segunda-feira, 31 de março de 2025

O VERGONHOSO ESPETACULO DO ASSENTEISMO DOS VEREADORES DE MANAUS

 



No centro o vereador José Ricardo organizador do evento


Paulo Cugini

Na última semana aconteceram duas audiências públicas na Camara dos Vereadores de Manaus. A primeira, realizada no dia 27 de março 2025, na ocasião da apresentação da Campanha da Fraternidade com o tema: Ecologia Integral. Entre as várias autoridades presentes e os representantes de alguns movimentos sociais, que atuam na cidade, estava o cardeal de Manaus dom Leonardo Steiner. Nesta ocasião somente dois vereadores se fizeram presente: José Ricardo e Pai Amado. 

O segundo evento realizado no dia 31 de março, foi uma audiência pública articulada pelo vereador José Ricardo, para debater sobre a cobrança da tarifa de esgoto. Tema, este, de grande importância pela população que, em vários casos, como foi relatado por alguns moradores presente na Camara, recebem o boleto para o pagamento da taxa, mas sem receber o serviço. Neste evento os vereadores presentes foram cinco: José Ricardo, Pai Amado, Rodrigo Guedes, Paulo Tayrone, Sergio Baré. 

Nas últimas eleições municipais, que aconteceram o ano passado, foram eleitos 41 vereadores. Come se encontra no site do Tribunal Superior Eleitoral: “Cada vereador é eleito de forma direta, pelo voto, tornando-se um representante da população. Por isso, deve propor projetos que estejam de acordo com os interesses e o bem-estar do povo”. Este é o ponto delicado sobre o qual quero chamar a atenção. 

Membros do Movimento fé e cidadania da paróquia São Vicente de Paulo
presentes ao evento

Todos nós lembramos o grande trabalho realizado o ano passado pelos candidatos a vereadores, que fizeram de tudo para serem eleitos. Muitas foram as promessas pronunciadas nos comícios. Muitas, também, as apertadas de mãos, os sorrisos, os abraços. Muitas foram as pessoas que, de uma forma ou de outra, colaboraram para que, os candidatos que apoiavam, fossem eleitos. Grupos de rua, ou até grupos religiosos se articularam para ver o próprio candidato sentado numa das preciosas 41 cadeiras da Camara Municipal de Manaus. Isso é louvável pois, se o vereador, como fala a constituição, representa o povo e é chamado a propor projetos com os interesses e o bem-estar do povo, para depois elaborar leis – outra tarefa importante do vereador -, é de suma importância que alguém do povo esteja sentado na Camara Municipal, para trabalhar em prol do povo.

A sensação que tivemos nesta semana participando destes dois eventos públicos é que, na realidade, a maioria dos vereadores que foram eleitos, não estão nem aí com o povo. Parece que fizeram de tudo no ano passado, não para trabalhar quatro anos em prol do povo, vivendo perto do povo, para pensar com o povo como melhorar a vida, mas o único interesse parece tenha sido botar no bolso uma boa grana sem fazer absolutamente nada. Falando de grana é bom lembrar que, no dia 8 de janeiro 2025, saiu uma matéria no jornal Globo dizendo que os vereadores de Manaus passam a receber a partir do 2025 o maior salário entre os legisladores municipais do Brasil, igualando os parlamentares de São Paulo. O subsidio, lembra sempre a Globo, foi fixado por 26080 Reais mensais, acompanhando o teto estabelecido pela legislação para cidade com maior população. Além disso, devem ser levados em conta outros benefícios que, conforme os cálculos encontrados na matéria da Globo, chega ao numero espantoso de 98 000 reais por mês.  Este dado aumenta ainda mais a nossa decepção, a nossa revolta: é muita falta de vergonha na cara. 


Não se fazer presente num evento na casa onde eles são chamados a representar o povo, pagados além de qualquer imaginação, para demonstrar a própria solidariedade com o povo pobre que sofre injustiça, revela a falta de compromisso da maioria dos vereadores de Manaus, que não se fizeram presente á eventos que teriam exigidos como minimo uma presença, além da possíbilidade de manifestar a opinião como represntantes eleitos pelo povo.

Isso não vai ficar aqui. O Movimento fé e Cidadania da Igreja Católica que está presente na paróquia de São Vicente de Paulo, vai ficar de olho aberto, atento, registrando tudo de bem e também de mal que está acontecendo e que vai acontecer na casa do povo, sendo os vereadores nossos representantes. 

O objetivo do nosso trabalho é acumular um material suficientemente documentado para orientar melhor o povo na escolha dos nossos representantes, para que sejam verdadeiramente a serviço das causas do povo, sobretudo os mais pobres e carentes. 


sexta-feira, 14 de março de 2025

O DEVOCIONISMO RELIGIOSO E OS MALES DA SOCIEDADE OCIDENTAL






Paolo Cugini


A devoção surgiu e se desenvolveu em um período em que os dados bíblicos e patrísticos estavam dispersos. É isso que estudos históricos recentes nos ensinam. A devoção, portanto, era alimentada pela superstição, pelo medo do sagrado. A devoção toca os sentimentos e manifesta o temor a Deus, um Deus percebido como terrível, capaz de punir a qualquer momento e a qualquer hora qualquer forma de desobediência. Para controlar o poder do Deus destrutivo, do Tremendum , para usar as palavras de Rudolf Otto, o devocionismo colocou em prática um sistema de preceitos e deveres que os fiéis devem cumprir para não serem subjugados pela força de Deus. Uma vez que os preceitos foram cumpridos, o devoto está pronto para fazer o que quiser na vida. A devoção atua na separação entre o sagrado e o profano. O sagrado exige sacrifícios, ritos, preceitos em um contexto sagrado. A realização dos ritos permite aos fiéis viver no mundo profano de forma fiel e segura. A devoção oferece segurança ao devoto, aquela segurança interior que lhe dá a certeza de ter feito tudo o que era preciso para estar em paz com Deus e, sobretudo, para garantir que Deus não o golpeie. A relação entre o sagrado e o fiel é estimulada por um sentimento de culpa, incentivado pelo sentimentalismo devocional, que põe em ação uma série de mecanismos que não permitem ao fiel escapar da lógica dos preceitos. A devoção torna homens e mulheres escravos de ritos e preceitos. Em troca, eles recebem a segurança da salvação e a capacidade de controlá-la. Isso não é pouca coisa.


A cultura burguesa, que surgiu no Ocidente no final da Idade Média e foi fortalecida pelo advento da revolução industrial, foi alimentada pela devoção religiosa. Poderíamos dizer que nunca houve uma conexão tão estreita entre a dimensão espiritual da vida pessoal e a social. O capitalista burguês que explora os trabalhadores, enriquecendo-se às custas deles, não se sente culpado, mas sim confirmado em seu trabalho pelo simples fato de cumprir perfeitamente todas as prescrições exigidas pela devoção religiosa. Há burgueses que vão à missa todo domingo ou até mesmo todo dia. Os cidadãos que recitam o terço fazem novenas aos santos a quem se referem. Eles são generosos ao fazer doações significativas para locais de culto. Depois, há o estilo burguês da pessoa que vive sua vida tranquila entre o trabalho e a família. É o modelo social propagado com o advento da era industrial em todas as suas fases e é o estilo hoje indicado junto à classe média. Quando passamos da sociedade agrícola para a industrial, o modelo burguês assume o controle, encontrando apoio na religião devocional para justificá-lo. Vida pacífica e tranquila. Uma vez feito o trabalho, há tempo para Deus e para a própria vida. Possibilidade de organizar seu tempo livre como desejar, com férias e semanas de esqui. O modelo burguês aprisiona as pessoas em uma esfera do mundo, não permitindo que elas compreendam a conexão entre os mundos. Se, de fato, há uma parte que está bem, esse bem-estar é produto das lágrimas e do sofrimento de outra parte do planeta. Existe todo um sistema que não nos permite sentir esse vínculo intrínseco. A devoção moderna também contribui para tornar o devoto surdo e cego. Presos na necessidade de observância, os devotos não se importam com seu estilo de vida confortável e tranquilo, mas sim o encorajam. Não é por acaso que foi o Ocidente devoto que desenvolveu o sistema econômico mais criminoso que já existiu, o neoliberalismo. Este modelo está produzindo dia após dia enormes massas de deserdados, excluídos do suntuoso banquete dos poucos que podem se beneficiar de tudo. É vergonhoso ler os rankings elaborados pela revista Forbes todos os anos dos homens e algumas mulheres mais ricos do mundo, que enriquecem ano após ano, enquanto, ao mesmo tempo, aumentam os desesperados, os sem-teto, os pobres, aqueles que perdem tudo ou que, apesar de trabalhar, veem seus salários diminuírem, dificultando a sobrevivência deles e de suas famílias. Existe uma religião que é cúmplice desse massacre que está sendo perpetuado e espalhado pelo mundo; é a religião dos devotos, daqueles que restringem o campo de ação de Deus aos seus próprios pequenos corações, que se tornam cada vez menores e mais opacos, para não ouvir os clamores dos desesperados do mundo. É a religião dos moderados, daqueles que com suas devoções amortecem a força disruptiva do Evangelho de Jesus, que anuncia o Deus que não faz distinção entre pessoas e a comunidade na qual ninguém vive necessitado, porque quem tem mais reparte com quem tem menos. Não é por acaso que, aonde o devocionismo religioso é forte o povo fica mais pobre.



Esse modelo social e religioso tipicamente ocidental produz uma enorme massa não apenas de resíduos materiais, mas, sobretudo, de resíduos humanos. Esta é uma expressão forte usada pela primeira vez pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman. É uma expressão forte que, no entanto, expressa bem o significado profundo deste modelo social e religioso. Quando uma sociedade se alia à religião para buscar seu próprio bem-estar às custas dos outros, isso significa que algo está errado, que não está funcionando. Uma grande massa de resíduos humanos é encontrada agora em nossas cidades, em nossos bairros. Massas de pessoas vindas de países empobrecidos pela presença ocidental. Este é o grande paradoxo da sociedade ocidental: há países ricos em todas as coisas boas do solo e do subsolo, mas que se tornaram lotados de pessoas pobres por causa da violência do homem ocidental que entrou em suas casas para saquear tudo a custo zero. Embora estejamos confortáveis em nossas próprias casas, há muitas pessoas que não se sentem bem em suas próprias casas. As montanhas de lixo que vemos não apenas em aterros sanitários, mas agora nas margens das estradas, são o símbolo da nossa sociedade desorientada, uma sociedade opulenta e gorda, uma sociedade que perdeu o rumo. Se de um lado há uma sociedade que produz resíduos em quantidades assustadoras, de outro há uma sociedade que se alimenta deles. Há algo assustador e irracional em tudo isso, um sinal de que há uma falta de pensamento humano na condução do mundo, naqueles chamados a guiar o destino da humanidade. As Igrejas, nessa perspectiva, não podem limitar-se a celebrar ritos para os devotos do momento, mas devem fazer ressoar a voz profética do Evangelho por meio de escolhas radicais que afirmem explicitamente a ruptura com o perverso sistema neoliberal.


Infelizmente, não demos ouvidos aos profetas que, já no início do século passado, nos alertaram. Charles Péguy , por exemplo, alertou-nos sobre o perigo de desenvolver projetos políticos e sociais sem levar em conta a realidade. Caminhar pela história com os pés no chão, escutando a realidade que se manifesta como múltipla e, portanto, não uniforme, significa desenvolver caminhos sociais e políticos nos quais a diversidade não seja exceção, mas encontre lugar com toda a sua dignidade. Ouvir a realidade hoje significa escutar o clamor dos deserdados, dos dejetos humanos, e criar espaços para que eles possam se expressar e nos mostrar novos caminhos de salvação. 

O mesmo Emmanuel Mounier que em 1932, em meio à maior crise econômica do século passado, lançou um apelo na revista Esprit que ele fundou contra o colapso da cultura burguesa, incapaz de salvaguardar os valores da pessoa. Não é por acaso que foi nas páginas desta revista que Mounier e seus colaboradores desenvolveram o projeto do personalismo comunitário, mostrando como não é possível salvaguardar a dignidade da pessoa humana sem uma referência à comunidade. É justamente a comunidade o problema que se torna evidente nessa passagem da cultura ocidental. Uma comunidade, de fato, que não é mais capaz de construir relacionamentos nos quais todos possam realizar seu potencial. De fato, vemos, dia após dia, uma comunidade de pessoas desiguais, uma sociedade em que poucos têm condições financeiras, em detrimento de um número cada vez maior de pessoas doentes. 

Aquela grande mulher que foi Simone Weil nos alertou, em um de seus diários, sobre a necessidade de nos educarmos para a atenção como forma de estarmos em contato com a realidade e não perdê-la de vista. Se há um fato que fica claro é que o mundo ocidental construiu todo um arsenal que o torna cada dia mais distraído e, dessa forma, se torna incapaz de ouvir a realidade, surdo aos gritos dos desesperados, fechado em seu próprio bem-estar, insensível aos dramas humanos que acontecem ao nosso redor, incapaz de desenvolver caminhos que sejam pertinentes à realidade feita de homens e mulheres e não de números.


Péguy escreveu há mais de um século: a revolução será moral e espiritual ou não acontecerá. Projetos políticos não mudarão o rumo dessa história doente de individualismo. Neste caminho de revolução espiritual, a comunidade cristã tem, sem dúvida, uma tarefa importante, desde que saiba colocar no centro o Evangelho de Jesus, a Sua Palavra, e se deixe inspirar por Ela.


quarta-feira, 12 de março de 2025

DESCONSTRUINDO A RELIGIÃO PARA ENCONTRAR DEUS

 




Paolo Cugini



É como uma cebola ou como um forro. Vista de longe, a cebola parece compacta, algo único, mas não é. Quando você vê de perto, percebe que ela é em camadas, que você pode descascá-la, pode tirar as camadas, o que, no caso das cebolas – e não só – é um processo que nos faz chorar.

Até os cobertores parecem ser um corpo único, mas em vez disso há costuras que unem as peças e depois há forros para esconder as costuras. O cobertor parece um corpo compacto, mas não é. Afinal, como muitas coisas na vida: elas parecem compactas, mas não são. Acostumamo-nos a viver na aparência das coisas, até o dia em que um encontro, um rosto, um sentimento forte nos ajuda a acordar e a descobrir que nem tudo é tão compacto quanto parece, que há algo diferente, que há algo mais.

Existe todo um sistema de coisas que faz de tudo para garantir que a realidade pareça compacta, bonita e agradável. Existe todo um mundo que trabalha para mascarar a realidade, sobretudo, para mascarar as manipulações da realidade. E então ocorrem acontecimentos que minam a compacidade, que abrem vislumbres, que provocam uma reflexão, uma crise e assim abrem o caminho da desconstrução que nos leva à realidade, isto é, à verdade sobre as coisas. A desconstrução das estruturas colocadas em prática para encobrir a manipulação da realidade é, ao mesmo tempo, um caminho de libertação e revelação. É libertador porque, finalmente, a pessoa vive sua relação com a realidade com liberdade. De revelação porque a revelação do processo de desconstrução nos leva a entender que as intuições que percebemos durante o período de manipulação da realidade eram autênticas. Isto já é uma indicação importante de método. Ela nos diz, de fato, que cada pessoa é dotada de apreender a verdade das coisas, sua realidade e, portanto, é capaz de perceber qualquer tentativa de manipulação, distorção, dissuasão.

Em algum momento da vida temos que decidir se descascamos as cebolas ou as deixamos como estão; temos que decidir se retiramos as cobertas e verificamos as costuras, ou se continuamos a nos cobrir como se o cobertor fosse um corpo único. Finalmente, em algum momento de nossas vidas, temos que decidir se continuamos acreditando em Santa Lúcia e no Papai Noel, ou se os colocamos em seu devido lugar. Ou seja, precisamos, em determinado momento da vida, que seria bom que acontecesse o mais breve possível, decidir se vale a pena sofrer um pouco, desmascarar os mitos que estão obscurecendo nossa visão da realidade, ou fingir que nada está acontecendo e pagar o altíssimo preço de uma vida falsa, ou seja, de correr o risco de nunca viver a realidade.

Quando isso acontece, ou seja, quando demoramos a ativar os processos de desconstrução e desmascaramento, nos sentimos mal porque vivemos mal. A consciência se rebela quando algo ou alguém nos sufoca, corta nossas asas, nos impede de voar, de sermos nós mesmos. Nossa consciência fica brava conosco no fundo do coração quando nos vê preguiçosos, submissos, um pouco mesquinhos porque nos refugiamos atrás dos nossos medos. Ficamos com raiva quando percebemos que a vida não é como pensamos ou como alguém pensou para nós. E então há uma voz dentro de nós, um sentimento que nos impulsiona a nos recompor, a nos levar a sério, a parar de choramingar e arregaçar as mangas para expor tudo e, assim, finalmente viver livres.



É o contato com a realidade que desmascara as falsas superestruturas que nos impedem de viver autenticamente. É a realidade que causa a ondulação dessas ideias, filosofias e teologias que cobrem nossas vidas, impedindo-nos de viver autenticamente. O pior, que infelizmente acontece com frequência, é quando filosofias e ideologias encontram nos pais um aliado que não tem tempo para verificar se essas ideologias estão de acordo com a realidade ou não. Pobre jovem que encontra dentro de sua própria casa a aliança diabólica de seus pais com os traficantes de ideologias desvitalizantes e castradoras! Será difícil sair dessa jaula de loucos, mas é possível. De fato, sempre há um dia em que nos deparamos com algo real, em que percebemos que o mundo não é como nos é vendido. Há sempre um dia em que a alma jovem respira o ar da liberdade e, quando isso acontece, podemos ter certeza de que ela fará de tudo para se livrar da podridão das filosofias e teologias que, como correntes, a mantêm numa gaiola. Quem sente o cheiro da liberdade, principalmente quando esse cheiro chega até nós na juventude, dificilmente o esquecerá.

O primeiro elemento fundamental desse processo de desmascaramento, que é ao mesmo tempo um processo de desconstrução, consiste em nos distanciarmos dos mágicos, dos charlatões, dos vendedores de óleo de cobra, dos vigaristas de segunda categoria que, por muitas razões, encontramos em nosso caminho e que encheram nossas cabeças de bobagens. Acredito que essa despedida saudável dos charlatões é impossível sem conhecer alguém que já passou por isso, alguém que já se libertou do mundo do absurdo, do mascaramento da realidade. Hoje sabemos que muitos desses charlatões usam batinas pretas e andam pelas igrejas. Existe toda uma religião que é um caminho para a liberdade. É um instrumento satânico de escravidão e morte. Quantas pessoas conhecemos que ingenuamente seguem alguém ou um grupo, pensando que estão trilhando o caminho do Senhor, mas na verdade estão trilhando o caminho de Satanás.

O segundo elemento do processo de desconstrução é o amor à liberdade que, ao mesmo tempo, é amor à vida. Quem ama a vida não aceita prisões de espécie alguma e depois, quando sente sua liberdade ameaçada, bate o pé, se rebela, tenta entender. Aqueles que amam a vida, aqueles que desejam uma vida plena e livre nunca desistem. É o amor à vida ou, como diria Nietzsche, o amor à terra que nos impele a jogar fora todas essas estruturas formadas ao longo do tempo que sufocam a vida em vez de libertá-la. É a força interior que vem do fundo das nossas vísceras, que anseia por liberdade, que não aceita uma vida de morte, uma vida sufocada por superestruturas formadas ao longo do tempo e que não têm mais nenhuma ligação com a realidade vivida hoje. É o amor e o respeito que temos por nós mesmos que, em determinado momento da jornada, nos leva a jogar fora toda resignação, todas as injunções injustificadas, para olhar melhor para dentro de nós mesmos, para não ter que passar a vida inteira submetidos a imposições sem sentido.

O maior mestre de todo caminho de desconstrução que, como vimos, é, ao mesmo tempo, um caminho de desmascaramento, é Jesus. É justamente Ele, de fato, que em várias circunstâncias desmascarou a hipocrisia dos fariseus, que manipulavam a Palavra de Deus para controlar o povo e manter o poder. “Assim, vocês invalidam a palavra de Deus por meio da tradição que vocês transmitiram. E fazeis muitas coisas semelhantes” (Mc 7,13). Substituir a Palavra de Deus pela tradição dos homens: é o que aconteceu ao longo dos séculos, levando milhares de pessoas a se submeterem às leis humanas, pensando que eram a Palavra de Deus. Jesus descobriu isso nos anos de sua juventude, passados em silêncio, prestando atenção ao que acontecia ao seu redor, a como os fariseus se moviam e como o povo sofria. Sem dúvida, em algum momento ele deve ter compreendido a contradição entre aqueles que em todos os tempos tinham a Palavra de Deus na boca e o que essa suposta palavra estava produzindo no povo, isto é, miséria, pobreza, injustiça, sofrimento. Foi a realidade ouvida com atenção que levou Jesus a entender o engano, a entender que aqueles que falavam em nome de Deus estavam, na verdade, falando por si mesmos e por seus próprios interesses obscuros. E então, um dia, ele decidiu ajudar os homens e as mulheres a se libertarem de todas as tolices dos homens no poder, a desmascarar o engano dos fariseus, a desconstruir todas aquelas leis que sufocavam a liberdade dos homens e das mulheres para mostrar-lhes o verdadeiro rosto de Deus que é Pai e Mãe, o significado profundo da sua Palavra que é misericórdia, o verdadeiro desejo do coração do Pai que consiste em dar a vida e vida em abundância.

Esta é a grande tarefa da Igreja nesta era pós-cristã: ajudar os homens e as mulheres a libertarem-se dos absurdos da religião, oferecer instrumentos para que todos possam experimentar em primeira mão o amor de Deus, a sua justiça, a sua liberdade.


segunda-feira, 10 de março de 2025

PLANO PLURIANUAL PARTICIPATIVO 2025

 

A equipe da prefeitura junto com o pessoal do Moviemento fé e cidadania
que participou da formação de hoje



PPA 2025


Paolo Cugini

Segunda feira 10 de março às 10 horas da manhã no salão padre Geraldo Meneses da paróquia são Vicente de Paulo aconteceu um encontro com a Diretoria do planejamento da prefeitura de Manaus para orientar os cidadãos sobre o Plano Participativo Plurianual e participar a votação sobre como a prefeitura deveria gastar o dinheiro nos próximo quatro anos. 

O período de votação será 13-27 abril 2025 e é possível votar no site. O PPA é previsto na Constituição federal do 1988. O orçamento é planejado e, o grande objetivo é a participação da população. 

Na votação do PPA 2025 são previstos seis eixos estratégicos:

1. Credenciamento econômico

2. Educação básica

3. Saúde

4. Infraestrutura e mobilidade

5. Ambiental

6. Desenvolvimento social 

Cada pessoas no período da votação pode escolher dois eixos estratégicos e indicar dois projetos por cada eixo escolhido. Se os projetos indicados no site não são considerados positivamente, o cidadão tem direito a indicar um novo. 

O objetivo do Movimento Fé e Cidadania, que se fez presente ao evento, consiste em repassar o conteúdo do encontro de hoje, articular a  votação do PPA 2025 dentro da paróquia e na mesma compensa e apontar projetos que a nosso ver seria importante para o nosso bairro. 


sábado, 1 de março de 2025

NOVO LIVRO (em italiano): O NOME DE DEUS NÃO É MAIS DEUS

 




Introdução

Há caminhos existenciais que surgem assim, por acaso, sem querer. Nesses casos, surgem situações que nos encontram desprevenidos, desprevenidos e podemos correr o risco de nos fecharmos, como forma de defesa, ou, de aproveitar a novidade para entrar, deixar-nos guiar pelos acontecimentos e, assim, descobrir novos mundos. As páginas deste livro reúnem anos de reflexões sobre esses temas assimilados na infância de uma forma e vivenciados de uma forma completamente diferente nas situações que a vida me apresentou. Como disse Aristóteles, não nascemos corajosos, nos tornamos corajosos. Somos frutos das escolhas que fizemos, dos caminhos que percorremos, para o bem ou para o mal. Há quem passe a vida fiel ao conteúdo recebido na infância e quem aproveite a primeira oportunidade para jogar tudo para o alto e seguir seu próprio caminho. Não é falta de respeito, mas sim um desejo de liberdade, de viver a vida ao máximo e, acima de tudo, é uma forma de interpretar a vida como uma jornada de descoberta de novas possibilidades, na profunda percepção de que nem tudo está dado e nem tudo é como nos ensinaram. É abandonando as certezas culturais e espirituais de nossas origens que aprendemos a enfrentar sem medo narrativas diferentes das nossas, sem nos defender, sem ativar aqueles mecanismos de defesa que nos levam a proferir argumentos nunca experimentados e apenas repetidos de cor. As relações educacionais são saudáveis quando ajudam o indivíduo a ser ele mesmo, não a reproduzir os desejos dos outros. Para agradar aos adultos, as crianças fazem tudo o que lhes pedem, também porque sabem que é a única maneira de conseguir alguma coisa. Adultos insatisfeitos com a vida muitas vezes descontam nos filhos reproduzindo autômatos que obedecem aos seus comandos. 

Romper o cordão umbilical das instituições que ajudaram a moldar a consciência na infância é o caminho necessário para uma vida adulta livre. Tomar a vida em suas próprias mãos: esse é o caminho existencial, doloroso, mas necessário, para se tornar você mesmo. Nesse caminho de libertação, um dos ambientes mais importantes para se distanciar ou, pelo menos, retrabalhar criticamente o pertencimento é o mundo, o ambiente religioso. Até algumas décadas atrás, a instituição religiosa, que no Ocidente é identificada com a paróquia, era considerada um lugar saudável, onde se aprendiam os valores positivos necessários para uma vida saudável. Hoje em dia isso não acontece mais. Os processos de desconstrução cultural produzidos pela cultura pós-moderna estão expondo uma série de fatores negativos no mundo religioso que vale a pena abordar. Com o passar dos anos, percebo cada vez mais que um dos problemas mais profundos do mundo religioso é a interpretação das palavras. O cristianismo tem transmitido conteúdo homofóbico, sexista e misógino devido à sua forma de interpretar textos sagrados. Ainda hoje, as relações dentro das comunidades cristãs são envenenadas por modalidades relacionais misóginas e homofóbicas, devido a uma interpretação fundamentalista dos textos sagrados. Existe todo um mundo religioso que atiça as chamas do fundamentalismo, também jogando o jogo sujo daqueles movimentos políticos que se alimentam do mundo fundamentalista. Lendo e meditando o Evangelho, percebe-se que a realidade religiosa não mudou muito. Nessa perspectiva, entendemos que a missão de Jesus era libertar os homens do veneno mortal da religião, ou melhor, daquela religião inventada pelos homens. Jesus propôs algumas chaves para interpretar as palavras do texto sagrado, para não permanecermos escravos daqueles preceitos e daquelas práticas ditas religiosas inventadas pelos homens do templo para subjugar as pessoas e, assim, explorá-las. “Ouvistes que foi dito aos antigos… Eu, porém, vos digo” (Mt 5,21s).

As paróquias devem ser lugares onde as pessoas são libertadas da religião e introduzidas no caminho do Evangelho traçado por Jesus. Não em casa, como nos lembra o livro dos Atos dos Apóstolos, as primeiras comunidades eram chamadas exatamente isso: o caminho. Sempre me fascinei pelos profetas bíblicos, não só pela sua coragem em confrontar os poderosos da época, com declarações duras e radicais, mas sobretudo pela sua capacidade de abrir novos horizontes, injetando esperança nas pessoas. Na verdade, não basta criticar uma situação, analisar um fracasso, é preciso dar saídas, soluções, para permitir que as pessoas possam recomeçar novos caminhos. O risco, de fato, na análise crítica, é permanecer fascinado pelas palavras bonitas, pelas críticas profundas, mas esquecendo que as palavras por si só podem ferir e criar negatividade. E quanto a Jeremias, por exemplo? Nos primeiros capítulos, ele ataca os líderes religiosos com uma série de oráculos muito duros, que não deixam espaço para a imaginação, devido à força polêmica que os anima. Então, porém, no momento mais trágico da história de Israel, isto é, a destruição da cidade e do templo de Jerusalém e o exílio de boa parte da população para a Babilônia, Jeremias sai com uma das mais belas profecias de toda a literatura profética, prevendo para o povo uma Nova Aliança na qual Deus escreveria sua lei de amor não em pedras, como a lei mosaica, mas em seus corações (ver Jr 32:31-34). O livro que você tem em mãos está dividido em três partes e propõe um caminho que é ao mesmo tempo espiritual, religioso e cultural. 

Na primeira parte compartilho alguns conteúdos de vida espiritual que amadureci em alguns momentos críticos da minha vida. Sempre olhei positivamente para as chamadas passagens obscuras da vida, aquelas em que você entra por acaso e não sabe como elas vão terminar. Gosto de valorizar esses momentos, colecionando todas as coisas boas e novas que eles trazem consigo. Nesta primeira parte, portanto, há também dicas biográficas e é uma forma de tornar uma escrita mais envolvente, capaz de interagir com o leitor. A segunda parte poderia ser definida como destruens, no sentido de que proponho reflexões críticas sobre o cristianismo, sobre algumas ideias produzidas pela vida religiosa que ainda influenciam negativamente a vida dos fiéis. São páginas, portanto, nas quais não poupo tons ásperos, não apenas polêmicos, mas também críticos a uma instituição da qual faço parte. O desejo é sempre lançar luz para viver melhor e com mais serenidade a relação com o Mistério e com as pessoas que encontramos no nosso caminho. Os primeiros capítulos desta segunda parte são dedicados a um diálogo cultural com essa corrente de pensamento teológico que se denomina pós-teísmo, que considero fascinante e cheia de estímulos culturais. Questionar o conteúdo do nome de Deus e entender seu significado histórico é importante, especialmente para tentar entender como expressar o Mistério na linguagem de hoje. Na terceira e última parte compartilho uma proposta. 

Como escrevi acima: não basta apenas criticar, é preciso ter coragem de fazer propostas positivas, de apresentar possíveis novos caminhos. Nos últimos anos tenho procurado entender a possibilidade de viver o Evangelho como uma proposta que Jesus fez para todos, um espaço, portanto, inclusivo. Libertar-se da religião dos homens tem como primeiro resultado compreender o Evangelho de uma maneira nova, como um caminho em que no centro não estão preceitos a obedecer, mas o cuidado com a qualidade das nossas relações humanas. Nessa perspectiva, percebo a grande vocação da comunidade cristã no mundo de hoje: ser um espaço aberto para todos, especialmente para aquelas minorias maltratadas pelo sistema meritocrático e patriarcal. Foi exatamente assim que Jesus se expressou em um dos versículos mais profundos de todo o Evangelho: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11,25). Boa leitura e boa jornada.


ÍNDICE


INTRODUÇÃO

PRIMEIRA PARTE: INDICAÇÕES PARA UM CAMINHO ESPIRITUAL PÓS-RELIGIOSO


CAPÍTULO UM: PLANEJANDO O CAMINHO

1.Olhando de fora. 2. Fique parado. 3. Na margem do rio. 4. Espero por você em silêncio.


CAPÍTULO DOIS: APROFUNDANDO O DISCURSO

1. Intuição. 2. O olhar. 3. Perspectiva. 4. Poliedro. 5. A tensão polar.


CAPÍTULO TRÊS: APRENDENDO COM A VIDA

1. A ferida não é tudo. 2. Não abuse dos limites. 3. Sobreviver a ferimentos com risco de vida. 4. Tudo no fragmento. 5. Ouvir os sentimentos. 6. O obstáculo. 7. Realidade e ideia. 8. Descalço no chão descoberto. 9. A solidão da liberdade.


CAPÍTULO QUATRO: UMA OBRA CULTURAL NECESSÁRIA

1. Desconstruir. 2. Descentralizar. 3. Despotencializar.


CAPÍTULO CINCO: OLHANDO PARA LONGE

1. Andando no fio. 2. Após os arrepios.


PARTE DOIS: CONTANDO O FIM

CAPÍTULO UM: O MISTÉRIO DE DEUS

1. O nome do Mistério. 2. Entre o monoteísmo e a monolatria. 3. Contaminações religiosas. 4. Um novo paradigma interpretativo. 5. Dizer Deus de uma forma não religiosa? 6. O Mistério na prisão do ser. 7. A multiplicidade de manifestações do Mistério.


CAPÍTULO DOIS: A CRISE DA RELIGIÃO

1. O retorno da religião? 2. Religião e mal. 3. Religião como tentação. 4. Desconstruir a estrutura religiosa. 5. Cristianismo: uma religião?


CAPÍTULO TRÊS: O FIM DE UMA ERA?

1. Um mundo cristão em ruínas. 2. Um sistema que está desmoronando. 3. Como um sentimento. 4. O grande erro. 5. O tempo do fim. 6. O vazio das igrejas e a nossa cegueira. 7. Ideias para análise.


CAPÍTULO QUATRO: A CRISE IMPARÁVEL DO CLERO

1. A chamada. 2. A essência da fé. 3. Entreter para reter. 4. Líderes comunitários capazes de acompanhar: o problema da confissão. 5. Presbíteros como líderes comunitários: algumas propostas.


PARTE TRÊS: POR UM NOVO CAMINHO


CAPÍTULO UM: UM MUNDO INTERCONECTADO

1. Do caos ao cosmos. 2. Expansão. 3. Tudo está interligado. 4. Rumo ao holismo quântico.


CAPÍTULO DOIS: O UNIVERSO INTERCONECTADO EM UM MUNDO CONTAMINADO

1. Princípios epistemológicos do processo de contaminação. 2. Artistas da contaminação. 3. Uma Igreja contaminada? 4. O Evangelho: o amor que nos contamina. 5. Contaminação e inculturação. 6. A Bíblia contaminada.


CAPÍTULO TRÊS

1. A Igreja, povo de Deus, espaço aberto a todos. 2. Uma comunidade sinodal. 3. Uma liturgia que celebra a misericórdia. 4. Papa Francisco e a Igreja da misericórdia.

CONCLUSÃO

BIBLIOGRAFIA


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

AS CIÊNCIAS QUÂNTICAS A PEAGOGIA DE JESUS E A SINODALIDADE

 





Palestrante: Frei Isidoro Mazzarolo 

Sintese: Paolo cugini

A rede celular é cósmica pressupõe a integração de todas as células. Somos células do cosmo. Pertençamos ao todo. 

Os núcleos celulares estão interligados. Comunicação entre as células. A rede neural funciona na base de estímulos múltiplos nos diferentes contatos. No uno e alter.

Ninguém pode dizer que faz o que quiser porque não devo nada a ninguém: tudo é interligado. Todas as células na rede se comportam: conexão e desconexão. 

Na nanociência todas as células são iguais. Cada célula tem o seu DNA, que a distingue de todas as outras na rede. 

O neurônio visto no seu interno e a complexidade de conexões. Cada neurônio implica na função do funcionamento da rede. 

A rede apresenta uma célula doente o necrosada. Essa célula gera uma tensão na rede toda. 

Autopoieses: movimento de auto restauração. Quando o movimento da restauração é maior da necrose ocorre uma cura. Cfr.: Mt 18,15-18: o perdão em etapas. 

A pedagogia de Jesus era nesta linha, do perdão, da misericórdia. A primeira tentativa de uma comunidade é recuperar as células doentes, resgatar. 

Quando não é possível restaurar a célula é eliminada do sistema, gerando sequelas e cicatrizes para sempre. 

A pedagogia de Jesus é que todo sistema funcione. O bom pastor defende o rebanho. Autopoieses da ágape cristã. 

Jesus e a física quântica.

1. A ágape é incondicional:

a. Ao próximo (Lc 10,29-37)

b. Ao inimigo (Lc 6, 27-35)

2. Aos fortes, a justiça (Mt 20,1-16).

3. Aos fracos a misericórdia e a graça

4. Curar para restaurar a saúde familiar

5. Inserir-se nas enfermidades para sanar sistemas (Mc 2, 15-17: Lc 19,1-10)

6. Reinterpretar e atualizar o passado e as tradições, adequando-as aos novos tempos e momentos (Mt 5-7)

7. Libertar dos ritos e preconceitos do passado (Mc 2,18-28)

8. Construir discípulos e apóstolos para que expulsem demônios e curem todas as enfermidades (Mc 3,13-15)

As células cheias de vida devem comunicar energia e transformar a realidade. 

O DNA da célula. Cada folha e cada ramo é único na videira.



A desconexão é ruptura e gera sofrimento. É fundamental ficar interligado. Estar conectado é conviver harmoniosamente com o meio. 

O pensamento é força, energia, poder. A fé move poder da mente. O milagre depende da quantidade de energia que a fé consegue mover no contexto espiritual (Mc 5,34). 

Quando a gente pensa a gente voa.

Espiritualidade verdadeira não desiste perante as dificuldades. A força quântica desprendida da mente pode atuar de maneira surpreendente sobre a matéria.

A oração é conexão com Deus e com o cosmo, é a força da mente, expressão da fé que é crer. Crer é transformar. 

O pensamento é energia: tendes fé em Deus. A fé é um processo. Somos o que pensamos. Os nossos pensamentos determinam nossas ações. Não basta tentar agir de modo convencional, é mister moldar os pensamentos, eles são a origem das atitudes. 

A oração como poder do pensamento: Pai nosso...

Na compreensão da rede está o conceito de conexão cósmica, todas as células estão interligadas no cosmos. Ecologia é pertença e identidade com o todo. 

Pensar positivamente é acreditar sempre nas coisas belas e boas. O pensamento positivo é perene e se alimenta com ondas de alta frequência. 

Há dois tipos de conexão:

a. Curta duração

b. Longa duração.

Toda religião que carece de espiritualidade se torna uma ideologia de dominação e poder. Quanto menor é a espiritualidade maior a violência e autoritarismo. Todo ditador é uma pessoa insegura. 



Espírito: animo, está no gene, é inata e vem de Deus. Perpassa a inteligência e o coração. É a razão da ação. 

Religião: expressão do rito, da fórmula, dogma, exterior. A religião pode ser manipulada. É o lugar das cerimonias, precisa de um templo de pedra, é a força da Lei, pode camuflar a justiça. O rito religioso é verdadeiro quando é alimentado pela espiritualidade. 

A célula é o alter, mas forma o UM na rede. Jesus afirma que Ele e o Pai são UM, assim o discípulo forma o UM cósmico. 


quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

A DOENÇA DO TRADICIONALISMO LITURGICO

 



O Papa Francisco nunca hesitou em criticar os representantes "retrógrados" da Igreja. No entanto, suas declarações mais recentes sobre o tradicionalismo litúrgico em sua Igreja dificilmente poderiam ser mais incisivas.

A informação é publicada por Katolish.de, 14-01-2025.

O Papa Francisco fez duras críticas a representantes ultraconservadores da Igreja que continuam apegados à chamada Missa Tridentina. O Papa havia limitado fortemente esse rito litúrgico, no qual o sacerdote celebra em latim e de costas para os fiéis. Em sua autobiografia "Esperança", publicada na terça-feira, ele justificou essa polêmica decisão afirmando que não é produtivo transformar a liturgia em uma questão ideológica.


"É curioso esse fascínio pelo incompreensível, pelo som misterioso, que muitas vezes desperta o interesse das gerações mais jovens", disse o Papa. "Essa postura rígida geralmente vem acompanhada de vestes preciosas e caras, com bordados, rendas e estolas". Francisco criticou, afirmando que isso não é uma alegria pela tradição, mas pura ostentação de clericalismo, não um retorno ao sagrado, mas uma modernidade sectária.


Distúrbios emocionais e problemas comportamentais

"Às vezes, por trás dessas vestimentas, escondem-se desequilíbrios graves, distúrbios afetivos, problemas de comportamento ou um desconforto pessoal que pode ser instrumentalizado", escreveu o Papa. Ele relatou que enfrentou essa problemática em quatro ocasiões durante seu pontificado: três na Itália e uma no Paraguai.

Esses casos envolviam dioceses que aceitavam candidatos ao sacerdócio rejeitados por outros seminários. "Esses candidatos geralmente têm algo de errado, algo que os leva a esconder sua personalidade por trás de conceitos rígidos e sectários", alertou Francisco.

Ele também classificou como hipocrisia as resistências internas da Igreja contra a abertura dos sacramentos para divorciados recasados e contra a bênção de casais homossexuais. "O tradicionalismo, essa insistência recorrente em uma 'retrógrada' em cada século, é um fenômeno sociologicamente interessante, pois sempre remete a um tempo supostamente perfeito, mas que muda a cada ocasião", escreveu o pontífice, de 88 anos.


Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/647914-papa-francisco-confronta-tradicionalistas-da-liturgia  

sábado, 11 de janeiro de 2025

Caminhar mancando




 Paolo Cugini


Nos últimos dias fui levado a refletir sobre uma frase de São Tomás de Aquino que encontrei no Ofício de Leituras, que dizia assim:

 “É melhor mancar na estrada do que caminhar em passo acelerado. Aqueles que mancam na estrada, mesmo que façam pouco progresso, estão, no entanto, chegando ao fim. Por outro lado, quem se desvia, quanto mais rápido corre, mais se afasta do seu objetivo”.

Enquanto lia atentamente este texto de Santo Tomás de Aquino, veio-me à mente outro do sociólogo polaco Zygmunt Bauman. Num de seus famosos livros – Amor Liquido - Bauman argumentou que uma característica da era atual, chamada de pós-moderna, é a velocidade da cidade, a rapidez das mudanças, o que exige uma notável capacidade de mobilidade nas pessoas e a consequente capacidade de não identificar-se com qualquer coisa. Para poder acompanhar a diversidade de situações e as novas possibilidades que a pós-modernidade apresenta, segundo Bauman é preciso ser “líquido”, não nos prendermos muito a algo que pode então nos impedir de entrar em novos situações. O homem e a mulher contemporâneos, ensina Bauman, são aqueles que aprenderam a mudar continuamente de caminho, porque parece que o importante não é o destino, mas a jornada.  Ao ler estas afirmações alguns podem ficar chocados, mas é exatamente este estilo de vida que a cultura atual propõe em diferentes níveis de complexidade e que assimilamos.

Talvez o significado de uma jornada espiritual deveria ser ajudar-nos a aceitar de caminhar mancando na estrada em que estamos e vencer a tentação de correr por outras estradas. Mancar na estrada significa aprender a aceitar-nos como somos, acolhendo e integrando os nossos limites e as nossas incapacidades na nossa visão do mundo. Jesus subiu mancando o Calvário, sem dúvida não por causa dos seus próprios pecados, já que não tinha nenhum, mas tomando sobre si os nossos. Essa lenta e sangrenta jornada até o Monte Calvário ensina muitas coisas. 

Em primeiro lugar, dissipa uma opinião tipicamente pós-moderna que diz que a vida deve ser feita com pressa, que é preciso correr e que é preciso chegar sempre antes dos outros. Em segundo lugar, o caminho manco de Cristo no Calvário ensina que no caminho que percorremos devemos olhar para a meta que é Cristo e que não é verdade que todos os meios possíveis possam ser usados para alcançá-la. As quedas de Jesus ao subir o Calvário nos ensinam que o primeiro meio importante para alcançar a meta somos nós. O caminho atrás do Senhor manco, ajuda-nos a compreender-nos, a descobrir-nos, a compreender quem somos e assim a libertar-nos finalmente daquelas máscaras que colocamos para parecermos diferentes, mais rápidos, quase iguais aos outros. Jesus ensanguentado na cruz nos ensina que não é importante no caminho da vida parecer limpo, perfeito, penteado, mas mostrar-nos como somos. O importante não é o que parecemos aos outros, mas o que somos. O importante não é a aparência, mas a autenticidade, não é mancar, mas chegar.

Parece-me que esta forma de estar no mundo, isto é, como pessoas autênticas, revela a importância de um caminho espiritual sério. Quem não decide levar a sério a vida espiritual perde uma oportunidade de ouro de se conhecer melhor e, portanto, de poder viver em paz consigo mesmo e com os outros. E só assim descobriremos que a verdadeira felicidade não está em correr por muitos caminhos, mas em descobrir a beleza do próprio caminho, não está em ir rápido, mas em caminhar devagar, cuidando das próprias feridas. Nesta lenta jornada pela estrada da vida , aprendendo a curar nossas feridas para alcançar a meta, descobriremos que ao nosso lado, na mesma estrada ,  existe alguém que está mancando e precisa ser levantado para continuar andando. São os dons que a beleza da lentidão mostra ao longo do caminho e que jamais poderíamos descobrir na agonia da velocidade.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Uma liturgia com os traços da humanidade de Jesus

 




Paolo Cugini


Para compreendermos o significado da liturgia na vida da comunidade cristã buscando nas origens e, de modo especial, olhando para Jesus, para os Evangelhos, percebemos que há um traço marcante em seu modo de se relacionar com o mundo e com as pessoas: sua humanidade. É este aspecto da humanidade de Jesus que deve moldar a celebração litúrgica. Podemos logo afirmar que a lliturgia deveria reproduzir os traços da humanidade de Jesus, pois a partir de sua vinda, encontramos Deus através da humanidade de seu Filho Jesus.

Há um caminho de humanização que a vida cristã deve percorrer. A Gaudium et Spes (GS) recorda-nos que: “Quem segue a Cristo torna-se também mais homem” (GS 4). É na qualidade humana dos fiéis e das comunidades cristãs que a credibilidade da mensagem cristã se manifesta. É a qualidade de vida humana que faz a diferença. O humanismo evangélico, em sua profunda cumplicidade com o humano autêntico, representa o presente e sobretudo o futuro do cristianismo. Na humanidade de Jesus, nos seus gestos humanos encontramos a divindade de Deus. A busca de uma liturgia mais humana não consiste apenas em recordar a dimensão ética da liturgia, nem ainda outra estratégia pastoral. O problema é, de fato, de natureza teológica e, portanto, essencial para que seja uma liturgia cristã e não um mero rito religioso como muitos outros. A nossa liturgia é cristã, se estiver em conformidade com a humanidade de Jesus.

Se o mistério de Deus foi revelado através da humanidade de Jesus, da mesma forma a liturgia deve ser fiel ao modo desta revelação. Até a celebração da revelação de Deus deve ter a forma do Evangelho. O modo de celebrar na liturgia deve conformar-se ao modo como Deus se revelou em Jesus, em sua humanidade. A liturgia é revelação em ação. Precisamente o documento conciliar Sacrosantum Concilium (SC) nos lembra que “Através da liturgia se realiza a obra da nossa redenção” (SC 1). Foram estas ideias que orientaram a reforma do CV II, para reconduzir a liturgia às suas origens, isto é, ao Evangelho. Jesus falava a língua do povo, e não uma língua sagrada. Jesus falou e se fez entender. Ele celebrou a Eucaristia pela primeira vez em torno de uma mesa. Os primeiros discípulos partiram o pão em suas casas. Uma humanidade, a de Jesus, caracterizada por um convívio constante: Jesus sentava-se à mesa com todos e todas. A última ceia é o último de muitos jantares com seus discípulos e discipulas. A centralidade do altar nas nossas igrejas lembra-nos que a comunidade cristã é uma comunidade de mesa, porque Jesus assim quis e, consequentemente, a Eucaristia refere-se à relacionalidade, ao cuidado dos gestos entre as pessoas que dela participam.

A referência de Jesus na Última Ceia não é o contexto sacrificial, mas sim um contexto doméstico, comunitário, uma liturgia conduzida pelo pai de família, num contexto informal e próximo da vida. Jesus queria para sua comunidade uma mesa partilhada em contexto familiar; isto significa que: as formas rituais que o expressam não devem distanciar-se da vida. Por isso, são estranhas as atitudes reverenciais e distanciadas, próprias de um contexto sacrificial e sacro, mas totalmente alheias ao contexto familiar e humano desejado por Jesus. Se retirarmos da liturgia o que é autenticamente humano ao mesmo tempo tiramos o que é autenticamente divino . Na liturgia, devemos encontrar a gramática da vida. Isto também se aplica à linguagem da liturgia. O Vaticano II deu a possibilidade de aceder às línguas faladas precisamente para recuperar o fato primordial de toda relação autêntica: a linguagem. Não há possibilidade de relacionamento sem a possibilidade de compreender o que o outro diz. Jesus falava em aramaico, a língua de seu tempo, através da qual se fazia entender. Jesus não falava uma língua sagrada, mas usava expressões da vida das pessoas; não morava em sacristias ou universidades e usava o vocabulário da vida cotidiana, muito mais do que o religioso. “As multidões ficavam maravilhadas com o seu ensinamento” (Mt 7,28). “Nunca um homem falou assim” (Jo 7,46).

O anúncio do Evangelho, hoje, somente pode realizar-se com base em respostas credíveis à pergunta: “crer ajuda-me a viver”? A relação entre liturgia e vida apresenta-se de uma forma nova, em comparação com a época do Concílio. Hoje exprime-se, pedindo que a celebração seja um lugar vital, para regenerar a vida de cada crente. A liturgia como lugar gerador e regenerador do crente para a vida, fonte de vida comunitária, exige uma atenção constante à reprodução no contexto litúrgico dos traços da humanidade de Jesus. A liturgia, portanto, deveria ser uma continuação dos evangelhos, de tal forma que as pessoas que participam dos ritos se sintam envolvidas pela humanidade de Jesus e o reconheçam presente neles. Nos Evangelhos encontramos declarações que expressam o desejo de as pessoas de encontrar Jesus e que são verdadeiras expressões litúrgicas: “Senhor, ajuda-me!” (Mt 15,25); “Jesus, tenha misericórdia de mim!” (Mc 10,47); “Senhor, o meu servo sofre em casa” (Mt 8,6). Esta liturgia dos Evangelhos fala-nos do homem Jesus, que escuta os pedidos vitais do povo, que caminha com os homens e as mulheres de seu tempo, se deixa tocar, pára para ouvir, acaricia, ri, chora: há tanta humanidade em seus gestos! Por isso, a partir de agora, depois de Jesus, o sagrado não precisa mais ser coberto com os sinais de poder para induzir medo e reverência, mas deve ser despojado, porque o Pai, através do Filho, decidiu colocar uma tenda no meio de nós. É a simplicidade dos gestos humanos que fala da grandeza do amor de Jesus, que encontramos em sua humanidade. Diante da vastidão da mensagem cristã, do hiperativismo da vida paroquial, da complexidade de nossos ritos, de sua redundância barroca, a simplicidade da liturgia dos Evangelhos é impressionante. Retornar aos gestos simples da humanidade de Jesus é a tarefa atual da liturgia na Igreja, tarefa indicada pelo CV II.

Só uma liturgia humana pode celebrar a vida humana, seguindo o caminho traçado por Jesus e, o sofrimento, é o ponto mais alto da humanidade. O critério de verdade na liturgia é assumir o sofrimento: o abandono, a exclusão, a solidão. A tarefa de uma liturgia humana é contribuir para humanizar a realidade. Comunhão, caridade, hospitalidade: a liturgia é um recurso da humanidade. Tal como todos aqueles que se sentiam excluídos da sociedade se dirigiram a Jesus, também hoje todos aqueles que no mundo se sentem excluídos, marginalizados, ridicularizados, discriminados devem se sentir acolhidos na liturgia. É no sinal dos pregos que se vê o amor daquele que o Pai ressuscitou. Da mesma forma, é numa comunidade que coloca os pobres, os crucificados da história no centro das suas liturgias que o mundo pode reconhecer a luz do Ressuscitado. Na Oração Eucarística V lemos: “dai-nos olhos para ver as necessidades e os sofrimentos dos nossos irmãos e irmãs”. A celebração eucarística é o lugar da fraternidade e a Eucaristia é o ensinamento mais elevado da humanidade. Não podemos receber inocentemente o pão da vida sem compartilhá-lo com os necessitados. A nossa fé eucarística chama-nos a viver uma ética eucarística, que nos leva a experimentar uma humanidade mais profunda para com os necessitados. É Cristo quem vem ao nosso encontro na liturgia com os pobres, os migrantes, os excluídos. A Eucaristia é um protesto contra a desigualdade e ela contém uma utopia: não é possível sermos humanos ao celebrá-la e sermos desumanos ao sair da Igreja.


quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

CARTA ENCÍCLICA DILEXIT NOS DO SANTO PADRE FRANCISCO

 




SOBRE O AMOR HUMANO E DIVINO DO CORAÇÃO DE JESUS

Síntese: Paolo Cugini


Dado em Roma, junto de São Pedro, a 24 de outubro do ano 2024, décimo segundo do meu Pontificado.


CAPÍTULO I

A IMPORTÂNCIA DO CORAÇÃO

 «Amou-nos», diz São Paulo referindo-se a Cristo (Rm 8, 37), para nos ajudar a descobrir que nada «será capaz de separar-nos» desse amor (Rm 8, 39). Paulo afirmava-o com firme certeza, porque o próprio Cristo tinha garantido aos seus discípulos: «Eu vos amei» (Jo 15, 9.12). Disse também: «Chamei-vos amigos» (Jo 15, 15). O seu coração aberto precede-nos e espera-nos incondicionalmente, sem exigir qualquer pré-requisito para nos amar e oferecer a sua amizade: Ele amou-nos primeiro (cf. 1 Jo 4, 10). Graças a Jesus, «conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (1 Jo 4, 16).

O que entendemos quando dizemos “coração”?

No grego clássico profano, o termo kardía designa a parte mais íntima dos seres humanos, dos animais e das plantas. 

 A Bíblia diz que «a Palavra de Deus é viva, eficaz [...] e discerne os sentimentos e as intenções do coração» (Heb 4, 12). Deste modo, fala-nos de um núcleo, o coração, que se esconde por detrás de todas as aparências, e até mesmo de pensamentos superficiais que nos confundem

O coração é igualmente o lugar da sinceridade, onde não se pode enganar ou dissimular.

Regressar ao coração

Neste mundo líquido, é necessário voltar a falar do coração; indicar onde cada pessoa, de qualquer classe e condição, faz a própria síntese; onde os seres concretos encontram a fonte e a raiz de todas as suas outras potências, convicções, paixões e escolhas.

Ao não se dar o devido valor ao coração, desvaloriza-se também o que significa falar a partir do coração, agir com o coração, amadurecer e curar o coração.

É preciso afirmar que temos um coração e que o nosso coração coexiste com outros corações que o ajudam a ser um “tu”.

 É necessário que todas as ações sejam colocadas sob o “controle político” do coração, que a agressividade e os desejos obsessivos sejam acalmados no bem maior que o coração lhes oferece e na força que ele tem contra os males; que a inteligência e a vontade sejam também postas ao seu serviço, sentindo e saboreando as verdades em vez de as querer dominar, como algumas ciências tendem a fazer; que a vontade deseje o bem maior que o coração conhece, e que a imaginação e os sentimentos se deixem também moderar pelo bater do coração.

 Em última análise, poder-se-ia dizer que eu sou o meu coração, porque é ele que me distingue, que me molda na minha identidade espiritual e que me põe em comunhão com as outras pessoas.

O coração que une os fragmentos

 O coração é também capaz de unificar e harmonizar a própria história pessoal, que parece fragmentada em mil pedaços, mas na qual tudo pode adquirir sentido. É isso que o Evangelho exprime no olhar de Maria, que olhava com o coração.

Este núcleo de cada ser humano, o seu centro mais íntimo, não é o núcleo da alma, mas da pessoa inteira na sua identidade única, que é alma e corpo. Tudo está unificado no coração, que pode ser a sede do amor com todas as suas componentes espirituais, psíquicas e também físicas. Em última análise, se aí reina o amor, a pessoa realiza a sua identidade de forma plena e luminosa, porque cada ser humano é criado sobretudo para o amor; é feito nas suas fibras mais profundas para amar e ser amado.

O mundo pode mudar a partir do coração

 Só a partir do coração é que as nossas comunidades serão capazes de unir e pacificar os diferentes intelectos e vontades, para que o Espírito nos possa guiar como uma rede de irmãos, porque a pacificação é também uma tarefa do coração. O Coração de Cristo é êxtase, é saída, é dom, é encontro. N’Ele tornamo-nos capazes de nos relacionarmos uns com os outros de forma saudável e feliz, e de construir neste mundo o Reino de amor e de justiça. O nosso coração unido ao de Cristo é capaz deste milagre social.

 Levar o coração a sério tem consequências sociais.

CAPÍTULO II

GESTOS E PALAVRAS DE AMOR

 O Coração de Cristo, que simboliza o centro pessoal de onde brota o seu amor por nós, é o núcleo vivo do primeiro anúncio. Ali se encontra a origem da nossa fé, a fonte que mantém vivas as convicções cristãs.

Gestos que refletem o coração

 O modo como nos ama é algo que Cristo não quis explicar-nos exaustivamente. Mostra-o nos seus gestos. Observando-O, podemos descobrir como trata cada um de nós, mesmo que nos custe perceber isso. Procuremos, pois, onde a nossa fé pode reconhecê-Lo: no Evangelho.

 Isto se torna evidente quando vemos o modo como age. Está sempre à procura, sempre próximo, sempre aberto ao encontro. Contemplamos isto quando se detém a conversar com a Samaritana, junto do poço onde ela ia buscar água.

O olhar

O Evangelho conta-nos que se aproximou dele um homem rico, cheio de ideais, mas sem forças para mudar de vida. Então «Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele».

Muitos textos do Evangelho mostram-nos que Jesus está atento às pessoas, às suas preocupações, ao seu sofrimento. Por exemplo: «Contemplando a multidão, encheu-se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida».

 Precisamente porque está atento, é capaz de reconhecer cada boa intenção que temos, cada pequena boa ação que praticamos. O Evangelho diz que «Viu também uma viúva pobre depositar [no cofre do tesouro do templo] duas moedinhas».

As palavras

 Embora nas Escrituras tenhamos a sua Palavra sempre viva e atual, por vezes Jesus fala interiormente e convoca-nos para nos conduzir ao melhor lugar. Esse lugar melhor é o seu próprio Coração. Ele chama-nos para nos introduzir no lugar onde podemos recuperar a força e a paz: «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos» (Mt 11, 28). Por isso, pede aos seus discípulos: «Permanecei em mim» (Jo 15, 4).

As palavras que Jesus pronunciou indicavam que a sua santidade não elimina os sentimentos. Por vezes, mostravam um amor apaixonado, que sofre por nós, se comove, se lamenta e chega, até mesmo, às lágrimas.

CAPÍTULO III

ESTE É O CORAÇÃO QUE TANTO AMOU

A devoção ao Coração de Cristo não é o culto a um órgão separado da Pessoa de Jesus. O que contemplamos e adoramos é a Jesus Cristo por inteiro, o Filho de Deus feito homem, representado numa imagem sua em que se destaca o seu coração. Neste caso, o coração de carne é entendido como imagem ou sinal privilegiado do centro mais íntimo do Filho incarnado e do seu amor ao mesmo tempo divino e humano, porque, mais do que qualquer outro membro do seu corpo, é «o índice natural ou o símbolo da sua imensa caridade».

Adoração a Cristo

É indispensável sublinhar que nos relacionamos com a Pessoa de Cristo, através da amizade e da adoração, atraídos pelo amor representado na imagem do seu Coração. Veneramos essa imagem que O representa, mas a adoração dirige-se apenas a Cristo vivo, na sua divindade e em toda a sua humanidade, para nos deixarmos abraçar pelo seu amor humano e divino.


A veneração da sua imagem

 Convém notar que a imagem de Cristo com o seu coração, ainda que de maneira nenhuma possa ser objeto de adoração, não é uma imagem qualquer, entre muitas outras que poderíamos escolher. Não é algo inventado de modo abstrato ou desenhado por um artista, «não é um símbolo imaginário, é um símbolo real, que representa o centro, a fonte da qual brotou a salvação para a humanidade inteira».

Há uma experiência humana universal que torna esta imagem única.

O coração tem o valor de ser percebido não como um órgão separado, mas como um centro íntimo que gera unidade e, ao mesmo tempo, como expressão da totalidade da pessoa, o que não acontece com outros órgãos do corpo humano. 

Amor sensível

Amor e coração não estão necessariamente unidos, pois num coração humano podem reinar o ódio, a indiferença e o egoísmo. Porém, não atingimos a nossa plena humanidade se não saímos de nós mesmos, tal como não nos tornamos inteiramente nós mesmos se não amamos. Portanto, o centro mais íntimo da nossa pessoa, criado para o amor, só realizará o projeto de Deus enquanto amar. Assim, o símbolo do coração simboliza ao mesmo tempo o amor.

 O Filho eterno de Deus, que infinitamente me transcende, quis amar-me também com um coração humano.

Tríplice amor

Entretanto, não nos detemos só nos seus sentimentos humanos, por mais belos e comoventes que sejam, pois, contemplando o Coração de Cristo reconhecemos como nos seus sentimentos nobres e sadios, na sua ternura, no vibrar do seu afeto humano, se manifesta toda a verdade do seu amor divino e infinito.

Na realidade, há um tríplice amor que está contido e nos deslumbra na imagem do Coração do Senhor. Primeiramente, o amor divino infinito que encontramos em Cristo. Mas, pensamos também na dimensão espiritual da humanidade do Senhor. Desde esse ponto de vista, «o coração de Cristo é símbolo de enérgica caridade, que, infundida em sua alma, constitui o precioso dote da sua vontade humana […]. Finalmente […] é símbolo do seu amor sensível».

Estes três amores não são capacidades separadas, funcionando de forma paralela ou desconexa, mas atuam e exprimem-se em conjunto e num fluxo constante de vida.

 Por isso, entrando no Coração de Cristo, sentimo-nos amados por um coração humano, cheio de afetos e sentimentos como os nossos.

Perspectivas trinitárias

 A devoção ao Coração de Jesus é marcadamente referida a Cristo; é uma contemplação direta de Cristo que convida à união com Ele.

 Se buscamos aprofundar o mistério da ação do Espírito, vemos que Ele geme em nós e diz “Abbá”: «Porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: “Abbá! – Pai!”» 

Expressões recentes do Magistério

 O Coração de Cristo esteve presente na história da espiritualidade cristã de diversas maneiras. Na Bíblia e nos primeiros séculos da Igreja, aparecia sob a figura do lado ferido do Senhor, quer como fonte de graça, quer como apelo a um encontro íntimo de amor. Assim reapareceu constantemente no testemunho de muitos santos até aos nossos tempos. Nos últimos séculos, esta espiritualidade tomou a forma de um verdadeiro culto ao Coração do Senhor.

Aprofundamento e atualidade

 A devoção ao Coração de Cristo é essencial para a nossa vida cristã, na medida em que significa a nossa abertura, cheia de fé e de adoração, ao mistério do amor divino e humano do Senhor, até ao ponto de podermos voltar a afirmar que o Sagrado Coração é um compêndio do Evangelho 

 Perante o Coração de Cristo, é possível voltar à síntese encarnada do Evangelho e viver o que propus há pouco, recordando a amada Santa Teresa do Menino Jesus: «A atitude mais adequada é depositar a confiança do coração fora de nós mesmos, ou seja, na infinita misericórdia de um Deus que ama sem limites e que deu tudo na Cruz de Jesus».

CAPÍTULO IV

AMOR QUE DÁ DE BEBER

 Voltemos à Sagrada Escritura, aos textos inspirados que são o lugar principal onde encontramos a Revelação. Nelas e na Tradição viva da Igreja está contido o que o próprio Senhor nos quis dizer para toda a história. A partir da leitura de textos do Antigo e do Novo Testamento, recolheremos alguns dos efeitos da Palavra no longo caminho espiritual do Povo de Deus.

Sede do amor de Deus

93. A Bíblia mostra que uma abundância de água vivificante foi anunciada ao povo que tinha caminhado pelo deserto e esperava a libertação: «Tirareis água com alegria das fontes da salvação» (Is 12, 3).

Ressonâncias da Palavra na história

 Consideremos alguns dos efeitos que esta Palavra de Deus produziu na história da fé cristã. Vários Padres da Igreja, sobretudo da Ásia Menor, mencionaram a chaga do lado de Jesus como a origem da água do Espírito: a Palavra, a sua graça e os sacramentos que a comunicam. A força dos mártires vive da «fonte celeste de água viva que brota das entranhas de Cristo» 

A difusão da devoção ao Coração de Cristo

 O lado trespassado, onde reside o amor de Cristo, do qual, por sua vez, brota a vida da graça, assumiu gradualmente a forma do coração, sobretudo na vida monástica. Sabemos que, ao longo da história, o culto ao Coração de Cristo não se manifestou de modo igual, e que os aspectos desenvolvidos nos tempos modernos, relacionados com diversas experiências espirituais, não podem ser extrapolados para as formas medievais e muito menos para as formas bíblicas, nas quais podemos vislumbrar as sementes deste culto. No entanto, hoje a Igreja não despreza nenhum dos bens que o Espírito Santo nos deu ao longo dos séculos, sabendo que será sempre possível reconhecer em certos pormenores da devoção um sentido mais claro e pleno, ou compreender e desvendar novos aspectos dela.

 Várias mulheres santas relataram experiências de encontro com Cristo, caracterizado pelo repouso no Coração do Senhor, fonte de vida e de paz interior.

São Francisco de Sales

Nos tempos modernos, destaca-se o contributo de São Francisco de Sales. Ele contemplou muitas vezes o Coração aberto de Cristo, que nos convida a habitar dentro dele numa relação pessoal de amor, na qual se iluminam os mistérios da vida. 

Podemos ver no pensamento deste santo doutor como, face a uma moral rigorista ou a uma religiosidade de mero cumprimento de obrigações, o Coração de Cristo lhe aparece como um apelo à plena confiança na ação misteriosa da sua graça. 

É assim que ele se exprime na sua proposta à baronesa de Chantal: «É para mim bem claro que não permaneceremos mais em nós mesmos [...] habitaremos para sempre no lado trespassado do Salvador, pois sem ele não só não podemos, mas, mesmo que pudéssemos, não quereríamos fazer nada»

Uma nova declaração de amor

 Foi sob a influência salutar da espiritualidade de São Francisco de Sales que tiveram lugar os acontecimentos de Paray-le-Monial, no final do século XVII. Santa Margarida Maria Alacoque relatou importantes aparições entre o fim de dezembro de 1673 e junho de 1675. É fundamental a declaração de amor que se destaca na primeira grande aparição. 

Jesus diz: «O meu divino Coração está tão abrasado de amor para com os homens, e em particular para contigo, que, não podendo já conter em si as chamas da sua ardente caridade, precisa derramá-las por teu meio, e manifestar-se-lhes para os enriquecer de seus preciosos tesouros, que eu te mostro a ti»

São Cláudio de La Colombière

Quando São Cláudio de La Colombière soube das experiências de Santa Margarida, tornou-se imediatamente seu defensor e divulgador. Ele teve um papel especial na compreensão e difusão desta devoção ao Sagrado Coração, mas também na sua interpretação à luz do Evangelho.

São Charles de Foucauld e Santa Teresa do Menino Jesus

São Charles de Foucauld e Santa Teresa do Menino Jesus, sem o pretenderem, reformularam certos elementos da devoção ao Coração de Cristo, ajudando-nos a compreendê-la de uma forma ainda mais fiel ao Evangelho. Vejamos agora como se exprime esta devoção nas suas vidas. No próximo capítulo voltaremos a eles para mostrar a originalidade da dimensão missionária que ambos desenvolveram de modos diferentes.

Iesus Caritas

Em Louye, São Charles de Foucauld fazia visitas ao Santíssimo Sacramento com a sua prima, Madame de Bondy, e um dia ela indicou-lhe uma imagem do Sagrado Coração.

Santa Teresa do Menino Jesus

Tal como São Charles de Foucauld, Santa Teresa do Menino Jesus respirou a enorme devoção que inundava a França no século XIX. Padre Almire Pichon foi o diretor espiritual da sua família e foi considerado um grande apóstolo do Sagrado Coração. 

Uma irmã sua tomou o nome religioso de “Maria do Sagrado Coração”, e o mosteiro em que Santa Teresa entrou era dedicado ao Sagrado Coração. No entanto, a sua devoção assumiu algumas características próprias, que iam além das formas pelas quais se expressava naquela época.

Ressonâncias na Companhia de Jesus

 Vimos como São Cláudio de La Colombière relacionava a experiência espiritual de Santa Margarida com a proposta dos Exercícios Espirituais. Penso que o lugar do Sagrado Coração na história da Companhia de Jesus mereça algumas breves palavras.

A espiritualidade da Companhia de Jesus sempre propôs um «conhecimento interno do Senhor […] para que mais o ame e o siga». Nos seus Exercícios Espirituais, Santo Inácio convida a colocarmo-nos diante do Evangelho que nos diz sobre Jesus: «ferido com a lança o seu lado, manou água e sangue».

Uma longa corrente de vida interior

A devoção ao Coração de Cristo reaparece no caminho espiritual de vários santos muito diferentes entre si e, em cada um deles, esta devoção assume novos aspectos. São Vicente de Paulo, para dar um exemplo, dizia que o que Deus quer é o coração: «Deus pede principalmente o coração, o coração, que é o principal. Por que razão quem não tem bens merece mais do que quem, tendo grandes posses, renuncia a elas? Porque quem não tem nada, vai a Ele com mais afeto; e é isso que Deus quer de modo especial».

 Isto implica aceitar que o próprio coração se una ao de Cristo: «Uma Irmã que faz todo o possível para predispor o seu coração a estar unido ao de Nosso Senhor […] quantas bênçãos não receberá de Deus!»

A devoção da consolação

151. A chaga do lado, de onde brota a água viva, permanece aberta no Ressuscitado. Esta grande ferida causada pela lança, e as chagas da coroa de espinhos que aparecem com frequência nas representações do Sagrado Coração, são inseparáveis desta devoção. Nela contemplamos o amor de Jesus Cristo que foi capaz de se entregar até ao fim. 

O coração do Ressuscitado conserva estes sinais da doação total que implicou um intenso sofrimento por nós. Portanto, de algum modo, é inevitável que o fiel queira responder não só a este grande amor, mas também à dor que Cristo aceitou suportar por causa de tanto amor.

CAPÍTULO V

AMOR POR AMOR

Nas experiências espirituais de Santa Margarida Maria encontramos, junto da declaração ardente do amor de Jesus Cristo, uma ressonância interior que nos chama a dar a vida. Sabermo-nos amados e colocar toda a nossa confiança nesse amor não significa anular as nossas capacidades de doação, não implica renunciar ao desejo irrefreável de dar alguma resposta a partir das nossas pequenas e limitadas capacidades.

Um lamento e um pedido

 A partir da segunda grande manifestação a Santa Margarida, Jesus exprime dor porque o seu grande amor pelos homens «não recebia senão ingratidão e friezas. Isto – disse-me Ele – custa-me muito mais do que tudo quanto sofri na minha Paixão».

Prolongar o seu amor nos irmãos

É preciso voltar à Palavra de Deus para reconhecer que a melhor resposta ao amor do seu Coração é o amor aos irmãos; não há maior gesto que possamos oferecer-lhe para retribuir amor por amor. A Palavra de Deus di-lo com toda a clareza:

«Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40).

«Toda a Lei se cumpre plenamente nesta única palavra: Ama o teu próximo como a ti mesmo» (Gl 5, 14).

«Nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama, permanece na morte» (1 Jo 3, 14).

«Aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê» (1 Jo 4, 20).


Algumas ressonâncias na história da espiritualidade

Esta união entre a devoção ao Coração de Jesus e o compromisso com os irmãos atravessa a história da espiritualidade cristã. Vejamos alguns exemplos.

Ser uma fonte para os outros

A partir de Orígenes, vários Padres da Igreja interpretaram o texto de João 7, 38 – «hão de correr do seu coração rios de água viva» – como referindo-se ao próprio fiel, ainda que seja a consequência de ele próprio ter bebido de Cristo. Assim, a união com Cristo não tem apenas o objetivo de saciar a própria sede, mas de se tornar uma fonte de água fresca para os outros. 

Orígenes dizia que Cristo cumpre a sua promessa fazendo brotar em nós correntes de água: «A alma do ser humano, que é imagem de Deus, pode conter em si mesma e produzir de si mesma poços, fontes e rios»

Fraternidade e mística

São Bernardo, ao mesmo tempo que convidava à união com o Coração de Cristo, aproveitava a riqueza desta devoção para propor uma mudança de vida fundada no amor. Ele acreditava que era possível uma transformação da afetividade, escravizada pelos prazeres, que não se liberta pela obediência cega a uma ordem, mas numa resposta à doçura do amor de Cristo. Supera-se o mal com o bem, vence-se o mal com o crescimento do amor: «Ama, pois, o Senhor, teu Deus, com o afeto de um coração pleno e íntegro, ama-o com toda a vigilância e circunspeção da razão, ama-o também com todas as forças, de modo que nem sequer tenhas medo de morrer por seu amor […]. Que o Senhor Jesus seja doce e suave ao teu coração, contra os prazeres carnais malignamente doces, e que a doçura vença a doçura, como um prego expulsa outro prego»

A reparação: construir sobre as ruínas

Tudo isto nos permite compreender, à luz da Palavra de Deus, que sentido devemos dar à “reparação” oferecida ao Coração de Cristo, e o que o Senhor realmente espera que reparemos com a ajuda da sua graça. Muito se discutiu a este respeito, mas São João Paulo II ofereceu uma resposta clara aos cristãos de hoje, a fim de nos guiar para um espírito de reparação mais em sintonia com o Evangelho.

Sentido social da reparação ao Coração de Cristo

São João Paulo II explicou que, entregando-nos em conjunto ao Coração de Cristo, «sobre as ruínas acumuladas pelo ódio e pela violência, poderá ser construída a civilização do amor tão desejada, o Reino do Coração de Cristo»; isto implica certamente que sejamos capazes de «unir o amor filial para com Deus ao amor do próximo»; pois bem, «é esta a verdadeira reparação pedida pelo Coração do Salvador». Junto a Cristo, sobre as ruínas que, com o nosso pecado, deixámos neste mundo, somos chamados a construir uma nova civilização do amor. Isto é reparar conforme o que o Coração de Cristo espera de nós. No meio do desastre deixado pelo mal, o Coração de Cristo quis precisar da nossa colaboração para reconstruir a bondade e a beleza.

Reparar os corações feridos

Por outro lado, uma reparação meramente exterior não é suficiente; nem para o mundo, nem para o Coração de Cristo. Se cada um pensar nos seus próprios pecados e nas consequências para os outros, descobrirá que reparar os danos causados a este mundo implica também o desejo de reparar os corações feridos, onde se produziu o dano mais profundo, a ferida mais dolorosa.

O espírito de reparação «convida-nos a esperar que cada ferida possa ser curada, por mais profunda que seja. A reparação completa parece por vezes impossível, quando se perdem definitivamente bens ou pessoas queridas, ou quando certas situações se tornam irreversíveis. Mas a intenção de reparar e de o fazer concretamente é essencial para o processo de reconciliação e para o regresso da paz ao coração» .

A beleza de pedir perdão

Não bastam as boas intenções; é indispensável um dinamismo interior de desejo, que terá consequências externas. Em suma, «a reparação, para ser cristã, para tocar o coração da pessoa ofendida e não ser um simples ato de justiça comutativa, pressupõe duas atitudes exigentes: reconhecer a culpa e pedir perdão [...] É deste reconhecimento honesto do mal causado ao irmão, e do sentimento profundo e sincero de que o amor foi ferido, que nasce o desejo de reparar».

Fazer o mundo enamorar-se

 A proposta cristã é atrativa quando pode ser vivida e manifestada na sua integralidade: não como um simples refúgio em sentimentos religiosos ou em cultos faustosos. Que culto seria o de Cristo se nos contentássemos com uma relação individual desinteressada em ajudar os outros a sofrer menos e a viver melhor? Poderá agradar ao Coração que tanto amou se nos mantivermos numa experiência religiosa íntima, sem consequências fraternas e sociais? Sejamos honestos e leiamos a Palavra de Deus na sua inteireza. Por isso mesmo dizemos que não se trata sequer de uma promoção social desprovida de significado religioso, que no fundo seria querer para o ser humano menos do que aquilo que Deus lhe quer dar. É por isso que temos de concluir este capítulo recordando a dimensão missionária do nosso amor ao Coração de Cristo.