Paolo Cugini
Apesar de ter passado muito século
desde que os gregos desenvolveram um pensamento filosófico, alicerçado na razão
e sustentado pelo logos, é possível afirmar que temos ainda uma abordagem á
realidade de tipo mítico. Parece uma afirmação absurda, mas tão absurda não é.
Mas a final de conta é o que
um pensamento mítico? Pensamos de forma mítica todas as vezes que recorremos
para uma narração que abandona o raciocínio para se apoiar numa fundação do
discurso de tipo sagrado.
É bom também salientar que na
mentalidade antiga o mito não se identifica com algo de falso. O filosofo da
religião Mircea Eliade refletiu muito sobre a estrutura mítica do pensamento
antigo e chegou á conclusões que vale a pena salientar. Diferente da visão
moderna de "mito" como algo falso, Eliade argumenta que, para o homem
das sociedades tradicionais (ou "arcaicas"), o mito é absolutamente
verdadeiro e sagrado. Na narrativa de origem, o mito sempre se refere a
uma "criação", contando como algo, seja o cosmos inteiro ou apenas um
comportamento humano, que veio à existência. Para Eliade, conhecer o mito de
origem de um objeto ou animal concede ao indivíduo um tipo de domínio sobre
ele, permitindo sua manipulação ritual.
Um dos conceitos mais famosos
de Eliade é o do Eterno Retorno, que descreve o desejo do homem religioso
de retornar ao tempo das origens. Através dos ritos, o homem não
apenas "relembra" o mito, mas o reatualiza, tornando-se
contemporâneo dos deuses ou heróis no "tempo primordial". Ao
viver o mito, o indivíduo sai do tempo linear (profano) e entra no tempo
circular (sagrado), recuperando a plenitude do ser. Eliade utiliza o
termo hierofania para descrever o ato de manifestação do sagrado no
mundo profano. Para Eliade, o sagrado é a "realidade por
excelência", saturada de ser e poder. Mesmo em sociedades
dessacralizadas e modernas, Eliade nota que o mito sobrevive de forma camuflada
em comportamentos como o cinema, a literatura e certas ideologias políticas,
que oferecem escapes temporários da história linear. Se na época do nascimento
da filosofia o pensamento mítico tinha uma base heurística, hoje podemos dizer
claramente que, recorrer ao mito é uma forma de preguiça mental, que manifesta
a falta de conhecimento da realidade.
Para Paul Ricoeur, o mito
não é uma explicação científica falsa, mas uma narrativa simbólica que
revela verdades profundas sobre a condição humana, especialmente sobre a
falibilidade e a origem do mal. Ele defende que a filosofia deve realizar um desvio
pela hermenêutica (interpretação) dos mitos para compreender o que a reflexão
pura e abstrata não consegue captar sozinha.
Ricoeur define o mito como um
"símbolo desenvolvido em forma de narrativa". Enquanto o símbolo é
uma unidade de sentido duplo (um sentido literal que aponta para um sentido
latente), o mito coloca esses símbolos em movimento através de uma história. Ao
perder sua pretensão de explicação física do mundo, o mito ganha uma função
de exploração da realidade humana, manifestando o que Ricoeur chama de
"linguagem da confissão" (experiências de culpa, mancha e pecado). O
filósofo argumenta que não temos acesso direto ao "eu" ou ao ser;
precisamos da mediação das obras da cultura, como os mitos, para nos
compreendermos.
Levando em conta as reflexões
de Eliade e Ricoeur podemos afirmar que o pensamento mítico ainda paira na
cultura não somente Ocidental. Além do mais, o pensamento que de desenvolve no
cristianismo não é de tipo mítico, mas filosófico. Não é um caso que os Padres
da Igreja dos primeiros séculos, para tentar de resolver os problemas que a
identidade de Jesus trouxe na reflexão cotidiana das primeiras comunidades,
utilizaram muitos conceitos da filosofia grega. O seguimento a Jesus exige uma
escolha racional, logica, mais de que mítica. Não é um caso que a primeira
comunidade de João identifica Jesus não com o mito, mas sim com o logos. “No princípio
era o logos” (Jo 1,1).
Jesus deu uma resposta racional definitiva aos nossos questionamentos humanos. Apesar disso, ainda hoje, a maioria dos católicos entram na esfera religiosa não levados para o raciocino, mas sim para o sentimento; não através de uma reflexão de cunho racional e filosófica, mas sim através de um pensamento mítico, não no sentido que Eliade e Ricoeur apontavam, mas como abordagem irracional, trazendo por dento do debate atuías argumentações insustentáveis. Quando o pensamento mítico se identifica com a nossa parte irracional, a religião se torna o espaço da intolerância, pois não se adere mais ao divino por um caminho que envolve a totalidade da pessoa, mas se adere á uma forma religiosa se identificando com ela e defendendo-a com os dentes e não participando com amor e ternura. Quando a religião se torna espaço da intolerância, da contraposição com a ciência,Deus some do mapa e entram em jogos elementos que somente a psiquiatria pode resolver.
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