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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O que pensa um profeta?


O profeta extrai seu pensamento de uma relação íntima e silenciosa com o mistério e de uma profunda imersão no tempo presente. Ele interpreta os eventos cotidianos à luz dessa conexão espiritual, encontrando neles significado e evitando ser dominado pela negatividade. Hoje, porém, os profetas estão ausentes e aguardam um sinal, pois as ruínas do mundo tornam a interpretação da história muito difícil.

 

 


 

Paolo Cugini

 

 

O que pensa um profeta? Ele não pensa como o mundo pensa, nem mede a realidade com a estreita régua do útil, do imediato, do visível. O pensamento do profeta surge de um lugar profundo dentro de nós, onde a vida deixa de ser ruído e se torna escuta, onde a consciência não busca mais possuir o Mistério, mas se deixa possuir por ele. O profeta pensa a partir de uma ferida luminosa: um encontro ancestral, muitas vezes na juventude, quando o coração ainda era capaz de se maravilhar e o invisível irrompia como uma presença mais real do que as coisas reais.

Existem duas fontes de pensamento profético. A primeira é a relação pessoal com o Mistério. O profeta é aquele ou aquela que um dia sentiu dentro de si um chamado, silencioso, porém mais forte que qualquer palavra. Não era uma ideia, nem uma doutrina aprendida, nem uma convicção construída lentamente pelo raciocínio. Era uma presença. Algo, ou Alguém, se revelou dentro de si como atração, como gravidade, como fogo. A partir daquele momento, a vida não pôde mais voltar a ser uma simples sucessão de dias: tornou-se uma resposta.

O profeta não vive pela curiosidade religiosa, mas pelos relacionamentos. Ele cultiva o Mistério como quem guarda uma chama na noite. Sabe que o Mistério não se rende aos distraídos, não penetra a alma superficial, não se pronuncia no mercado de palavras vazias. Por isso, o profeta aprende rapidamente a disciplina do silêncio. Dedica horas, dias, semanas à escuta. Retira-se, não por desprezo pelo mundo, mas para evitar ser devorado por ele. Isola-se, não para fugir dos homens e mulheres, mas para poder retornar a eles com uma palavra que não é só sua.

O tempo do profeta não é tempo perdido. É tempo cuidadosamente elaborado. Enquanto outros se apressam, ele permanece. Enquanto outros acumulam informações, ele busca o significado. Enquanto outros reagem aos acontecimentos, ele os conduz ao seio do Mistério, até que revelem sua pergunta oculta. O profeta sabe que o essencial não pode ser imposto à força: amadurece lentamente, como uma semente enterrada na terra, como uma palavra que precisa ser purificada pelo silêncio antes de ser proferida.

A segunda fonte do pensamento profético é o presente. O profeta não é um sonhador desencarnado, não habita um paraíso abstrato, não se alimenta de visões dissociadas da poeira da história. Pelo contrário, ele está imerso nos acontecimentos cotidianos com uma intensidade rara. Escuta as pessoas, observa suas feridas, compreende seus medos, intui os desejos reprimidos e lê os movimentos profundos da sociedade. Onde muitos veem apenas fatos, o profeta sente a dinâmica; onde muitos registram eventos, ele discerne sinais; onde muitos se detêm na superfície das notícias, ele mergulha nas profundezas da história.

A inovação do profeta não reside em saber mais do que os outros, mas em ver de forma diferente o que todos veem diante de seus olhos. Ele interpreta o presente à luz de sua relação com o Mistério. Ele jamais separa a escuta interior da escuta da história. Nele, o silêncio e a praça, a solidão e o povo, a oração e as notícias não são mundos opostos, mas duas margens do mesmo rio. O profeta traz o mundo diante do Mistério e traz o Mistério para o mundo.

Por isso, o profeta não se deixa abater pela negatividade dos acontecimentos. Não por ingenuidade, não por ignorar o mal, não por amenizar a dureza da história. O profeta vê os escombros, conta-os, toca-os, cheira-os. Mas não dá aos escombros a última palavra. Mesmo quando tudo parece se dissolver, ele busca o fragmento que aponta para um caminho, a fresta por onde a luz pode entrar, o sinal humilde de uma presença que continua a acompanhar a humanidade mesmo quando esta parece ter-se perdido.

O profeta não é um otimista. O otimista muitas vezes fecha os olhos para o abismo. O profeta, porém, os mantém abertos. Ele contempla a noite sem negá-la, mas, dentro da noite, escuta o sopro da aurora. Ele sabe que a história não é apenas o lugar da ruína, mas também o lugar do chamado. Cada crise, para ele, é uma questão dirigida à consciência. Cada queda é também uma revelação daquilo que já não se sustenta. Cada deserto é o espaço onde o homem pode finalmente distinguir as vozes que o enganam da voz que o chama à vida.

Hoje, os profetas parecem ausentes. Mas talvez não tenham desaparecido. Talvez estejam escondidos. Talvez estejam em silêncio porque o ruído se tornou ensurdecedor, porque as palavras se desgastaram, porque o mundo aprendeu a transformar cada clamor em opinião e cada visão em conteúdo a ser consumido. Os profetas estão lá, mas caminham em meio aos escombros que são altos demais. Eles veem o acúmulo de injustiça, guerra, solidão, idolatria tecnológica e pobreza espiritual. E diante dessa massa de ruínas, compreendem como é difícil hoje interpretar a história sem traí-la, apontar um caminho sem simplificá-lo, proferir uma palavra que seja verdadeira e não meramente eficaz.

Os profetas conversam entre si. Buscam-se em silêncio, reconhecem-se sem alarde, confrontam-se sobre as feridas do tempo. Ninguém alega possuir a direção sozinho. Todos esperam. Aguardam uma voz que ainda não chegou, um sinal capaz de abrir um caminho onde agora só se vê neblina. Mas essa espera não é passividade. É vigilância. É a mais alta forma de responsabilidade, porque aqueles que não escutam, mais cedo ou mais tarde, falarão em vão, e aqueles que falam em vão acrescentam confusão à confusão.

Talvez a tarefa dos profetas de hoje seja precisamente esta: fomentar a expectativa, impedir que a humanidade se acostume com as ruínas, manter a questão em aberto quando todos buscam respostas fáceis. Eles não devem inventar a luz, mas permanecer voltados para ela. Não devem produzir visões para saciar a impaciência do mundo, mas preparar olhos capazes de reconhecer o sinal quando ele chegar. Pois o Mistério não parou de falar; talvez sejamos nós que tenhamos perdido a capacidade de escutar.

O profeta, portanto, pensa com dois ouvidos: um voltado para o Mistério, o outro repousando no âmago do presente. Se perde o Mistério, torna-se um analista entre analistas. Se perde o presente, torna-se um visionário sem carne. Mas quando essas duas fontes se encontram, nasce uma palavra rara: uma palavra que não consola falsamente nem condena estérilmente; uma palavra que fere para curar, denuncia para abrir, silencia para não mentir, fala para servir à vida. E talvez, precisamente neste tempo em que os profetas parecem ausentes, o mundo precise mais do que nunca de homens e mulheres capazes de retornar ao silêncio, de caminhar pelos escombros e de esperar, sem desespero, pelo sinal do caminho.

 

sábado, 25 de outubro de 2025

CONTAMINAÇÕES NUM MUNDO INTERCONECTADO

 




Paolo Cugini

 

 

Quais são as consequências do novo paradigma cultural que tem, como característica principal, a ruptura com o modelo passado? Se o paradigma muda, também deve mudar a forma de abordar a realidade, pois é justamente isso que foi colocado em discussão. No Ocidente, viemos de um percurso cultural marcado pela dureza, por uma razão e racionalidade que não deixam espaço não só para a imaginação, mas também para os sentimentos, as paixões, tudo aquilo que caracteriza a nossa vivência quotidiana. Ao longo dos séculos, houve uma exacerbação do princípio da racionalidade, que prevaleceu sobre tudo, anestesiando a realidade, tornando-a insensível, incapaz de abordar o mundo de outra forma que não fosse pela razão. Existe uma paixão dentro da história, nas nossas veias; existe um sentimento profundo que sente a vida de modo diferente do raciocínio. A natureza tem um coração, que sente a vida com critérios que escapam aos sistemas lógicos e dialéticos elaborados na modernidade. Por isso, tudo desmoronou. A natureza é paciente, tranquila, mas em determinado momento revolta-se contra as violências, os abusos, as violações, as falsificações. Estamos a assistir à revolta da natureza: ela já não aguenta mais. Era preciso esperar pela destruição do planeta para nos apercebermos de que havia algo no nosso modo ocidental de abordar a realidade que não funcionava?

Se os sistemas conceptuais colapsam, com eles quebram-se os procedimentos lógicos fechados, as muralhas conceptuais construídas à medida para se defender da natureza e da realidade. Se já não existem mais pavilhões conceptuais e sistemas de proteção, isso significa que o campo está aberto, que há espaço para tudo, que o mundo, daqui em diante, pode criar aquelas relações das quais é estruturado. É a este nível de compreensão que entra em jogo, no novo paradigma cultural, o conceito de contaminação.

Utilizo o conceito de contaminação de forma exclusivamente positiva. Também isto já é uma indicação importante. A saída do paradigma da modernidade, que colocava a razão e o sujeito no centro absoluto do discurso, apresenta o homem como parte de um todo. O pensamento ocidental, que se consolidou na época moderna, sempre colocou o homem no centro de um mundo em que tudo gira à sua volta e do qual pode usufruir. Este mundo desmoronou, não resistiu ao impacto com a realidade que, como nos ensina a física quântica, está toda interligada, o exato oposto do que pensava o paradigma moderno. Habituados há séculos a classificar a realidade, a colocar fronteiras, a julgar quem era digno e quem não era, ficámos sem resposta quando a realidade nos apresentou a fatura, comunicando-nos que tudo está interligado, que a relação é o conceito chave para quem quiser compreender o sentido das coisas. Se tudo está em relação com tudo, significa que já não faz sentido elaborar sistemas perfeitos, que não têm qualquer referência real, mas que servem apenas para justificar conceitualmente tomadas de posição pessoais, muitas vezes para justificar usurpações e poder político.

Contaminação é um conceito ao mesmo tempo fascinante e perigoso. Fascinante porque nos conduz a dimensões inesperadas, novas, que exigem disponibilidade para nos deixarmos questionar. Entrar em mundos contaminados e deixar-se contaminar significa compreender que, no novo paradigma cultural, a identidade já não é um conceito construído sobre valores predeterminados, mas forma-se caminhando no tempo, atentos a onde se pisam, mas sempre com o olhar voltado para a frente e com o espírito aberto ao encontro, à relação. Ao mesmo tempo, contudo, o conceito de contaminação é perigoso porque põe em causa tudo aquilo em que nos fixámos e que determinou a estrutura do nosso mundo. É perigoso porque exige o abandono das seguranças conceptuais, juntamente com a disponibilidade não só de construir algo novo, mas de se deixar desconstruir. O conceito de contaminação, nos vários campos do saber, não pode ser implementado num paradigma moderno, fechado nos seus próprios sistemas construídos com princípios a priori. Sobretudo, porém, o conceito de contaminação não funciona em contextos em que alguém pensa que detém a verdade absoluta. A contaminação coloca-nos em marcha à descoberta de novos mundos e, enquanto os descobrimos, compreendemos a nós próprios.

 

 

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

A BÍBLIA E O PROBLEMA DA INTERPRETAÇÃO

 



A comunidade dos fiéis antes das Escrituras


Paolo Cugini

 

 Demorou, mas até que chegou o tempo de entender

Demorou vários séculos para lermos a Bíblia e entender o significado, ou seja, para compreendermos aquilo que ela quer dizer além da pua letra. Demorou séculos para a Bíblia se tornar a Palavra de Deus para homens e mulheres e dizer algo para eles, por suas experiências, para ajudá-los a viver de uma maneira autêntica sua humanidade, a partir de sua realidade. Demorou milênios para sair da idolatria da letra para finalmente entrar no mundo do Espírito. Era impossível, de fato, que palavras escritas há alguns milênios atrás pudessem dizer algo significativo para o homem e a mulher de hoje. Era impossível para um texto velho como este ser atual, vivo. Na verdade, nenhuma palavra é pura. Também os discursos que encontramos na Bíblia, estão mergulhados na cultura, tradições locais, idiomas ligados a uma determinada região, visões do mundo inerentes a um determinado período histórico. Os filósofos Heidegger e Gadamer nos ensinaram que qualquer idioma nunca é puro, mas é portador de tradições que devem ser compreendidas, interpretadas.

Como foi possível pensar que a letra, tão impregnada de terra e história, pudesse permanecer atual por todos os séculos e por todas as culturas de todos os tempos e latitudes? No entanto, aconteceu assim. Embora São Paulo tenha alertado que a letra mata e que é o espírito que dá vida, no entanto por muitos séculos a Palavra viva foi aprisionada na letra morta. Sem dúvida, há um sentido literal que deve ser ouvido e respeitado.

 

O sentido espiritual

Já os Padres da Igreja, porém, exortaram os fiéis a buscar o sentido espiritual. Para ajudar nesta pesquisa, desenvolveram o método tipológico, pondo em paralelo os textos do Novo Testamento com os do Primeiro Testamento. Desta forma, se destacava o caráter de cumprimento da presença de Jesus na história, para evidenciar a continuidade da história da salvação. O método tipológico permitiu, então, entender como em perspectiva de salvação, a vinda de Jesus Cristo foi o ponto culminante do processo histórico-salvífico. Até o método alegórico, desenvolvido por Filo de Alexandria algumas década antes da vinda de Jesus, ofereceu algumas ideias importantes para sair dos pântanos da letra. Demorou vários séculos para chegar, com Schleiermacher, para tomar a sério a questão da interpretação do texto sagrado. No intervalo, houve a diatribe de Lutero com a Igreja, o que atrasou os tempos. 

Porquê a Igreja demorou tanto para entender que a letra precisa ser interpretada para liberar o conteúdo que traz?

 


Como é possível?

Um texto como a Bíblia, que vem de longe e é portador de muitas tradições, de muitas mãos, que emana o grito vindo de tantas culturas, de tantas histórias, não pode ser lido superficialmente, não pode ser lido apenas no nível literal. Como é possível pensar que basta ler um texto como este para compreender imediatamente o seu significado? Como é possível identificar a Palavra de Deus com a letra? Quantas pessoas têm sido destruídas, no sentido literal do termo, porque o significado foi identificado com a pura letra! Galileu é o exemplo mais notável. Mas não há necessidade de incomodar Galileu. É suficiente observar o que também está acontecendo hoje em muitas comunidades cristãs, não apenas católicas. Na introdução à Bíblia das comunidades neopentecostais está claramente escrito que, embora reconheçam seu valor, rejeitam a contribuição do método histórico-crítico aplicado à Bíblia. É melhor viver com a cabeça na areia do que enfrentar a realidade. Se apesar de todos os esforços seja da ciência que da filosofia hermenêutica para compreender melhor o sentido do texto, há quem os rejeite e se esconda atrás da letra, quer dizer que, neste ponto especifico, Deus e a religião não têm mais nada a ver com isso. Neste ponto, entramos no espaço delicado da psicanálise, que não é do nosso interesse neste trabalho.

 

A Bíblia na época medieval

Se observarmos o curso da história de forma síncrona, notamos que, quando mais no debate da Igreja o enfoque é o problema do papel do papado, então o debate sobre a Palavra de Deus perde de interesse. Essa distonia é percebida pela leitura dos documentos oficiais da Igreja em que, a certa altura, as citações da Escritura perdem cada vez mais peso a favor de citações das encíclicas dos papas. A escassa atenção às Escrituras é, sem dúvida, uma das razões fundamentais que impulsionaram o problema da interpretação. A atenção para ouvir a Palavra foi substituída pela formulação de dogmas e doutrina. Ser católico significava, em determinado momento da caminhada histórica, conhecer a doutrina. Não se percebeu que, desta forma, caímos numa espécie de gnosticismo vulgar, a baixo custo. Neste clima teológico e espiritual, o devocionismo moderno encontrou espaço no coração do catolicismo. Se não é mais a Palavra de Deus para guiar a comunidade cristã, mas um conjunto de preceitos que foram memorizados juntamente com a participação de alguns ritos, então, a dimensão individual da vida espiritual, desconectada do nível social, foi facilitada. Em certo sentido, poderíamos dizer que, em determinado momento do caminho, a Igreja não estava mais interessada e não precisava mais interpretar a Sagrada Escritura. A vida espiritual já estava cheia de devoções e preceitos que cumpriam a tarefa de alimentar a fé dos fiéis. Além disso, a Escritura da época dos Padres, deixou de ser a principal referência que alimentava a vida da comunidade. Mesmo na liturgia a Palavra de Deus não teve um papel central, mas secundária, também porque na liturgia, a partir do século VIII com Amalário de Métis, iniciou um processo de ritualização progressiva. A Palavra de Deus, que causa a conversão dos corações, não é mais importante, mas o que importa de agora em diante é ver o corpo sacramentalizado de Cristo. Os grandes pregadores das ordens mendicantes da época medieval, preocupados em estimular o sentido de culpa dos ouvintes, mais do que uma autêntica conversão do coração, que leva a uma escolha consciente e para um compromisso comunitário, impulsionaram ao máximo o envolvimento dos sentimentos na experiencia da fé, ao invés da razão. O cristianismo, além de se tornar a religião do império, passa a ser um fator social e político. 

 


A época moderna

O distanciamento entre ciência e fé, entre religião e razão, que ocorreu na época moderna, encontrou o terreno favorável para a mudança que o próprio Cristianismo viveu desde a época de Constantino no século IVo. Ao mesmo tempo, no entanto, é justo salientar que, mesmo nesta época, a fé e a ciência moderna não se ignoraram totalmente. Vários cientistas, de fato, nunca esconderam a própria fé e os interesses pelo mundo religioso. Acima de todos, vale a pena mencionar Isac Newton que, entre seus inúmeros escritos científicos, também incluiu alguns comentários bíblicos.

A necessidade de abordar a Palavra de Deus de maneira crítica ocorre no Ocidente seja como consequência da importância que as igrejas protestantes atribuíam à Bíblia, tanto por causa da mudança do contexto social e cultural. Por um lado, o Iluminismo, por outro o crescimento da abordagem científica da realidade devido às descobertas e invenções da era moderna, abriram espaço para uma contaminação positiva também no tecido religioso e eclesial. A razão está cada vez mais separada da fé, relegando-a à esfera da magia. Por outro lado, a Igreja, depois do tempo dos Padres, mergulhou na defesa do poder temporal e de intrigas políticas, que havia abandonado o interesse nas dissertações sofisticadas, relegando-as ao debate universitário entre franciscanos e dominicanos. 

 

O começo de um novo estilo

O problema hermenêutico, ou seja, da interpretação dos textos, nasceu do impulso das ciências modernas que passam a abordar um texto antigo numa nova maneira. Percebemos que um texto não é apenas a expressão do pensamento de um autor, mas ele mesmo traz consigo resíduos culturais de seu tempo, opiniões, modos de ser e de falar. Para apreender a objetividade do texto, ou chegar perto dele, requer um esforço científico significativo. É com a Nouvelle Histoire que desenvolve seu projeto científico em torno da revista Les Annales fundada em 1924, que é manifestada toda a eficácia do arsenal científico para analisar um período histórico a partir de seus documentos. Psicanálise, antropologia, etologia, geografia, arqueologia: tudo que pode ajudar a intervir para melhor compreender um período histórico, um documento, é bem-vindo. Há uma primeira observação que me parece necessária: doravante é claro que nenhum texto pode ser observado por uma só perspectiva. O texto contém uma pluralidade de conteúdos, que requerem uma pluralidade de ferramentas a serem compreendidas. Se isso é geralmente verdade, ainda mais para os textos antigos como, precisamente, os textos da Bíblia. Finalmente, saímos do infantilismo idólatra de primazia da letra. Pluralidade de expressão que encontramos já expressa pelo texto bíblico, que é tudo menos um texto único e uniforme.

 


A Igreja nas trincheiras

A Igreja oficial tem se defendido ao extremo diante da abordagem científica dos textos sagrados.  Do seu ponto de vista, o problema não era tanto em entender melhor um texto, mas em perder a prioridade de interpretação sobre o mesmo. Admitir o método histórico-crítico significava permitir que outra pessoa metesse o nariz em algo que sempre foi prioridade exclusiva do magistério eclesial. O problema não era a compreensão, mas a autoridade sobre texto. A polêmica modernista, que teve na encíclica Pascendi de Pio X em 1907 o auge extremo, foi o terreno cultural em que uma guerra perdida foi travada. O Divino afflante Spiritu de Pio XII de 1943, de fato, reabriu as portas dos estudos bíblicos, mostrando que agora era impossível resistir à evidência hermenêutica da necessidade de uma nova abordagem aos textos sagrados. Não foi, na verdade, apenas a pressão que veio de mundo científico em geral, mas também das novas correntes teológicas, como a Nouvelle Théologie, que impulsionou a Igreja a se abrir ao novo. 

 

Entre hermenêutica e linguagem

Alguém pode se perguntar: por que essas resistências por parte da Igreja? Haveria muitas respostas que poderiam ser dadas e que temos em parte esboçado acima. O importante é que ocorreu a contaminação científica na era moderna, que não permite que a religião se isole e se feche, aliás ela abre as portas para outra contaminação mais profunda: a contaminação hermenêutica. No final das contas, a relação entre um texto e um leitor não envolve apenas tradições culturais, aspectos antropológicos e geográficos, mas também e sobretudo a linguagem. Se Deus fala ao homem usando seu plano de comunicação e compreensão, significa que é isso nível que precisa ser explorado.

Em Letra ao Humanismo (1946), o filosofo alemão Martin Heidegger argumentou que a linguagem é a casa do ser. A linguagem é o que o homem dispõe para conhecer o mundo. Nossa experiência do mundo é condicionada pelo fato de termos uma linguagem que herdamos. Ter uma linguagem significa que o homem é dialógico. Hermenêutica é uma palavra incomum. A hermenêutica deriva do deus Hermes (Mercúrio), o deus que traz mensagens aos deuses. Hermenêutica, nesta perspectiva, é a arte de interpretar mensagens que não são evidentes. É um conjunto de regras destinadas à interpretação de textos. No século passado, se falava da hermenêutica como uma filosofia. É uma filosofia que pensa que o fenômeno da interpretação não diz apenas a respeito da relação com textos difíceis, mas é um fenômeno que diz respeito a toda existência. Quando olhamos para o mundo, o interpretamos, temos os padrões que herdamos com a língua materna. 

“Não existe experiência do mundo - diz o filosofo italiano Gianni Vattimo - senão por meio de uma linguagem que herdamos, o conhecimento é então a interpretação ao invés do reconhecimento de algo objetivo. Isto não é um defeito. Qualquer relação com o mundo é interpretação: este não é um limite, mas um patrimônio ".

 Isso também se aplica ao texto bíblico. Os autores, enquanto escrevem um texto inspirados, eles também transmitem, por meio da linguagem, o que herdaram da cultura em que viveram, das ideias que tinham sobre o mundo, das razões que os levaram a escrever. Há, então, uma intencionalidade na linguagem, que é interpretação e que, portanto, deve ser aprofundada. Compreender este aspecto é compreender o significado profundo do mistério da encarnação, o paradoxo da eternidade que entra no tempo. Afinal, o texto sagrado é a manifestação deste mistério. Acreditar na Palavra de Deus significa acreditar na encarnação do Verbo e na possibilidade de encontrar Deus na carne humana, na letra escrita. Por isso, a compreensão exige um esforço, um cansaço que fala de um desejo de encontrar Deus. A hermenêutica forneceu uma ferramenta importante para ajudar qualquer um para entender o texto. Podemos argumentar com segurança que a hermenêutica tem mudado o caminho da Igreja, libertando-a, por assim dizer, da sua jaula de ouro, forçado a enfrentar o mundo. 

Habitar a linguagem bíblica com uma atenção hermenêutica, deveria produzir por seus leitores e pelas comunidades que tem como referência a Bíblia, uma atitude dialógica e tolerante. Se a Palavra de Deus precisa, pra ser melhor compreendida, de uma diversidade de ferramentas hermenêuticas e heurísticas, da mesma maneira a comunidade que se reúne em torno do texto deve agir, ou seja, não se fechar, mas permanecer aberta aos diversos significados dos quais o texto é portador. A contaminação hermenêutica permitiu à comunidade cristã remover o véu sobre o significado autêntico da verdade que a Bíblia pretende comunicar. Longe de ser uma verdade axiomática e matemática, o que exige uma assimilação fria e asséptica dos conteúdos, a revelação da verdade de Deus em Jesus Cristo ocorre no nível da história e é neste nível que deve ser encontrada. Se isso for verdade, a interpretação do texto é auxiliada tanto pelo método histórico-crítico que da hermenêutica para compreender plenamente o seu significado.




Conclusão: comunidade e palavra de Deus

 É, no entanto, a comunidade reunida que pode captar o significado profundo da Palavra revelada. A Palavra de Deus é, na verdade, uma palavra contextualizada, que fala a uma comunidade específica que vive em um contexto específico. É a comunidade que se torna o lugar privilegiado para a compreensão da Palavra. A contaminação hermenêutica, além de auxiliar na compreensão do texto, tem contribuído para trazer a Palavra de Deus de volta ao seu lugar espiritual original, ou seja, a comunidade dos fiéis reunidos. Desta forma, o prejuízo provocado ​​pela devoção moderna, que causou o fechamento da dimensão religiosa na esfera individual, é atenuado graças a dimensão comunitária da religião. Escrevo atenuado porque o devocionalismo com a tendência para o fechamento na esfera individual ainda é, não apenas muito viva e presente no panorama religioso atual, mas também incentivado. Para sairmos do pântano individualista e assim redescobrir a dimensão comunitária do cristianismo é preciso acolher as contribuições mais significativas da abordagem hermenêutica da Sagrada Escritura.