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quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

CONSIDERAÇÕES SOBRE PÓS-CRISTANDADE

 



 

Paolo Cugini

 

Onde o cristianismo desaparece, as formas pagãs retornam (Chantal Delson).

Quais são os elementos que podem nos levar a pensar que a era da Cristandade  acabou? Em primeiro lugar, o fato de que a Igreja não afeta mais a sociedade, não é mais em conjunto com ela. A Cristandade moldou a sociedade durante séculos, a ponto de até os ritos religiosos fazerem parte do tecido social, que identificava um povo. Hoje, de forma clara e, podemos dizer com segurança, felizmente, isso não é mais o caso, a ponto de muitos se declararem ateus. Mesmo aqueles que se declaram crentes, têm pouca participação na vida religiosa. A Cristandade foi a casca que cobriu a cultura ocidental de fora, também deu forma a alguns de seus valores, deu-lhe uma identidade, para melhor ou para pior.

Como surgiu esse colapso de época, esse fim de um estilo social tão significativo? Muitos são os fatores que contribuem para oferecer elementos para essa resposta. É sem dúvida uma mudança de época, uma mudança de paradigma que, para acontecer, exige a convergência dos fatores que a caracterizaram. O fim da  Cristandade traz consigo uma espécie de Cristianismo, uma forma de pensar e viver a relação com Deus. Após o século IV dC, o afastamento das fontes da primeira comunidade cristã, marca o passo do advento da Cristandade, que progressivamente se identifica com uma forma política e social: o Sacro Império Romano. Do cristianismo primitivo, isto é, das origens, permanecem os contornos externos, junto com alguns conteúdos, que adquirem significado pelo serviço que prestam à manutenção de um determinado ambiente cultural.

        Os temas do pecado, da salvação, junto com os do arrependimento, da conversão e da penitência, temas evangélicos mas esvaziados do seu significado profundo e, sobretudo, desvinculados da mensagem da misericórdia de Jesus, têm servido durante séculos para manter submissos os ignorantes, ao poder da Igreja. A Cristandade era, portanto, uma religião subserviente ao poder político, que criava um sistema de ritos, uma liturgia, uma moral e uma teologia capaz de manter o povo submisso, em perene sentimento de culpa, necessitado de perdão, que só os funcionários da igreja podiam doar. Pecado, culpa, penitência, salvação: estes são os temas que moldaram o cristianismo, sua estrutura político-social. Não por acaso, com o colapso do andaime externo do cristianismo, os próprios conteúdos por ela elaborados e preconizados se esvaziaram de sentido e as pessoas se afastaram dessa estrutura, que os mantinha submissos.

Se a Cristandade como estrutura social desapareceu em pouco tempo e ninguém mais sente falta, a situação é bem diferente no plano puramente religioso. Séculos de ritos, pregações, liturgias marcadas pelo tema do pecado e do medo do inferno, deixaram uma marca profunda na consciência das pessoas religiosoas, deram forma a uma mentalidade. O Concílio Vaticano II não foi suficiente para minar o desastre espiritual perpetrado no período do cristianismo. As contribuições das mais avançadas pesquisas teológicas, exegéticas e históricas não foram suficientes para demonstrar que, o que se passava por cristão, não passava de um grande engano, uma grande impostura, a grande invenção de uma religião a serviço de o poder. Séculos de castiçais, incensários, cultos pomposos, em grande parte de linguagem incompreensível pela maioria do povo, fizeram-nos crer definitivamente que a religião proposta pelo Evangelho tinha aquela forma específica. E assim, enquanto as catedrais são fechadas e muitas igrejas vendidas porque os fiéis as abandonaram, a religião que a Cristandade moldou permanece.

Será que mais algumas décadas serão suficientes para limpar os escombros dessa religiosidade e abrir espaço para o Evangelho? A resposta não é fácil. Claro, o que vemos hoje, é a resistência de quem não quer perder sua identidade moldada pela era da Cristandade. Este é o problema central. Quem identifica a proposta de Jesus com aquela forma religiosa específica, não aceita a mudança. E assim, assistimos ao regresso das batinas, das liturgias pontifícias, dos prelados que, com duros discursos, mostram que ainda querem contar. Na realidade, este estilo religioso, já não diz nada à sociedade, serve apenas aos poucos adeptos, fechados em si próprios, com medo do que acontece lá fora. Em vez disso, o que se configura é o espaço para uma nova forma de viver o Evangelho e é precisamente sobre esta nova possibilidade que se deve prestar atenção.

 

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

A CRISTANDADE TERMINA E APARECE A ALEGRIA DO EVANGELHO

 



Paolo Cugini

Há um sentimento de vazio espiritual que percebe-se na vida das comunidades cristãs. É difícil mudar o paradigma. É difícil viver a fé não apenas em clima de minoridade, mas também é difícil pensar em si mesmo de forma diferente. Viemos de séculos e séculos em que todos eram cristãos e o cristianismo era a forma de sociedade. Missas, sacramentos, rituais, festas litúrgicas moldaram a estrutura social do Ocidente. Agora que todo este mundo entrou em colapso, ninguém se sente mais obrigado a rituais cristãos.

Na era da Cristandade, não participar da vida religiosa significava condenação eterna, o inferno no futuro. Agora que o envelope sacro se foi, todos os medos desapareceram. O que nos resta? O fim da Cristandade coincide com o fim da religião como forma sacra, que molda a sociedade. O cristianismo transmitia uma mensagem que fazia coincidir a aparência social com o pertencimento à religião, à igreja. O problema agora é viver a fé promovida pelo Evangelho sem fingir que a sociedade se preocupa. Esta é uma fase delicada porque, apesar do fim da era cristã, toda uma série de rituais e elementos sacrais continuam presentes na sociedade, que durante séculos identificaram o pertencimento à vida social e que permaneceram no tecido social, apesar de não saberem, e não entender seu significado. Muitos pais, apesar de não acreditarem no Evangelho e não frequentarem uma igreja, recorrem a ela para batizar seus filhos ou pedir para participar do caminho dos sacramentos, causando perda de tempo, tensão sem fim. Aproximamo-nos da igreja como se fosse qualquer loja, na qual qualquer pessoa tem o direito de comprar o que quiser. É sem dúvida uma fase de transição que, como tal, estará destinada a desaparecer. Fase de transição que é portadora de tensões entre quem dirige a vida religiosa e que nem sempre tem consciência da transição que vivemos, e quem vive a religião apenas como pertencimento social.

Então, chegará o tempo em que poderemos viver a proposta de Jesus em pequenos grupos, entre aqueles que aceitaram a mensagem do Evangelho e fizeram escolhas a respeito, sem ter que prestar contas de uma sociedade que, por agora, vai ignorar o que se tornou uma minoria e não pretende mais afetar a sociedade, pelo menos de fora. Seremos como o fermento na massa - finalmente! -, livre da tirania da aparência e do desempenho a todo custo. Estaremos nas casas, também porque, entretanto, as igrejas e catedrais já terão sido convertidas em estruturas de uso social e coletivo. E é na dimensão familiar do lar que poderemos saborear o sabor da diversidade da vida, das opções, que só o Evangelho pode oferecer, sem a preocupação de ter que provar alguma coisa. Nessa altura, teremos nos libertado das catedrais, das pesadas estruturas eclesiais, das procissões, das estátuas, dos vestidos litúrgicos, de todos aqueles ornamentos resultantes da corrida desenfreada que a Igreja fez durante séculos no poder, pagando um preço altíssimo. Não veremos mais nas ruas aqueals personagens esquisitas vestidas de preto, símbolo da morte prematura, quando deveriam ter vestido as roupas coloridas da alegria. Haverá paz em nossos corações crendo no Evangelho, em Jesus Cristo e, finalmente, seremos libertados dessas doutrinas construídas com o propósito de valer algo no mundo.

terça-feira, 16 de março de 2021

POLIEDRO




Paolo Cugini


      Vem do grego: polis, muitos e èdron, rosto, portanto muitos rostos. É, portanto, um sólido geométrico limitado por superfícies poligonais planas. Depois, há os poliedros regulares, feitos de faces iguais, e os poliedros irregulares. É uma figura que exerce um certo encanto porque realça especificidades. É, de fato, da perspectiva da unidade na diversidade. O realce das partes, por outro lado, não é implementado pela esfera que, por sua característica específica, cancela qualquer aresta, pois na esfera tudo deve ser homogêneo. Poliedro e esfera indicam, portanto, formas de compreender a relação entre indivíduos e comunidades, ou entre comunidades diferentes em relação umas às outras.

     Esta figura geométrica é frequentemente citada pelo Papa Francisco para indicar sua visão da Igreja, como uma união de todas as parcialidades que na unidade mantêm a originalidade das singularidades. É exatamente o oposto do que acontece na esfera em que a superfície não apresenta rebarbas. Sempre que a Igreja se impõe aos fiéis sem possibilidade de ouvir ou responder, manifesta a sua intenção de nivelar a relação para que apareça uma uniformidade, que acalma quem está no poder, mas gera tensão e rebeldia nos que estão no poder. Nesta perspectiva, São Paulo, em mais de uma ocasião, expressou o desejo de estabelecer comunidades cristãs no modelo do poliedro, isto é, tentando alcançar a unidade salvaguardando a diversidade. São Paulo estava convencido de que o Espírito Santo é aquele que desperta a diversidade, manifestando às pessoas que o acolhem os carismas específicos que permitem à comunidade cristã existir à imagem de Cristo.

    No nível social e político, o poliedro e a esfera indicam duas formas de entender as relações dentro de uma comunidade, uma nação. Enquanto, de fato, no modelo da esfera o cidadão se anula ou, muitas vezes e de boa vontade, é anulado por medidas autoritárias e violentas, no modelo do poliedro o cidadão mantém sua peculiaridade. O modelo poliedro permite que os cidadãos interajam com a estrutura sociopolítica, mantendo a sua própria autonomia. Percebe-se o estilo multifacetado de governar um país na antiga polis, uma das raras experiências políticas em que os governantes não apenas agiam pelo bem dos cidadãos, mas os envolviam nas decisões a serem tomadas. Enquanto o modelo esférico anula a parte, a singularidade em benefício do todo, o modelo multifacetado valoriza e acredita que cada cidadão é chamado a dar o melhor de si para o bem da comunidade e consegue fazê-lo com precisão porque ele é instado em sua especificidade.

    Eu amo o poliedro e odeio a esfera. Gosto de me envolver e envolver as pessoas nos projetos que estão na minha cabeça. Não gosto quando encontro no meu caminho pessoas com uma mentalidade “esférica”, que asfaltam as vontades dos indivíduos para se imporem. O pior é quando este modelo esférico é visto implementado na Igreja fazendo-se passar pela vontade de Deus, rasgando assim páginas após páginas do Evangelho.

sábado, 12 de setembro de 2020

EVANGELIZAR NESTE NOVO CONTEXTO CULTURAL

 




FUNDAÇÃO MIGRANTES

 


ENZO BIEMMI

Roma, 12 de setembro de 2020

 

Resumo: Paolo Cugini

 

Através de uma vida entregue ao Evangelho procuro dizer o que acredito.

1. A mudança do tempo e a figura de um Cristianismo de liberdade e escolha Ele acabou com o Cristianismo na sua forma sociológica, que o cristianismo em que um não poderia ser outra coisa senão Christian .

Três etapas:

  1. Alguém se torna um cristão
  2. Alguém nasce cristão e não pode deixar de ser
  3. Alguém não nasce mais cristão, pode se tornar um

Existem outras maneiras de viver bem sua vida. A vida cristã retorna ao seu estado original de proposta livre. A cultura atual transmite liberdade religiosa. A resposta negativa é a da nostalgia: multiplicar as ações para trazer de volta a situação de quando o cristianismo era majoritário. Ó dia ou as oportunidades de oferecer o Evangelho como uma escolha .

2. Somos uma minoria , mas alegres. Nesse contexto plural, estamos de volta ao que éramos no início. Minoria alegre Depois da monocultura, o apelo do Espírito é habitar a biodiversidade cultural e religiosa. Recupere o espírito da carta a Diognetus O problema com o Cristianismo é decidir qual minoria queremos ser. Não somos uma seita, um refúgio da complexidade da história. Não vo gl e são uma minoria contra um prisioneiro de ressentimento. É a tentação mais forte para aqueles que já são maioria.

Somos chamados a ser uma minoria a favor, inserindo uma profecia, uma diferença que sinaliza que o Evangelho pode dar algo aos homens e mulheres de hoje.

Cristianismo da graça. Jesus é o salvador de todos No entanto, o Espírito Santo está incluído em todos os corações. A fé como adesão explícita não condiciona o amor do Espírito e não é necessária para a salvação. O espírito não está vinculado aos sacramentos.

Gaudium et spes 22 : Cristo morreu por todos. Devemos acreditar que o Espírito Santo trabalha para entrar em contato com todos com o mistério pascal.

3.La fé cristã é se a mesma ordem de desnecessária no que diz respeito à salvação. As pessoas não consideram mais necessário viver. Foi o próprio Deus que em Cristo Jesus decidiu tornar-se desnecessário. Está em si disponível sem nunca se impor e não condiciona a resposta. Ele deu a todos o Espírito. O que todos precisam para a salvação é amor, caridade. Não seremos julgados pela fé, mas pelo amor. Em todos e em todos existe uma primeira graça ou uma fé elementar, uma fé prática, uma fé de segunda mão e que em alguém, por uma segunda graça (Jo 1,17), ter encontrado o Senhor Jesus ou a fé do discípulo ou confessar fé. Alguém. Jesus no Evangelho tem 12 apóstolos, alguns discípulos e muitas pessoas que o seguem. Não existe uma maneira única de viver a fé Testemunhe a fé em um contexto secularizado e marcado pela pluralidade de caminhos humanos. A fé passou como necessário não faz mais sentido hoje. O evangelho nos precede.

A necessidade de evangelização. Você pode viver sem encontrar a pérola rara, mas quando a encontra, sua vida muda. Não podemos renunciar a anunciar o Evangelho. A evangelização é necessária:

  1. Para nós mesmos recebemos a segunda graça. Estamos no espaço da necessidade intrínseca.
  2. 1 Jn: para que a nossa alegria seja completa. Algo está faltando em nossa alegria até que isso seja compartilhado .
  3. EG: porque não é a mesma coisa ter conhecido Jesus ou não conhecê-lo. É por isso que evangelizamos.

Evangelho como graça da humanidade Chegamos e Deus já está lá. A fé cristã é um dom para que todos se tornem mais humanos e tornem o mundo mais humano. No centro da afirmação refazer está: para nós homens e para nossa salvação para o ser humano e sua plenitude. Consequência: basta trabalhar inspirado no Evangelho para tornar mais humana a vida de um irmão e de uma irmã. Precisamos de alguém que saia e trabalhe pelo ser humano inspirado pelo evangelho. Há um ser humano que é portador do Evangelho.




6. A igreja é um lugar hospitaleiro para histórias A fé cristã não é uma filosofia de vida, é uma relação que se concretiza na história: uma relação permanente. A Igreja é antes de tudo um espaço de narração, uma casa onde ressoam os contos das histórias da salvação. Lugar que protege e promove as histórias e tramas nas grandes narrativas das maravilhas de Deus, com suas próprias histórias de salvação. Outros devem ver em nós a verdade das histórias que contamos e abrir espaço para suas histórias. A Igreja como hospedaria de contos.

7. O conteúdo da catequese : a pessoa de Jesus, o Kerigma. Francis EG 154 Jesus Cristo te ama e está vivo ao seu lado Temos que anunciar isso. Precisamos de alguém que nos diga: olha que Jesus Cristo te ama. Não será completo, mas é generativo. Outro termo do Kerigma que Francisco indica é: misericórdia.

8. O conteúdo da catequese Na Tradição da Igreja foram preservados os conteúdos, que têm a função de salvaguardar os conteúdos e não desfigurar o rosto de Jesus, houve um grande desenvolvimento. Todos esses conteúdos são as explicações cognitivas, morais, rituais e éticas que brotam das Escrituras. O livro da catequese é a Sagrada Escritura. Os outros textos são ajudas, mediações. Quatro sínteses: Credo, Sacramentos, Mandamentos. Nosso pai,

9. Fé: uma confiança inteligente Deus se entregou às nossas histórias e também à nossa inteligência. O anúncio permite dialogar com as grandes questões da vida e da cultura. A razoabilidade da fé é um requisito de todos e de todos. O anúncio é relevante nesta condição cultural? Isso é o que devo fazer a mim mesmo como uma pergunta. Queria ver com inteligência o que eu acreditava (Agostinho). Pensar é constitutivo da fé para reconhecer a identidade de quem veio ao nosso encontro. O sentido do ato de acreditar, o sentido de esperança. Nesse horizonte há espaço para dúvidas. É preciso ter autorização para ser sempre crítico. aul Claudel: a dúvida é uma homenagem à liberdade de Deus para o homem .




10. er uma fé popular Legitimação de uma figura de fé habitável por todos, em particular pelas pessoas mais simples, que nasce dos problemas da vida, com todas as dimensões da vida (gestos, afetos, etc.). Valor da religiosidade popular. A religiosidade popular surgiu como um antídoto para as formas de expressão de fé aprendidas com tropas. É alimentado por três necessidades:

  1. simplicidade do relacionamento com Deus .
  2. Possibilidade de relacionamento direto, e não apenas mediado por padres. Imediatamente
  3. Relacionamento útil.

Existe uma profecia na religiosidade popular. Recupere um Cristianismo popular que entre em uma relação recíproca com o Cristianismo tradicional e erudito.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Anunciai a Boa Nova a Todos!


ARQUIVO (março 2018)



Paolo Cugini

1. A Páscoa está se aproximando e todos nós somos convidados a refletir sobre o mistério da morte e da Ressurreição de Cristo, pra entendermos o sentido que este evento tem pela nossa vida. Passei estas ultimas semanas de quaresma lendo e meditando com os jovens das comunidades da zona rural, os capítulos do Evangelho de Marcos que relatam a paixão e morte de Jesus. Muitos destes jovens ficaram se questionando: “Mas porque Jesus, o Filho de Deus, que veio ao mundo para anunciar a Boa Nova aos pobres, que realizava milagres esbanjando vida para todos, que curava os dentes e amava a todos e a todas, foi massacrado e humilhado naquela forma horrível que é narrada nos Evangelhos?”. A resposta a esta pergunta foi encontrada no Evangelho de Mateus ao capitulo 23, aonde se relata o discurso de Jesus contra os chefes religiosos e políticos do tempo, criticando a hipocrisia deles e denunciando as atitudes erradas. A palavra e a ação de Jesus incomodava o poder acostumado a fazer qualquer malandragem á luz do sol, sem ninguém se queixar por medo das retaliações. A Boa Nova que Jesus anunciou contem também esta denuncia profética contra toda forma de exploração, todo abuso de poder prejudicando o povo mais pobre e humilde. Por isso os chefes políticos e religiosos se juntar para decidirem de matar Jesus (Marcos 3,6).

2. Dá pra perceber imediatamente que, apesar de ter passado mais de dois mil anos da morte e ressurreição de Jesus, as coisas não mudaram muito.  Ainda hoje, como naquele tempo, o poder é acostumado a fazer o que quiser, se beneficiando de qualquer forma, as custas dos pobres. E se alguém se queixar é cassete na hora. Existe todo um povo que vive apavorado, com medo de denunciar os abusos e as explorações que corriqueiramente agüenta por medo das retaliações. Existe todo um povo que passa a vida toda se censurando, vivendo não na forma que bem queria, mas encostado no poder achando que pelo menos o poder oferece alguma coisa. O questionamento sobre esta atitude é grande: será que vale a pena abrir mão dos próprios ideais por um pedaço de pão? Será que vale a pena abrir mão até da própria fé, pra viver encostados a vida toda nestas pessoas que não sabem nem onde fica a Igreja?  Será que esta é vida? Será que Jesus veio ao mundo para que o povo vivesse deste jeito? Dá pra acordar?

3. Jesus morreu e ressuscitou. Este é um dato bíblico fundamental. De fato, se Cristo ressuscitou quer dizer que está vivo, que o mal não prevaleceu sobre Ele. Se Cristo é vivo isso quer dizer não apenas que Ele é presente e acompanha de perto os nossos passos, mas também que o Seu Espírito está dentro de nós e nos impulsiona para que o Seu Reino de amor se realize entre nós. Não basta gritar Aleluia! Gloria a Deus! Para manifestarmos o nosso agradecimento a Deus por tudo aquilo que em Cristo nos proporcionou, precisamos dar continuidade á Sua obra maravilhosa, saindo do medo, manifestando a nossa fé na Ressurreição de Cristo, denunciando as maracutaias do poder corrupto. É neste ano de eleições políticas que precisamos manifestar a nossa fé na ressurreição de Cristo. Como é, de fato, que podemos gritar Aleluia! na Igreja e depois sermos cúmplices  das armadilhas corruptas do poder, sendo instrumentos de compra e venda de votos? A fé na Ressurreição de Cristo que na Páscoa celebramos com tanto vigor, exige um estilo de vida que seja digno de Cristo, respeitoso do seu sofrimento, em continuidade com o seu anuncio. Pedimos a Deus a força de sermos cristãos corajosos, capazes de enfrentar as conseqüências de uma vida autentica, manifestando a alegria de viver uma vida justa e fraterna.



domingo, 16 de setembro de 2018

ESTAMOS PERDENDO A JUVENTUDE






Paolo Cugini

Foi esse o título de um artigo que chamou muito a minha atenção, que apareceu numa revista religiosa o mês passado. O autor – prof. Renold I. Blank – lançou um “grito de alerta” sobre a situação de juventude na Igreja Católica. Segundo ele, os grupos jovens da igreja alcançam pouquíssimos jovens, também porque a proposta deles é muito radical.

Quem não é engajado na luta social (PJMP) ou quem não quer rezar (grupos de oração) não pode pertencer ao grupo. E assim a grande maioria dos jovens não é atendida. Infelizmente os coordenadores dos grupos jovens, deparando sobre a dificuldade de liderar com os jovens, ficam paparicando os poucos sobreviventes abrindo mão do esforço missionário, base de um trabalho com a juventude.

Uma Igreja que quer ser proposta positiva para os jovens deveria, em primeiro lugar, sair nas estradas, nos praças, nas escolas e, porque não, nos bares para encontrar os jovens onde eles vivem. É o contato humano, o encontro pessoal o primeiro meio de evangelizar. O conteúdo passa através da relação e, esta, para acontecer, deve ser procurada e deve ser realizada de forma desinteressada. É a bondade das nossas relações que se torna sinal de algo de misterioso que provoca a curiosidade.

A maioria dos jovens não freqüenta a Igreja, não andam nos nossos “importantíssimos” encontros, não se sentem envolvidos em lutas sociais e não gostam de rezar. Nem por isso não precisam encontrar-se com os outros jovens, para aprofundar o conhecimento de si e do mundo. Aliás deveriam ser eles os primeiros sujeitos do nosso trabalho de evangelização.

Pessoalmente acho que o problema que não permite aos agentes de pastoral de fazer um passo mais firme para encontrar a juventude, è devido à maneira de entender o problema da evangelização. Para a esmagadora maioria dos agentes de pastoral, evangelizar os jovens significa catequizar, organizar grupos de oração, ou, grupos de engajamentos sociais. O fato é que mais de 96% dos adolescentes e jovens das nossas Paróquias, não entram nesses esquemas. Talvez, a historia está querendo nos convidar para pensarmos caminhos de evangelização deferentes, mais criativos, em outras palavras, mais atentos a realidade complexa da juventude de hoje.

Isto quer dizer que a Paróquia, além de promover grupos de jovens que querem aprofundar o conhecimento de Jesus (PJMP) e grupos de oração, deve aprender a pensar de uma forma mais livre e criativa. Deve, por assim dizer, elaborar umas propostas para a maioria dos jovens que não pisam o pé na Igreja e não se sentem atraídos pelas nossas propostas religiosas. Poderia ser este o trabalho de um conselho pastoral ou do grupo  dos coordenadores de grupos de jovens.

Mas não é um conselho pastoral que pode entender o rumo que a pastoral da juventude deve tomar. É a vivencia com os jovens, é a rua, a praça, os novos areópagos aonde a juventude se encontra, ou seja, nas redes sociais que se decide o que fazer e como enfrentar o delicado tema da evangelização da juventude. Não podemos, também, passar a vida toda se queixando porque os jovens não andam nas missas, pois é um tipo de proposta que não bate na vivencia deles. É tocando a realidade dos jovens que podemos entender o caminho que Deus está preparando para que possam se encontrar com Ele.

Para um tipo de trabalho desse, quer dizer bem missionário e despojado, é preciso pessoas que já encontraram o Senhor e que se alimentam do seu amor. Não tem possibilidade nenhuma de desenvolver um trabalho de evangelização se cultivar interesses pessoais. Talvez seja este o problema maior da nossa pastoral da juventude. Entram no campo da missão, obreiros que cultivam algumas expectativas pessoais, muitas vezes de tipo afetivo. Quando não tiver gratuidade, não vai muito longe no trabalho pastoral, pois a gratuidade é um sinal da presença de Jesus Cristo na historia.  São pessoas que alcançaram uma maturidade afetiva e humana que podem criar relações humanas livres e, por isso, caminho de um autentico encontro com Cristo. Pelo contrario, quando a ação pastoral no meio dos jovens é liderada por pessoas não resolvidas afetivamente, a projeção deles sobre os jovens que encontram é misturada e, ao mesmo tempo guiada, pelas carências afetivas não resolvidas.

Por isso Jesus não dava ousadia quando as pessoas o procuravam para prestigia-lo depois de um milagre. Ele não se alimentava da fama humana, mas do amor do Pai. Esta é uma grande indicação não apenas religiosa, mas também humana, que nos ajuda para avaliar a nossa maneira de liderar com as pessoas que nos rodeiam no trabalho pastoral, sobretudo com a juventude. Estou frisando a juventude porque a personalidade de um jovem é ainda em formação e o desastre que nele pode provocar um evangelizador carente e mal resolvido na afetividade, é demasiado grande. As crônicas que lemos nos jornais nestes dias, estão confirmando, infelizmente, as minhas palavras.