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sábado, 4 de março de 2023

Gianni Vattimo: O cristianismo entre morte de Deus e enfraquecimento do ser

 


Paolo Cugini


A análise que Gianni Vattimo desenvolveu ao longo destes anos tem como pontos referenciais dois filósofos: Nietzsche e Heidegger[1]. O anúncio nietzschiano da morte de Deus e o niilismo como consequência do pensamento Ocidental, na perspectiva de Vattimo desembocam na análise heideggeriana do fim da metafísica, da história da metafísica Ocidental como enfraquecimento do ser. Sendo que a proposta de Vattimo que chamamos de “religiosa” não pode ser entendida em sua profundeza e em suas consequências extremas senão a partir deste pano de fundo filosófico, que retorna em várias páginas de sua obra, sobretudo nos textos das últimas duas décadas, é necessário aprofundar o discurso. Na análise de Vattimo, tanto a reflexão niilista de Nietzsche quanto o anúncio heideggeriano do fim da metafísica apontam para aquilo que hoje chamamos de fim da modernidade.3 Nessa altura, a pós-modernidade não seria outra coisa que o esgotamento do projeto moderno da metafísica clássica, da maneira de interpretar o ser como presença, como algo de fixo, de rígido. A metafísica, alvo das críticas de Vattimo, é a filosofia sistemática, capaz de fornecer uma representação coerente, unitária e rigorosamente fundada das estruturas estáveis do ser.[2] Metafísica, neste sentido, seria um pensamento que identifica a verdade do ser com a possibilidade de medir e de manipular o objeto da ciência. Esta crítica, como sabemos, não é nova. Já a partir dos anos oitenta, vários epistemólogos[3] questionavam a veridicidade das teorias científicas, sobretudo, a presunção de achá-las melhores daquelas de cultura diferente. A novidade da análise de Vattimo consiste na ligação que ele realiza entre a crise da metafísica Ocidental e as consequências – por ele positivas – no cristianismo. Existe toda uma série de eventos acontecidos nas últimas décadas que comprovam a dissolução da metafísica clássica, o enfraquecimento de um ser apresentado como fundamento único e objetivo da realidade. A queda do muro de Berlim, a crise sistemática do modelo econômico neoliberal, o mundo pluralista em que vivemos, o desmoronamento do mito do progresso ilimitado, fruto maduro do iluminismo setecentesco: são todos sintomas de um enfraquecimento do ser da metafísica forte de cunho Ocidental que desembocam no niilismo. Na Babel do pluralismo do ocaso da modernidade, do desmoronamento das metanarrativas de lyotardiana memória,[4] das ideologias fortes centradas sobre verdades absolutas se multiplicam as narrativas sem um centro e uma hierarquia. “O fim da metafísica, vista como crença em uma ordem fundada, estável, necessária, e objetivamente cognitiva do ser, foi acompanhado, no pensamento e na prática social, pela morte do Deus moral, do Deus dos filósofos” (Vattimo 1996, p. 37). Pela metafísica clássica que Vattimo critica, a verdade não é nada mais que o fruto de uma projeção subjetiva, idealista, um dado fixo. A este tipo de verdade o mundo pós-moderno está dizendo adeus. A reflexão de Nietzsche que desemboca no anúncio da morte de Deus e no advento do niilismo se encaixa com a análise heideggeriana do fim da modernidade, abrindo o caminho através de novas perspectivas filosóficas. Se, de fato, ao longo dos séculos, a metafísica Ocidental tentou reiteradamente apresentar o ser como algo de forte, fundamento objetivo da realidade, ocultando sua autêntica natureza que é a fraqueza ou a tendência ao aniquilamento como todo evento histórico, para Vattimo, isso mostra como na realidade o niilismo não é algo de extrínseco ao mondo ocidental, à sua cultura e a seu berço cristão, mas sim, intrínseco. “A metafísica se manifesta, na sua essência, quando chega ao fim e alcança o seu fim precisamente enquanto se revela na sua essência” (Vattimo 2006, p. 64), ou seja, como enfraquecimento, como esquecimento do ser. Os eventos do mundo contemporâneo supraindicados não fazem outra coisa que confirmar esta análise no plano metafísico. A análise que Vattimo elaborou nas últimas duas décadas oferece assim uma leitura filosófica dos acontecimentos históricos que estão se alastrando no mundo Ocidental. Existe uma lógica no desastre que a todos os níveis está se manifestando, um desastre devido a uma interpretação errada do ser como presença, como algo de fixo e, sobretudo, como algo que o homem pode manipular. O destino do Ocidente não pode não ser marcado pelo caminho do enfraquecimento do ser, caminho que, infelizmente, ao longo dos séculos, deixou um marco profundo na história, o marco da violência. Refletir sobre o nexo entre violência e metafísica parece um paradoxo, mas, à luz da análise histórica tão paradoxal, não é.

A conatural necessidade à qual corresponde a metafísica, aquela de apreender a arché, está profundamente ligada à hýbris de quem quer alcançar a plena posse da própria existência e, portanto, no final, do predomínio em nós das leis da sobrevivência, aquelas que “justificam”, em última análise, a violência na qual reside o mal” (Vattimo 2004, p. 141).

A metafísica como fixação rígida do ser produziu sempre um pensamento forte incapaz de acolher as identidades alheias, as diferenças culturais e religiosas. O mundo Ocidental é um mundo substancialmente violento e esta violência tem sua própria raiz na metafísica que até agora a inspirou. Os poderes políticos fortes que se suscederam ao longo dos séculos no Ocidente cristão foram sempre sustentados por uma metafísica forte, que, ao invés de se colocar à escuta da realidade para responder a ela, sempre tentou antecipá-la e, assim, prendê-la dentro do próprio sistema. Vattimo não esconde a profunda ligação da Igreja católica com as estruturas de violência brotadas do seio da metafísica clássica. A defesa que a Igreja faz da lei da natureza para, ainda hoje, defender os seus dogmas no campo moral, e, sobretudo, “a maneira pela qual quer impô-los correspondem a um modo específico de conceber a figura da Igreja no mundo: uma estrutura fortemente organizada em sentido hierárquico, vertical e definitivamente autoritário” (Vattimo 2004, p. 145). Nessa altura, como veremos, o abandono da metafísica forte em favor de uma débil, deveria ajudar não apenas a Igreja, mas também as estruturas políticas Ocidentais a elaborar projetos e morais mais tolerantes e atentas ao pluralismo típico do fim da modernidade. Para entendermos isso, precisamos realizar um caminho, ou melhor, uma mudança de perspectiva. Se o ser como presença está manifestando todas as suas falhas não apenas no plano teórico, mas também e sobretudo, no plano histórico e existencial, então é nesta última perspectiva que o ser deve ser de agora em diante interpretado, ou seja, como evento.

Aquilo que o homem tem de específico e que o distingue das coisas é o fato de estar referido à possibilidade e, portanto, de não existir como realidade simplesmente presente. O termo existência, no caso do homem, deve entender-se no sentido etimológico de ex-sistere, estar fora, ultrapassar a realidade simplesmente presente na direção da possibilidade (Vattimo 1996, p. 25).

É nessa altura que Vattimo recupera o discurso heideggeriano de Ser e Tempo, da existência como Dasein, ser no mundo. Não é possível entender o ser fora de uma específica dimensão temporal, histórica. Parece ter sido este o problema maior da filosofia europeia: incapacidade de pensar a historicidade e a vida em sua efetividade. O homem está situado na história de uma forma dinâmica e é somente nesta maneira que deve ser considerado. Se a verdade não pode ser mais o reflexo de uma estrutura eterna do real, um princípio único e unificador, um sistema de pensamento rígido e abrangente, então a totalidade deve ser captada como “uma mensagem histórica que devemos ouvir e à qual somos chamados a dar uma resposta” (Vattimo 2004, p. 13). Na perspectiva filosófica de Vattimo, a palavra evento é tão significativa em nossa época como foi para os gregos o termo logos ou para os chineses, o Tao. De fato, quando não dá para pensar o ser como simples presença por causa de seu enfraquecimento progressivo, só pode aparecer como evento, em sua dinamicidade histórica. Só que é desta forma e somente assim que o ser deve ser entendido, ou seja, como interligado à existência humana. Em outras palavras: o fim da metafísica como presença, provocado pelo desmoronamento dos sistemas fortes elaborados na busca de uma objetividade absoluta, desvenda a realidade do ser e do próprio homem, que não existe em si e por si, mas somente como relacionamento recíproco.

O ser relaciona-se com o homem enquanto tem necessidade deste para acontecer; e o acontecer não é um acidente ou uma propriedade do ser, mas é o próprio ser. Nem o homem nem o ser podem conceber-se como “em si”, que depois se encontram em relação (Vattimo 1996, p. 116).

O fim da metafísica como busca do fundamento único da realidade, além de manifestar o niilismo como consequência deste projeto, revela ao mesmo tempo a nova possibilidade de pensar o homem assim como ele é, ou seja, dentro de seu dinamismo histórico e existencial. O ser nunca é outra coisa senão seu modo de se dar na história aos homens de uma determinada época.



[1]. Cf. sobretudo: Gianni VATTIMO, Introdução a Heidegger, Instituto Piaget, Lisboa 1996; Le avventure della differenza. Che cosa significa pensare dopo Nietzsche e Heidegger, Garzanti, Milano 2001; O fim da modernidade. Niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna, Martins Fontes, São Paulo 2002; Il soggetto e la maschera. Nietzsche e Il problema della liberazione, Bompiani, Milano 2003.

[2]. Esta crítica está presente sobretudo em: G. VATTIMO, Addio alla veritá, Maltemi, Roma 2009

[3]. Cf. A.J. AYER, Linguagem, verdade e lógica, Editorial Presença, Lisboa 1991; Paul FEYERABEND, Contra o Método, Francisco Alves, Rio de Janeiro 1989.

[4]. Cf. F. LYOTARD, A condição pós-moderna, José Olimpio, Rio de Janeiro 20048.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

O DESMORONAMENTO DE UM CASTELO CONSTRUÍDO NA AREIA

 




Uma estrutura cultural tão rígida não podia dar certo. É isso que sustenta o filósofo italiano Gianni Vattimo, que dedicou muito tempo na análise da cultura pós-moderna que, a seu ver, é caracterizada por um processo de desmascaramento do vazio cultural produzido na modernidade. Existe toda uma série de eventos acontecidos nas últimas décadas que comprovam a dissolução da metafísica clássica, o enfraquecimento de um ser apresentado como fundamento único e objetivo da realidade. A queda do muro de Berlim, a crise sistemática do modelo econômico neoliberal, o mundo pluralista em que vivemos, o desmoronamento do mito do progresso ilimitado, fruto maduro do iluminismo setecentesco, o aquecimento do planeta, fruto de um desenvolvimento econômico que desrespeita a natureza: são todos sintomas de um enfraquecimento do ser da metafísica forte de cunho ocidental, que desembocam no niilismo. Na Babel do pluralismo do crepúsculo da modernidade, do desmoronamento das metanarrativas de lyotardiana memória (LYOTARD, 2004), das ideologias fortes centradas sobre verdades absolutas, se multiplicam as narrativas sem um centro e uma hierarquia. “O fim da metafísica, vista como crença em uma ordem fundada, estável, necessária, e objetivamente cognitiva do ser, foi acompanhado, no pensamento e na prática social, pela morte do Deus moral, do Deus dos filósofos” (VATTIMO 1996, p.37).

Pela metafísica clássica que Vattimo critica, a verdade não é nada mais que o fruto de uma projeção subjetiva, idealista, um fato fixo. A esse tipo de verdade, o mundo pós-moderno está dizendo adeus. A reflexão de Nietzsche do anúncio da morte de Deus e do advento do niilismo se encaixa com a análise heideggeriana do fim da modernidade, abrindo o caminho por novas perspectivas filosóficas.  Se, de fato, ao longo dos séculos, a metafísica ocidental tentou reiteradamente apresentar o ser como algo de forte, fundamento objetivo da realidade, ocultando a sua autêntica natureza que é a fraqueza, a tendência ao aniquilamento como todo evento histórico, isso para Vattimo mostra como, na realidade, o niilismo não é algo de extrínseco ao mondo ocidental, a sua cultura e ao seu berço cristão, mas sim é intrínseca. “A metafísica se manifesta, na sua essência, quando chega ao fim e alcança o seu fim precisamente enquanto se revela na sua essência” (VATTIMO 2006, p.64), ou seja, como enfraquecimento, como esquecimento do ser. Os eventos do mundo contemporâneo confirmam esta análise no plano metafísico. Existe uma lógica no desastre que a todos os níveis estão se manifestando, um desastre devido a uma interpretação errada do ser como presença, como algo de fixo e, sobretudo, como algo que o homem pode manipular.   O destino do ocidente não pode que ser marcado pelo caminho do enfraquecimento do ser, caminho que, infelizmente, ao longo dos séculos, deixou um marco profundo na história, o marco da violência. Refletir sobre violência e metafísica parece um paradoxo, mas à luz da análise histórica tão paradoxal não é.

A conatural necessidade à qual corresponde a metafísica, aquela de apreender a arché, está profundamente ligada à hýbris de quem quer entrar em possesso completo da própria existência e, portanto, no final, ao predomínio em nós das leis da sobrevivência, aquelas que “justificam”, em última análise, a violência na qual reside o mal. (VATTIMO, 2004, p. 141)

 A metafísica como fixação rígida do ser produziu sempre um pensamento forte incapaz de acolher as identidades alheias, as diferenças culturais e religiosas. O mundo ocidental é um mundo substancialmente violento e esta violência tem a sua própria raiz na metafísica que até agora a inspirou. Os poderes políticos fortes que se subseguiram ao longo dos séculos no ocidente cristão foram sempre sustentados por uma metafísica forte, que a invés de se colocar a escuta da realidade para responder a ela, sempre tentou antecipá-la e, assim, prendê-la dentro do próprio sistema.  Vattimo não esconde a profunda ligação da Igreja católica e do cristianismo em geral com as estruturas de violência brotadas do seio da metafísica clássica. A defesa que a Igreja faz da lei da natureza para, ainda hoje, defender os seus dogmas em campo moral, e, sobretudo, “a maneira pela qual quer impô-los correspondem a um modo específico de conceber a figura da Igreja no mundo: uma estrutura fortemente organizada em sentido hierárquico, vertical e definitivamente autoritário” (VATTIMO, 2004, p. 145). Tudo isso torna-se evidente na incapacidade crônica da cultura ocidental e, junto com ela, do cristianismo, de acolher as minorias como as pessoas homossexuais, que não se encaixam na estrita norma da natureza elaborada pela metafisica clássica, assimilada também da teologia cristã.

Nessa altura, o abandono da metafísica forte para uma débil deveria ajudar não apenas a Igreja, mas também as estruturas políticas ocidentais a elaborar projetos e morais mais tolerantes e atentas ao pluralismo típico do fim da modernidade.   Para entendermos isso, precisamos realizar um caminho, ou melhor, uma mudança de perspectiva. Se o ser como presença está manifestando todas as suas falhas não apenas no plano teórico, mas sim, sobretudo, no plano histórico e existencial, então é nessa última perspectiva que o ser deve ser de agora em diante interpretado, ou seja, como evento.

Aquilo que o homem tem de específico e que o distingue das coisas é o fato de estar referido à possibilidade e, portanto, de não existir como realidade simplesmente presente. O termo existência, no caso do homem, deve entender-se no sentido etimológico de ex-sistere, estar fora, ultrapassar a realidade simplesmente presente na direção da possibilidade”. (VATTIMO, 1996, p. 25)

 Vattimo recupera o discurso heideggeriano de Ser e Tempo, da existência como Dasein, ser no mundo (HEIDEGGER, 2004). Não é possível entender o ser fora de uma específica dimensão temporal, histórica. Parece ter sido esse o problema maior da filosofia europeia: incapacidade de pensar a historicidade e a vida na sua efetividade. O homem está situado na história de uma forma dinâmica e é somente nesta maneira que deve ser considerado. Se a verdade não pode ser mais o reflexo de uma estrutura eterna do real, um princípio único e unificador, um sistema de pensamento rígido e abrangente da totalidade, então deve ser captada como “uma mensagem histórica que devemos ouvir e a qual somos chamados a dar uma resposta” (VATTIMO, 2004, p. 13). Na perspectiva filosófica de Vattimo, a palavra evento é tão significativa na nossa época como foi para os gregos o termo logos, ou para os cineses, o Tao. De fato, quando não dá para pensar o ser como simples presença por causa do seu enfraquecimento progressivo, só pode aparecer como evento, na sua dinamicidade histórica. É desta forma e somente assim que o ser deve ser entendido, ou seja, como interligado à existência humana. Em outras palavras: o fim da metafísica como presença, provocado pelo desmoronamento dos sistemas fortes elaborados na busca de uma objetividade absoluta, desvenda a realidade do ser e do mesmo homem, que não existe em si e por si, mas somente como relacionamento recíproco. “O ser relaciona-se com o homem enquanto tem necessidade deste para acontecer; e o acontecer não é um acidente ou uma propriedade do ser, mas é o próprio ser. Nem o homem nem o ser podem conceber-se como “em si”, que depois se encontram em relação” (VATTIMO, 1996, p. 116).

O fim da metafísica como busca do fundamento único da realidade, além de manifestar o niilismo como consequência desse projeto, revela ao mesmo tempo a nova possibilidade de pensar o homem assim como ele é, ou seja, dentro do seu dinamismo histórico e existencial. O ser nunca é outra coisa senão o seu modo de se dar na história aos homens de uma determinada época. É exatamente a este nível que se tornam significativas as reflexões de Zygmunt Bauman que dedicou muitas páginas na tentativa de interpretar as nuanças culturais desta nova época. A liquidez é a metáfora que Bauman utiliza para explicar o sentido da pós-modernidade. A crise das ideologias fortes, pesadas, sólidas, típicas da modernidade, produziu do ponto de vista cultural um clima fluido, líquido, leve, caracterizado pela precariedade, incerteza, rapidez de movimento.

 Os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm sua forma com facilidade [...] Enquanto os sólidos têm dimensões especiais claras, mas neutralizam o impacto e, portanto, diminuem a significação do tempo (resistem efetivamente a seu fluxo ou tornam irrelevante), os fluidos não se atêm muito a qualquer forma e estão constantemente prontos (e propensos)  a mudá-la. (BAUMAN, 2005, p. 8)

 Se na modernidade as ideologias elaboradas tinham a pretensão de serem abrangentes, exaustivas e, sobretudo orientativas, não é assim pela cultura elaborada na pós-modernidade, na qual tudo flui de um jeito extremamente rápido de uma forma que, aquilo que era certo ontem, hoje não é mais. Neste mundo líquido assistimos, assim, a algumas passagens importantes, que marcam o novo clima cultural.

    A primeira passagem é a seguinte: de uma vida segura para uma vida precária. “A vida liquida é uma vida precária, vivida em condições de incerteza constante” (BAUMAN, 2005b, p. 8). Se a modernidade oferecia um leque de ideologias fortes, que produziam uma segurança existencial nas pessoas que nelas confiavam, neste mundo líquido não é mais assim. O desmoronamento das metanarrações da modernidade trouxe consigo a perda de pontos referenciais válidos, que pudessem oferecer segurança à vida das pessoas. A precariedade de agora em diante se tornou não apenas um fato cultural, mas sobretudo social, também porque não foram apenas ideologias a desmanchar, mas também estilos de vida, costumes.

As preocupações mais intensas e obstinadas que assombram este tipo de vida são os temores de ser pego tirando uma soneca, não conseguir acompanhar a rapidez dos eventos, ficar para trás, deixar passar as datas de vencimento, ficar sobrecarregado de bens agora indesejáveis, perder o momento que pede mudança e mudar de rumo antes de tomar o caminho de volta. (BAUMAN, 2005b, p. 8)

Precário é o homem que se sente inseguro não apenas para o trabalho, que não é mais fixo, mas também pelo medo das pessoas novas que estão enchendo as cidades ocidentais, pela ameaça do terrorismo, pelo medo de não conseguir acompanhar as novidades tecnológicas. Existe um mundo em contínuo movimento, extremamente rápido que deixa qualquer pessoa na constante preocupação de manter o ritmo das mudanças, de não ficar de fora dos acontecimentos. Essa vida precária, sem nenhum tipo de segurança, que obriga as pessoas a mudar continuamente de situações, é o novo estilo de vida da sociedade líquida.

Uma outra passagem que marca a modernidade líquida é: de uma sociedade que acredita na eternidade, para uma que vive a infinitude (BAUMAN, 2005b, p. 13). A eternidade é sem dúvida um conceito de cunho religioso que, de um ponto de vista filosófico, pode ser colocado entre as ideologias que a modernidade assumiu e que, ao mesmo tempo, orientou a vida dos homens modernos. A infinitude é o tempo presente protelado, esticado. “O dia de hoje pode-se esticar para além de qualquer limite e acomodar tudo aquilo que um dia se almejou vivenciar apenas na plenitude do tempo” (BAUMAN, 2005b, p. 15). Não se fala mais de valores eternos, mas sim de eventos que se repetem no tempo. Também porque os valores eternos são fundamentados sobre aqueles princípios metafísicos que na pós-modernidade não encontram mais espaço. O infinito, que substitui o conceito de eternidade, não é de cunho metafísico, mas sim existencial. O infinito pode ser assim entendido como uma série continua de tempos presentes, sem precisar especular improváveis mundos futuros, mas simplesmente aceitar o contínuo movimento do tempo. O tempo fluido pós-moderno não precisa mais de eternidade pelo simples fato de que desmoronou o equipamento conceitual, ou seja, a metafísica, que amparava essa ideologia. Por outro lado, não podemos também sustentar que esta ideia de tempo fluido retoma a velha concepção filosófica do mito do eterno retorno (ELIADE, 1999) ligado à natureza. Nada de filosófico ou de esotérico sustenta a vida do homem pós-moderno, mas sim a exploração paroxística de tudo aquilo que o evento presente pode oferecer.  É a protelação desses eventos que rende o tempo infinito, sem nenhuma ligação com aquilo que o precede e também com o evento sucessivo. Na análise de Bauman, uma característica faz da modernidade líquida algo novo e diferente, comparado ao modelo cultural anterior: o desmoronamento da antiga ilusão moderna, ou seja:

Da crença de que há um fim do caminho em que andamos, um télos alcançável da mudança histórica, um Estado de perfeição a ser atingido amanhã, no próximo ano ou no próximo milênio, algum tipo de sociedade boa...da ordem perfeita em que tudo é colocado no lugar certo... do completo domínio sobre o futuro. (BAUMAN, 2005, p. 37)

 Talvez seja este o sentido mais profundo, do ponto de vista filosófico, da metáfora da liquidez, que Bauman analisa em várias circunstâncias[1]. A sociedade líquida não desceu do céu, não se produziu do nada, improvisadamente, mas foi o fruto maduro do desmoronamento da modernidade, ou seja, do processo do derretimento dos sólidos formados e elaborados na modernidade. Entre eles, Bauman coloca a filosofia da História, a possibilidade de calcular o futuro a partir dos dados presentes. Nisso ele se aproxima das teorias dos maiores teóricos da pós-modernidade, ou seja, Lyotard (2003), Vattimo (2002), Rorty (2005), que apontam nas ideologias da modernidade o cerne de toda uma elaboração racional que por séculos se esforçou em determinar o futuro da humanidade, pagando o preço salgado de forçar a realidade presente. As ideologias modernas não eram nada mais que o fruto de uma elaboração conceptual desvinculada da realidade e coube à História demonstrá-lo. Bauman, em várias páginas da sua obra, cita eventos que marcaram o século passado e que estão na base do desmoronamento das ideologias modernas. Antes de tudo, o holocausto e o fracasso do modelo econômico liberal proposto no ocidente. As grandes massas migratórias de pobres em busca de condições de vida melhores são a clara manifestação de algo de errado nos cálculos perfeitos dos economistas ocidentais. Ninguém pode calcular o desastre econômico e cultural que a globalização está produzindo.

A terceira passagem que marca o novo contexto cultural é a desregulamentação e a privatização das tarefas e deveres modernizantes. Na modernidade líquida não existem mais valores sociais, mas individuais. Aquilo que na modernidade era considerada tarefa da coletividade, da sociedade, foi transferida para o indivíduo. De agora em diante, vale somente aquilo que interessa ao indivíduo. Ninguém quer gastar mais o seu tempo para que os valores sociais sejam alcançados e realizados: vale somente o interesse individual. É essa a lógica do mercado que afeta tanto a vida política quanto as atitudes da vida corriqueira. “As esperanças de aperfeiçoamento, em vez de convergir para grandes somas nos cofres do governo, procuram o troco nos bolsos dos consumidores” (BAUMAN, 2005, p. 38).



[1] “É por essa razão que o advento da sociedade liquido-moderna significou a morte das principais utopias da sociedade e, de modo mais geral, da ideia de “boa sociedade” (BAUMAN, 2005, p. 19).