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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Filosofia e fé: a razão como caminho para uma crença mais madura




Paolo Cugini

 

A filosofia surge do desejo humano de compreender o sentido da existência. Não se contenta com respostas imediatas, nem se detém na superfície: questiona, investiga, questiona e abre espaços para o pensamento. Precisamente por essa razão, longe de ser um obstáculo à fé, pode tornar-se uma ferramenta valiosa para penetrar mais profundamente nos mistérios da crença. Uma fé que teme a razão corre o risco de permanecer frágil; uma razão que se fecha ao mistério corre o risco de se tornar estéril.

 

O cristianismo, ao longo de sua melhor história, jamais pediu ao homem que renunciasse à inteligência. Pelo contrário, muitas vezes buscou o diálogo com a filosofia para esclarecer sua linguagem, purificar representações ingênuas de Deus e demonstrar que a fé não é um simples refúgio emocional, mas uma jornada que envolve a pessoa por inteiro. A razão, nessa perspectiva, prepara para a fé porque nos educa a questionar, a buscar a verdade, a reconhecer a complexidade da realidade.

Dizer que a filosofia prepara para a fé significa reconhecer que o ato de crer não pode ser reduzido a um gesto instintivo ou a uma simples adesão externa. A fé cristã é atravessada por categorias complexas: revelação, encarnação, salvação, liberdade, pecado, graça, história, consciência, responsabilidade. Sem o exercício da razão, essas palavras correm o risco de se tornarem fórmulas repetitivas, desprovidas de qualquer impacto real na vida. O pensamento, porém, permite-nos habitar essas palavras, compreender o seu significado e sermos transformados por elas.

Os Diferentes Níveis da Fé

Existem, contudo, diferentes maneiras de viver a fé. Um primeiro nível é o da fé popular, muitas vezes alimentada por práticas devocionais, tradições, gestos simbólicos e sentimentos religiosos. Esta certamente contém uma riqueza que não deve ser negligenciada: as pessoas expressam a sua necessidade de proteção, consolo e significado através de ritos, imagens e orações. No entanto, quando esta dimensão não é acompanhada por um processo de formação e discernimento, pode facilmente deslizar para a superstição.

A superstição escraviza o homem porque substitui a confiança pelo medo, a liberdade pelo mecanicismo, a relação com Deus pela tentativa de controlar o divino. Nesse caso, a fé não liberta, mas aprisiona; não abre o caminho para a maturidade, mas mantém a pessoa numa dependência infantil de sinais, fórmulas e práticas vivenciadas como garantias automáticas.

Um segundo nível é o do fundamentalismo religioso. Aqui, a pessoa de fé se entrega cegamente ao que encontra na religião, sem questionar, sem discernir, sem se esforçar para pensar. O fundamentalismo aparece então como uma forma de falsa segurança: oferece respostas definitivas para problemas complexos, transforma afirmações históricas e doutrinárias em blocos rígidos, rejeita a discussão e vê a dúvida como uma ameaça em vez de uma oportunidade de crescimento.

Na minha opinião, essa forma de fé muitas vezes revela uma profunda preguiça de pensar. Como pensar exige esforço, como a realidade é complexa, e a realidade religiosa ainda mais, prefere-se refugiar-se em pressupostos proclamados absolutos. Diz-se, por exemplo, que alguns valores são inegociáveis; mas, muitas vezes, eles não são negociados, não porque tenham sido verdadeiramente compreendidos em sua profundidade, mas porque negociar significaria entrar no árduo terreno do confronto, da argumentação, da mediação e do discernimento.

Fé Adulta e o Papel da Razão

Finalmente, há um nível mais profundo no discurso da fé: um em que a razão não é considerada um impedimento à crença, mas uma ajuda. Nessa perspectiva, a fé não exige a extinção da inteligência, mas sim seu direcionamento para um horizonte mais amplo. Crer não significa renunciar às perguntas, mas aprender a formulá-las melhor; não significa possuir Deus, mas permitir-se ser conduzido a um mistério que transcende a humanidade sem humilhá-la.

 

A filosofia, então, torna-se uma pedagogia da fé. Ela nos ensina a distinguir entre Deus e as imagens que fazemos de Deus, entre o Evangelho e suas reduções ideológicas, entre a verdade e a necessidade humana de segurança. Ela ajuda a desmascarar formas imaturas de crença e a libertar a fé da superstição, do fanatismo, do moralismo e da rigidez. Nesse sentido, o pensamento não enfraquece a fé: ele a purifica.

Uma fé ponderada é uma fé mais livre. Não porque se torne menos intensa, mas porque se torna mais consciente. Ela não se baseia no medo, nem na repetição automática, nem na delegação total a autoridades externas; em vez disso, fundamenta-se numa jornada pessoal, comunitária e crítica, capaz de reunir inteligência, experiência, tradição e pesquisa. É uma fé que não precisa se defender da razão, porque sabe que a verdade não teme o pensamento.

Por essa razão, o cristianismo precisa da filosofia: não para se transformar em um sistema abstrato, mas para evitar ser reduzido à emoção, à superstição ou à ideologia. A filosofia protege a fé da trivialização, enquanto a fé lembra à filosofia que a razão humana encontra sua plenitude não na dominação, mas na abertura ao mistério. Quando fé e razão caminham juntas, o homem não é forçado a escolher entre pensar e crer: ele pode crer pensando e pensar crendo.

domingo, 7 de abril de 2024

12 ENCONTRO NACIONAL DE FÉ E POLÍTICA - DICAS PARA UMA ESPIRITUALIDADE LIBERTADORA

 




BELO HORIZONTE 5-7 DE ABRIL DE 2024

 

Paulo Cugini

 

De sexta-feira, 5, a domingo, 7 de abril, aconteceu em Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais, o 12º encontro nacional do Movimento Fé e Política. Este Movimento nasceu em junho de 1989, de um encontro de pessoas unidas pela fé cristã empenhadas nas lutas populares, com o objetivo de alimentar a dimensão ética e espiritual que deveria animar a atividade política. Deixar-se animar pelo Espírito de vida é a essência do Movimento Fé e Política, que não propõe diretrizes para a ação política cristã, nem se comporta como se fosse uma tendência partidária, mas que luta pela superação do capitalismo através da construção de um sistema socioeconômico que apoie e respeite a vida do planeta. Ao longo da sua existência, o MF&P promoveu encontros de estudo, jornadas de espiritualidade e publicou quinze Cadernos sobre Fé e Política. Dez anos após a sua criação, atento à nova situação dos movimentos sociais, o Movimento passou a promover grandes Encontros Nacionais de Fé e Política.

O que aconteceu em Belo Horizonte nos últimos dias foi o 12º encontro nacional, que teve como tema: Espiritualidade libertadora. Encante a política com arte, cultura e democracia! Diante de um público muito grande, vindo de todo o Brasil, os palestrantes abordaram o tema da crise atual que não é apenas política, mas também econômica e ecológica. Dois dos fundadores históricos do Movimento, Frei Betto e Leonardo Boff, estiveram presentes no encontro e contribuíram para a reflexão com suas profundas intervenções.

Frei Betti


Frei Betto compartilhou uma reflexão sobre a proposta específica de Jesus, que é o Reino de Deus, esclarecendo que: “O Reino de Deus é a proposta para o futuro da humanidade. Jesus não estava falando lá de cima, mas aqui na terra. Que o seu reino venha até nós." O Reino para Jesus indica a relação no amor e na partilha dos bens. “Compartilhar os bens da terra e os frutos do trabalho humano. Até que a humanidade compartilhe os bens da terra, não realizaremos o Reino de Deus”.

Frei Betto, para aprofundar a discussão, utilizou a imagem do carro correndo em direção a um gol. “A gasolina é a comunidade. O veículo é o sindicato, o MST, o movimento feminista, o movimento LGBTQ+, o Partido: cada uma de nós escolhe o seu veículo para caminhar rumo ao Reino de Deus. O posto de gasolina é a oração. Pai nosso e nosso pão. Temos o direito de invocar o Pai Nosso se lutarmos para que os bens da sociedade sejam para todos. Jesus era um homem de oração. Na oração aprendemos a harmonizar-nos conosco próprios, com os outros e com Deus”.

O frade de domingo concluiu seu discurso lembrando que Jesus não veio para fundar uma igreja ou uma religião, mas veio para salvar o projeto político de Deus: uma sociedade de Justiça e Paz, que ele chamou de Reino de Deus. seguidores de um preso político.

Leonardo Boff


O discurso de Leonardo Boff centrou-se sobretudo na temática ecológica, que é o tema sobre o qual mais trabalha há cerca de trinta anos, demonstrando grande preocupação com a forma como as coisas estão a evoluir. “A Terra está chegando ao ponto em que não aguenta mais. Já ultrapassamos o ponto crítico do aquecimento global no planeta. Precisamos fazer conexões. A terra já mudou. Entre 2025 e 2027 a Terra se equilibrará em 38 graus. Os governos devem redefinir a forma como constroem cidades."

Boff também se concentrou na crise política que está a perturbar muitos países, uma crise visível nas cerca de 18 guerras muito graves que estão a fazer muitas vítimas, especialmente civis, em muitas partes do mundo, como na Faixa de Gaza, na Ucrânia e na Congo. Ninguém fala deste último conflito gravíssimo, mas é de dimensões impressionantes. Neste quadro apocalíptico, Boff desviou a atenção para o Brasil e, em particular, para a Amazônia. “É necessário parar o desmatamento em grande escala. O futuro da humanidade passará pela Amazônia e o economista Stiglitz também apoia isso.” Por estas razões não podemos pensar apenas no Brasil, mas devemos promover a responsabilidade coletiva. “Precisamos pensar grande, não apenas no Brasil. Devemos assumir a responsabilidade coletiva, como disse Paulo Freire.”

Nas conclusões do discurso Boff indicou dois desafios que devem unir todos aqueles que lutam por um mundo melhor.” O primeiro desafio é a democracia que deve ser diária, como valor universal. Outro grande desafio: superar uma profunda desigualdade, uma profunda injustiça social”. Para construir um novo tipo de sociedade que respeite os princípios democráticos e trabalhe para eliminar todos os tipos de desigualdade, é necessário começar de baixo.

Muitos militantes do Movimento Fé e Política


É o trabalho de base, que se realiza tanto nos movimentos sociais como nas comunidades eclesiais de base, que torna possível construir um mundo diferente, mais justo e democrático.

segunda-feira, 18 de julho de 2022

UM MUNDO CRISTÃO DESMORONANDO

 



 

Paolo Cugini

Não existe mais o sistema que sustentava tudo, e é por isso que há uma sensação de vazio. Aquela estrutura cultural, o sistema cristão, que ao longo do tempo, ao longo dos séculos, havia criado ritos, formas de pensamento, um modo de vida pontuado por momentos religiosos, rapidamente desapareceu. Era um sistema que governava tudo, que dava sentido aos dias, às escolhas, nos mínimos detalhes. Nada se movia fora dele. Ao longo dos séculos o cristianismo se infiltrou no labirinto da cultura e da sociedade, que tudo falava dele, do cristianismo, tudo era profundamente cristão. Não só o assunto da vida corriqueira tornou-se inteiramente cristão, mas também a consciência humana, a ponto de, uma decisão, uma ação que estava fora da perspectiva cristã, causava um sentimento de culpa muito forte, uma dor no peito irresistível, a ponto de que se percebia a necessidade de confessá-lo, expulsá-lo do corpo, para continuar a viver pacificamente no mundo cristão. Tudo era cristão. Havia missa dominical, à qual toda a família compareceu. Havia a confissão mensal. Em todos os países havia o padre, figura fundamental na estruturação da vida social. E depois havia as precessões, as festas dos padroeiros, o catecismo para crianças e também para adultos. Toda a vida social era marcada pelo calendário do tempo religioso. Porque, em certo sentido, tudo era religioso. Os cavalheiros eram religiosos e os pobres também. Tudo remontava à religião: a distinção entre o bem e o mal, o justo e o injusto, o puro e o impuro. Era impossível viver fora do sistema religioso. Por isso, quem desobedecesse a um preceito religioso era severamente punido.

A sociedade era toda religiosa, era intrinsecamente religiosa. Cada cidade tinha sua própria igreja de culto e sua torre sineira que ditava os ritmos religiosos do dia. Era impensável que alguém crescesse sem o sentimento religioso, o desejo de fazer a vontade de Deus. Era impensável porque o medo do inferno, da condenação eterna, da alma para sempre imersa no fogo eterno, causava uma dor excruciante na consciência de quem ousava desobedecer aos mandamentos de Deus que, na verdade, eram os preceitos da igreja, que não é a mesma coisa. Lá estavam os senhores e os servos, os ricos e os pobres, os camponeses e os fazendeiros: todos estavam na missa ouvindo o padre que, do púlpito, xingava os pecadores e ameaçava a condenação eterna no inferno.

Tudo girava em torno da figura de Jesus, mesmo que ninguém o conhecesse. Este é o aspecto mais significativo da história do cristianismo ocidental, o paradoxo dos paradoxos, se quisermos colocar assim. Toda a civilização cristã foi construída na Idade Média, inspirada num personagem que o povo não teve a oportunidade de conhecer. A inspiração moldou uma narrativa que criou uma realidade, mas a fonte, ou seja, o Evangelho, não era acessível à maioria. Toda uma sociedade foi modelada durante séculos em torno da figura de Jesus, filtrada pela casta sacerdotal, pelos presbíteros, pelos bispos, pelo Papa, o sumo pontífice. Não tendo acesso às fontes, as pessoas podiam acreditar em qualquer coisa e, sobretudo, a casta sacerdotal podia impor qualquer coisa, como de fato aconteceu. Toda a sociedade, todo o mundo cristão, construído, modelado, inspirado por aqueles Evangelhos, que ninguém folheou e ninguém conhecia, que ninguém teve a oportunidade de ler, que nem mesmo a casta sacerdotal conhecia, senão algumas páginas. Nesse estado de ignorância coletiva, tudo podia ser repassado e passado como algo bom, religioso, vontade de Deus. Séculos de civilização cristã, que inspiraram uma copiosa produção literária e artística, filosófica e teológica, fundada na ocultação das fontes. Isso parce engraçado, mas é fortemente dramatico.

Talvez seja por isso que, uma vez que os evangelhos foram colocados nas mãos dos fiéis, os palácios da gloriosa civilização cristã começaram a ranger? Será que vai sobrar alguma coisa?

 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

O DEUS QUE SE ESCONDE





Paolo Cugini


No livro do profeta Isaías, o tema de Deus que está escondido aparece duas vezes. A espiritualidade sempre falou do Deus oculto. Aqui estamos lidando com outra coisa, isto é, sobre Deus que se esconde, a saber, que é sua escolha esconder-se do homem e da mulher, não mostrar mais o rosto. Deus se esconde do homem e da mulher, sem motivos aparentes, e então o problema passa a ser entender não só o porquê, mas também como viver na ausência de Deus. O tema é delicado porque indica a possibilidade do homem tropeçar durante a vida porque já não existe a luz de Deus que o ilumina e o acompanha. Como você anda no escuro? Este é um grande problema que raramente é abordado, também porque a cegueira sempre foi interpretada como uma falha humana. Aqui, porém, é uma escolha de Deus e, conseqüentemente, as coisas mudam muito de perspectiva.

Como viver na ausência de Deus? A pergunta é dirigida a todos aqueles que tiveram uma experiência de Deus que, como diria o apóstolo João, o ouviram, sentiram, tocaram, viram. Não é fácil viver na ausência de Deus desde o momento em que a vida se instaura a partir daquele encontro que mudou radicalmente a existência. Sem dúvida, quando começamos a perceber sua ausência, imediatamente assumimos a culpa, porque nos acostumamos a nos colocar diante de Deus de forma unilateral, como se houvesse necessariamente um defeito a admitir.

Mas por que Deus está se escondendo? Talvez porque ele queira nos ajudar a viver a vida como ela é, enfrentá-la com nossos meios, sem fugir, sem buscar ajuda externa. Deus se esconde para nos ajudar a entender que nos criou não para vivermos sempre como crianças, mas para assumir nossas responsabilidades.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Fé e Vida





ARQUIVO
[Miguel Calmon, 2001]

Paolo Cugini


Se a visão cristã leva a olhar para o “novo céu e a nova terra” (Ap 21,1) isso não enfraquece, antes estimula o nosso sentido de responsabilidade pela terra presente (João Paulo II). São palavras do Papa que salientam a ligação entre fé e vida, amor a Deus, amor e fidelidade a terra. São palavras que apelam à nossa responsabilidade para com a criação. Isto quer dizer que, quanto mais amamos a Deus e buscamos a sua proteção, tanto mais esta busca deveria nos levar para um compromisso mais firme para com a justiça, a paz, a saúde e em uma palavra: a cidadania.

 Nem precisaria falar disso porque em Jesus encontramos o exemplo. De fato, o Filho de Deus comprometeu-se com a vida, a justiça, a exclusão social. A compaixão que ele manifestou em várias ocasiões para com os mais pobres que, a seu ver, eram “como ovelhas sem pastor” era fruto do relacionamento íntimo que Jesus tinha com seu Pai.

Estou aqui escrevendo sobre isso porque entre nós católicos espalhou-se uma doença espiritual que se manifesta em duas formas opostas, mas que brota da mesma raiz: a separação entre fé e vida. De fato, de um lado encontramos aqueles que acham que a vida de fé se resolve dentro das paredes da igreja, e aí vem o esforço para uma liturgia super organizada, esbanjando dinheiro com flores, cortinas, acessórios litúrgicos.  Quanto mais se gasta nestas coisas, tanto mais Deus e os santos gostam (assim acham eles).

 De outro lado encontramos os católicos comprometidos com as causas sociais: a terra, a água, as lutas políticas. Com estes católicos é melhor não falar de sacramentos, de Eucaristia, menos ainda de liturgia: arregalam os olhos como se tivesse o bicho da meia noite na frente.

Se quisermos curar esta doença espiritual, o melhor remédio é olharmos com mais intensidade o rosto de Cristo. Jamais encontraremos nele os sintomas desta doença, que afeta milhares de católicos no mundo todo. Em Jesus poderemos contemplar o Cordeiro de Deus que, enquanto celebra pela última vez o rito pascal com os seus discípulos, profetiza a própria morte como o coroamento de uma vida totalmente doada. Em Jesus fé e vida nunca são separadas.


terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

“Entre nós não deve ser assim” Reflexão sobre as recentes eleições municipais


ARQUIVO


Paolo Cugini

As eleições municipais terminaram; graças a Deus! Ninguém   estava mais agüentando a confusão, os carros de som, as músicas (de péssimas qualidade) dos candidatos. Nas próximas eleições iremos exigir mais atenção contra a poluição sonora. Foi muita falta de respeito, muita falta de educação cívica. Os cidadãos têm direito para serem respeitados, também no período eleitoral.

Nesse contexto o Movimento Fé e Política fez a própria parte. Desde o começo, o movimento apontou a direção da própria ação; conscientizar o povo sobre os direitos e deveres dos eleitores, sobre a importância do voto para o bom desenvolvimento da democracia, explicando,   aonde foi possível, as exigências da lei 9.840, contra a corrupção eleitoral. No primeiro programa que o Movimento Fé e Política realizou pela Rádio Comunitária Canabrava FM, foi salientado que a mudança de mentalidade do eleitor e do candidato era  uma conquista civil  impossível para ser alcançada no breve período. Foi com esta consciência, que entramos na campanha política de uma forma alegre e tranqüila. Realizamos vários eventos de conscientização, utilizando métodos diferentes, avaliando semanalmente o nosso trabalho. Foi uma semente que queremos, de agora em diante, cultivar para que a consciência democrática de nossa cidade, possa crescer sempre mais.

Na homilia do último dia do ano passado alertei os católicos sobre as eleições políticas deste ano, dizendo que teriam sido uma avaliação da nossa maturidade espiritual. Interiorizar a Palavra de Deus é viver esta Palavra na vida do dia-a-dia. A Palavra de Jesus é uma Palavra profética de denúncia contra as injustiças sociais, contra as hipocrisias. Além disso, é uma Palavra de amor, de conversão, de perdão. Um cristão que participa da mesa eucarística do domingo, não pode considerar o irmão, que participa da mesma mesa, um inimigo, pelo simples fato que vota num candidato diferente. Infelizmente isso aconteceu. Várias pessoas começaram tratar o irmão de forma diferente, como um inimigo, pelo simples fato de que votava num outro candidato. Interiorizar a Palavra de Deus e o seu Espírito leva as pessoas ao respeito da liberdade do voto. É Jesus mesmo que fala: “Entre nós não deve ser assim: mas quem quiser ser o primeiro seja o último”.
O respeito da liberdade do outro, do pensamento do outro, da possibilidade do outro agir e pensar de uma forma diferente da minha, não é apenas uma conquista de vida espiritual, mas também é uma atitude democrática. A existência de uma oposição na cidade é uma bênção pelo andamento democrático. É absurdo querer que todo mundo pense do mesmo jeito. É absurdo, antidemocrático e desumano. O espírito democrático fortalece na pluralidade de opiniões, na comunhão da diversidade e não na uniformidade.

Somente cultivando esta diversidade, este espaço democrático da pluralidade de opiniões, poderemos evitar o risco do totalitarismo. De fato, na história os regimes totalitários- fascismo, nazismo, comunismo- se mantiveram ao poder com o controle das massas. O pensamento único não existe, a não ser na cabeça de alguém, que quer viver em paz e, para isso, obriga  todos a pensarem como ele.
 Os grandes derrotados destas eleições foram os pobres. Esquecidos nestes anos, foram  visitados de uma forma maciça nestes últimos três meses.“Ali vem o outro”. Parecia brincadeira, a procissão corriqueira dos candidatos caçando votos. Porque os candidatos não foram da mesma forma insistentes nas casas dos comerciantes, dos professores, dos moradores das ruas  do centro?
Mais uma vez o pobre foi considerado como simples mercadoria, possível a ser comprado, também a preço baixo. O pobre sabe que não tem voz nem vez: deve aceitar tudo. Forçado a escutar projetos mirabolantes até com palavras dificílimas (“Padre, quer dizer esta palavra, que o fulano de tal usou para dizer o que vai fazer?”), o pobre abre a porta pra todo mundo. O pobre é assim considerado como prostituta, que abre a porta de casa a todos aqueles que oferecerem dinheiro. Para considerar os pobres como filhos e filhas de Deus, com uma dignidade, Miguel Calmon, deve amadurecer muito. Ao meu ver o futuro de Miguel Calmon não está na frente, mas atrás.

Explico-me. Pessoalmente acredito muito no trabalho de base que está sendo desenvolvido nas comunidades de base, seja na zona rural que na sede.
Se tivermos a paciência de regar cada dia a semente  que está sendo plantada, sem dúvidas colheremos frutos. Os homens novos que Miguel Calmon precisa, ainda não chegaram, ainda não são formados. Mas chegarão. Os homens novos que Miguel Calmon precisa são aqueles que falam de Deus, agem e pensam como Ele. Nos comícios que assisti, vários candidatos falavam de Deus e de Maria e depois lançavam palavras de ódio contra os adversários. É esta a hipocrisia que deve ser tirada do meio. Isso é possível. Através de um caminho de conversão, de mudança de atitude, mudança que somente o Espírito do Senhor pode realizar. Por isto digo que o futuro de Miguel Calmon está por trás. Está naqueles adolescentes e jovens apaixonados pelo Senhor, que estão dedicando horas de joelho por Ele, meditando a sua Palavra.
O homem novo não nasce de um dia para o outro. É um longo caminho, silencioso, escondido. Até que um dia...