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sábado, 11 de abril de 2026

RELIGIÃO E CIENCIA: HISTÓRIA DE UMA HARMONIA QUE NÃO DEU CERTO

 




 

Paolo Cugini

 

Entre o humanismo e a modernidade houve uma mudança radical, paradigmática no relacionamento entre religião e ciência. Depois de séculos em que cristianismo dominavas a cultura, além da política e ditava a agenda cultura do Ocidente, com o advento do humanismo no século XV esta harmonia se rompe de forma definitiva. O que aconteceu?

De um lado a Igreja prendeu a alma humana, de uma certa forma, sobretudo na época medieval, teve a presunção de poder determinar a vida dos próprios fiéis, impor normas morais e maneira e até maneira de pensar. Uma pregação baseada sobreo medo do inferno, com consequência de pecado mortais, que a mesma igreja definia, deixou os leigos e leigas num estado infantil, não permitindo para eles um desenvolvimento autônomo da própria consciência.

O humanismo, com as figuras de Pico da Mirandola, Erasmo da Rotterdam, entre outros, provocaram no homem moderno o desejo de experimentar a si mesmo, de buscar a própria autonomia e de demostrar as próprias capacidades. Para isso acontecer foi necessário romper os laços com aquela instituição, a Igreja Católica, que não deixava e não permitia ás pessoas se desenvolverem de forma autônoma. O primeiro passo nesta direção foi dado pelo jovem humanista Pico da Mirandola quando sustentou que a dignidade do homem depende da própria natureza humana e não da imagem de Deus imprimida nele.

Depois veio a reforma protestante a dar um golpe fatal na arrogância eclesial de querer o povo submisso. No 1517 o jovem teólogo alemão Martin Lutero, escreveu mais de 90 teses demostrando a própria decepção com uma instituição que parecia ter-se perdido no caminho que, em vez de pregar amor e justiça, vendia as indulgencias para arrecadar dinheiro pela construção da igreja de são Pedro. Na realidade, Lutero foi a ponta do iceberg de um mal-estar, que serpenteava pelo interior da igreja.

Neste clima conturbado apareceu o filosofo francês René Descartes para propor o próprio método específico, fruto de um profundo questionamento sobre a possibilidade da metafisica de elaborar conteúdos autênticos. O famoso cogito ergo sum, ou seja, penso então eu sou, expressa de forma filosófica o grito de uma nova geração de pensadores, a possibilidade de elaborar um pensamento de mesmo homem, demostrando as capacidades humanas, muitas vezes diminuídas da instituição eclesiástica por medo de perder o controle do povo.



Este novo clima de autonomia abriu o caminho para o desenvolvimento do método e das descobertas cientificas. O tema que provocou uma mudança radical na cultura Ocidental foi a passagem do sistema geocêntrico sustentado pela Igreja e por Aristóteles, para o sistema heliocêntrico, sustentado por Copérnico, Galileu e Kepler. Eles avançaram a ideia que a verdade não devia depender de fontes externas como a Bíblia e a metafisica aristotélica, mas unicamente da observação e da experimentação. Este método novo, que quebrou o paradigma imposto pela religião, foi a base das grandes descobertas científicas dos séculos sucessivos e o avanço extraordinário da tecnologia. Este é o grande paradoxo que encontramos na história do pensamento Ocidental: quando a filosofia abandou a religião, as suas exigência e os seus paradigma, foi exatamente o momento em que a ciência deslanchou.

Este é o grande questionamento: porque a Igreja não soube acompanhar este desenvolvimento da ciência moderna, mas, aliás, se colocou como obstáculo? O que falou para manter a harmonia entre religião e ciência, como aconteceu nos séculos anteriores?

 

domingo, 8 de março de 2026

METAFISCA E VIOLÊNCIA NA RELIGIÃO

 




Paolo Cugini

 

A relação entre metafísica e violência na religião é um tema central na filosofia contemporânea, especialmente em pensadores que discutem como a imposição de "verdades absolutas" pode fundamentar atos de exclusão ou agressão.

 

A violência na religião nem sempre é física; ela começa no campo das ideias. Para filósofos como Gianni Vattimo, a metafísica é inerentemente violenta porque estabelece fundamentos objetivos e dogmáticos que silenciam qualquer questionamento posterior. Quando uma religião se pretende detentora de uma verdade única e imutável (característica do pensamento metafísico), ela exerce uma forma de controle social que impõe valores e dogmas de forma autoritária. 

Vattimo argumenta que o cristianismo, ao longo da história, se aliou a uma "metafísica natural" que enrijeceu o pensamento dogmático. Segundo ele a violência como imposição. A violência ocorre quando a verdade é pensada como um movimento dentro da própria metafísica, ou seja, como a "imposição de uma verdade mais autêntica" sobre o outro. O caminho da caridade: para o autor, superar a violência religiosa exige superar a própria metafísica, migrando para uma sociedade pós-metafísica onde o diálogo e a caridade substituam o autoritarismo dogmático. 

Outros pensadores focam na relação com o "Outro" como ponto de ruptura: Jacques Derrida sustenta que toda tentativa de reduzir o "Outro" ao "Mesmo" (ou seja, enquadrar o outro em nossas próprias categorias de verdade) é um gesto de violência. A filosofia, ao buscar totalizar a alteridade em um sistema, mantém uma violência originária. Emmanuel Levinas discute que a violência é a ausência de fenomenalidade — uma incapacidade de transformar a experiência do sofrimento em imagem ou conceito. Na religião, isso pode se manifestar quando a transcendência ética é sufocada por estruturas ontológicas rígidas. 

Friedrich Nietzsche oferece uma das críticas mais contundentes, vendo a religião como uma força que oprime os instintos vitais. Para Nietzsche, o cristianismo utilizou a metafísica dos valores para estabelecer uma "dívida impagável" perante Deus, transformando a consciência humana em uma ferramenta de castigo e culpa.  Ele afirma que a religião aprisiona o ser humano em propósitos metafísicos que negam a vida terrena e devem ser superados para que o homem viva com autenticidade. 

Na contemporaneidade, há um movimento para repensar o papel social da religião fora das categorias metafísicas tradicionais. A intolerância religiosa é frequentemente vista como fruto de uma limitação do conhecimento ou de uma resistência ao pluralismo. Como sugere a pesquisa contemporânea, o foco deve se deslocar da imposição de dogmas para a reflexão ética e a busca por justiça

 

sexta-feira, 14 de março de 2025

O DEVOCIONISMO RELIGIOSO E OS MALES DA SOCIEDADE OCIDENTAL






Paolo Cugini


A devoção surgiu e se desenvolveu em um período em que os dados bíblicos e patrísticos estavam dispersos. É isso que estudos históricos recentes nos ensinam. A devoção, portanto, era alimentada pela superstição, pelo medo do sagrado. A devoção toca os sentimentos e manifesta o temor a Deus, um Deus percebido como terrível, capaz de punir a qualquer momento e a qualquer hora qualquer forma de desobediência. Para controlar o poder do Deus destrutivo, do Tremendum , para usar as palavras de Rudolf Otto, o devocionismo colocou em prática um sistema de preceitos e deveres que os fiéis devem cumprir para não serem subjugados pela força de Deus. Uma vez que os preceitos foram cumpridos, o devoto está pronto para fazer o que quiser na vida. A devoção atua na separação entre o sagrado e o profano. O sagrado exige sacrifícios, ritos, preceitos em um contexto sagrado. A realização dos ritos permite aos fiéis viver no mundo profano de forma fiel e segura. A devoção oferece segurança ao devoto, aquela segurança interior que lhe dá a certeza de ter feito tudo o que era preciso para estar em paz com Deus e, sobretudo, para garantir que Deus não o golpeie. A relação entre o sagrado e o fiel é estimulada por um sentimento de culpa, incentivado pelo sentimentalismo devocional, que põe em ação uma série de mecanismos que não permitem ao fiel escapar da lógica dos preceitos. A devoção torna homens e mulheres escravos de ritos e preceitos. Em troca, eles recebem a segurança da salvação e a capacidade de controlá-la. Isso não é pouca coisa.


A cultura burguesa, que surgiu no Ocidente no final da Idade Média e foi fortalecida pelo advento da revolução industrial, foi alimentada pela devoção religiosa. Poderíamos dizer que nunca houve uma conexão tão estreita entre a dimensão espiritual da vida pessoal e a social. O capitalista burguês que explora os trabalhadores, enriquecendo-se às custas deles, não se sente culpado, mas sim confirmado em seu trabalho pelo simples fato de cumprir perfeitamente todas as prescrições exigidas pela devoção religiosa. Há burgueses que vão à missa todo domingo ou até mesmo todo dia. Os cidadãos que recitam o terço fazem novenas aos santos a quem se referem. Eles são generosos ao fazer doações significativas para locais de culto. Depois, há o estilo burguês da pessoa que vive sua vida tranquila entre o trabalho e a família. É o modelo social propagado com o advento da era industrial em todas as suas fases e é o estilo hoje indicado junto à classe média. Quando passamos da sociedade agrícola para a industrial, o modelo burguês assume o controle, encontrando apoio na religião devocional para justificá-lo. Vida pacífica e tranquila. Uma vez feito o trabalho, há tempo para Deus e para a própria vida. Possibilidade de organizar seu tempo livre como desejar, com férias e semanas de esqui. O modelo burguês aprisiona as pessoas em uma esfera do mundo, não permitindo que elas compreendam a conexão entre os mundos. Se, de fato, há uma parte que está bem, esse bem-estar é produto das lágrimas e do sofrimento de outra parte do planeta. Existe todo um sistema que não nos permite sentir esse vínculo intrínseco. A devoção moderna também contribui para tornar o devoto surdo e cego. Presos na necessidade de observância, os devotos não se importam com seu estilo de vida confortável e tranquilo, mas sim o encorajam. Não é por acaso que foi o Ocidente devoto que desenvolveu o sistema econômico mais criminoso que já existiu, o neoliberalismo. Este modelo está produzindo dia após dia enormes massas de deserdados, excluídos do suntuoso banquete dos poucos que podem se beneficiar de tudo. É vergonhoso ler os rankings elaborados pela revista Forbes todos os anos dos homens e algumas mulheres mais ricos do mundo, que enriquecem ano após ano, enquanto, ao mesmo tempo, aumentam os desesperados, os sem-teto, os pobres, aqueles que perdem tudo ou que, apesar de trabalhar, veem seus salários diminuírem, dificultando a sobrevivência deles e de suas famílias. Existe uma religião que é cúmplice desse massacre que está sendo perpetuado e espalhado pelo mundo; é a religião dos devotos, daqueles que restringem o campo de ação de Deus aos seus próprios pequenos corações, que se tornam cada vez menores e mais opacos, para não ouvir os clamores dos desesperados do mundo. É a religião dos moderados, daqueles que com suas devoções amortecem a força disruptiva do Evangelho de Jesus, que anuncia o Deus que não faz distinção entre pessoas e a comunidade na qual ninguém vive necessitado, porque quem tem mais reparte com quem tem menos. Não é por acaso que, aonde o devocionismo religioso é forte o povo fica mais pobre.



Esse modelo social e religioso tipicamente ocidental produz uma enorme massa não apenas de resíduos materiais, mas, sobretudo, de resíduos humanos. Esta é uma expressão forte usada pela primeira vez pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman. É uma expressão forte que, no entanto, expressa bem o significado profundo deste modelo social e religioso. Quando uma sociedade se alia à religião para buscar seu próprio bem-estar às custas dos outros, isso significa que algo está errado, que não está funcionando. Uma grande massa de resíduos humanos é encontrada agora em nossas cidades, em nossos bairros. Massas de pessoas vindas de países empobrecidos pela presença ocidental. Este é o grande paradoxo da sociedade ocidental: há países ricos em todas as coisas boas do solo e do subsolo, mas que se tornaram lotados de pessoas pobres por causa da violência do homem ocidental que entrou em suas casas para saquear tudo a custo zero. Embora estejamos confortáveis em nossas próprias casas, há muitas pessoas que não se sentem bem em suas próprias casas. As montanhas de lixo que vemos não apenas em aterros sanitários, mas agora nas margens das estradas, são o símbolo da nossa sociedade desorientada, uma sociedade opulenta e gorda, uma sociedade que perdeu o rumo. Se de um lado há uma sociedade que produz resíduos em quantidades assustadoras, de outro há uma sociedade que se alimenta deles. Há algo assustador e irracional em tudo isso, um sinal de que há uma falta de pensamento humano na condução do mundo, naqueles chamados a guiar o destino da humanidade. As Igrejas, nessa perspectiva, não podem limitar-se a celebrar ritos para os devotos do momento, mas devem fazer ressoar a voz profética do Evangelho por meio de escolhas radicais que afirmem explicitamente a ruptura com o perverso sistema neoliberal.


Infelizmente, não demos ouvidos aos profetas que, já no início do século passado, nos alertaram. Charles Péguy , por exemplo, alertou-nos sobre o perigo de desenvolver projetos políticos e sociais sem levar em conta a realidade. Caminhar pela história com os pés no chão, escutando a realidade que se manifesta como múltipla e, portanto, não uniforme, significa desenvolver caminhos sociais e políticos nos quais a diversidade não seja exceção, mas encontre lugar com toda a sua dignidade. Ouvir a realidade hoje significa escutar o clamor dos deserdados, dos dejetos humanos, e criar espaços para que eles possam se expressar e nos mostrar novos caminhos de salvação. 

O mesmo Emmanuel Mounier que em 1932, em meio à maior crise econômica do século passado, lançou um apelo na revista Esprit que ele fundou contra o colapso da cultura burguesa, incapaz de salvaguardar os valores da pessoa. Não é por acaso que foi nas páginas desta revista que Mounier e seus colaboradores desenvolveram o projeto do personalismo comunitário, mostrando como não é possível salvaguardar a dignidade da pessoa humana sem uma referência à comunidade. É justamente a comunidade o problema que se torna evidente nessa passagem da cultura ocidental. Uma comunidade, de fato, que não é mais capaz de construir relacionamentos nos quais todos possam realizar seu potencial. De fato, vemos, dia após dia, uma comunidade de pessoas desiguais, uma sociedade em que poucos têm condições financeiras, em detrimento de um número cada vez maior de pessoas doentes. 

Aquela grande mulher que foi Simone Weil nos alertou, em um de seus diários, sobre a necessidade de nos educarmos para a atenção como forma de estarmos em contato com a realidade e não perdê-la de vista. Se há um fato que fica claro é que o mundo ocidental construiu todo um arsenal que o torna cada dia mais distraído e, dessa forma, se torna incapaz de ouvir a realidade, surdo aos gritos dos desesperados, fechado em seu próprio bem-estar, insensível aos dramas humanos que acontecem ao nosso redor, incapaz de desenvolver caminhos que sejam pertinentes à realidade feita de homens e mulheres e não de números.


Péguy escreveu há mais de um século: a revolução será moral e espiritual ou não acontecerá. Projetos políticos não mudarão o rumo dessa história doente de individualismo. Neste caminho de revolução espiritual, a comunidade cristã tem, sem dúvida, uma tarefa importante, desde que saiba colocar no centro o Evangelho de Jesus, a Sua Palavra, e se deixe inspirar por Ela.


quarta-feira, 12 de março de 2025

DESCONSTRUINDO A RELIGIÃO PARA ENCONTRAR DEUS

 




Paolo Cugini



É como uma cebola ou como um forro. Vista de longe, a cebola parece compacta, algo único, mas não é. Quando você vê de perto, percebe que ela é em camadas, que você pode descascá-la, pode tirar as camadas, o que, no caso das cebolas – e não só – é um processo que nos faz chorar.

Até os cobertores parecem ser um corpo único, mas em vez disso há costuras que unem as peças e depois há forros para esconder as costuras. O cobertor parece um corpo compacto, mas não é. Afinal, como muitas coisas na vida: elas parecem compactas, mas não são. Acostumamo-nos a viver na aparência das coisas, até o dia em que um encontro, um rosto, um sentimento forte nos ajuda a acordar e a descobrir que nem tudo é tão compacto quanto parece, que há algo diferente, que há algo mais.

Existe todo um sistema de coisas que faz de tudo para garantir que a realidade pareça compacta, bonita e agradável. Existe todo um mundo que trabalha para mascarar a realidade, sobretudo, para mascarar as manipulações da realidade. E então ocorrem acontecimentos que minam a compacidade, que abrem vislumbres, que provocam uma reflexão, uma crise e assim abrem o caminho da desconstrução que nos leva à realidade, isto é, à verdade sobre as coisas. A desconstrução das estruturas colocadas em prática para encobrir a manipulação da realidade é, ao mesmo tempo, um caminho de libertação e revelação. É libertador porque, finalmente, a pessoa vive sua relação com a realidade com liberdade. De revelação porque a revelação do processo de desconstrução nos leva a entender que as intuições que percebemos durante o período de manipulação da realidade eram autênticas. Isto já é uma indicação importante de método. Ela nos diz, de fato, que cada pessoa é dotada de apreender a verdade das coisas, sua realidade e, portanto, é capaz de perceber qualquer tentativa de manipulação, distorção, dissuasão.

Em algum momento da vida temos que decidir se descascamos as cebolas ou as deixamos como estão; temos que decidir se retiramos as cobertas e verificamos as costuras, ou se continuamos a nos cobrir como se o cobertor fosse um corpo único. Finalmente, em algum momento de nossas vidas, temos que decidir se continuamos acreditando em Santa Lúcia e no Papai Noel, ou se os colocamos em seu devido lugar. Ou seja, precisamos, em determinado momento da vida, que seria bom que acontecesse o mais breve possível, decidir se vale a pena sofrer um pouco, desmascarar os mitos que estão obscurecendo nossa visão da realidade, ou fingir que nada está acontecendo e pagar o altíssimo preço de uma vida falsa, ou seja, de correr o risco de nunca viver a realidade.

Quando isso acontece, ou seja, quando demoramos a ativar os processos de desconstrução e desmascaramento, nos sentimos mal porque vivemos mal. A consciência se rebela quando algo ou alguém nos sufoca, corta nossas asas, nos impede de voar, de sermos nós mesmos. Nossa consciência fica brava conosco no fundo do coração quando nos vê preguiçosos, submissos, um pouco mesquinhos porque nos refugiamos atrás dos nossos medos. Ficamos com raiva quando percebemos que a vida não é como pensamos ou como alguém pensou para nós. E então há uma voz dentro de nós, um sentimento que nos impulsiona a nos recompor, a nos levar a sério, a parar de choramingar e arregaçar as mangas para expor tudo e, assim, finalmente viver livres.



É o contato com a realidade que desmascara as falsas superestruturas que nos impedem de viver autenticamente. É a realidade que causa a ondulação dessas ideias, filosofias e teologias que cobrem nossas vidas, impedindo-nos de viver autenticamente. O pior, que infelizmente acontece com frequência, é quando filosofias e ideologias encontram nos pais um aliado que não tem tempo para verificar se essas ideologias estão de acordo com a realidade ou não. Pobre jovem que encontra dentro de sua própria casa a aliança diabólica de seus pais com os traficantes de ideologias desvitalizantes e castradoras! Será difícil sair dessa jaula de loucos, mas é possível. De fato, sempre há um dia em que nos deparamos com algo real, em que percebemos que o mundo não é como nos é vendido. Há sempre um dia em que a alma jovem respira o ar da liberdade e, quando isso acontece, podemos ter certeza de que ela fará de tudo para se livrar da podridão das filosofias e teologias que, como correntes, a mantêm numa gaiola. Quem sente o cheiro da liberdade, principalmente quando esse cheiro chega até nós na juventude, dificilmente o esquecerá.

O primeiro elemento fundamental desse processo de desmascaramento, que é ao mesmo tempo um processo de desconstrução, consiste em nos distanciarmos dos mágicos, dos charlatões, dos vendedores de óleo de cobra, dos vigaristas de segunda categoria que, por muitas razões, encontramos em nosso caminho e que encheram nossas cabeças de bobagens. Acredito que essa despedida saudável dos charlatões é impossível sem conhecer alguém que já passou por isso, alguém que já se libertou do mundo do absurdo, do mascaramento da realidade. Hoje sabemos que muitos desses charlatões usam batinas pretas e andam pelas igrejas. Existe toda uma religião que é um caminho para a liberdade. É um instrumento satânico de escravidão e morte. Quantas pessoas conhecemos que ingenuamente seguem alguém ou um grupo, pensando que estão trilhando o caminho do Senhor, mas na verdade estão trilhando o caminho de Satanás.

O segundo elemento do processo de desconstrução é o amor à liberdade que, ao mesmo tempo, é amor à vida. Quem ama a vida não aceita prisões de espécie alguma e depois, quando sente sua liberdade ameaçada, bate o pé, se rebela, tenta entender. Aqueles que amam a vida, aqueles que desejam uma vida plena e livre nunca desistem. É o amor à vida ou, como diria Nietzsche, o amor à terra que nos impele a jogar fora todas essas estruturas formadas ao longo do tempo que sufocam a vida em vez de libertá-la. É a força interior que vem do fundo das nossas vísceras, que anseia por liberdade, que não aceita uma vida de morte, uma vida sufocada por superestruturas formadas ao longo do tempo e que não têm mais nenhuma ligação com a realidade vivida hoje. É o amor e o respeito que temos por nós mesmos que, em determinado momento da jornada, nos leva a jogar fora toda resignação, todas as injunções injustificadas, para olhar melhor para dentro de nós mesmos, para não ter que passar a vida inteira submetidos a imposições sem sentido.

O maior mestre de todo caminho de desconstrução que, como vimos, é, ao mesmo tempo, um caminho de desmascaramento, é Jesus. É justamente Ele, de fato, que em várias circunstâncias desmascarou a hipocrisia dos fariseus, que manipulavam a Palavra de Deus para controlar o povo e manter o poder. “Assim, vocês invalidam a palavra de Deus por meio da tradição que vocês transmitiram. E fazeis muitas coisas semelhantes” (Mc 7,13). Substituir a Palavra de Deus pela tradição dos homens: é o que aconteceu ao longo dos séculos, levando milhares de pessoas a se submeterem às leis humanas, pensando que eram a Palavra de Deus. Jesus descobriu isso nos anos de sua juventude, passados em silêncio, prestando atenção ao que acontecia ao seu redor, a como os fariseus se moviam e como o povo sofria. Sem dúvida, em algum momento ele deve ter compreendido a contradição entre aqueles que em todos os tempos tinham a Palavra de Deus na boca e o que essa suposta palavra estava produzindo no povo, isto é, miséria, pobreza, injustiça, sofrimento. Foi a realidade ouvida com atenção que levou Jesus a entender o engano, a entender que aqueles que falavam em nome de Deus estavam, na verdade, falando por si mesmos e por seus próprios interesses obscuros. E então, um dia, ele decidiu ajudar os homens e as mulheres a se libertarem de todas as tolices dos homens no poder, a desmascarar o engano dos fariseus, a desconstruir todas aquelas leis que sufocavam a liberdade dos homens e das mulheres para mostrar-lhes o verdadeiro rosto de Deus que é Pai e Mãe, o significado profundo da sua Palavra que é misericórdia, o verdadeiro desejo do coração do Pai que consiste em dar a vida e vida em abundância.

Esta é a grande tarefa da Igreja nesta era pós-cristã: ajudar os homens e as mulheres a libertarem-se dos absurdos da religião, oferecer instrumentos para que todos possam experimentar em primeira mão o amor de Deus, a sua justiça, a sua liberdade.


quinta-feira, 30 de maio de 2024

UM MUNDO EM FUGA

 


 

Paolo Cugini

 

A liberdade é um dos grandes anseios da humanidade. Não existe pessoa que não deseje viver de uma forma livre. Por isso as lutas, as rebeliões. Quantas pessoas morreram buscando a liberdade!

No nosso contexto assistimos perplexos á algo de diferente. As pessoas são acostumadas a viverem submissas. Apesar das angarias, das humilhações, o povo em vez de se revoltar, agüenta, engole. As injustiças acontecem á luz do sol, mas ninguém fala: é o silencio que paira no ar. Vivemos num contexto social que é fruto de uma história, de anos de opressão, de anos de dominação. Quem manda é acostumado a mandar sem ser questionado. Você pode dizer que vivemos num país democrático, mas quem cresce com na cabeça a idéia de ser o dono do pedaço, não aceita qualquer questionamento, sobretudo de alguém que é pobre, de alguém que não tem nada que, neste paralelo, equivale a dizer que não é nada.   

Sendo que é natural aspirar a liberdade, em contexto de opressões o povo busca caminho de saída para descarregar a tensão, a alienação. Em muitos casos a religião pode oferecer esta possibilidade de fuga, quando leva o povo a fugir do presente, dos compromissos da vida corriqueira para se refugiar num paraíso projetado no futuro que não compromete ninguém. Os rios de álcool que correm nestes lugares nos finais de semana, podem ser interpretados como fuga de uma vida alienante, recheada e frustrações, de desilusões, de fracassos. Mergulhar na cachaça é a resposta de muitos pra não sentir a dor no peito do próprio nada, pra não ter que encarar em silencio a própria morte. Botar o som a maior altura do mundo é um meio muito eficaz pra não ter que escutar o ruído do próprio vazio e também pra desafiar todo mundo. Se na vida não estamos conseguindo viver de uma forma digna, porque ninguém nos oferece uma chance, pelo menos no meu pedaço faço o que quiser atrapalhando a vida de todos.

  Talvez seja um problema de cultura, de tomada de consciência. É a cultura da dignidade humana. Para assimilar esta cultura não basta estudar. Quantos doutores, ou presuntos doutores, estão por ali massacrando as pessoas com o maior cinismo do mundo! A cultura da dignidade humana necessita, sobretudo uma história, uma vida feita de decisões coerentes. A cultura da dignidade humana é a mesma cultura do amor, da consideração do outro como irmão, como irmã, seja ele quem for. É a cultura que desabrocha de um coração atento ao outro, acostumado a viver pensando ao outro, atento as pessoas que vivem perto, não se importando da cor da pele, da proveniência, do estado social.

Esta cultura do amor que se abre á cultura da dignidade humana é visível de uma forma contundente em Jesus. Nele percebe-se a atenção constante para o outro. A sua Palavra provoca sempre uma reflexão, um questionamento pessoal. A sua pessoa é mergulhada no silencio. O encontro com Ele provoca uma resposta consciente e livre. A sua proposta não é opressiva, mas, pelo contrário, é um convite a se libertar. A final de conta, somente um homem livre realiza a si mesmo, somente um homem livre vive a própria dignidade humana, ou seja, como um filho, uma filha de Deus.

 

segunda-feira, 4 de março de 2024

Charles Péguy e a crítica da religião moderna

 




 

Paolo Cugini

Há um autor que, mais do que qualquer outro, no início do século XX propôs uma reflexão sobre os temas que estamos analisando: Charles Péguy [1]. Em Cassecou (Péguy, 1961) encontramos uma ofensiva político-filosófica contra as inconsistências e degenerações de toda concepção metafísica (materialista ou espiritualista), de toda visão sistemática e monista da realidade. É nesse contexto polêmico - e a polêmica na obra de Péguy está na ordem do dia - que Péguy específica sua posição ao identificar uma fenomenologia da alteridade regida pelo princípio da individuação, segundo o qual a realidade é o reino da multiplicidade e das diferenças. “O real nos apresenta não apenas dualidades, mas pluralidades [...]. A realidade aparece-nos e apresenta-se dividida em muitas partes” (Péguy, 1961, p. 23). Contra uma tradição de pensamento obstinadamente atenta às elaborações sintéticas e uniformes da realidade, Péguy afirma a necessidade de acolher a realidade tal como ela se manifesta na mobilidade do presente, ou seja, na sua pluralidade.

Segundo Péguy, o problema é grave, pois a fixação em esquemas rígidos do que é por natureza móvel, subverte todas as construções intelectuais posteriores. Uma mentira generalizada, apanhada por Péguy no mundo moderno, obriga-o, em certo sentido, a aprofundar a crítica, a tornar visível a subversão que fez. É no presente que Péguy identifica o centro fundamental a partir do qual é possível apreender a realidade. Depende, de fato, de como a ouve, de como a percebe ou - e esse é o caso do moderno - de como a modifica.

Tudo vem disso. Tudo vem deste ponto do presente. A economia, o civismo, a moral, a metafísica são governados pela maneira como tratam esse ponto do presente. A partir disso, eles são comandados. E eles mesmos são determinados. Eles poderão florescer mais ou menos, cada um poderá florescer mais ou menos no seu próprio sentido. Mas seu próprio significado é determinado e eles também são determinados por esse ponto de origem. Diga-me como você considera o presente e eu lhe direi que filósofo você é (Péguy, 1977, pp. 227-228).

O presente é, portanto, o ponto em que a realidade se manifesta. Agarrar o presente significa agarrar o novo, o que não era. No presente há a novidade do real, uma novidade que se dá livremente e que impõe ao homem, surpreendido por tal gesto, uma re-compreensão. O problema do mundo moderno, já presente na época da filosofia grega, consiste em criar uma situação em que não haja perturbação, em que o impacto com o dinamismo desestabilizador da realidade presente possa ser mitigado. O passado oferece essa possibilidade porque é firme, rígido e sobretudo pode ser observado e registrado. O homem moderno aprendeu a narcotizar o presente transformando-o (distorcendo-o) no passado. Basta mover-se mentalmente para o futuro e, a partir dessa plataforma de segurança artificial, observar o presente como se fosse o passado, e pronto.

Essa monstruosa necessidade de tranquilidade que se manifesta na infertilidade de todo um povo, na aniquilação de toda uma raça, é apenas um enorme aumento daquela monstruosamente comum necessidade de tranquilidade moral que sempre nos faz pensar no amanhã e sacrificar o hoje ao amanhã, e essa necessidade moral é ela mesma apenas uma codificação daquela monstruosa necessidade de tranquilidade que na psicologia e na metafísica sempre nos faz sacrificar o presente para o próximo instante (Péguy, 1977, p. 210).

Se a realidade só pode ser apreendida em sua essência na mobilidade do presente, então, ao endurecer o ponto de sua manifestação, tudo se torna um artefato, irreal. O homem moderno aprendeu a considerar a vida quando ela se tornou morte: eliminando a mobilidade do presente, perde-se a fecundidade e, portanto, a própria vida. Péguy acusa a Escolástica de São Tomás de Aquino de ter narcotizado a força vital do evento Jesus Cristo com as grades conceituais de Aristóteles, aplicadas friamente aos mistérios de Cristo. Dessa forma, o dinamismo do evento de Cristo e a multiplicidade que ele trouxe, foi bloqueado para permitir que o tomismo transmitisse as sínteses necessárias para acalmar as futuras gerações burguesas. Tomando para si o pensamento de São Tomás, acolheram em seu seio o mais moderno dos antigos filósofos: Aristóteles.

Sendo Aristóteles talvez o único antigo que era moderno, quero dizer um moderno como o vemos, e como eles nasceram depois dele apenas no século 19 depois de Cristo. O único antigo que foi desprovido de sabedoria e sobretudo de inteligência antiga e que vestiu, mas completa e imediatamente, a inteligência moderna. Por isso foram procurá-lo (Péguy, 1977, p. 210).

Em última análise, o que há de mais repulsivo no tomismo segundo Péguy é o sistema aristotélico que pretende colocar existência, liberdade e vida em parágrafos.

BIBLIOGRAFIA

PÈGUY, CHARLES, Casse-cou, in Ouvres em prose, Paris: Gallimard, 1961.

 

PÈGUY, CHARLES, Cartesio e Bergson, Lecce: Milella, 1977.



[1] Charles Péguy (1873-1914). Foi aluno de Romain Rolland e Henri Bergson, cujas aulas o marcaram muito e de quem mais tarde se tornou amigo. Naqueles anos, ele desenvolveu suas crenças socialistas. fundou a revista Cahiers de la Quinzaine , com o objetivo de descobrir novos talentos literários e publicar suas obras. Em 1907, converteu-se ao catolicismo. Desde então, ele produziu tanto obras em prosa de assuntos políticos e polêmicos (Notre Jeunesse, L'argent ), quanto obras em versos místicos e líricos. Tenente da reserva, durante a Primeira Guerra Mundial alistou-se na infantaria. Ele morreu em combate, no início da primeira batalha do Marne, em 5 de setembro de 1914.

sexta-feira, 2 de junho de 2023

Abraham Joshua Heshel e a crise da religião

 




 

Paolo Cugini

O discurso de Heschel sobre a liberdade como essência da religião nasce da tomada de consciência da crise religiosa do seu tempo. A seu ver a religião se distanciou progressivamente dos problemas vitais, isolando-se e, por isso, tornando-se insossa. O problema dessa crise não deve ser procurado fora do âmbito religioso, como se ela dependesse de uma recusa da sua específica proposta, mas sim no seu interior, na sua maneira de se colocar no contexto atual. Parece que a religião perdeu o rumo, tornando[1]se incapaz de expressar o próprio específico. Tudo isso, segundo Hescel, vem de muito longe, do processo constante que a religião aceitou de um progressivo e constante isolamento.

A religião foi vítima da tendência de se tornar fim a si mesma, a isolar o sagrado, a viver em modo paroquial, toda encentrada em si mesma; como se o seu compromisso fosse não de nobilitar a natureza humana, mas aumentar o poder e a grandeza das suas instituições o de ampliar o corpo das suas doutrinas. Muitas vezes a religião se esforçou muito mais para canonizar os seus preconceitos que lutar em defensa da verdade; para petrificar o sagrado que para santificar o secular (HESCHEL, 1999, p.10-11).

Este isolamento no qual se encontra a religião hoje é fruto de uma série de operações acontecidas por dentro do dinamismo religioso, que modificaram estruturalmente a sua proposta. E assim, a fé torna-se credo, deixando o âmbito vital do relacionamento pessoal com Deus para se refugiar num dogmatismo estéril. Sempre neste caminho, é fácil observar como a religião se reduziu sempre mais a disciplina, modificando desta maneira o sentido profundo do culto, identificando-a com a Lei. Este fenômeno que Heschel, em páginas memoráveis, chamou de comportamentismo religioso, é bem visível no hebraísmo contemporâneo. O comportamentismo religioso sustenta que a vontade de Deus se realiza somente através da ação exterior, da observância da Lei. Nessa altura, a devoção interior não é elemento importante não apenas para o hebraísmo, mas sim pela religião no geral. Por isso se insiste muito sobre a tradição, a observância, a disciplina, dando pouquíssimo espaço pelos temas ligados à experiência religiosa. Esta perspectiva, que dominou o hebraísmo moderno, provocou um enfraquecimento na sua sensibilidade pela dimensão metafísica, que se manifesta no elemento sagrado, no misterioso. Reduzindo a religião à observância, o centro se torna o homem e a sua capacidade, em detrimento do elemento de novidade que o sagrado traz consigo. Por esta corrente do pensamento hebraico, que Heschel considera extremamente negativa, o estudo da Lei é a única expressão do autêntico hebraísmo e, em consequência, a teologia é um fator estranho e exterior ao hebraísmo autêntico. Contra esta posição radical Heschel sustenta que:

As regras da observância são leis na forma, mas a substância é o amor. E a Torá contém seja a lei que o amor. A lei é o elemento que tem unido o mundo, enquanto o amor leva o mundo para frente. A lei é o meio, não o fim; o caminho, não a meta (HESCHEL, 2006, p.348).

O homem é criado à semelhança de Deus não apenas para obedecer a uma lei externa, mas para colaborar neste projeto e criar o mundo conforme a visão dele. Isso quer dizer que o homem autenticamente religioso, longe de ser um mero executor passivo de leis externas, torna-se protagonista ativo do projeto da criação de Deus. O perigo de uma adesão formal à lei do Criador comporta o esquecimento do compromisso da pessoa como um todo no projeto de Deus. Além disso, se a religião é relegada à observância externa da lei, esta atitude abre o caminho da separação da religião do mundo, sobretudo do compromisso de transformá-lo para que se torne a semelhança do Pai6 . É essa atitude legalista, que abre o caminho à crise contemporânea da religião. Como em toda época de crise é o passado que é exaltado, mas não como motivo para impulsionar o presente, mas sim como fuga sintomática de uma incapacidade de colher a força intrínseca ao fenômeno religioso. Isso é visível quando a religião fala enfatizando desmedidamente o nome da autoridade, dos conteúdos dogmáticos, da força das leis em detrimento dos conteúdos típicos da religião que são o amor, a compreensão, a misericórdia. Por isso, não é de estranhar se a religião nos dias de hoje tornou-se insignificante, pois é incapaz de incidir na cultura.

Os frutos negativos do comportamentismo religioso são bem visíveis, segundo Heschel, no quadro da cultura contemporânea, na separação produzida, relegando a religião à condição de uma das disciplinas humanas, e não como o fermento da vida. Nessa altura do discurso, podemos nos perguntar: a final de conta qual deveria ser o específico da religião? Se é verdade que perdeu o rumo, como podemos definir a tarefa dela no mundo? Antes de tudo “a religião é resposta aos questionamentos últimos. No momento em que esquecemos os questionamentos últimos, a religião torna-se irrelevante, e a sua crise e incentivada” (HESCHEL, 1999, p. 30). A dificuldade que a religião encontra na modernidade é devida ao fato de que a cultura moderna modificou o eixo e o quadro dos valores. De fato, a Bíblia é resposta ao interrogativo: o que quer Deus do homem? Para o homem moderno a pergunta foi modificada na seguinte maneira: o que o homem pede a Deus? De uma atenção a Deus se passou a colocar a preocupação sobre o homem e as suas necessidades e, desta maneira a teologia virou antropologia, as ciências teológicas se tornaram ciências humanas. Este é, segundo Heschel, o foco do problema, pois é neste nível que aconteceu a modificação do eixo cultural que mudou bastante a essência da religião no mundo contemporâneo. Esquecendo que é um dom, o homem focaliza sempre mais os próprios interesses nas suas necessidades.

Hoje se olha as necessidades como se fossem sagradas, quase coubessem a totalidade da existência. As necessidades são os nossos deuses e nos preocupamos e não poupamos fadigas para gratificá-los (HESCHEL, 1999, p. 32). O problema apontado pelo nosso autor é de suma importância, pois oferece uma chave de leitura das problemáticas da modernidade. Se, de fato, o centro de interesse não é mais Deus e as suas exigências, mas o homem com as suas necessidades, este último não se percebe mais como dom, como apelo, mas sim como um punhado de necessidades a serem gratificadas. Outro dado importante nesta perspectiva é a análise do tipo de necessidade que caracteriza o homem que, diferentemente dos animais, modifica-as a partir do contexto no qual vive. Existem múltiplas necessidades que se tornam assim, por causa da influência cultural dos mass-mídia, da publicidade. Muitos dos interesses que cultivamos com cuidado são impostos pelas convenções da sociedade. Isso quer dizer que existem necessidades reais, que é necessário cuidar e, ao mesmo tempo, existe toda uma gama de necessidades que são efêmeras, invenções da cultura que, como consequência, passam com o tempo. Se a religião sofre tanto na época moderna, se ela é sempre mais isolada é também por este motivo, por esta mudança de eixo dos valores da modernidade.

O individualismo exacerbado, fruto maduro do idealismo de cunho cartesiano, distrai o homem da atenção ao apelo de Deus, para fechar-se na preocupação de gratificar as próprias necessidades, que se tornam sempre mais os novos ídolos. A religião hebraica não ensina somente que o centro da lei é o mandamento do amor, mas tem muita atenção para que os ídolos não entrem a deturparem o relacionamento com Deus. A crise da religião atual é devida a esta mudança radical que arrastou também o espírito religioso. “A religião – continua Heschel – acostumou-se ao humor moderno, proclamando si mesma como satisfação de uma necessidade humana” (HESCHEL, 1999, p.36).

Esta ideia, que é profundamente oposta ao autêntico espírito religioso, está contribuindo bastante para a esterilização do pensamento religioso. De fato, se também a religião se torna resposta a uma necessidade humana, se coloca no mesmo patamar das outras necessidades, perdendo a força e, ao mesmo tempo, a exigência de ter algo a mais, de qualitativamente diferente. Este é segundo Heschel o foco do problema da crise contemporânea da religião, que para não ser considerada superada da cultura atual, abriu progressivamente mão do seu específico, virando produto tipicamente humano. Na realidade, a religião não é busca de gratificações pessoais, de satisfação de necessidades humanas, mas resposta a um apelo que vem de outro nível da realidade. Colocando a religião ao nível das necessidades humanas, perde-se imediatamente a dimensão transcendente da realidade8 . Os dez mandamentos não foram oferecidos ao povo para satisfazer uma necessidade. O povo naquela época sentia a necessidade (cultural) de uma imagem, mas tal necessidade foi frustrada por Deus. A mesma Bíblia não começa com a criação do homem, ou com a história da religião, mas sim com a criação do céu e da terra.

Quando se transformam as necessidades humanas em objetivos, ali começa a confusão. Deus é muito mais da suma das necessidades humanas. Isso vale também para o homem, cujo destino e vocação vão bem além da satisfação das necessidades que ele percebe.

A religião não é uma maneira de satisfazer necessidades. É a resposta a um questionamento: Quem é que precisa do homem? É a consciência que alguém precisa de nós, do fato que o homem é uma necessidade de Deus. É o caminho que conduz a santificação da satisfação das necessidades autenticas [...]. Tarefa da religião é de ser um desafio á desestabilização dos valores (HESCHEL, 1999, p. 38-39).

O ponto de partida da religião é a certeza de que aos homes é pedido algo, que existem objetivos que precisam de nós. Diferentemente de outros valores ou necessidades, os fins morais e religiosos suscitam em nós um sentimento de obrigação. A religião tem esta tarefa única na história: ajudar o homem a perceber a dimensão transcendente, o apelo do sagrado que o chama para realizar algo que não é, de forma alguma, definível com meras características humanas. O específico dos valores religiosos é que se apresentam não como objetos de percepção, como necessidades humanas manipuláveis para o homem, mas sim como tarefas, apelos que exigem uma resposta pessoal. A tarefa da religião é ajudar o homem, a mulher a manter vivo o “sim” à realidade superior, manter a capacidade do homem de dizer: eis me aqui.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

DESESTRUTURANDO A ESTRUTURA RELIGIOSA




Paolo Cugini

A pergunta é esta: se tivéssemos a coragem de desestruturar a religião, sobraria o que? Dizendo com palavras mais compreensíveis: se tivéssemos a coragem de tirar do discurso religioso todos os elementos culturais, ou seja, os elementos que ao longo dos séculos foram se volumando no redor do espaço religioso, será que iria sobrar alguma coisa daquilo que nós chamamos de religião? Afina de conta acreditamos em que ou em quem? São perguntas que sempre entram na minha cabeça de padre quando participo de solenidades religiosas, festas de padroeiro/a, procissões, etc. Quanto de religioso existe nestas festas populares e quanto de cultural? Porque se gastam tantas energias para organizar eventos religiosos quando de religioso tem bem pouco e de Deus ainda menos?

É verdade que a mediação cultural é necessária para o anuncio do Evangelho. O problema é quando a cultura substitui o kerigma, ou seja, o conteúdo do Evangelho. É isso que dizia Jesus aos fariseus que ao longo dos séculos, para amenizar o impacto dos mandamentos de Deus inventaram tradições que, lentamente substituíram a mesma Palavra. “Assim invalidais a Palavra de Deus pela tradição que transmitistes. E fazeis muitas outras coisas desse gênero” (Mc 7, 13). Se de um lado a cultura é necessária para anunciar o Evangelho de forma inculturada, do outro a mesma cultura deve sempre ser averiguada, passar a peneira do Evangelho para que não aconteça aquilo que aconteceu com os fariseus. A cultura não é um valor que pode ficar acima do Evangelho, mas sim deve constantemente ser evangelizada. É este o trabalho que a pequena comunidade que se reúne para meditar a Palavra deve fazer: aprender a vislumbrar a presença de Cristo dentro da história. Isso exige disponibilidade a escutar a voz do Espirito Santo, a constantemente se questionar e, assim, questionar as estruturas culturais que ao longo do caminho são assumidas para mediar o Evangelho numa particular circunstancia.

Porque é tão difícil este trabalho de discernimento cultural? O motivo me parece muito simples, pois o Evangelho exige uma continua disponibilidade à conversão, à mudança e nem tudo mundo é disponível a isso. É mais fácil sentar-se no cômodo sofá da vida, naquilo que sempre foi feito e aproveitar disso. Além disso, a religião se presta muito para ser explorada, pois o sentimento religioso popular junta muita gente, massas enormes. Por isso nas grandes festas religiosas nunca faltam os políticos, que como urubus aproveitam destas gigantescas ocasiões para se amostrar. É por isso que estou questionando a voz alta a religião popular: a que serve? Tem a ver o que Deus como a porcaria que encontramos em varias festas chamadas de religiosas. Quantas vezes participei de festas de padroeiro/a com uma grande angustia no coração pelo fato que não entendia o sentido daquilo que estava acontecendo. Dentro a Igreja a missa e fora quiosques vendendo cachaça e cerveja para arrecadar dinheiro pela Igreja! Porque as pessoas não conseguem perceber o tamanho destas contradições? Porque se acha normal uma bagunça dessa? E porque quando se questiona tem muita gente achando ruim?

As vezes fico meditando o fato que Jesus depois da ceia derradeira saiu para a Horta das oliveiras, sozinho. Se Judas o achou e entregou é porque Jesus era acostumado a esta atitude, se retirar sozinho. Talvez esteja na solidão a autenticidade da experiência religiosa e não na massa anônima. Talvez seja por isso que é fácil manipular culturalmente a massa, pois é anônima, sem reposta, aceita tudo, engole tudo. Um pouco de solidão na companhia de Jesus ajudaria a ver com mais profundeza a realidade daquilo que chamamos de religião, descobrindo que talvez sobrou pouquíssimo: quase nada.