terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O PENSAMENTO MITICO AINDA ESTÁ DENTRO DE NÓS

 




Paolo Cugini

 

Apesar de ter passado muito século desde que os gregos desenvolveram um pensamento filosófico, alicerçado na razão e sustentado pelo logos, é possível afirmar que temos ainda uma abordagem á realidade de tipo mítico. Parece uma afirmação absurda, mas tão absurda não é.

Mas a final de conta é o que um pensamento mítico? Pensamos de forma mítica todas as vezes que recorremos para uma narração que abandona o raciocínio para se apoiar numa fundação do discurso de tipo sagrado.

É bom também salientar que na mentalidade antiga o mito não se identifica com algo de falso. O filosofo da religião Mircea Eliade refletiu muito sobre a estrutura mítica do pensamento antigo e chegou á conclusões que vale a pena salientar. Diferente da visão moderna de "mito" como algo falso, Eliade argumenta que, para o homem das sociedades tradicionais (ou "arcaicas"), o mito é absolutamente verdadeiro e sagrado. Na narrativa de origem, o mito sempre se refere a uma "criação", contando como algo, seja o cosmos inteiro ou apenas um comportamento humano, que veio à existência. Para Eliade, conhecer o mito de origem de um objeto ou animal concede ao indivíduo um tipo de domínio sobre ele, permitindo sua manipulação ritual.

Um dos conceitos mais famosos de Eliade é o do Eterno Retorno, que descreve o desejo do homem religioso de retornar ao tempo das origens.  Através dos ritos, o homem não apenas "relembra" o mito, mas o reatualiza, tornando-se contemporâneo dos deuses ou heróis no "tempo primordial".  Ao viver o mito, o indivíduo sai do tempo linear (profano) e entra no tempo circular (sagrado), recuperando a plenitude do ser. Eliade utiliza o termo hierofania para descrever o ato de manifestação do sagrado no mundo profano. Para Eliade, o sagrado é a "realidade por excelência", saturada de ser e poder.  Mesmo em sociedades dessacralizadas e modernas, Eliade nota que o mito sobrevive de forma camuflada em comportamentos como o cinema, a literatura e certas ideologias políticas, que oferecem escapes temporários da história linear. Se na época do nascimento da filosofia o pensamento mítico tinha uma base heurística, hoje podemos dizer claramente que, recorrer ao mito é uma forma de preguiça mental, que manifesta a falta de conhecimento da realidade.

Para Paul Ricoeur, o mito não é uma explicação científica falsa, mas uma narrativa simbólica que revela verdades profundas sobre a condição humana, especialmente sobre a falibilidade e a origem do mal. Ele defende que a filosofia deve realizar um desvio pela hermenêutica (interpretação) dos mitos para compreender o que a reflexão pura e abstrata não consegue captar sozinha. 

Ricoeur define o mito como um "símbolo desenvolvido em forma de narrativa". Enquanto o símbolo é uma unidade de sentido duplo (um sentido literal que aponta para um sentido latente), o mito coloca esses símbolos em movimento através de uma história.  Ao perder sua pretensão de explicação física do mundo, o mito ganha uma função de exploração da realidade humana, manifestando o que Ricoeur chama de "linguagem da confissão" (experiências de culpa, mancha e pecado). O filósofo argumenta que não temos acesso direto ao "eu" ou ao ser; precisamos da mediação das obras da cultura, como os mitos, para nos compreendermos.

Levando em conta as reflexões de Eliade e Ricoeur podemos afirmar que o pensamento mítico ainda paira na cultura não somente Ocidental. Além do mais, o pensamento que de desenvolve no cristianismo não é de tipo mítico, mas filosófico. Não é um caso que os Padres da Igreja dos primeiros séculos, para tentar de resolver os problemas que a identidade de Jesus trouxe na reflexão cotidiana das primeiras comunidades, utilizaram muitos conceitos da filosofia grega. O seguimento a Jesus exige uma escolha racional, logica, mais de que mítica. Não é um caso que a primeira comunidade de João identifica Jesus não com o mito, mas sim com o logos. “No princípio era o logos” (Jo 1,1).

Jesus deu uma resposta racional definitiva aos nossos questionamentos humanos. Apesar disso, ainda hoje, a maioria dos católicos entram na esfera religiosa não levados para o raciocino, mas sim para o sentimento; não através de uma reflexão de cunho racional e filosófica, mas sim através de um pensamento mítico, não no sentido que Eliade e Ricoeur apontavam, mas como abordagem irracional, trazendo por dento do debate atuías argumentações insustentáveis. Quando o pensamento mítico se identifica com a nossa parte irracional, a religião se torna o espaço da intolerância, pois não se adere mais ao divino por um caminho que envolve a totalidade da pessoa, mas se adere á uma forma religiosa se identificando com ela e defendendo-a com os dentes e não participando com amor e ternura. Quando a religião se torna espaço da intolerância, da contraposição com a ciência,Deus some do mapa e entram em jogos elementos que somente a psiquiatria pode resolver.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

ESPINOSA: A BÍBLIA UM PRODUTO HUMANO E HISTÓRICO


 



Paolo Cugini


Segundo Espinosa a superstição religiosa presente na igreja do seu tempo, era imbuída de preconceitos provocados pelo desprezo da luz da razão por parte dos fiéis, que liam as Escrituras Sagradas ao pé da letra e: “supõem desde o princípio a divina verdade do seu texto integral” (Espinosa, 1954, p. 612).  Espinosa defende a liberdade de crença, de pensamento e de expressão e, por isso, no prefacio ao Tratado teológico-político chega a afirmar que: “a liberdade de filosofar não ameaça nenhuma piedade verdadeira, nem a paz no seio da comunidade pública. Sua supressão, pelo contrário, desencadeia a ruína tanto da paz quanto da piedade”. O mesmo discurso não vale pelas monarquias, culpadas, segundo Espinosa, de enganar os homens, utilizando o medo do inferno para sujeitar os povos em nome da religião. Espinosa espera “desmascarar as engrenagens profundas da pseudo-religião fundada sobre a superstição e desvelar assim os vestígios de uma antiga servidão da alma”. É a partir desta tomada de consciência que Espinosa se propõe a ler a Escrituras com a ajuda da razão, para melhor compreender o contexto histórico no qual esses textos foram escritos, assim como as intenções dos autores.

A principal tese de Espinoza é que a Bíblia não é a palavra inerrante de um Deus transcendente, mas sim um produto humano e histórico, sujeito a erros e falhas. “Toda revelação divina passa primeiro pelas luzes naturais da mente” (Espinosa, 2013, p. 98). Espinosa trata os textos bíblicos como qualquer outro documento antigo, utilizando métodos de exegese que seriam revolucionários para a época.  Spinoza questiona a autoria do Pentateuco por Moisés, observando que o texto fala de Moisés na terceira pessoa e inclui o relato de sua morte. Ele aponta para o comentarista judeu do século XII, Ibn Ezra, que já havia levantado dúvidas sobre a autoria, mas de forma alusiva. Espinoza conclui, de forma mais direta, que o Pentateuco foi escrito por alguém que viveu muito depois de Moisés. 

Ele chega a sugerir o sacerdote Esdras como possível editor, uma ideia que antecipou as hipóteses documentais da crítica bíblica posterior. A hermenêutica de Espinoza estabelece uma separação clara entre a razão filosófica e a teologia. Para ele, a filosofia busca a verdade através da razão e da observação da natureza, enquanto a teologia tem como objetivo principal a obediência e a piedade. O conteúdo da Bíblia deve ser entendido em seus próprios termos, e não reinterpretado para se encaixar em conceitos filosóficos. "A Escritura não se destina a nos ensinar verdades filosóficas abstratas" (Espinosa, 2013, p. 46). O seu propósito é moral, direcionado à conduta. A análise de Espinoza não se detém apenas na autoria dos textos. Ele estende sua crítica a elementos centrais da fé judaico-cristã, como milagres e profecias.  De fato, Espinoza nega a possibilidade de que milagres violem as leis fixas e imutáveis da natureza. Ele argumenta que, o que as pessoas chamam de milagres são, na verdade, eventos naturais cuja causa é desconhecida ou mal compreendida pelos autores bíblicos, que careciam de conhecimento científico. Em vez de inspirar fé, a crença em milagres mina a fé, pois sugeriria um Deus que age de forma arbitrária e não consistente. A mesma critica Espinosa a moveu para as profecias dos profetas que, segundo ele, não possuíam um intelecto superior ou filosófico. A profecia era, em vez disso, um tipo de conhecimento imaginativo, adaptado à capacidade de compreensão e às crenças culturais dos profetas e do povo a quem eles se dirigiam. 

Como a profecia é baseada na imaginação e não na razão, sua autoridade se restringe ao âmbito moral, não podendo se sobrepor à verdade filosófica. O cerne do projeto hermenêutico de Espinoza não é apenas criticar a religião, mas também defender a liberdade de pensamento e a tolerância religiosa. Ao delimitar o escopo da Bíblia a questões morais e de obediência, Espinoza abriu espaço para que a filosofia pudesse investigar a natureza e a verdade sem ser censurada por autoridades religiosas. A partir dessa leitura, Espinoza defende que o verdadeiro ensinamento da Escritura é um simples imperativo moral: amar a Deus e ao próximo. As disputas teológicas sobre dogmas metafísicos são irrelevantes para a verdadeira piedade e não devem ser motivo para perseguição ou controle do pensamento. Sabemos que, por causa destas posições, Espinosa foi perseguido sobretudo do mundo religioso hebraico .

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

ADORAÇÃO EUCARISTICA - Documentos

 



 

 

Os principais documentos oficiais da Igreja Católica que fundamentam a adoração eucarística (também conhecida como culto ao Santíssimo Sacramento fora da Missa) incluem encíclicas, instruções litúrgicas e o Catecismo.

 

1. Documentos do Magistério Pontifício

  • Mysterium Fidei (1965): Encíclica de Paulo VI que reafirma a doutrina da presença real e incentiva o culto de adoração ao Santíssimo.
  • Ecclesia de Eucharistia (2003): Encíclica de João Paulo II que destaca a relação entre a Igreja e a Eucaristia, dedicando um capítulo especial ao "decoro da celebração" e à adoração.
  • Sacramentum Caritatis (2007): Exortação Apostólica de Bento XVI que descreve a adoração eucarística como o prolongamento natural da celebração da Missa. 

2. Instruções e Rituais Litúrgicos

3. Fontes de Doutrina e Direito

  • Catecismo da Igreja Católica (CIC): Nos parágrafos 1373 a 1381, trata da presença de Cristo pela força de Sua Palavra e do Espírito, além do culto devido à Eucaristia.
  • Código de Direito Canônico: Os cânones 934 a 944 estabelecem as normas legais para a reserva e exposição da Eucaristia

 

LITURGIA - Documentos da Igreja Católica

 



 

Os documentos oficiais da Igreja Católica sobre a liturgia dividem-se entre constituições conciliaresinstruções e os próprios livros litúrgicos (que contêm as normas práticas).

 

1. Documentos do Concílio Vaticano II

  • Sacrosanctum Concilium: A Constituição sobre a Sagrada Liturgia é o documento fundamental. Ela define a liturgia como o "cume e a fonte" da vida da Igreja e estabeleceu as bases para a reforma litúrgica moderna. 

2. Instruções e Documentos Pontifícios

  • Instrução Geral do Missal Romano (IGMR): Contém todas as normas sobre como celebrar a Missa, desde a disposição do altar até os gestos dos fiéis.
  • Redemptionis Sacramentum: Trata sobre o que deve ser observado e evitado em relação à Santíssima Eucaristia, combatendo abusos litúrgicos.
  • Desiderio Desideravi: Carta Apostólica do Papa Francisco (2022) sobre a formação litúrgica do povo de Deus.
  • Ecclesia de Eucharistia: Encíclica de João Paulo II sobre a relação entre a Igreja e a Eucaristia. 

3. Livros Litúrgicos (Contêm o Rito e as Rubricas) 

Estes são os livros usados diretamente nas celebrações e que possuem força de lei: 

  • Missal Romano: Para a celebração da Missa.
  • Lecionários: Contêm as leituras da Sagrada Escritura (Dominical, Ferial e Santoral).
  • Liturgia das Horas: A oração pública e cotidiana da Igreja (Breviário).
  • Pontifical e Rituais: Livros para a celebração dos sacramentos (Batismo, Crisma, Matrimônio, etc.) e bênçãos.