sexta-feira, 11 de setembro de 2026

A liturgia inculturada: fidelidade ao mistério e atenção ao povo

A inculturação litúrgica não é simplesmente uma questão de adaptação externa, mas uma questão teológica e pastoral profunda. Requer a preservação da essência da liturgia, permitindo simultaneamente que ela ressoe na realidade concreta dos povos.




Paolo Cugini

 

Uma liturgia é verdadeiramente inculturada quando não está alienada da vida concreta das pessoas que participam dela. Ela está atenta ao contexto histórico, cultural e religioso do lugar onde é celebrada, porque o rito cristão nunca acontece em um espaço abstrato, mas dentro de uma comunidade real, marcada por uma língua, uma memória, símbolos, feridas, esperanças e suas próprias maneiras de habitar o mundo.

Falar de inculturação litúrgica significa, portanto, reconhecer que a celebração da fé deve ser capaz de proclamar o Evangelho de maneiras compreensíveis, significativas e vitais para um povo. O Concílio Vaticano II abriu claramente essa perspectiva, afirmando que, embora se preserve a unidade substancial do Rito Romano, deve-se deixar espaço para a legítima diversidade e as adaptações específicas de diferentes povos e regiões. De fato, a liturgia não é uma simples repetição de fórmulas, mas a ação viva da Igreja celebrando o mistério de Cristo dentro da história.

Por um lado, a inculturação exige atenção rigorosa para evitar distorções na herança litúrgica recebida. A liturgia tem sua própria essência, sua própria objetividade, um conteúdo que não depende do capricho do celebrante, do grupo que prepara a celebração ou das sensibilidades passageiras de uma comunidade. Ela pertence a Cristo e à Igreja: portanto, não pode ser transformada em uma representação folclórica, uma performance cultural ou uma composição subjetiva continuamente modificável.

O rito preserva uma memória, uma forma e uma teologia. As palavras, os gestos, os silêncios, os sinais sacramentais e a ordem da celebração não são elementos ornamentais, mas veículos da fé. Modificá-los sem discernimento enfraqueceria a capacidade da liturgia de introduzir os fiéis ao Mistério Pascal. Portanto, a inculturação não pode ser confundida com improvisação ou com a adição superficial de elementos locais. Por outro lado, porém, uma liturgia que não escuta o contexto corre o risco de se tornar muda, distante, incapaz de falar aos corações das pessoas. A sensibilidade pastoral exige que a celebração leve em conta a história de um povo, suas categorias simbólicas, suas formas de expressão, sua experiência religiosa e suas questões mais profundas. Não se trata de moldar a liturgia à cultura, mas de permitir que o mistério cristão seja proclamado e celebrado de maneira verdadeiramente encarnada.

A inculturação surge precisamente desta convicção: o Evangelho não destrói as culturas, mas as encontra, as purifica, as absorve e as transfigura. Cada povo possui línguas, gestos e imagens capazes de abrir caminhos para a compreensão do mistério. Quando esses elementos são acolhidos com discernimento, podem ajudar a assembleia a participar de forma mais consciente, mais ativa e mais profunda na celebração.

O ponto crucial, portanto, é o equilíbrio. Uma liturgia inculturada não é rigidamente uniforme nem arbitrariamente criativa. Ela não impõe modelos culturais estrangeiros como se fossem a única forma possível de fé, mas também não dissolve a liturgia em uma coleção de costumes locais. Ela surge de um discernimento eclesial capaz de questionar quais elementos de uma cultura são compatíveis com o Evangelho, quais melhor expressam a fé celebrada e quais, ao contrário, precisam ser purificados ou deixados de lado. Esse discernimento não se refere apenas a formas externas, como música, idioma, cores, gestos ou instrumentos. Refere-se, sobretudo, à qualidade do encontro entre fé e cultura. Introduzir um cântico tradicional ou um símbolo local não basta para que a liturgia seja inculturada. Esses elementos devem ser integrados de maneira orgânica, respeitosa e teologicamente fundamentada, de modo a servir ao mistério celebrado e não a obscurecê-lo.

No mundo contemporâneo, marcado pela pluralidade cultural e religiosa, a inculturação litúrgica é um desafio crucial. Ela permite à Igreja evitar tanto o colonialismo religioso, que busca identificar a fé com uma única tradição cultural, quanto o relativismo ritual, que perde de vista a unidade do mistério cristão. A liturgia inculturada demonstra que a universalidade da Igreja não coincide com a uniformidade, mas com a comunhão das diferenças em torno do mesmo Senhor. Portanto, uma comunidade que deseja celebrar de forma inculturada deve escutar: a Palavra, a tradição litúrgica, o ensinamento da Igreja e a vida concreta do povo. Só assim a celebração poderá ser fiel e viva, preservada e criativa, enraizada na tradição e capaz de dialogar com as mulheres e os homens de hoje.

Em última análise, a inculturação litúrgica não é simplesmente uma questão de adaptação externa, mas uma profunda questão teológica e pastoral. Requer a preservação da essência da liturgia, permitindo simultaneamente que ela ressoe na carne concreta dos povos. Quando isso acontece, a liturgia não perde sua identidade: pelo contrário, manifesta com mais força sua vocação mais autêntica, a de tornar o mistério de Cristo presente na história da humanidade e das culturas.

 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O brilho da escuridão divina: A teologia mística do Pseudo-Dionísio e o caminho da negação

 




Paolo Cugini

 

A busca humana pelo divino frequentemente esbarra nas limitações da própria linguagem. Como descrever aquilo que, por definição, transcende toda a realidade criada? No limiar entre a filosofia neoplatônica e a mística cristã, a enigmática figura do Pseudo-Dionísio, o Areopagita (séc. V–VI), ofereceu uma das respostas mais profundas a esse dilema. Sua obra, especialmente o tratado A Teologia Mística, propõe um itinerário espiritual que desafia a lógica convencional: para verdadeiramente conhecer a Deus, é preciso abandonar todo o conhecimento. O pensamento dionisiano estrutura-se a partir de dois movimentos teológicos complementares, mas hierarquizados: a teologia catafática (da afirmação) e a teologia apofática (da negação).

A teologia catafática é o ponto de partida necessário. Ela se baseia nas Escrituras e na experiência do mundo para atribuir nomes a Deus: dizemos que Ele é "Bom", "Justo", "Luz", "Ser" ou "Pai". Essas afirmações não estão erradas; elas revelam como Deus se manifesta na criação através de suas emanações e providências. No entanto, para o Pseudo-Dionísio, o perigo reside em domesticar o divino, reduzindo o Criador às categorias da criatura.

É aqui que a teologia apofática assume o papel supremo. Segundo o autor, Deus é melhor caracterizado e abordado por negações do que por afirmações. A negação dionisiana não é um ceticismo vazio ou uma negação de Deus em si, mas sim a negação de nossas representações humanas sobre Ele. Dizer que Deus "não é luz" significa que Ele supera infinitamente o que entendemos por luz. Ele é, portanto, "Super-Essencial" e "Mais-que-Bom". Todos os nomes e representações teológicas devem ser negados para purificar a mente dos ídolos conceituais que construímos.

De acordo com o Pseudo-Dionísio, quando todos os nomes forem negados, seguir-se-á o "silêncio divino, a escuridão e o desconhecimento". Esse não é um estado de ignorância trágica, mas o ápice da união mística, uma experiência que o autor metaforiza na subida de Moisés ao Monte Sinai. Ao se despojar de todas as imagens e conceitos, a alma humana penetra no que o Areopagita chama de Escuridão Divina ou Raio de Trevas. Essa "escuridão" não decorre da ausência de luz, mas sim do excesso dela, uma cegueira provocada pelo fulgor insuportável da transcendência divina. Trata-se de uma "escuridão mais que luminosa".

Neste estágio, a linguagem humana cessa. O silêncio dionisiano não é apenas a ausência de palavras, mas a plenitude do sentido que dispensa vocalização. O "desconhecimento" (agnosia) torna-se, paradoxalmente, a forma mais elevada de conhecimento: conhece-se a Deus precisamente ao reconhecer que Ele é inteiramente desconhecido e incognoscível pela razão discursiva. É o que a tradição mística posterior chamaria de "douta ignorância". A radicalidade do Pseudo-Dionísio reverbera com força na contemporaneidade. Em um mundo saturado de discursos, dogmatismos e imagens, a teologia apofática surge como um antídoto contra a instrumentalização do sagrado.

Frequentemente, discursos teológicos e políticos utilizam o nome de Deus para justificar preconceitos, guerras e estruturas de poder. Ao exigir a negação de todas as representações, o Pseudo-Dionísio desarmaria essas tentativas. Se Deus está além de qualquer conceito de justiça ou ordem humana, ninguém pode reivindicar o monopólio de Sua vontade. A sociedade ocidental moderna, marcada pelo cientificismo e pelo pragmatismo, tende a rejeitar o que não pode ser medido ou explicado. A mística apofática reabilita o valor do mistério. Ela nos lembra que existem dimensões da existência e da experiência interior, que escapam às redes da linguagem e da lógica cartesiana.  O foco no silêncio e no esvaziamento conceitual aproxima a mística cristã dionisiana de tradições orientais, como o Budismo (com o conceito de Sunyata ou Vazio) e o Taoismo. Ao esvaziar-se de dogmas linguísticos particulares, abre-se um espaço de comunhão universal baseado na experiência da Realidade Última, que está além de qualquer nomeação.

A teologia mística do Pseudo-Dionísio é um convite a uma jornada de desapego intelectual. Ela nos ensina que a teologia mais perfeita não é aquela que acumula definições, mas a que sabe calar-se diante do Absoluto. Ao cruzar o limiar das negações e abraçar a escuridão e o desconhecimento, o ser humano descobre que o silêncio não é o fim da comunicação com Deus, mas o único solo onde a verdadeira união mística pode florescer.


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

32ª edição do Grito dos Excluídos da Arquidiocese de Manaus

 




Paolo Cugini

 

O Grito dos Excluídos e Excluídas é um conjunto de manifestações populares que ocorrem anualmente no Brasil no dia 7 de setembro. Criado em 1995, o movimento surgiu por iniciativa da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e de pastorais sociais com o objetivo de promover uma reflexão crítica no Dia da Independência. A ideia central é dar voz e visibilidade às populações vulneráveis e historicamente marginalizadas do país

A 32ª edição do Grito dos Excluídos da Arquidiocese de Manaus, levou uma programação diversificada ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). A mobilização reuniu centenas de participantes, movimentos sociais e pastorais da Igreja em um dia de manifestações artísticas, reivindicações sociais e passeata. Na parte da tarde, a 32ª edição do Grito teve uma programação diversificada com apresentações artísticas, como danças, encenações e recitação de poemas, além da Missa Amazônica. O encerramento da mobilização ocorreu com uma caminhada que saiu do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia em direção ao Complexo Viário Gilberto Mestrinho, localizado no bairro Coroado.



O Grito dos Excluídos e Excluídas deste ano teve como foco a conscientização da sociedade sobre a importância da participação efetiva na defesa das pautas sociais, destacou Dom Samuel Lima, bispo auxiliar da Arquidiocese de Manaus, que presidiu a Missa. Realizado pela Arquidiocese de Manaus, por meio das Pastorais Sociais, o evento teve como tema “Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia - Erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”. A proposta era dar visibilidade às demandas da população em situação de vulnerabilidade e promover discussões sobre direitos humanos, moradia, proteção do meio ambiente, soberania, paz e enfrentamento à violência contra as mulheres.



Um dos momentos de debate abordou a violência contra as mulheres e os casos de feminicídio. Entre as participantes estava a mãe de Camila Vitória Fritz, jovem de 27 anos que foi vítima de feminicídio. Segundo a família, o caso ocorreu há quase três anos e ainda há cobrança por uma resposta da Justiça. Durante a conversa, ela destacou que espaços como o Grito dos Excluídos ajudam a dar visibilidade a situações de violência que muitas vezes permanecem dentro de casa.

“Violência é a partir de falas, de gritos, de baixo calões. Isso também é violência. A partir também da falta de alimentação em sua casa, isso também é violência”, afirmou.



A paróquia são Vicente de Paulo situado no bairro Compensa participou, como todos os anos, de forma expressiva ao evento, com a camisa do Movimento fé e Política, Movimento que atua neste período distribuindo panfletos da lei 9840, contra a corrupção política no Brasil.

 

 

Leigos e leigas na Igreja, o povo de Deus




 


 

Paolo Cugini

 

Imediatamente após o Capítulo III da LG, dedicado à constituição hierárquica da Igreja, com particular atenção ao episcopado, o documento conciliar dedica um capítulo inteiro, com nove parágrafos, ao delicado tema dos leigos. Com o termo "leigos", o Concílio designa todos os cristãos batizados, pertencentes ao Povo de Deus e que, em virtude do batismo, participam do tríplice munus de Cristo: régio, profético e sacerdotal. A natureza específica dos leigos reside em seu caráter secular, visto que " pela sua vocação é próprio dos leigos buscar o Reino de Deus, participando dos assuntos temporais e ordenando-os segundo Deus. Vivem no mundo, isto é, envolvidos em todos os diversos deveres e trabalhos do mundo e nas condições ordinárias da vida familiar e social, das quais sua existência está, por assim dizer, tecida" (LG, 31). Os leigos são, portanto, chamados a santificar o mundo por dentro, como o fermento santifica a massa, vivendo o Evangelho nos lugares onde são chamados a trabalhar. A transformação das coisas temporais para que assumam a forma de Cristo: esta é a tarefa específica que a Igreja confia aos leigos. É significativa a referência ao princípio da igualdade que existe entre todos os que fazem parte do povo de Deus, uma igualdade dada pela participação no único batismo e no único Espírito que atua na Igreja. " Não há, portanto, desigualdade em Cristo e na Igreja por causa de raça ou nacionalidade, condição social ou sexo, pois 'não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus' (Gl 3,28; cf. Cl 3,11)" (LG, 32).

O novo sacerdócio que Cristo instituiu ao oferecer a sua vida pelo Pai permite a todos os batizados, e portanto também aos leigos, seguir o mesmo caminho. O culto que os leigos são chamados a realizar, para além do culto específico no templo e na liturgia, realiza-se numa vida plena entregue em Cristo ao Pai. « Todas as suas atividades, de facto, as orações e os trabalhos apostólicos, a vida matrimonial e familiar, o trabalho diário, o descanso espiritual e físico, se realizados no Espírito, e até as dificuldades da vida, se suportadas com paciência, tornam-se ofertas espirituais aceitáveis ​​a Deus por Jesus Cristo (cf. 1 Pe 2,5)» (LG, 34).

O mesmo se aplica ao munus profético , que envolve cada leigo na colaboração para o anúncio do Evangelho. É através dos leigos, homens e mulheres, que o poder do Evangelho resplandece na vida quotidiana, familiar e social. O Concílio está plenamente consciente da importância da presença dos leigos no mundo para a sua evangelização. Não se trata, portanto, simplesmente de uma questão de falta de recursos, como se o processo de evangelização fosse da responsabilidade de indivíduos específicos na Igreja. É todo o povo de Deus que é chamado a evangelizar e a tornar presente o Reino de Deus no mundo, cada um com o seu carisma específico. « Esta evangelização, ou anúncio de Cristo, que se realiza pelo testemunho da vida e pela palavra, adquire um certo caráter específico e uma particular eficácia pelo facto de se realizar nas circunstâncias ordinárias do mundo» (LG, 35).

É no mundano real , vivido por leigos e leigas, que o Conselho esclarece seu papel no mundo.

Os fiéis devem, portanto, reconhecer a natureza profunda de toda a criação, o seu valor e a sua ordenação para o louvor de Deus, e ajudar-se mutuamente a uma vida mais santa, mesmo através de obras especificamente seculares, para que o mundo seja impregnado do espírito de Cristo e alcance mais eficazmente o seu fim em justiça, caridade e paz. No cumprimento universal deste ofício, os leigos têm um lugar de destaque. Por isso, com a sua competência nas disciplinas seculares e com a sua atividade, intrinsecamente elevada pela graça de Cristo, devem realizar eficazmente o seu trabalho, para que os bens criados, segundo os desígnios do Criador e a luz da sua Palavra, sejam promovidos pelo trabalho humano, pela tecnologia e pela cultura civil, para benefício de todos os homens sem exceção, e sejam distribuídos mais adequadamente entre eles e, segundo a sua natureza, conduzam ao progresso universal na liberdade humana e cristã (LG, 36).

Portanto, valorizam-se as competências profissionais próprias dos leigos. Essas competências, adquiridas no mundo, devem ser constantemente guiadas pela sabedoria do Evangelho para a transformação do mundo em Cristo. Esse processo de conformidade com a cabeça do corpo, que é Cristo, não pode deixar de abranger também as estruturas políticas e econômicas que muitas vezes obscurecem o plano de Deus para o mundo. O texto conciliar fala explicitamente da busca da paz e da harmonia, como sinal da presença de Deus no mundo. São objetivos muito nobres que, no entanto, justificam o compromisso dos leigos e leigas em todas as situações distorcidas pelo pecado, como as diversas formas de corrupção política ou as estruturas que priorizam os interesses econômicos em detrimento da pessoa. " Em nosso tempo, é extremamente necessário que essa harmonia resplandeça com a maior clareza possível na conduta dos fiéis, para que a missão da Igreja possa responder mais plenamente às condições particulares do mundo moderno" (Lumen Gentium, 36).

Em 18 de novembro de 1965, o Concílio Vaticano II aprovou o decreto Apostolicam Actuositatem (doravante AA) sobre o apostolado leigo, um documento pouco conhecido e raramente citado, mesmo entre estudiosos da eclesiologia, mas de grande importância para o desenvolvimento da teologia do laicato. É a este documento, e não à Lumen Gentium, que o Concílio confiou sua reflexão sobre o papel dos leigos na Igreja como povo de Deus. Da perspectiva do nosso trabalho, vale, portanto, a pena concentrar nossa atenção nele.

Com razão, já foi dito que "a introdução ao decreto sobre o apostolado dos leigos é toda a Constituição Dogmática sobre a Igreja, LG". Para os Padres Conciliares, a AA é "quase o seu desenvolvimento e continuação naturais". Ela se baseia na Constituição De Ecclesia , particularmente nos capítulos II e IV. O primeiro, sobre o novo povo de Deus, é, segundo Congar, "a conquista eclesiológica mais inovadora do Concílio", com sua afirmação da igualdade radical de todos os fiéis — leigos e leigas, ministros e religiosos e religiosas — em termos de dignidade e responsabilidade na vida cristã, missionária e eclesial, e de participação nas três funções proféticas, sacerdotais e reais de Cristo. Isso implica contemplar sempre a atividade apostólica dos leigos a partir de uma perspectiva eclesial. O capítulo IV, sobre os leigos, enquadra e determina fortemente a doutrina do nosso decreto. É necessário destacar o impacto especial da LG 31 sobre a "natureza secular" como um traço "próprio e peculiar" dos leigos, porque, embora o impulso apostólico que os leva a compartilhar com os outros o amor de Deus presente em seus corações provenha de sua condição batismal e crismônica, é a partir de sua secularidade que compreendemos o que é característico de sua maneira específica de participar da missão da Igreja.

O preâmbulo revela o desejo do Concílio de mudar de rumo, de se afastar de uma visão da Igreja constituída por dicotomias e contrastes entre clero e leigos, em favor de uma valorização cada vez mais significativa dos leigos e leigas, cujo papel é definido como necessário para a missão da Igreja como povo de Deus. Os Padres Conciliares estão plenamente conscientes da complexidade e da vastidão de um mundo cada vez mais populoso, que, portanto, requer a intervenção dos leigos com competências específicas que o clero não possui. «Este é o propósito da Igreja: difundir o reino de Cristo por toda a terra para a glória de Deus Pai, fazer com que todos os homens participem da salvação trazida pela redenção e, por meio deles, ordenar efetivamente o mundo inteiro a Cristo » (AA,2). A Igreja deseja realizar o apostolado [1] por meio de todos os seus membros e não mais, como outrora, apenas pela hierarquia eclesiástica. Uma vez que são incorporados a Cristo pelo Batismo, todos os cristãos "têm a nobre tarefa de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e aceita por todos os homens em toda a terra " (AA,3).

Para definir o significado da atividade leiga no mundo, o decreto dedica várias páginas ao tema específico da espiritualidade leiga. A fecundidade do apostolado leigo depende da sua união vital com Cristo. Assim, enquanto os leigos têm acesso a tudo o que a Igreja lhes oferece para permanecerem unidos a Cristo, tendem a “buscar a vontade do Pai em cada acontecimento, a ver Cristo em cada pessoa, próxima ou desconhecida, a julgar corretamente o verdadeiro sentido e valor que as coisas temporais têm em si mesmas e em relação à finalidade do homem ” (AA, 4). Desta perspectiva, é evidente que as ordens espiritual e temporal, longe de serem realidades dicotômicas, são, na verdade, intrínsecas e mutuamente reforçadoras. Para os leigos, de fato, a vida espiritual não é uma dimensão em si mesma, separada da vida, mas, ao contrário, tem o objetivo de orientar a realidade temporal na direção de Cristo.

O Capítulo II do decreto, referente aos objetivos do apostolado leigo, especifica que este apostolado diz respeito não apenas ao testemunho de vida, isto é, ao serviço concreto dos leigos no mundo em que atuam, mas também à atividade específica de mensageiros do Evangelho. “O verdadeiro apóstolo busca oportunidades para anunciar Cristo por meio de palavras, tanto aos não crentes para conduzi-los à fé, quanto aos fiéis para instruí-los, fortalecê-los e inspirá-los a uma vida mais fervorosa ” (AA, 6). Existe, portanto, uma ordem temporal com valor próprio que é chamada a ser transformada, na perspectiva do Evangelho, pela ação de leigos e leigas, tanto em suas atividades específicas, valorizando assim suas habilidades particulares, quanto por meio de um compromisso explícito com a proclamação do Evangelho. “É dever de toda a Igreja ajudar as pessoas a serem capazes de edificar bem toda a ordem temporal e ordená-la a Deus por meio de Cristo ” (AA, 7). O decreto, portanto, convida os leigos a abraçarem a renovação da ordem temporal como sua própria responsabilidade e a agirem concretamente, guiados pela luz do Evangelho. Somente os leigos, por meio de seu compromisso com os assuntos temporais, podem moldar as leis, a ordem política e econômica de acordo com o espírito do Evangelho que os alimenta diariamente.

Como se realiza o apostolado leigo? Esta é a questão que o decreto procura responder no Capítulo IV, que afirma que leigos e leigas podem exercer a atividade apostólica individualmente ou em diversas comunidades ou associações. O apostolado individual é particularmente necessário onde a liberdade de expressão da fé é severamente impedida, ou em regiões onde os católicos são poucos e dispersos. Além disso, o decreto convida leigos e leigas a considerarem seriamente todas as formas em que o apostolado associativo se torna possível e necessário. "Nas circunstâncias atuais, é absolutamente necessário que a forma associativa e organizada do apostolado seja fortalecida no trabalho dos leigos, uma vez que somente uma estreita união de forças é capaz de alcançar plenamente todos os objetivos do apostolado contemporâneo e defender eficazmente os seus frutos" (AA, 18). Somente unindo-se em associações é que leigos e leigas podem influenciar a mentalidade geral, resistindo às pressões que a diversidade de pensamento e de atitudes cria no mundo. O decreto, portanto, oferece uma orientação significativa para a atuação da Igreja no mundo da política e da economia, garantindo que os princípios evangélicos sejam preservados e que a mentalidade da sociedade seja significativamente transformada, graças a uma clara orientação para Cristo.

O Capítulo V recorda que o apostolado dos leigos e das leigas deve ser inserido no apostolado de toda a Igreja, em união com os encarregados de governar a Igreja de Deus. O decreto afirma, portanto, que “para fomentar um espírito de unidade, para que a caridade fraterna resplandeça em todo o apostolado da Igreja, para que se alcancem objetivos comuns e se evitem rivalidades nocivas, é necessário o respeito mútuo e a devida coordenação entre todas as formas de apostolado na Igreja ” (AA, 23). A hierarquia é, portanto, indicada como aquela que dirige o exercício do apostolado, assegurando o respeito à doutrina e às disposições fundamentais. Por fim, são dadas algumas orientações relativas à formação dos leigos e das leigas para o apostolado, que pressupõe uma formação humana plena. A inclusão dos leigos e das leigas nas áreas específicas em que desenvolvem as suas atividades é condição fundamental para o exercício do laicismo. «Além da formação espiritual, é necessária uma sólida preparação doutrinal, isto é, ética, teológica, filosófica, de acordo com a diversidade de idades, condições e aptidões » (AA,29).

Considerado em seu conjunto, o decreto do Concílio Vaticano II sobre o apostolado dos leigos e leigas oferece muita matéria para reflexão. Expressa o desejo de uma Igreja que busca libertar-se da antiga oposição entre clero e leigos, uma Igreja cada vez mais consciente de ser o povo de Deus, servindo ao Evangelho em todos os seus membros. Por fim, é significativa a consciência, evidente ao longo do decreto, do papel da Igreja no mundo como fermento, chamada a dar profundidade evangélica às realidades temporais que encontra, por meio da ação dos leigos e leigas. Somente a recuperação da eclesiologia do povo de Deus poderia conduzir a tal abertura e compreensão da missão da Igreja no mundo.

 

 

 

Dimensão profética, sacerdotal e real do sacerdócio comum em Lumen Gentium

 




Paolo Cugini

 

A LG adota o esquema da tríplice participação no sacerdócio de Cristo — Sacerdote, Rei e Profeta — para explicar o significado do exercício do sacerdócio comum. A LG 11 combina as dimensões sacerdotal e real, detalhando para cada sacramento o exercício do sacerdócio comum, já brevemente descrito na LG 10 como participação nos sacramentos, oração e ação de graças, que se traduzem numa vida santa de abnegação e caridade ativa. A vida em Cristo, alimentada e fortalecida pela participação nos sacramentos, diz respeito à Igreja como uma “comunidade sacerdotal ” antes dos indivíduos: a fé, a esperança e a caridade são, antes de tudo, dons da Igreja, “uma comunidade de fé, esperança e caridade ” (LG, 8), que cada pessoa recebe em razão da incorporação ao corpo eclesial pelo batismo. Sacrosantum Concilium (doravante SC) recorda que cada sujeito é "delegado ao culto da religião cristã " como uma capacidade pessoal que o habilita, juntamente com outros, a esse "culto público integral " que o corpo místico de Cristo realiza para a glória de Deus em união com Cristo Cabeça (SC,7).

É a assembleia litúrgica, especialmente a eucarística, que "demonstra concretamente a unidade do Povo de Deus, felizmente expressa e maravilhosamente realizada por este augusto sacramento " (LG, 11). O santo Povo de Deus rende perfeita glória a Deus e recebe d'Ele aquela bênção que santifica não só os presentes, mas toda a humanidade, no meio da qual a comunidade sacerdotal se insere "como sacramento, isto é, sinal e instrumento de íntima união com Deus e da unidade de toda a raça humana " (LG, 1). Esta bênção torna cada pessoa mais preparada para os seus compromissos e fiel à sua vocação e estado de vida, num autêntico testemunho de vida cristã. O chamado universal à santidade se compreende na já mencionada circularidade da liturgia e da vida.

O ofício profético de Cristo, vivido pelo povo de Deus, é abordado no número 12 da LG. O povo de Deus é profético quando dá testemunho vivo do Senhor ressuscitado e oferece um sacrifício de louvor com os lábios. O texto, portanto, une a dimensão litúrgica e a experiencial. A adoração é verdadeira quando se expressa na vida, isto é, quando se torna testemunho daquilo que é dito com os lábios. É sob a ação do Espírito Santo que o povo de Deus adere ao âmago da tradição apostólica, guiado por esse sentido de fé que une os fiéis leigos aos bispos.

Todo o corpo dos fiéis, ungido pelo Santo (cf. 1 Jo 2,20.27), não pode errar em matéria de fé. Esta qualidade manifesta-se através do discernimento sobrenatural da fé de todo o povo, quando, "dos bispos ao último dos fiéis leigos", demonstram unanimidade em matéria de fé e moral. De facto, por esse discernimento, despertado e sustentado pelo Espírito da verdade, e sob a guia da sagrada autoridade magistral, que, se fielmente obedecida, nos permite receber não mais uma palavra humana, mas verdadeiramente a palavra de Deus (cf. 1 Ts 2,13), o povo de Deus adere infalivelmente à fé entregue de uma vez por todas aos santos (cf. Jz 3), penetra-a mais profundamente com reto discernimento e aplica-a mais plenamente nas suas vidas.

O caminho que todo o povo de Deus, guiado pelo Espírito Santo, é chamado a trilhar para testemunhar a presença de Cristo na história é único. O texto citado revela que o exercício do sacerdócio comum pela comunidade sacerdotal se manifesta não apenas no sensus fidei , mas também na riqueza de seus carismas:

“Distribuindo os seus dons a cada um como lhe apraz” (1 Cor 12,11), ele também concede graças especiais aos fiéis de todas as classes, capacitando-os e preparando-os para assumir diversas tarefas e ofícios úteis à renovação e ao maior crescimento da Igreja, segundo estas palavras: “A cada um é dada a manifestação do Espírito para o bem comum” (1 Cor 12,7). E estes carismas, desde os mais extraordinários aos mais simples e difundidos, por serem especialmente adequados às necessidades da Igreja e destinados a respondê-las, devem ser acolhidos com gratidão e consolação (LG,12).

Tudo contribui para a edificação do povo de Deus, que é a Igreja, chamada a ser sinal da presença de Deus na história, dotada de carismas que a tornam visível em sua ação constante ao longo do tempo.

O capítulo da LG sobre a Igreja como povo de Deus procede oferecendo uma reflexão sobre a sua dimensão universal. O chamado para fazer parte do povo de Deus é universal: este é o ponto de partida da discussão. Este chamado universal corresponde à intenção de Deus " que no princípio criou a natureza humana como uma só" (LG, 13). Daí o esforço manifestado ao longo dos séculos para reunir não só os filhos dispersos da casa de Israel, mas todos os povos num só povo de Deus. Não é por acaso que o capítulo sobre a Igreja como povo de Deus conclui com o parágrafo 17, que explica o caráter missionário da Igreja, isto é, o desejo de revelar o caminho da unidade do povo de Deus. Em nossa opinião, é precisamente neste parágrafo 13 da LG que se torna clara a interconexão entre a eclesiologia do povo de Deus e a eclesiologia da comunhão, frequentemente colocadas em oposição. Nesta perspectiva, a cristologia e a pneumatologia revelam a unidade do plano de Deus, rumo à recuperação do projeto unitário original, primeiro através da obra de Jesus Cristo, " a quem conferiu domínio sobre todas as coisas (cf. Hb 1,2), para que fosse mestre, rei e sacerdote de todos, cabeça do novo e universal povo dos filhos de Deus" (LG,13); segundo, através da ação do Espírito Santo, "que é para toda a Igreja e para cada um dos fiéis o princípio da associação e da unidade, no ensino dos apóstolos e na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações (cf. At 2,42) " (LG,13).

A consciência de que um único povo de Deus está enraizado em todas as nações da terra leva LG a afirmar uma comunhão difundida pelo Espírito Santo que atua no mundo, de modo que “quem está em Roma sabe que os indianos são seus membros ”. A tarefa da Igreja como povo de Deus consiste em introduzir o Reino de Deus, que não é deste mundo, no coração do mundo, na consciência de que “ao introduzir este Reino, nada diminui o bem temporal de nenhum povo, mas, ao contrário, favorece e acolhe todas as riquezas, recursos e modos de vida dos povos em sua bondade e, acolhendo-os, os purifica, consolida e eleva ” (LG, 13). Esta é uma passagem fundamental, que explica a delicada relação da Igreja com o mundo e, em particular, com as culturas que encontra no caminho da evangelização. Há, de fato, um reconhecimento explícito da riqueza de outras culturas, que exigem respeito e apreço. Estas palavras indicam o discurso sobre a inculturação do Evangelho, que não pode deixar de ser marcada pela escuta e atenção ao outro, a outras culturas. A evangelização das culturas só é possível quando a sua riqueza e valor são reconhecidos, e esta caminhada requer tempo, escuta e dedicação. LG, a este respeito, recorda que está em curso, através da Igreja, povo de Deus, um processo de recapitulação de todas as coisas, um percurso de cristianização, fruto das relações humanas, da reciprocidade, da escuta e do reconhecimento do outro. « Em virtude desta catolicidade, as partes individuais trazem os seus dons às outras partes e à Igreja como um todo, de modo que o todo e as partes individuais crescem através de uma troca mútua universal e de um esforço comum rumo à plenitude na unidade» (LG, 13).

 É significativo que a diversidade do sacerdócio seja abordada precisamente neste ponto, como que a afirmar que não se trata de algo ontológico, mas funcional. De facto, é para o bem dos nossos irmãos e irmãs que se enfatiza a diversidade do sacerdócio ministerial em comparação com o sacerdócio comum. O mesmo se aplica à relação das Igrejas particulares com a Cátedra de Pedro, que não priva o desenvolvimento e a riqueza das tradições individuais, mas « preside à comunhão universal da caridade, protege a legítima diversidade e, ao mesmo tempo, assegura que a particularidade não só não prejudique a unidade, como antes a sirva» (LG, 13). Como já referimos, a evangelização é um elemento integrante do percurso da Igreja no mundo, porque esta deseja proclamar a verdade do Evangelho a toda a criatura e a toda a cultura, para possibilitar a sua plenitude. « Ele então garante que todo o bem que for encontrado semeado nos corações e mentes dos homens ou nos ritos e culturas dos povos, não só não se perca, mas seja purificado, elevado e aperfeiçoado para a glória de Deus, a confusão do demônio e a felicidade do homem» (LG,13).

 

O sacerdócio comum em Lumen Gentium

 



 


Paolo Cugini

 

O Vaticano II abriu a todos os batizados, a todos os que estão na Igreja, a plenitude do ser cristão. Através do tema do sacerdócio comum, o Concílio abriu um caminho que permite aos cristãos redescobrir a alegria e a plenitude de responder ao chamado de Deus, tanto pessoal quanto comunitariamente. Embora esta doutrina tenha fundamento bíblico e nunca tenha sido esquecida na tradição da Igreja e ao longo da história, “com relação ao sacerdócio comum, pode-se e pode-se falar de uma lacuna em nossa consciência como cristãos membros da Igreja ”. [1] Deve-se acrescentar que, apesar desse esquecimento, durante séculos a forma de entender o sacerdócio ministerial obscureceu o sacerdócio comum: o que o Concílio Vaticano II apresentou na Lumen Gentium é uma forma de entender o batismo presente na tradição, mas esquecida. Por essas razões, e precisamente porque foi silenciado durante séculos, este aspecto nos parece um ponto-chave para a compreensão do significado da Igreja como povo de Deus.

No contexto da LG, o tema do sacerdócio comum é um elemento característico da identidade do povo de Deus. Segundo Vitali, «o tema torna-se a pedra angular que sustenta toda a visão eclesiológica proposta pela LG, e isto pelo simples facto – muito simples, mas decisivo – de ser mencionado no texto antes do sacerdócio ministerial ». [2] De facto, a inversão da ordem determina que o sacerdócio ministerial está necessariamente ligado ao sacerdócio comum, e que este se torna o termo de referência obrigatório para compreender a relação entre as duas formas de participação no sacerdócio de Cristo. É na Lumen Gentium que encontramos pela primeira vez numa constituição conciliar uma referência ao sacerdócio comum, após a breve referência na Sacrostantum Concilium (SC) no n.º 6:

Cristo, o Senhor, sumo sacerdote assumido entre os homens (cf. Hb 5,1-5), constituiu o novo povo “um reino e sacerdotes para Deus, seu Pai” (Ap 1,5). De fato, pela regeneração e pela unção do Espírito Santo, os batizados são consagrados para formar uma casa espiritual e um sacerdócio santo, para oferecer, por meio de todas as obras do cristão, sacrifícios espirituais e para dar a conhecer as maravilhas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (cf. 1 Pe 2,4-10). Todos os discípulos de Cristo, portanto, perseverando na oração e louvando a Deus juntos (cf. At 2,42-47), devem oferecer-se como vítima viva e santa, agradável a Deus (cf. Rm 12,1) e, a todo aquele que lhe pedir, devem dar razão da esperança da vida eterna que neles há (cf. 1 Pe 3,15) (LG,10).

A descrição transfere ao novo povo de Deus o título e a propriedade de "povo sacerdotal" que Êxodo 19:6 atribuiu a Israel. Essa condição constitui os batizados em um reino e sacerdotes para Deus, seu Pai, em uma morada espiritual e sacerdócio santo, com a tarefa de oferecer sacrifícios espirituais a Deus. É a totalidade dos batizados que é chamada a fazer essa oferta. O culto espiritual prestado a Deus não é um ato individual, mas sim da Igreja como universitas fidelium, que manifesta essa identidade sobretudo na assembleia litúrgica. O texto de LG 10 prossegue explicando a relação entre o sacerdócio comum e o sacerdócio ministerial, o que revela as características do esquema de De Ecclesia :

O sacerdócio comum e o sacerdócio ministerial ou hierárquico, embora difiram em essência e não em grau, estão, no entanto, ordenados um ao outro, uma vez que ambos, cada um à sua maneira, participam do único sacerdócio de Cristo. O sacerdote ministerial, com o poder próprio que lhe é investido, forma e governa o povo sacerdotal, realiza o sacrifício eucarístico in persona Christi e o oferece a Deus em nome de todo o povo; os fiéis, em virtude do seu sacerdócio real, participam da oferta da Eucaristia e exercem o seu sacerdócio participando nos sacramentos, pela oração e ação de graças, pelo testemunho de uma vida santa, pela abnegação e pela caridade ativa (LG, 10).

É preciso dizer que nem todos gostaram deste texto. Alguns argumentaram que o modelo De Ecclesia era melhor, porque respeitava e descrevia melhor o sacerdócio comum. O texto, na verdade, ainda parece responder ao modelo eclesiológico piramidal, onde os leigos têm um papel subordinado de colaboração com a hierarquia. [3] Tratam-se, na verdade, de duas realidades radicalmente diferentes: o sacerdócio comum é uma condição que deriva do batismo, enquanto o sacerdócio ministerial é uma função de serviço ao povo de Deus que deriva do sacramento da ordem. «Um une-se ao sacrifício que Cristo faz de si mesmo ao Pai, o outro torna Cristo presente para que o povo de Deus possa verdadeiramente oferecer sacrifícios espirituais agradáveis ​​a Deus » (Vitali, 2013, p. 137). Em todo caso, essa própria diferença estabelece, em essência, uma circularidade e complementaridade entre as duas formas de participação no sacerdócio de Cristo: para tornar possível esse exercício comum, existe o sacerdócio ministerial, como uma forma profundamente enraizada de serviço ao povo de Deus.

De uma perspectiva de análise textual, parece claro, como observou Walter Kasper, que a citação da Primeira Carta de Pedro desempenha um papel central na definição do sacerdócio universal. A Primeira Carta de Pedro é, sem dúvida, uma exortação aos recém-batizados, na qual a Igreja é descrita como a casa de Deus, construída sobre a pedra rejeitada, que é Jesus. Os batizados são, então, as pedras vivas que formam um edifício espiritual. Os batizados são distinguidos por títulos honoríficos do povo do Antigo Testamento e descritos como " uma raça escolhida, um sacerdócio real, uma nação santa, um povo que Deus possuiu para si". As afirmações fundamentais do povo da Antiga Aliança são atribuídas à comunidade cristã. Todo o argumento do texto é construído cristologicamente. «O sacerdócio do Novo Testamento é caracterizado pelo sacrifício de Cristo oferecido de uma vez por todas, um sacrifício através do qual somos inseridos, com o batismo, neste sacerdócio que devemos exercer através de uma vida que deve tornar a realidade batismal plenamente eficaz ». [4]

As afirmações da Primeira Carta de Pedro tiveram ampla repercussão na literatura patrística. Orígenes, por exemplo, discorre longamente sobre o serviço prestado pelos cristãos como sacerdotes, especialmente por meio de sua oração pelo bem de todos. [5] Agostinho também, em uma passagem conhecida de De Civitate Dei, afirma: “nosso altar é o nosso coração, sobre o qual oferecemos o sacrifício da humildade e do louvor através do fogo de um amor ardente ”. [6] Novamente neste texto, Agostinho afirma que não apenas bispos e padres são sacerdotes, mas todos os fiéis: “porque assim como os chamamos a todos de cristãos por causa do crisma místico, assim também são todos chamados de sacerdotes, porque são membros do único sacerdote ”. [7] Diferentemente, portanto, do gnosticismo, na comunidade cristã não podem existir duas classes de cristãos, os fiéis normais e os perfeitos. Neste ponto, Kasper destaca que os Padres da Igreja não extraem consequências concretas da cooperação ou dos poderes sacramentais dos leigos. «O que lhes interessa – conclui Kasper – é o ideal de santidade da Igreja antiga, um sacerdócio a ser exercido no altar do coração sempre ardendo de dedicação a Deus ». [8]

É significativo notar como a teologia da Primeira Carta de Pedro aparece já desenvolvida na liturgia dos primeiros séculos, ou seja, no Cânon Romano . De fato, a primeira Oração Eucarística não apenas afirma que a Eucaristia é oferecida por todos os presentes, mas também declara que "eles também oferecem este sacrifício de louvor ". É, portanto, um sacrifício de toda a família de Deus e uma memória de todo o povo santo. É interessante observar que a liturgia preservou até hoje a ideia do sacerdócio comum de todos os batizados.

Para compreender a profundidade e, ao mesmo tempo, o valor das escolhas feitas pelo Concílio, devemos concentrar nossa atenção na interpretação de Lutero sobre o sacerdócio universal. Lutero, de fato, não interpretou o texto da Primeira Carta de Pedro que consideramos no sentido do sacerdócio comum, mas no sentido do sacerdócio universal de todos os batizados, desenvolvido como a competência de todos os cristãos na interpretação da Palavra de Deus. Da Primeira Carta de Pedro e do Apocalipse, Lutero deduz que todos os cristãos são sacerdotes consagrados pelo batismo. "O que fluiu do Batismo pode, de fato, orgulhar-se de já estar consagrado como sacerdote, bispo, papa ." [9] Sabemos que houve um desenvolvimento no pensamento teológico de Lutero, segundo o qual, nos escritos posteriores aos seus escritos juvenis, ele inclui a ordenação e a vocação de bispos, párocos e pregadores entre os sinais pelos quais é possível reconhecer a Igreja. Nesse caso, Lutero não deriva o ministério do povo, mas da instituição por Cristo. Essa maneira de entender o problema também entrou na Confissão de Augsburgo de 1530 e tornou-se normativa para o luteranismo até o século XIX. [10] Devido a essa diversidade de pensamento, a doutrina de Lutero sobre o sacerdócio universal foi interpretada de diferentes maneiras dentro do luteranismo e continua sendo controversa até hoje. [11]

Nos documentos conciliares, como vimos, o texto da Primeira Carta de Pedro desempenha um papel proeminente, a ponto de se tornar a magna carta do sacerdócio comum de todos os batizados. A diferença em relação à interpretação luterana é clara já do ponto de vista puramente linguístico, porque o Concílio não fala de um sacerdócio universal, mas do sacerdócio comum de todos os batizados, isto é, de todos os membros da Igreja. O sacerdócio comum dos batizados torna obsoleta a antiga dicotomia entre leigos e clero e recorda que a missão da Igreja é confiada à Igreja em sua totalidade e, portanto, conjuntamente a todos os cristãos. Kasper recorda que: “O sacerdócio comum estabelece a Igreja, a única família de Deus, a fraternidade de todos ”. [12] Esta comunidade fundamental de todos os batizados não pode ser interpretada num sentido democrático profano, como aconteceu sobretudo nas duas primeiras décadas do debate pós-conciliar.

 




[1] Mitterstieler, «O sacerdócio comum de todos os batizados», 34.

[2] Vitali, Povo de Deus, 134.

 

[4] De Rosa, «Vocês são um sacerdócio real», 320.

[5] Orígenes, Contra CelsumVIII, 73-75.

[6] Agostinho, De Civitate DeiX, 3.

[7] Agostinho, De Civitate DeiXX, 10.

[8] W.Kasper, Igreja Católica. Essência, Realidade, Missão,322.

[9] Lutero, Escritos Políticos,UTET, Turim 1959, 408.

[10] Cf.Kasper,Igreja Católica. Essência, Realidade, Missão,324.

[11] Cf. W.Pannenberg,Teologia Sistemática 3, Queriniana, Brescia 1996, 399-408.

[12] Cf. W.Kasper,Igreja Católica. Essência, Realidade, Missão,327.

 

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O tempo das migalhas e o julgamento sobre a cidade

 


Existe uma relação muito estreita, quase sacramental em sua perversão, entre a corrupção política e o desinteresse do público pelo bem comum. Políticos corruptos prosperam na ignorância, especialmente na ignorância imposta aos pobres.




A campanha política no bairro Compensa de Manaus

Paolo Cugini

 

 

O período de campanha política é um tempo de revelação. É o momento em que a máscara cai, quando vemos o que, em anos normais, é varrido para debaixo do tapete da propaganda, das promessas vazias e das fotos sorridentes. É o momento em que entendemos como as coisas realmente são: de um lado, candidatos tentando comprar a consciência do povo com migalhas; do outro, um povo que, após anos de negligência, foi educado para sobreviver com migalhas, para ser grato pelo que deveria ser um direito, para vender seu futuro por um favor momentâneo.

Esta é a tragédia de cidades feridas como Manaus: não é a falta de dinheiro, é a falta de visão. Não é a falta de orçamento, é a falta de um plano urbano. É a falta de diálogo, é a falta de objetivos claros capazes de empoderar a população para viver com dignidade. E quando uma cidade não tem um plano, as pessoas se tornam uma massa a ser governada, um número a ser contado, um voto a ser conquistado, uma pobreza a ser preservada.

Existe uma relação muito estreita, quase sacramental em sua perversão, entre a corrupção dos políticos e o desinteresse do público pelo bem comum. Políticos corruptos se alimentam da ignorância, especialmente da ignorância imposta aos pobres. Eles não querem cidadãos: querem dependentes. Não querem pessoas livres: querem mãos estendidas. Não querem bairros organizados e conscientes, capazes de reivindicar; querem comunidades cansadas, amedrontadas e divididas, obrigadas a pedir como favor o que a justiça deveria garantir como direito.

Quanto mais pobreza existe, mais terreno fértil a corrupção encontra. E quanto mais a corrupção governa, mais pobreza é produzida, mantida e administrada. A política corrupta não combate a pobreza: ela a explora. Não liberta os pobres: mantém-nos em cativeiro. Não constrói condições de dignidade: distribui migalhas em anos eleitorais, para que a fome enfraqueça a memória e a necessidade enfraqueça a liberdade.

Vamos dar uma olhada no bairro da Compensa, em Manaus. Basta olhar para ele sem desviar o olhar. Um bairro cortado ao meio por um canal de esgoto com quilômetros de extensão, em cujas margens vivem centenas de famílias e, consequentemente, milhares de pessoas. Durante as chuvas, a água suja invade as casas, trazendo mau cheiro, doenças, humilhação e medo para dentro dos lares. Notícias recentes relataram mais uma vez o transbordamento do igarapé e as inundações na região da Avenida Brasil, evidência de um problema recorrente que já não pode ser considerado uma emergência: o abandono de imóveis.



No entanto, nos últimos anos, quantas vezes os políticos entraram nessas casas sem precisar pedir votos? Quantas vezes caminharam ao longo daquele canal não para fazer promessas, mas para ouvir, avaliar, planejar e resolver? Quantas vezes olharam nos olhos das mães que limpavam lama e esgoto do chão, das crianças que cresciam respirando o que uma cidade decente não deveria permitir, dos idosos que esperavam não por uma visita eleitoral, mas por políticas públicas? Nunca!

Compensa carece de espaços públicos para a vida comunitária. Faltam locais para a realização de eventos, para a promoção da saúde, cultura, encontros, educação e esportes. Por isso, as pessoas batem às portas da Igreja. A Igreja as abre, porque não pode fechar o coração às necessidades das pessoas; mas se recusa a ser explorada, usada como palco ou ridicularizada, especialmente durante o período eleitoral. Há anos, a comunidade eclesial abre seus espaços para projetos de saúde para adultos, arcando com os custos, as responsabilidades e os esforços. Por outro lado, as autoridades públicas não constroem espaços adequados para acolher esses projetos, apesar dos recursos disponíveis.

Não se trata de falta de dinheiro. Para 2025, o orçamento municipal de Manaus foi projetado em aproximadamente 10,5 bilhões de reais, com recursos destinados a áreas como educação, saúde e planejamento urbano. Assim, a questão se torna profética e urgente: se o dinheiro existe, onde estão os projetos que devolvem a dignidade aos bairros? Se o orçamento existe, onde está a cidade? Se os valores chegam a bilhões, por que a população continua recebendo apenas migalhas?

No bairro de Compensa, não há uma quadra publica esportiva suficiente para que os jovens possam praticar esportes, aprender disciplina, descobrir talentos e se manter longe da violência e das drogas. Não há um espaço digno para lamentar os mortos, porque até mesmo a dor dos pobres parece indigna de infraestrutura, respeito, silêncio ou rituais. E quando uma cidade não oferece espaços para viver, brincar, se curar, se encontrar e até mesmo chorar, essa cidade está dizendo às suas crianças mais pobres: vocês não importam.

Mas ai da cidade que se acostuma a essa blasfêmia civil! Ai da cidade que transforma direitos em favores, cidadania em clientelismo, o voto em mercadoria, a pobreza em instrumento de governo! Ai daqueles que governam e só aparecem nos subúrbios quando precisam do povo, porque chegará o dia em que o povo exigirá responsabilidade não pelas palavras proferidas no palco, mas pelos esgotos que invadiram as casas, pelos campos nunca cultivados, pelos espaços nunca concebidos, pela dignidade negada.



O período de campanha política deve ser um tempo para discernimento, não para o mercado. É hora de dizer não às migalhas. Chega de políticos que visitam os pobres sem amá-los, que usam a Igreja sem respeitá-la, que prometem projetos sem planejar as cidades, que distribuem favores para encobrir injustiças. Manaus não precisa de candidatos generosos com dinheiro público em época de eleição: precisa de líderes justos, capazes de ouvir, planejar, construir e prestar contas.

Porque uma cidade não será julgada pelo tamanho de seus orçamentos, mas pela dignidade de seus bairros. Não será julgada pelas luzes de seu centro, mas pela escuridão de seus subúrbios. Não será julgada por manifestações, mas por casas alagadas com água suja. E se a política continuar oferecendo migalhas, então o povo finalmente terá que se levantar da mesa da humilhação e dizer: não queremos mais migalhas, queremos justiça.