restabelecer”. (MOUNIER, 1982, p172).

As linhas de uma teoria do compromisso revolucionário deveriam se desenvolver em três direções: compromisso pessoal, ruptura com as estruturas do mundo moderno burguês, estudo de uma técnica dos meios espirituais. Mounier tem bem claro na mente que sem uma ruptura radical com aquilo que ele chama de desordem estabelecida, ou seja, com o mundo moderno burguês, é impossível realizar uma revolução personalista.

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