segunda-feira, 31 de agosto de 2026

A crise dos fundamentos: o homem e a mulher na pós-modernos

 

A crise da fundação representa não apenas uma perda, mas também uma provocação cultural. Ela força homens e mulheres contemporâneos a escaparem da segurança de sistemas fechados e a confrontarem a complexidade da realidade.






Paolo Cugini

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A cultura pós-moderna em que vivemos apresenta um panorama complexo, permeado por múltiplas tensões, fragmentos e possibilidades. Dentre suas muitas nuances, uma das mais decisivas é certamente o que poderíamos chamar de crise de fundamentos. Esse termo se refere à perda da fé em um princípio estável, absoluto e universalmente reconhecível, capaz de sustentar a realidade, o conhecimento, a moralidade e a existência humana.

Para compreender o significado dessa transformação, precisamos analisar a modernidade. O pensamento moderno, de fato, tem sido marcado por uma busca apaixonada e, por vezes, exaustiva por um fundamento da realidade. De Descartes a Kant, de Hegel às grandes construções metafísicas e sistemáticas do século XIX, a filosofia moderna buscou a verdade objetiva, fundamentada em critérios seguros, racionais e indiscutíveis. O sujeito moderno buscou compreender o mundo, dominá-lo pela razão, ordená-lo segundo princípios claros e guiar a história rumo à sua plenitude.

Modernidade e o desejo por uma verdade incontestável

Descartes inaugura simbolicamente essa jornada ao buscar um ponto fixo, uma certeza capaz de resistir à dúvida. Seu famoso cogito não é meramente uma fórmula filosófica, mas a expressão de uma necessidade cultural: encontrar um princípio original a partir do qual reconstruir todo o edifício do conhecimento. Kant, embora abra uma profunda crise na metafísica tradicional, não abandona a busca pelas condições universais do conhecimento. Hegel, por sua vez, tenta conceber a realidade como uma totalidade racional, como um processo no qual o Espírito atinge progressivamente a plena autoconsciência. De maneiras diferentes, esses pensadores testemunham a força da modernidade: a convicção de que a razão pode acessar a estrutura profunda da realidade e indicar uma orientação estável para a ação humana. Mesmo quando a metafísica é criticada, como ocorreu com Kant, persiste o desejo de estabelecer o conhecimento, de distinguir o verdadeiro do discutível, o necessário do contingente, o universal do particular.

O pós-modernismo como uma crise da proposta moderna

A era pós-moderna pode ser interpretada como resultado da crise dessa poderosa proposição moderna. A fé em uma verdade única, objetiva e definitiva parece hoje enfraquecida. As grandes narrativas que pretendiam explicar o significado da história, da sociedade e da humanidade já não se impõem com a mesma autoridade. A razão não desaparece, mas perde seu caráter absoluto; a verdade não é necessariamente negada, mas é percebida como plural, frágil, situada, exposta ao diálogo e a interpretações conflitantes.

Nesse sentido, falar de uma crise de fundamentos significa reconhecer que está se tornando difícil identificar elementos objetivos e compartilhados capazes de orientar indivíduos e comunidades de forma estável. Não existe mais um centro claro em torno do qual organizar a experiência. A cultura parece fragmentada, atravessada por diversas línguas, identidades mutáveis ​​e valores frequentemente provisórios. O que antes parecia sólido agora se mostra fluido, mutável e reversível.

As questões da antropologia filosófica

Do ponto de vista da antropologia filosófica, esse clima cultural levanta questões cruciais. Se não é mais possível identificar um fundamento último da realidade, sobre quais valores podem homens e mulheres construir sua existência? Se verdades absolutas universalmente reconhecidas não existem mais, como podemos orientar nossas escolhas morais, emocionais, sociais e políticas? Se a história não se apresenta mais como uma jornada rumo a um objetivo comum, que sentido tem o compromisso diário?

Não é coincidência que, na cultura pós-moderna, se fale frequentemente do fim da história, do declínio das grandes ideologias e de uma vida imersa no presente. Os indivíduos contemporâneos parecem não mais habitar uma época guiada por uma forte promessa de futuro; em vez disso, vivem em um presente expandido, no qual as oportunidades se multiplicam, mas lutam para se transformar em planos. A liberdade aumenta, mas a incerteza também. A possibilidade de escolha se expande, mas os critérios para escolher parecem menos claros.

Homem e mulher na cultura pós-moderna

Que tipo de homem e mulher são apresentados pela cultura pós-moderna? Não mais, antes de tudo, sujeitos definidos por uma identidade compacta, um papel estável ou um senso definitivo de pertencimento. O homem pós-moderno é frequentemente descrito como um sujeito em movimento, chamado a se reinventar continuamente, a negociar sua própria identidade, a viver em redes de relacionamentos, consumo, comunicação e possibilidades em constante transformação.

Dessa perspectiva, filósofos como Gianni Vattimo, Zygmunt Bauman e Jürgen Habermas ofereceram interpretações diferentes, porém convergentes, reconhecendo que a condição contemporânea não pode mais ser compreendida com as categorias rígidas da modernidade clássica. Vattimo fala de pensamento fraco, isto é, uma razão que renuncia à pretensão de possuir o fundamento último e se abre à interpretação. Bauman descreve a modernidade líquida, na qual vínculos, papéis e instituições perdem consistência e permanência. Habermas, ao defender o valor da razão, insiste na dimensão comunicativa, dialógica e intersubjetiva como o lócus no qual se devem buscar critérios compartilhados.

Viver o presente sem perder o sentido.

A tarefa da antropologia filosófica, neste contexto, não é simplesmente lamentar o passado ou restaurar artificialmente fundamentos há muito contestados. Em vez disso, trata-se de compreender quais capacidades humanas devem ser cultivadas para habitar o presente de forma responsável. Se a existência não pode mais ser guiada por um propósito absoluto e universalmente imposto, torna-se essencial desenvolver a capacidade de discernir, dialogar, interpretar, escolher e assumir a responsabilidade pelas próprias decisões.

Segundo Bauman, os indivíduos contemporâneos tendem a não se identificar rigidamente com um papel, uma ideologia ou uma forma definitiva de pertencimento. Preferem permanecer livres, móveis e disponíveis para aproveitar o que o momento presente oferece. Essa liberdade, contudo, é ambivalente: pode levar à abertura criativa, mas também à precariedade existencial; pode fomentar a autonomia, mas também gerar solidão; pode libertar de restrições opressivas, mas também impedir a formação de laços profundos e duradouros.

O desafio, portanto, é vivenciar plenamente o presente sem reduzi-lo ao consumo imediato. O presente pós-moderno não deve ser apenas o locus das oportunidades a serem aproveitadas, mas também o espaço no qual responsabilidades, relacionamentos e significados amadurecem. Na ausência de fundamentos absolutos, o significado não pode simplesmente ser recebido de fora: ele precisa ser buscado, construído, compartilhado e continuamente reinterpretado.

A crise de fundamentos representa não apenas uma perda, mas também uma provocação cultural. Ela força homens e mulheres contemporâneos a escaparem da segurança de sistemas fechados e a confrontarem a complexidade da realidade. A pós-modernidade, com todas as suas ambiguidades, nos convida a vislumbrar uma existência menos segura, mas talvez mais consciente; menos ancorada em certezas indiscutíveis, mas mais aberta ao diálogo, à pluralidade e à responsabilidade.

 

sábado, 29 de agosto de 2026

Os votos não estão à venda. Mais uma ação do Movimento Fé e Política da paróquia são Vicente de Paulo na Compensa

 O trabalho do Movimento Fé e Política surge precisamente dessa consciência: ajudar as pessoas a reconhecerem que o voto tem valor, que não deve ser comercializado e que o perfil ético dos candidatos não é um detalhe secundário.






Paolo Cugini

 

Na tarde de sábado, 29 de agosto, o Movimento Fé e Política da paróquia de São Vicente de Paulo, no bairro Compensa de Manaus, realizou um novo evento de conscientização na comunidade de Santo Inacio. Cerca de quarenta pessoas, jovens e adultos, reuniram-se na pequena capela da comunidade para iniciar uma oração conjunta, receber orientações e se preparar para sair às ruas do bairro.

Esta não foi simplesmente uma atividade organizacional ou uma visita de cortesia. O significado profundo dessas atividades é encontrar as pessoas onde elas vivem: em suas casas, em frente às lojas, ao longo das ruas, em espaços cotidianos onde as pessoas costumam falar sobre tudo, mas raramente sobre o valor do voto e da responsabilidade política. É precisamente aí que o Movimento deseja abrir um diálogo simples, direto e fraterno.

As eleições políticas marcadas para o início de outubro, que elegerão o Presidente da República e representantes estaduais e federais, não podem ser vistas como algo distante da vida concreta das pessoas. Cada escolha política impacta a saúde, a educação, o emprego, a segurança, o meio ambiente e as oportunidades familiares. É por isso que votar não é um gesto isolado, mas um ato que diz respeito ao bem comum.



A questão, no entanto, é delicada. Muitas pessoas, marcadas por dificuldades econômicas e um longo histórico de promessas não cumpridas, acabam vendo seu voto como uma mercadoria a ser negociada. A compra de votos às vezes parece ser uma solução imediata para uma necessidade urgente, mas, na realidade, empobrece ainda mais a comunidade, porque coloca o futuro nas mãos daqueles que compram consciências em vez de apresentar projetos sérios que respeitem a dignidade das pessoas.

O trabalho do Movimento Fé e Política surge precisamente dessa consciência: ajudar as pessoas a reconhecerem que seu voto tem valor, que não deve ser vendido e que o perfil ético dos candidatos não é um detalhe secundário. Escolher quem governa também significa perguntar quais interesses essa pessoa representa, qual história ela traz consigo, quais compromissos assume e se sua vida pública é compatível com a justiça, a legalidade e o serviço.

Durante as visitas, o grupo utilizou um material preparado pela Arquidiocese de Manaus, que contêm orientações claras e acessíveis. Esse recurso ajuda a abordar questões importantes sem impor ideias ou candidatos, mas sim promovendo a conscientização. O objetivo não é dizer às pessoas em quem votar, mas sim lembrá-las de que ninguém deve abrir mão de sua liberdade e responsabilidade nas urnas.



Uma das maiores, e ao mesmo tempo mais constrangedoras, descobertas foi que quase ninguém conhece as leis que regem o processo eleitoral no Brasil. Muitos desconhecem que a compra e venda de votos é proibida (lei 9840) e que existe legislação que exige que os candidatos não possuam antecedentes criminais (lei da ficha limpa). Essa falta de informação torna as pessoas mais vulneráveis ​​à manipulação e demonstra a necessidade urgente de um trabalho educativo contínuo.

Por isso, é maravilhoso ver os jovens da paróquia caminhando ao lado dos adultos, vestindo as camisetas do Movimento e tomando as ruas de suas comunidades com coragem. Sua presença é um sinal de esperança: demonstra que a política pode ser entendida não como uma busca por ganho pessoal, mas como uma elevada forma de caridade, participação e cuidado com a vida das pessoas. Aumentar a conscientização nem sempre produz resultados imediatos, mas semeia perguntas, abre conversas e desperta a responsabilidade. Cada porta visitada, cada diálogo iniciado, cada dúvida esclarecida pode se tornar um pequeno passo rumo a uma cidadania mais livre e madura.



Confiamos que este trabalho dará frutos, pois quando uma comunidade aprende a valorizar o seu voto, ela também começa a defender a sua dignidade e o seu futuro com mais veemência.

A campanha eleitoral da incivilidade

 

Durante as horas em que as pessoas voltam para casa cansadas do trabalho, após dias muitas vezes exaustivos, os candidatos enviam seus apoiadores para as ruas como se a cidade fosse propriedade privada.

 



Paolo Cugini

 

Há algo insuportável, e francamente vergonhoso, na forma como certos candidatos estão ocupando as ruas durante a campanha política deste ano. Não se trata apenas de propaganda barulhenta, bandeiras agitadas nos semáforos ou alto-falantes tocando em volumes indecentes. Trata-se de uma ideia específica de política: arrogante, intrusiva, grosseira. Uma política que exige atenção não com a força das ideias, mas com a perturbação organizada; não com respeito aos cidadãos, mas com o cerco ao espaço público.

Durante as horas em que as pessoas voltam para casa cansadas do trabalho, após dias muitas vezes exaustivos, esses candidatos enviam seus apoiadores para as ruas como se a cidade fosse propriedade privada. Bandeiras, slogans, alto-falantes, marchas improvisadas, engarrafamentos, buzinas, caos. Enquanto isso, trabalhadores, famílias, idosos, estudantes e aqueles já exaustos pela rotina diária permanecem presos em filas sem sentido, criadas não por uma emergência, não por um serviço público, não por uma necessidade coletiva, mas pelo ego eleitoral daqueles que querem ser vistos a todo custo.

Esse comportamento não é um detalhe folclórico da campanha eleitoral. É um teste moral. É um teste inicial de governança. Porque se um candidato, mesmo antes de ser eleito, demonstra incapacidade de respeitar o descanso, o tempo e a paciência dos cidadãos, então devemos nos perguntar seriamente o que ele fará quando chegar ao poder. Se hoje ele já considera normal transformar as ruas em um palco barulhento para sua própria ambição, será ele realmente capaz de governar a cidade com equilíbrio, escuta e responsabilidade amanhã?

 


A política deveria começar com respeito. Deveria ser sobre educação para a convivência, a capacidade de organizar a participação sem atropelar os outros, atenção concreta à vida real das pessoas. Em vez disso, testemunhamos um triste desfile de arrogância disfarçado de entusiasmo popular. Eles fingem falar sobre o futuro enquanto arruínam o presente daqueles que estão simplesmente tentando chegar em casa. Prometem ordem, desenvolvimento, segurança e qualidade de vida, enquanto, em vez disso, produzem desordem, barulho, estresse e desrespeito.

O problema é ainda mais sério porque esses candidatos não apenas se comportam mal: eles ensinam seus apoiadores a se comportarem mal. Eles os empurram, aberta ou tacitamente, pelo caminho da incivilidade. Eles os autorizam a ocupar espaços, a perturbar, a se impor, a confundir a participação democrática com a invasão arrogante da vida de outras pessoas. E é precisamente aqui que a questão se torna política no sentido mais profundo: aqueles que não sabem como guiar seus apoiadores para o dever cívico, como podem guiar uma comunidade inteira?

Não basta encher a boca com palavras como cidadãos, bem comum, democracia e participação. As palavras, quando contraditas pelo comportamento, tornam-se ruído. E já há ruído demais nesta campanha eleitoral. O candidato verdadeiramente credível não é aquele que grita mais alto, não é aquele que bloqueia mais cruzamentos, não é aquele que transforma cada rua numa plataforma improvisada. O candidato credível é aquele que sabe dizer aos seus apoiantes: façam-se ouvir, sim, mas sem perturbar; participem, sim, mas respeitem aqueles que não querem ou não podem ouvir; apoiem ideias, mas não pisoteiem a cidade.

Uma cidade não é um megafone. Uma rua não é uma comissão eleitoral. A paciência dos cidadãos não é material a ser consumido para ganhar alguns votos. Qualquer pessoa que aspire a governar uma comunidade deve demonstrar, desde o início, que sabe respeitá-la até aos mais simples detalhes: trânsito, silêncio, horários, o direito de voltar para casa sem ser refém da propaganda. Esses são detalhes apenas para quem não tem ideia do que significa viver nas cidades; para os cidadãos, no entanto, eles representam qualidade de vida.

É por isso que seria necessário avaliar os candidatos também sob essa perspectiva, a partir desses comportamentos aparentemente marginais, mas na verdade reveladores. A ética pública não começa depois das eleições: começa durante a campanha eleitoral. Começa na maneira como você pede votos, na maneira como ocupa o espaço comum, na maneira como trata aqueles que não pertencem à sua base política. Se você está disposto a irritar, atrapalhar e perturbar os cidadãos para obter consenso, então esse consenso já está contaminado por uma compreensão deficiente do poder.

Precisamos de candidatos capazes de dar o exemplo, não de fomentar a desordem. Precisamos de pessoas que demonstrem senso cívico antes mesmo de pedir confiança. Precisamos de um sistema político que possa falar com firmeza, mas também com educação; que possa mobilizar, mas sem arrogância; que possa engajar, mas sem transformar a cidade em um campo de batalha barulhento.

Aqueles que não respeitam os cidadãos enquanto pedem seus votos dificilmente os respeitarão depois de obtê-los. Portanto, o melhor é dizer isso claramente, até mesmo com raiva: uma campanha eleitoral incivilizada não é apenas irritante, é um sinal de alerta. É o primeiro indício de um sistema político que não ouve, não entende e não respeita. E tal política não merece aplausos, não merece confiança, não merece consenso. Merece apenas ser julgada pelo que é: uma terrível lição de grosseria pública.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Até quando continuaremos a chamar de normal o que é simplesmente injustiça?

 

Como pedir a alguém que reaja, que seja forte, que não desista, quando a vida lhe apresenta a conta logo ao abrir os olhos: doenças sem cura, desemprego que esvazia a mesa, famílias pobres que já não sabem como chegar ao fim da semana, crianças que crescem em meio ao cheiro de água suja e ao ruído de promessas não cumpridas?

 


 

 O sofrimento mental não pode ser curado em um esgoto.

Paulo Cugini

 

Como superar o sofrimento mental quando se é forçado a viver num mundo que produz dor todos os dias, de forma obstinada, metódica e quase cruel? Como pedir a alguém que reaja, que seja forte, que não desista, quando a vida lhe apresenta a conta logo ao abrir os olhos: doenças sem cura, desemprego que esvazia a mesa, famílias pobres que já não sabem como chegar ao fim da semana, crianças que crescem em meio ao cheiro de água suja e ao ruído de promessas não cumpridas?

E depois há o absurdo mais feroz: viver em condições insalubres, habitar casas com vista para esgotos, respirar um ar que parece lembrar todos os dias que o mundo te valoriza menos do que aos outros. Não é apenas pobreza. É humilhação organizada. É abandono transformado em paisagem. É uma violência lenta e diária que não faz barulho nos corredores do poder, mas se instala profundamente nas pessoas, consumindo a esperança, devorando a motivação, extinguindo o desejo pelo futuro.

É isso que me pergunto sempre que visito as famílias do bairro Compensa, em Manaus. Caminho pelas ruas, por vielas estreitas, observo as casas agarradas a um equilíbrio precário e sinto a dor das pessoas mesmo antes de qualquer palavra. Vejo-a em seus olhares cansados, no jeito de andar, nos sorrisos tênues que parecem pedir desculpas por existir e, ao mesmo tempo, se recusam a desistir. Há uma tristeza que vem de dentro, mas também há uma dignidade que nenhum esgoto, nenhum abandono, nenhuma indiferença pode apagar.

E aqui surge a raiva. Porque não podemos falar de saúde mental como se fosse apenas um assunto privado, como se bastasse respirar fundo, tomar uma decisão positiva, buscar dentro de si uma força mágica. O sofrimento mental, em certos contextos, não surge no silêncio da consciência: surge da falta de cura, de um lar úmido, da falta de trabalho, do medo de adoecer, da vergonha imposta àqueles que nada têm além da própria resistência. Surge quando uma mãe precisa escolher entre comprar remédios ou comida. Surge quando um pai volta para casa sem salário e precisa inventar uma serenidade que não possui. Surge quando as crianças aprendem cedo demais que a vida dos menos privilegiados vale menos.



No entanto, no mesmo cenário, pipas voam. Crianças correm, riem, inventam céus coloridos sobre ruas feridas. Nos fins de semana, os bares ficam lotados, as televisões permanecem sintonizadas em jogos de futebol, cervejas aparecem nas mesas, carne crepita na grelha. À primeira vista, pode parecer contraditório, quase como uma supressão da dor. Mas não é. É uma forma de sobreviver. É uma forma de resistência popular. É a prova de que a vida, mesmo quando esmagada, busca uma brecha para respirar.

Mas não vamos aceitar chantagem: não vamos transformar a capacidade de resistir em desculpa para não mudar nada. O fato de o povo de Compensa saber sorrir não dá a ninguém o direito de ignorar seu sofrimento. O fato de crianças brincarem não torna a lama menos escandalosa. O fato de uma família acender uma fogueira no domingo não apaga a injustiça de uma casa construída ao lado de um canal de esgoto. A resiliência não pode se tornar um álibi para governos, instituições, ricos ou para aqueles que observam de longe e dizem: Afinal, eles estão se virando. Não, não estão. Eles estão resistindo. E isso é diferente.

A questão, então, não é apenas como alguém se mantém motivado nessas condições. A verdadeira questão, aquela que deveria nos consumir por dentro, é como uma sociedade inteira tolera que alguém tenha que viver assim. Como podemos falar de progresso, desenvolvimento, turismo, economia, religião, família, futuro, enquanto bairros inteiros são deixados ao abandono? Como podemos exigir saúde mental daqueles que não têm acesso a saúde ambiental, segurança habitacional, emprego, serviços públicos, água potável ou dignidade?

O bairro de Compensa, em Manaus, é um mundo de contrastes, sim: dor e celebração, esgoto e pipas, tristeza e brasas, exaustão e desejo. Mas esses contrastes não deveriam apenas nos comover: deveriam nos indignar. Porque por trás de cada sorriso tímido, muitas vezes, há uma batalha invisível. Por trás de cada casa à beira do canal, existe uma responsabilidade pública. Por trás de cada olhar apático, existe uma pergunta que ninguém deveria mais evitar: até quando continuaremos a chamar de normal o que é simplesmente injustiça?

 

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Fé, política e consciência: a paróquia a caminho da votação


 Como já é tradição, durante os anos de eleições políticas, a paróquia de San Vincenzo de Paoli na Compensa de Manaus realiza um trabalho de sensibilização através do Movimento Fé e Política.

 

Paulo Cugini

 

 

Como já é tradição em anos eleitorais, a paróquia de São Vicente de Paulo optou por caminhar ao lado do povo, percorrendo as ruas do bairro Compensa, em Manaus, e promovendo pacientemente a conscientização e a divulgação da mensagem. O objetivo não é promover um partido político ou um candidato, mas sim ajudar as pessoas a redescobrirem o valor do voto como um ato de responsabilidade, liberdade e preocupação com o bem comum.

O caminho foi pavimentado por meio de uma série de reuniões comunitárias, nas quais estudamos as diretrizes políticas elaboradas pela Arquidiocese de Manaus. Essas diretrizes incentivam os eleitores a fazerem escolhas informadas, avaliando a trajetória dos candidatos, sua integridade pública, seus antecedentes criminais limpos, em conformidade com o espírito da lei Ficha Limpa, e, sobretudo, sua presença genuína na vida da comunidade. Um candidato não deve apenas aparecer durante o período de campanha: sua credibilidade provém de sua trajetória, compromisso visível e proximidade tangível com as pessoas.

 

O perigo sempre presente é que indivíduos corruptos, ligados a interesses privados, grupos econômicos obscuros, tráfico de drogas ou crime organizado, sejam eleitos. Quando a política se torna uma ferramenta para enriquecimento pessoal ou para a proteção de poderes criminosos, os mais pobres pagam o preço mais alto. Faltam recursos para escolas, saúde, moradia, segurança e todas as políticas públicas que poderiam melhorar o cotidiano da população.

Neste ano, no primeiro domingo de outubro, o Brasil irá às urnas para eleger o Presidente da República, governadores estaduais, deputados federais e deputados estaduais. É um momento decisivo, pois a votação não se trata apenas dos nomes que ocuparão os cargos, mas do projeto de sociedade que queremos construir. As escolhas políticas impactam a vida concreta das famílias, a distribuição de recursos, a proteção da Amazônia, a dignidade do trabalho e a possibilidade de um futuro mais justo para os jovens.

O contraste entre os privilégios da política e a realidade da maioria da população é um dos aspectos que mais fere a consciência. Segundo informações publicadas na imprensa local, no Amazonas, discutiu-se um subsídio mensal para deputados estaduais no valor aproximado de 34.774 reais; outras reportagens apontaram pagamentos maiores e disputas sobre os valores recebidos. Mesmo considerando os valores menores, a disparidade permanece evidente em comparação com aqueles que vivem com salário mínimo, insuficiente para suprir integralmente as necessidades básicas de uma família. Essa desproporção nos ajuda a compreender por que a política não pode ser encarada como uma carreira de privilégios, mas sim como um serviço público a ser exercido com sobriedade e transparência.

 

A desigualdade social continua sendo um grande problema no Brasil. Estamos falando de um país rico em recursos naturais, culturais e humanos, mas ainda marcado por profunda pobreza, famílias vivendo em condições desumanas, periferias negligenciadas e comunidades lutando diariamente pelo acesso a direitos básicos. Nesse cenário, o voto não pode ser tratado como moeda de troca. Vender o voto significa entregar o próprio futuro àqueles que, depois de eleitos, muitas vezes desaparecem das ruas e das comunidades que prometeram defender.

Por isso, estamos comprometidos, com humildade, mas também com determinação, a tentar mudar a situação, ao menos incentivando as pessoas que encontramos no bairro da Compensa a não venderem seu voto, mas a se informarem, dialogarem, compararem propostas e escolherem pessoas honestas, competentes e próximas da realidade do povo. A consciência política nasce da escuta e da proximidade: constrói-se por meio de visitas, conversas em frente às casas, reuniões comunitárias e grupos de jovens e adultos que desejam um Brasil mais justo.

É maravilhoso ver jovens e adultos unidos nesta obra do Movimento Fé e Política. A fé, quando autêntica, não fecha os olhos à realidade, mas ensina responsabilidade, participação e a defesa da dignidade dos pobres. A política, quando vivida como serviço, pode se tornar um espaço de transformação social e esperança. Nossa tarefa, como comunidade cristã, é ajudar as pessoas a compreenderem que votar é um ato moral, um gesto que diz respeito à justiça, à paz e ao futuro das próximas gerações.

Em tempos marcados pela corrupção, violência e desconfiança nas instituições, escolher com sabedoria torna-se uma forma concreta de resistência. Não podemos mudar tudo sozinhos, mas podemos semear a consciência. Podemos ajudar uma pessoa a não vender o seu voto, uma família a discutir assuntos com mais clareza, um jovem a compreender que a política não é apenas um lugar de escândalos, mas também um lugar onde se decide se a vida dos pobres será respeitada ou esquecida. É a partir destas pequenas sementes que pode crescer uma sociedade mais fraterna, mais transparente e mais fiel ao Evangelho da justiça.

 

 

sábado, 22 de agosto de 2026

A Homilia como coração da vida comunitária: diálogo, liturgia e transformação

 




Paolo Cugini

 

 

A homilia não é um mero intervalo intelectual ou um apêndice discursivo dentro da celebração litúrgica; ela é um ato litúrgico essencial que atualiza a Palavra de Deus para a vida concreta da comunidade. Longe de ser uma palestra ou uma aula acadêmica, seu propósito fundamental é fazer arder o coração dos fiéis. Ela os conduz diretamente ao mistério da Eucaristia e à missão no mundo.

 

A natureza dialógica: O "Colóquio de Mãe" na Evangelii Gaudium

Na exortação Evangelii Gaudium, o Papa Francisco dedica uma seção inteira (números 135 a 159) para tratar exclusivamente da homilia. O Pontífice destaca que ela deve imitar o tom de um diálogo familiar, assemelhando-se ao "colóquio de uma mãe com o seu filho" (EG 139).

  • Proximidade e encontro: Francisco alerta que a homilia serve como termômetro para avaliar a proximidade de um pastor com o seu povo. Ela deve equilibrar uma imagem, um pensamento e um sentimento, comunicando a alegria do Evangelho em vez de focar em moralismos pesados ou erudições distantes.
  • Evangelização viva: O texto pontifício recorda que a assembleia não é um público passivo. A comunidade possui um "faro" espiritual para detectar quando o pregador fala inspirando-se no Espírito Santo ou quando fala de si mesmo.

 

A Integração Mistagógica: As Diretrizes do Diretório Homilético

Enquanto Francisco delineia o espírito e o tom da pregação, o Diretório Homilético oferece a fundamentação litúrgica e metodológica. O documento deixa claro que a homilia brota das Escrituras para conduzir ao Sacramento.

  • Prolongamento da Palavra: O diretório define a homilia como um canal que transporta o mistério salvífico proclamado nas leituras para dentro do "hoje" da comunidade reunida.
  • Foco no Mistério Pascal: O pregador não deve fazer um discurso temático livre. Ele deve tecer uma ponte firme entre as leituras bíblicas, as preces da assembleia, o tempo litúrgico vivido e o sacrifício eucarístico subsequente.

 

 

 O impacto transformador na comunidade

Quando a homilia cumpre as visões propostas por esses dois pilares do magistério, ela opera uma verdadeira conversão pastoral e missionária na paróquia. Ela deixa de ser um monólogo cansativo para se tornar a força motriz de uma "Igreja em saída".

  1. Gera comunhão real: Ao escutar os dilemas cotidianos iluminados pela Palavra, os fiéis sentem-se acolhidos em suas dores e esperanças.
  2. Impulsiona a caridade: O anúncio do querigma extraído dos textos sagrados move o coração da comunidade em direção aos mais necessitados.
  3. Prepara para a missão: Uma assembleia bem alimentada pela mesa da Palavra e da Eucaristia sai da celebração com o ardor necessário para testemunhar Cristo na sociedade.

Conclui-se que a homilia de excelência é aquela que apaga o brilho do ministro para fazer reluzir a presença viva do Senhor. Ela é o elo indispensável que transforma o texto antigo das Escrituras em uma voz presente e transformadora, gerando um povo verdadeiramente santo, unido e missionário.

 

 

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O que pensa um profeta?


O profeta extrai seu pensamento de uma relação íntima e silenciosa com o mistério e de uma profunda imersão no tempo presente. Ele interpreta os eventos cotidianos à luz dessa conexão espiritual, encontrando neles significado e evitando ser dominado pela negatividade. Hoje, porém, os profetas estão ausentes e aguardam um sinal, pois as ruínas do mundo tornam a interpretação da história muito difícil.

 

 


 

Paolo Cugini

 

 

O que pensa um profeta? Ele não pensa como o mundo pensa, nem mede a realidade com a estreita régua do útil, do imediato, do visível. O pensamento do profeta surge de um lugar profundo dentro de nós, onde a vida deixa de ser ruído e se torna escuta, onde a consciência não busca mais possuir o Mistério, mas se deixa possuir por ele. O profeta pensa a partir de uma ferida luminosa: um encontro ancestral, muitas vezes na juventude, quando o coração ainda era capaz de se maravilhar e o invisível irrompia como uma presença mais real do que as coisas reais.

Existem duas fontes de pensamento profético. A primeira é a relação pessoal com o Mistério. O profeta é aquele ou aquela que um dia sentiu dentro de si um chamado, silencioso, porém mais forte que qualquer palavra. Não era uma ideia, nem uma doutrina aprendida, nem uma convicção construída lentamente pelo raciocínio. Era uma presença. Algo, ou Alguém, se revelou dentro de si como atração, como gravidade, como fogo. A partir daquele momento, a vida não pôde mais voltar a ser uma simples sucessão de dias: tornou-se uma resposta.

O profeta não vive pela curiosidade religiosa, mas pelos relacionamentos. Ele cultiva o Mistério como quem guarda uma chama na noite. Sabe que o Mistério não se rende aos distraídos, não penetra a alma superficial, não se pronuncia no mercado de palavras vazias. Por isso, o profeta aprende rapidamente a disciplina do silêncio. Dedica horas, dias, semanas à escuta. Retira-se, não por desprezo pelo mundo, mas para evitar ser devorado por ele. Isola-se, não para fugir dos homens e mulheres, mas para poder retornar a eles com uma palavra que não é só sua.

O tempo do profeta não é tempo perdido. É tempo cuidadosamente elaborado. Enquanto outros se apressam, ele permanece. Enquanto outros acumulam informações, ele busca o significado. Enquanto outros reagem aos acontecimentos, ele os conduz ao seio do Mistério, até que revelem sua pergunta oculta. O profeta sabe que o essencial não pode ser imposto à força: amadurece lentamente, como uma semente enterrada na terra, como uma palavra que precisa ser purificada pelo silêncio antes de ser proferida.

A segunda fonte do pensamento profético é o presente. O profeta não é um sonhador desencarnado, não habita um paraíso abstrato, não se alimenta de visões dissociadas da poeira da história. Pelo contrário, ele está imerso nos acontecimentos cotidianos com uma intensidade rara. Escuta as pessoas, observa suas feridas, compreende seus medos, intui os desejos reprimidos e lê os movimentos profundos da sociedade. Onde muitos veem apenas fatos, o profeta sente a dinâmica; onde muitos registram eventos, ele discerne sinais; onde muitos se detêm na superfície das notícias, ele mergulha nas profundezas da história.

A inovação do profeta não reside em saber mais do que os outros, mas em ver de forma diferente o que todos veem diante de seus olhos. Ele interpreta o presente à luz de sua relação com o Mistério. Ele jamais separa a escuta interior da escuta da história. Nele, o silêncio e a praça, a solidão e o povo, a oração e as notícias não são mundos opostos, mas duas margens do mesmo rio. O profeta traz o mundo diante do Mistério e traz o Mistério para o mundo.

Por isso, o profeta não se deixa abater pela negatividade dos acontecimentos. Não por ingenuidade, não por ignorar o mal, não por amenizar a dureza da história. O profeta vê os escombros, conta-os, toca-os, cheira-os. Mas não dá aos escombros a última palavra. Mesmo quando tudo parece se dissolver, ele busca o fragmento que aponta para um caminho, a fresta por onde a luz pode entrar, o sinal humilde de uma presença que continua a acompanhar a humanidade mesmo quando esta parece ter-se perdido.

O profeta não é um otimista. O otimista muitas vezes fecha os olhos para o abismo. O profeta, porém, os mantém abertos. Ele contempla a noite sem negá-la, mas, dentro da noite, escuta o sopro da aurora. Ele sabe que a história não é apenas o lugar da ruína, mas também o lugar do chamado. Cada crise, para ele, é uma questão dirigida à consciência. Cada queda é também uma revelação daquilo que já não se sustenta. Cada deserto é o espaço onde o homem pode finalmente distinguir as vozes que o enganam da voz que o chama à vida.

Hoje, os profetas parecem ausentes. Mas talvez não tenham desaparecido. Talvez estejam escondidos. Talvez estejam em silêncio porque o ruído se tornou ensurdecedor, porque as palavras se desgastaram, porque o mundo aprendeu a transformar cada clamor em opinião e cada visão em conteúdo a ser consumido. Os profetas estão lá, mas caminham em meio aos escombros que são altos demais. Eles veem o acúmulo de injustiça, guerra, solidão, idolatria tecnológica e pobreza espiritual. E diante dessa massa de ruínas, compreendem como é difícil hoje interpretar a história sem traí-la, apontar um caminho sem simplificá-lo, proferir uma palavra que seja verdadeira e não meramente eficaz.

Os profetas conversam entre si. Buscam-se em silêncio, reconhecem-se sem alarde, confrontam-se sobre as feridas do tempo. Ninguém alega possuir a direção sozinho. Todos esperam. Aguardam uma voz que ainda não chegou, um sinal capaz de abrir um caminho onde agora só se vê neblina. Mas essa espera não é passividade. É vigilância. É a mais alta forma de responsabilidade, porque aqueles que não escutam, mais cedo ou mais tarde, falarão em vão, e aqueles que falam em vão acrescentam confusão à confusão.

Talvez a tarefa dos profetas de hoje seja precisamente esta: fomentar a expectativa, impedir que a humanidade se acostume com as ruínas, manter a questão em aberto quando todos buscam respostas fáceis. Eles não devem inventar a luz, mas permanecer voltados para ela. Não devem produzir visões para saciar a impaciência do mundo, mas preparar olhos capazes de reconhecer o sinal quando ele chegar. Pois o Mistério não parou de falar; talvez sejamos nós que tenhamos perdido a capacidade de escutar.

O profeta, portanto, pensa com dois ouvidos: um voltado para o Mistério, o outro repousando no âmago do presente. Se perde o Mistério, torna-se um analista entre analistas. Se perde o presente, torna-se um visionário sem carne. Mas quando essas duas fontes se encontram, nasce uma palavra rara: uma palavra que não consola falsamente nem condena estérilmente; uma palavra que fere para curar, denuncia para abrir, silencia para não mentir, fala para servir à vida. E talvez, precisamente neste tempo em que os profetas parecem ausentes, o mundo precise mais do que nunca de homens e mulheres capazes de retornar ao silêncio, de caminhar pelos escombros e de esperar, sem desespero, pelo sinal do caminho.

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O OLHAR DO PROFETA

 


 


Paulo Cugini

 

 

 

O que significa ser profeta hoje? Não significa, antes de tudo, elevar a voz acima do ruído do mundo, nem ocupar o palco da história como mero agitador de palavras ou intérprete superficial dos acontecimentos. O profeta não nasce dos acontecimentos atuais, mas do Mistério. Ele vem de uma profundidade que o precede, de uma relação silenciosa e ardente com aquilo que não pode ser possuído, mas que possui a consciência daqueles que se deixam alcançar. O profeta é aquele que foi tomado pelo Mistério, invadido no coração, ferido na consciência, transformado no olhar.

Não há profecia sem essa conexão interior. Antes de ser uma palavra dirigida a outros, a profecia é um fogo mantido em segredo; antes de se tornar uma denúncia, é escuta; antes de se tornar um gesto público, é obediência a uma luz que penetra, purifica, inquieta e consola. O profeta não fala porque possui uma estratégia, mas porque é possuído por uma verdade que o transcende. Ele não lê a história com as ferramentas do cálculo, mas com os olhos iluminados por uma profunda relação com o Mistério.

É por isso que o profeta é um homem e uma mulher de visão. Ele enxerga longe não porque foge do presente, mas porque o penetra até o seu âmago oculto. Ele vê além dos acontecimentos, além das aparências, além das narrativas construídas pelos poderosos, porque interpreta a realidade a partir dessa profundidade onde o Mistério revela o que a materialidade das coisas por si só não consegue penetrar. Onde muitos veem apenas escombros, o profeta vê sementes; onde muitos se rendem à violência, ele preserva o impossível da paz; onde muitos justificam mentiras como necessidade, ele invoca a justiça como o próprio sopro da humanidade.

Hoje, o profeta vislumbra caminhos de paz onde a história parece condenada à loucura da guerra. Vê caminhos ocultos em meio às ruínas criadas por homens inescrupulosos, incapazes de reconhecer a dignidade inviolável de cada pessoa. O profeta não se deixa hipnotizar pela lógica das armas, nem pela retórica dos vencedores, nem pela brutalidade daqueles que sacrificam povos no altar do seu próprio poder. Sabe que a guerra sempre nasce de um coração já devastado, de uma interioridade que perdeu a noção do outro e reduziu a vida a um território a ser conquistado, um corpo a ser dominado, uma voz a ser silenciada.

O profeta enxerga justiça mesmo quando a corrupção se espalha como uma névoa tóxica sobre instituições, relacionamentos e desejos. Ele vê a justiça não como uma ideia abstrata, mas como uma fome impressa nas consciências, como um grito que se eleva dos pobres, dos excluídos e das feridas da história. Ele reconhece que a sede de poder é frequentemente o sinal de um vazio interior: um abismo disfarçado de sucesso, uma solidão disfarçada de dominação, uma miséria da alma encoberta pela ostentação do egoísmo.

Naqueles que constroem sua própria grandeza pisoteando os outros, o profeta vê não apenas pecados a serem denunciados, mas um vazio abissal a ser desmascarado. Ele vê homens e mulheres consumidos por uma carência que nenhum poder pode preencher, por uma fome que nenhuma posse pode saciar. E vê também os vestígios que esse vazio deixa: feridas nas pessoas que encontra, injustiças enraizadas nos povos, medos transmitidos através das gerações, desertos interiores semeados ao longo do caminho.

E, no entanto, o profeta não é um homem ou uma mulher de desespero. Precisamente porque conhece o Mistério, sabe que nenhum abismo é mais profundo do que o amor gratuito que pode alcançá-lo. Sabe que a única força capaz de transpor o abismo do egoísmo não é uma nova dominação, nem a vingança, nem a contra-violência, mas o amor altruísta que o Mistério infunde nas consciências sedentas de justiça. É um amor que não compra, não possui, não humilha; um amor que liberta, eleva, restaura, abre o futuro.

Ser profeta hoje, portanto, significa habitar o mundo sem pertencer às suas idolatrias. Significa viver dentro da história com os olhos purificados pelo Mistério, com as mãos abertas à paz, com palavras capazes de ferir mentiras e curar vidas. Significa não se resignar à guerra quando todos a chamam de inevitável, não se curvar à corrupção quando todos a chamam de realismo, não adorar o poder quando todos o confundem com a força.

O profeta é um sentinela da possibilidade de Deus dentro do impossível dos homens e mulheres. Ele é uma memória viva que recorda à terra a sua vocação para a fraternidade. Ele é uma ferida aberta no corpo de uma sociedade que procura anestesiar a sua consciência. Ele é uma voz que nasce do silêncio, um fogo que nasce da escuta, uma esperança que nasce do amor. E quando tudo parece perdido, o profeta continua a ver: vê a paz onde reina a violência, vê a justiça onde reina a corrupção, vê o amor onde o egoísmo cavou abismos. Pois o profeta não se limita a olhar para o que é: olha para o que o Mistério, ainda hoje, pode despertar na consciência da humanidade.

 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Filosofia e fé: a razão como caminho para uma crença mais madura




Paolo Cugini

 

A filosofia surge do desejo humano de compreender o sentido da existência. Não se contenta com respostas imediatas, nem se detém na superfície: questiona, investiga, questiona e abre espaços para o pensamento. Precisamente por essa razão, longe de ser um obstáculo à fé, pode tornar-se uma ferramenta valiosa para penetrar mais profundamente nos mistérios da crença. Uma fé que teme a razão corre o risco de permanecer frágil; uma razão que se fecha ao mistério corre o risco de se tornar estéril.

 

O cristianismo, ao longo de sua melhor história, jamais pediu ao homem que renunciasse à inteligência. Pelo contrário, muitas vezes buscou o diálogo com a filosofia para esclarecer sua linguagem, purificar representações ingênuas de Deus e demonstrar que a fé não é um simples refúgio emocional, mas uma jornada que envolve a pessoa por inteiro. A razão, nessa perspectiva, prepara para a fé porque nos educa a questionar, a buscar a verdade, a reconhecer a complexidade da realidade.

Dizer que a filosofia prepara para a fé significa reconhecer que o ato de crer não pode ser reduzido a um gesto instintivo ou a uma simples adesão externa. A fé cristã é atravessada por categorias complexas: revelação, encarnação, salvação, liberdade, pecado, graça, história, consciência, responsabilidade. Sem o exercício da razão, essas palavras correm o risco de se tornarem fórmulas repetitivas, desprovidas de qualquer impacto real na vida. O pensamento, porém, permite-nos habitar essas palavras, compreender o seu significado e sermos transformados por elas.

Os Diferentes Níveis da Fé

Existem, contudo, diferentes maneiras de viver a fé. Um primeiro nível é o da fé popular, muitas vezes alimentada por práticas devocionais, tradições, gestos simbólicos e sentimentos religiosos. Esta certamente contém uma riqueza que não deve ser negligenciada: as pessoas expressam a sua necessidade de proteção, consolo e significado através de ritos, imagens e orações. No entanto, quando esta dimensão não é acompanhada por um processo de formação e discernimento, pode facilmente deslizar para a superstição.

A superstição escraviza o homem porque substitui a confiança pelo medo, a liberdade pelo mecanicismo, a relação com Deus pela tentativa de controlar o divino. Nesse caso, a fé não liberta, mas aprisiona; não abre o caminho para a maturidade, mas mantém a pessoa numa dependência infantil de sinais, fórmulas e práticas vivenciadas como garantias automáticas.

Um segundo nível é o do fundamentalismo religioso. Aqui, a pessoa de fé se entrega cegamente ao que encontra na religião, sem questionar, sem discernir, sem se esforçar para pensar. O fundamentalismo aparece então como uma forma de falsa segurança: oferece respostas definitivas para problemas complexos, transforma afirmações históricas e doutrinárias em blocos rígidos, rejeita a discussão e vê a dúvida como uma ameaça em vez de uma oportunidade de crescimento.

Na minha opinião, essa forma de fé muitas vezes revela uma profunda preguiça de pensar. Como pensar exige esforço, como a realidade é complexa, e a realidade religiosa ainda mais, prefere-se refugiar-se em pressupostos proclamados absolutos. Diz-se, por exemplo, que alguns valores são inegociáveis; mas, muitas vezes, eles não são negociados, não porque tenham sido verdadeiramente compreendidos em sua profundidade, mas porque negociar significaria entrar no árduo terreno do confronto, da argumentação, da mediação e do discernimento.

Fé Adulta e o Papel da Razão

Finalmente, há um nível mais profundo no discurso da fé: um em que a razão não é considerada um impedimento à crença, mas uma ajuda. Nessa perspectiva, a fé não exige a extinção da inteligência, mas sim seu direcionamento para um horizonte mais amplo. Crer não significa renunciar às perguntas, mas aprender a formulá-las melhor; não significa possuir Deus, mas permitir-se ser conduzido a um mistério que transcende a humanidade sem humilhá-la.

 

A filosofia, então, torna-se uma pedagogia da fé. Ela nos ensina a distinguir entre Deus e as imagens que fazemos de Deus, entre o Evangelho e suas reduções ideológicas, entre a verdade e a necessidade humana de segurança. Ela ajuda a desmascarar formas imaturas de crença e a libertar a fé da superstição, do fanatismo, do moralismo e da rigidez. Nesse sentido, o pensamento não enfraquece a fé: ele a purifica.

Uma fé ponderada é uma fé mais livre. Não porque se torne menos intensa, mas porque se torna mais consciente. Ela não se baseia no medo, nem na repetição automática, nem na delegação total a autoridades externas; em vez disso, fundamenta-se numa jornada pessoal, comunitária e crítica, capaz de reunir inteligência, experiência, tradição e pesquisa. É uma fé que não precisa se defender da razão, porque sabe que a verdade não teme o pensamento.

Por essa razão, o cristianismo precisa da filosofia: não para se transformar em um sistema abstrato, mas para evitar ser reduzido à emoção, à superstição ou à ideologia. A filosofia protege a fé da trivialização, enquanto a fé lembra à filosofia que a razão humana encontra sua plenitude não na dominação, mas na abertura ao mistério. Quando fé e razão caminham juntas, o homem não é forçado a escolher entre pensar e crer: ele pode crer pensando e pensar crendo.