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sexta-feira, 29 de maio de 2026

A CONTRIBUIÇÃO DA HERMENEUTICA DE MARTIN HEIDEGGER Á EXEGESE BIBLICA

 




Paolo Cugini

 

 

A virada ontológica promovida por Martin Heidegger transformou radicalmente a exegese bíblica moderna, movendo a interpretação de uma mera análise filológica e histórica para um acontecimento existencial. A exegese tradicional tratava o texto sagrado como um objeto distante a ser dissecado por um sujeito neutro. A hermenêutica heideggeriana demonstrou que o intérprete já está inserido em um horizonte prévio de compreensão, tornando a leitura bíblica um encontro vivo que interpela a própria existência do leitor.

A Desconstrução do sujeito neutro e o círculo hermenêutico

Na obra fundamental "Ser e Tempo" (1927), Heidegger desconstrói o modelo epistemológico tradicional sujeito-objeto. Ele estabelece que a compreensão (Verstehen) não é uma operação cognitiva posterior, mas uma estrutura existencial do Dasein (o ser-no-mundo). Heidegger afirma que toda interpretação se funda em uma diretriz prévia, em uma visão prévia  e em uma concepção prévia (Ser e Tempo, §32, p. 150). Para a exegese bíblica, isso significa que o exegeta nunca se aproxima do texto sagrado de forma neutra ou como uma "tábula rasa". O intérprete sempre traz consigo perguntas morais, angústias existenciais e pressupostos históricos que determinam o que o texto pode responder.

O percurso interpretativo não é um vício lógico, mas uma dinâmica existencial. Conforme descrito em Ser e Tempo (§32, p. 153), o importante não é escapar do círculo, mas entrar nele da maneira correta. O exegeta projeta um sentido sobre o texto bíblico com base em sua pré-compreensão, mas o texto fustiga, corrige e reformula essa projeção inicial, alterando a própria existência do leitor no processo.

A Aplicação exegética de Rudolf Bultmann: A desmitologização

A contribuição de Heidegger alcançou o ápice prático na exegese do Novo Testamento por meio do teólogo protestante Rudolf Bultmann, colega de Heidegger na Universidade de Marburg. Bultmann transpôs diretamente a analítica existencial heideggeriana para o método teológico.

 Em seu ensaio clássico "Novo Testamento e Mitologia" (1941), Bultmann argumenta que a mensagem central do Evangelho (Kerygma) está envolta em uma cosmologia mítica do primeiro século, obsoleta para o homem moderno. Inspirado na destruição fenomenológica de Heidegger, o método desmitologizador não visa eliminar o mito, mas interpretá-lo existencialmente. Passagens que narram intervenções cosmológicas (como anjos, demônios ou a descida dos céus) deixam de ser lidas como relatos científicos-históricos da física do mundo (caráter ôntico) para serem compreendidas como expressões da autocompreensão humana diante de Deus (caráter ontológico/existencial).

O Precedente das cartas paulinas no próprio Heidegger

Historicamente, o impacto entre Heidegger e a exegese bíblica não foi uma via de mão única. No curso ministrado em 1920–1921, publicado postumamente como "Introdução à Fenomenologia da Religião", o jovem Heidegger utilizou as cartas de Paulo aos Tessalonicenses e aos Gálatas para moldar sua própria filosofia. Heidegger identificou na experiência cristã primitiva uma mobilidade temporal única. O cristão paulino não aguarda a segunda vinda de Cristo (Parusia) como um evento cronológico objetivo agendado no calendário. Em vez disso, vive na angústia e vigilância do "como o ladrão na noite" (1 Tes 5:2) Essa temporalidade radical da fé cristã originária foi o substrato que permitiu a Heidegger edificar o conceito de tempo existencial em Ser e Tempo.

A hermenêutica de Heidegger libertou a exegese bíblica do dogmatismo enrijecido e do historicismo estéril. Ao recolocar o ser humano diante do texto não como um espectador curioso, mas como um sujeito cuja existência está em jogo, a filosofia heideggeriana forneceu as ferramentas teóricas indispensáveis para que as Escrituras Sagradas continuassem a falar de forma contundente ao homem contemporâneo.

 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

A HERMENÊUTICA DE GADAMER E A TEOLOGIA DO BAIXO

 




Paolo Cugini

 

A hermenêutica filosófica de Hans-Georg Gadamer auxilia a teologia de baixo ao validar a experiência histórica e existencial do intérprete comum como o ponto de partida legítimo para a compreensão do texto sagrado. Enquanto a teologia de alto prioriza definições dogmáticas descendentes e pressupostos metodológicos rígidos, a teologia de baixo se desenvolve a partir da realidade concreta, das dores e das vivências cotidianas da comunidade. A obra do filósofo alemão, especialmente em Verdade e Método, fornece o arcabouço epistemológico necessário para fundamentar essa abordagem sem cair no subjetivismo arbitrário.

Na modernidade iluminista, os pré-conceitos ou pré-juízos eram vistos como entraves que precisavam ser eliminados para alcançar uma interpretação neutra. Gadamer subverte esse paradigma ao afirmar que os pré-juízos constitutivos da nossa historicidade são, na verdade, as condições iniciais que tornam qualquer entendimento possível. "Não é a história que nos pertence, mas nós é que pertencemos a ela. Muito antes de nos compreendermos a nós mesmos na reflexão, já nos compreendemos de uma maneira autoevidente na família, na sociedade e no Estado em que vivemos." (GADAMER, Verdade e Método)

Para a teologia de baixo, essa premissa é libertadora. Ela válida a realidade social, a pobreza, a exclusão e a cultura do leitor marginalizado não como barreiras para ler a Bíblia, mas como a única lente real através da qual Deus pode ser ouvido de forma viva. O ponto de partida de baixo deixa de ser um defeito interpretativo e passa a ser reconhecido como a própria condição ontológica da recepção da verdade revelada.

O conceito de fusão de horizontes descreve o encontro entre o horizonte histórico do texto (o passado) e o horizonte histórico do intérprete (o presente). Compreender não significa anular a si mesmo para viajar ao passado do autor, mas permitir que o texto questione a nossa própria realidade. Na teologia de baixo, o texto bíblico dialoga diretamente com as demandas comunitárias atuais. O significado teológico emerge justamente dessa tensão dialética, onde as perguntas do presente resgatam sentidos latentes nas Escrituras que uma exegese puramente técnica e fria ("de alto") jamais conseguiria desvelar.

Para Gadamer, a experiência hermenêutica é movida pela estrutura da pergunta e da resposta. Um texto só fala quando o intérprete o aborda com questionamentos reais criados pela própria vida. "Para poder perguntar, é preciso querer saber, isto é, saber que não se sabe." (GADAMER, Verdade e Método)

A teologia de baixo se caracteriza por interrogar a tradição cristã a partir das urgências existenciais mais cruas: o sofrimento, a desigualdade e a busca por justiça. A hermenêutica gadameriana assegura que essa postura inquisitiva é a atitude mais honesta diante da verdade, transformando o clamor que vem de baixo na força motriz de uma revelação teológica continuada e dinâmica.

 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

TEOLOGIA DAS MARGENS: DESENVOLVIMENTOS HERMENÊUTICOS

 



Paolo Cugini

 

A hermenêutica da teologia das margens representa uma das correntes mais vibrantes da reflexão contemporânea, deslocando o centro da verdade teológica do centro (acadêmico, eurocêntrico, institucional) para a "periferia" como um lugar de revelação. A premissa fundamental é que Deus se revela não no poder, mas na vulnerabilidade. A margem não é apenas um lugar de exclusão, mas um espaço hermenêutico privilegiado. Gustavo Gutiérrez, considerado o pai da teologia da libertação, introduziu a ideia de que a teologia é um ato secundário. O ato primário é a prática da solidariedade com os pobres. Para Gutiérrez, a margem é o ponto de partida necessário para uma leitura correta das Escrituras. Nos Estados Unidos, a teologia das margens assumiu conotações culturais específicas, analisando a condição daqueles que vivem entre dois mundos. Em sua obra seminal,  Galileia e a Promessa Mexicano-Americana , Elizondo reinterpreta a figura de Jesus a partir de sua identidade como galileu, de uma região fronteiriça e de raça mista. Assim, a margem se torna o lugar onde nasce o novo povo de Deus.

Ada María Isasi-Díaz, fundadora da teologia feminina, enfatizou como as mulheres hispânicas vivem em uma tripla marginalização (gênero, classe e etnia). Sua hermenêutica se baseia no conceito de cotidiano  como fonte teológica. Uma evolução radical da hermenêutica das margens envolve o questionamento das normas sexuais e sociais.

Marcella Althaus-Reid, com sua Teologia Indecente, desafiou as interpretações burguesas e puritanas do cristianismo. Althaus-Reid propõe uma hermenêutica que se baseia nas experiências de corpos marginalizados (trabalhadoras do sexo, pessoas LGBTQ+), argumentando que Deus se manifesta precisamente onde a teologia oficial sente vergonha. O desenvolvimento mais recente diz respeito à "descolonização" da mente e da fé. Kwok Pui-lan é uma teóloga asiática que utiliza a hermenêutica pós-colonial para analisar como a Bíblia tem sido usada como instrumento de poder. Ela propõe uma leitura diagonal, dando voz àqueles silenciados pelos grandes impérios religiosos. A aplicação dessa hermenêutica a passagens bíblicas específicas transforma radicalmente a percepção do texto, convertendo histórias de subjugação em narrativas de libertação e resistência. A teologia mujerista (de mulheres hispânicas nos EUA) não busca grandes dogmas, mas a presença de Deus na sobrevivência cotidiana. A passagem de referência é Agar (Gênesis 16 e 21). Tradicionalmente, Agar é vista como a escrava problemática de Sara. Ada María Isasi-Díaz e outras teólogas feministas interpretam Agar como a verdadeira protagonista: ela é a primeira pessoa na Bíblia a dar um nome a Deus (El-roi, "o Deus que me vê"). A margem aqui é a solidão do deserto. Para as mulheres marginalizadas, Agar representa Deus, que não está no palácio de Abraão (o centro), mas que encontra a mulher que foge da violência no deserto (a periferia). A salvação não é uma promessa abstrata, mas a água que permite sobreviver mais um dia.

A teologia queer não se limita a incluir pessoas LGBTQ+, mas utiliza a queerização como método para desestabilizar interpretações fixas e binárias. A passagem de referência é Atos 8:26-40. O eunuco é uma figura limítrofe: estrangeiro (etíope), porém devoto, e sexualmente não conforme aos critérios da época (excluído do templo segundo Deuteronômio). Marcella Althaus-Reid e Patrick Cheng interpretam esse episódio como uma ruptura radical das margens. O eunuco pergunta: " O que me impede de ser batizado?". A resposta de Filipe é a eliminação da barreira corporal. O corpo queer, antes marcado como incompleto ou impuro, torna-se o espaço de um novo pertencimento que transcende a biologia e as normas sociais. Em ambos os casos, o método segue estes passos:

a.        Suspeita: Pergunte-se por que a interpretação clássica ignora os corpos ou o sofrimento daqueles que estão à margem da sociedade.

b.       Identificação: O leitor marginalizado reconhece-se na personagem bíblica excluída.

c.        Afirmação: A margem é declarada um lugar sagrado de revelação, muitas vezes mais autêntico do que o "centro" religioso.

A exploração da figura de Jesus como sujeito marginal e sua tradução para a prática litúrgica representam o cerne das teologias mujeristas e queer, onde o corpo e a experiência cotidiana se tornam o centro da adoração. Nessas perspectivas, Jesus não é uma abstração dogmática, mas um indivíduo histórica e socialmente situado à margem. Virgilio Elizondo reinterpreta Jesus como um mestiço cultural. Originário da Galileia, Jesus viveu em uma região fronteiriça, desprezada pelo centro religioso de Jerusalém. Essa marginalidade geográfica é o que lhe permite falar uma linguagem de inclusão universal. Marcella Althaus-Reid propõe um Jesus que rompe com o molde da decência burguesa e das normas heteropatriarcais. Jesus é aquele que toca o impuro, come com os pecadores e desafia as leis da família nuclear tradicional. Seu corpo na cruz é o corpo marginalizado por excelência: nu, vulnerável e inconformista. Ada María Isasi-Díaz destaca como Jesus validou consistentemente a autoridade de mulheres marginalizadas (como a samaritana ou a mulher com hemorragia), tornando-as parceiras integrais em sua missão. 

A liturgia não é mais vista como uma cerimônia rígida, mas como uma ação comunitária que celebra a resistência e a vida. Liturgias de Cura e Relacionamento: as teologias feministas e queer desenvolveram formas de culto populares, fundamentadas em uma comunidade de iguais. Isso abre espaço para gestos de cuidado mútuo, bênçãos de casais não tradicionais ou rituais que honram corpos que sofreram violência. Para a teologia mujerista, atos simples do cotidiano — cozinhar, cuidar dos outros, resistir à injustiça — adquirem valor sacramental. A liturgia transcende a igreja para santificar a luta pela sobrevivência de povos oprimidos. Uma liturgia queer celebra um Deus fluido e instável que rompe com as expectativas religiosas. Canções e orações servem não para controlar a moralidade, mas para libertar o desejo e a graça divina de teologias totalitárias.

 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

HERMENÊUTICA E ALTERIDADE

 


 



A hermenêutica como via de humanização

 

Paolo Cugini

 

O pensamento hermenêutico não é apenas uma disciplina acadêmica; é uma condição fundamental da existência humana. Se existir é interpretar, como sugerem filósofos como Hans-Georg Gadamer, o ato de ler transcende a decodificação de signos para se tornar um encontro profundo entre mundos distintos.

Ao abordarmos uma obra, não somos receptores passivos. Operamos a partir de uma pré-compreensão, um conjunto de padrões, valores e experiências que formam o nosso horizonte de sentido. Esse fenômeno gera o primeiro grande desafio da hermenêutica: a relação entre as três pontas do processo comunicativo: o autor, aquele que codifica sua visão de mundo em palavras; o texto, o objeto que ganha autonomia ao ser finalizado; o leitor, aquele que "termina" a obra ao interpretá-la sob sua própria luz.

Historiadores da hermenêutica, como Friedrich Schleiermacher, defendiam que o objetivo era compreender o autor até melhor do que ele próprio se compreendia. Já vertentes modernas enfatizam que o texto pertence ao leitor tanto quanto ao autor. Ler é um exercício de alteridade. Ao abrir um livro, entramos na cultura, na mentalidade e no contexto histórico de outra pessoa. As palavras são veículos de uma vida vivida que nos convida a sair de nós mesmos. Cada termo carrega o peso de uma época. Entender o que o autor quis expressar exige conhecer o chão que ele pisou.  A interpretação atua como uma ponte que une o eu do presente ao outro do passado ou de outra realidade.

Essa necessidade torna-se crítica diante de obras da antiguidade. Quando lemos textos de um mundo cujos valores e estruturas sociais desapareceram, o risco de anacronismo é imenso. Tendemos a projetar nossos conceitos éticos e lógicos modernos em sociedades que operavam sob outras premissas. Compreender um texto antigo exige o reconhecimento de que, aquele mundo nos é, em grande parte, desconhecido. Sem esse esforço de contextualização, não lemos o autor, mas apenas o reflexo de nossos próprios preconceitos.

A hermenêutica nos ensina que o conhecimento não é uma transferência de dados, mas um acontecimento. No mergulho no mundo do outro, expandimos nosso próprio horizonte. Interpretar não é apenas descobrir o sentido de um texto; é descobrir novas formas de ser humano através do olhar de quem veio antes de nós ou de quem pensa diferente. Compreender não é um ato passivo, mas um movimento de saída. No campo da hermenêutica filosófica, interpretar um texto ou uma realidade vai muito além de decifrar códigos linguísticos; trata-se de um exercício ético de alteridade. O esforço hermenêutico, exige que o intérprete aceite o desafio de suspender temporariamente suas próprias certezas para habitar, ainda que brevemente, o mundo do outro.

Viver em nossa própria subjetividade é confortável. Nossos preconceitos (no sentido de pré-julgamentos ou estruturas prévias de compreensão) funcionam como filtros que moldam nossa visão de mundo. No entanto, o esforço hermenêutico nos obriga a reconhecer a finitude dessa visão. Para compreender verdadeiramente, é preciso realizar um êxodo de si mesmo. Não se trata de anular quem somos, o que seria impossível, mas de abrir o que Gadamer chama de horizonte para que ele possa se fundir com o horizonte do outro.

Quando nos debruçamos sobre a obra de um autor, não estamos apenas lendo palavras; estamos sendo convidados a entrar em uma proposta de mundo. O texto abre um espaço de manifestação que o autor projetou. O esforço aqui é duplo: aceitar que o autor possui intenções, contextos e uma visão de mundo que podem ser radicalmente diferentes da nossa.  Receber a palavra do outro sem a pressa de julgá-la segundo nossos próprios critérios imediatos. É um exercício de escuta profunda.

Curiosamente, é a distância (seja temporal, cultural ou pessoal) entre o leitor e o autor que torna a compreensão produtiva. Esse estranhamento inicial é o que nos força ao esforço. Se o outro fosse exatamente como nós, não haveria nada a interpretar, apenas a confirmar. O desafio de compreender o mundo do autor nos tira da nossa zona de conforto intelectual e nos obriga a expandir nossa própria capacidade de pensar.

Ao final desse processo, quem retorna da jornada hermenêutica já não é a mesma pessoa. Ao nos esforçarmos para compreender o outro, acabamos por compreender melhor a nós mesmos, percebendo os limites de nossas próprias perspectivas. A hermenêutica, portanto, não é apenas uma técnica de leitura, mas uma via de humanização: ela nos ensina que o mundo é sempre maior do que o nosso olhar sobre ele e que o encontro com o autor é, fundamentalmente, um encontro com a pluralidade humana.


sábado, 21 de fevereiro de 2026

ESPINOSA: A BÍBLIA UM PRODUTO HUMANO E HISTÓRICO


 



Paolo Cugini


Segundo Espinosa a superstição religiosa presente na igreja do seu tempo, era imbuída de preconceitos provocados pelo desprezo da luz da razão por parte dos fiéis, que liam as Escrituras Sagradas ao pé da letra e: “supõem desde o princípio a divina verdade do seu texto integral” (Espinosa, 1954, p. 612).  Espinosa defende a liberdade de crença, de pensamento e de expressão e, por isso, no prefacio ao Tratado teológico-político chega a afirmar que: “a liberdade de filosofar não ameaça nenhuma piedade verdadeira, nem a paz no seio da comunidade pública. Sua supressão, pelo contrário, desencadeia a ruína tanto da paz quanto da piedade”. O mesmo discurso não vale pelas monarquias, culpadas, segundo Espinosa, de enganar os homens, utilizando o medo do inferno para sujeitar os povos em nome da religião. Espinosa espera “desmascarar as engrenagens profundas da pseudo-religião fundada sobre a superstição e desvelar assim os vestígios de uma antiga servidão da alma”. É a partir desta tomada de consciência que Espinosa se propõe a ler a Escrituras com a ajuda da razão, para melhor compreender o contexto histórico no qual esses textos foram escritos, assim como as intenções dos autores.

A principal tese de Espinoza é que a Bíblia não é a palavra inerrante de um Deus transcendente, mas sim um produto humano e histórico, sujeito a erros e falhas. “Toda revelação divina passa primeiro pelas luzes naturais da mente” (Espinosa, 2013, p. 98). Espinosa trata os textos bíblicos como qualquer outro documento antigo, utilizando métodos de exegese que seriam revolucionários para a época.  Spinoza questiona a autoria do Pentateuco por Moisés, observando que o texto fala de Moisés na terceira pessoa e inclui o relato de sua morte. Ele aponta para o comentarista judeu do século XII, Ibn Ezra, que já havia levantado dúvidas sobre a autoria, mas de forma alusiva. Espinoza conclui, de forma mais direta, que o Pentateuco foi escrito por alguém que viveu muito depois de Moisés. 

Ele chega a sugerir o sacerdote Esdras como possível editor, uma ideia que antecipou as hipóteses documentais da crítica bíblica posterior. A hermenêutica de Espinoza estabelece uma separação clara entre a razão filosófica e a teologia. Para ele, a filosofia busca a verdade através da razão e da observação da natureza, enquanto a teologia tem como objetivo principal a obediência e a piedade. O conteúdo da Bíblia deve ser entendido em seus próprios termos, e não reinterpretado para se encaixar em conceitos filosóficos. "A Escritura não se destina a nos ensinar verdades filosóficas abstratas" (Espinosa, 2013, p. 46). O seu propósito é moral, direcionado à conduta. A análise de Espinoza não se detém apenas na autoria dos textos. Ele estende sua crítica a elementos centrais da fé judaico-cristã, como milagres e profecias.  De fato, Espinoza nega a possibilidade de que milagres violem as leis fixas e imutáveis da natureza. Ele argumenta que, o que as pessoas chamam de milagres são, na verdade, eventos naturais cuja causa é desconhecida ou mal compreendida pelos autores bíblicos, que careciam de conhecimento científico. Em vez de inspirar fé, a crença em milagres mina a fé, pois sugeriria um Deus que age de forma arbitrária e não consistente. A mesma critica Espinosa a moveu para as profecias dos profetas que, segundo ele, não possuíam um intelecto superior ou filosófico. A profecia era, em vez disso, um tipo de conhecimento imaginativo, adaptado à capacidade de compreensão e às crenças culturais dos profetas e do povo a quem eles se dirigiam. 

Como a profecia é baseada na imaginação e não na razão, sua autoridade se restringe ao âmbito moral, não podendo se sobrepor à verdade filosófica. O cerne do projeto hermenêutico de Espinoza não é apenas criticar a religião, mas também defender a liberdade de pensamento e a tolerância religiosa. Ao delimitar o escopo da Bíblia a questões morais e de obediência, Espinoza abriu espaço para que a filosofia pudesse investigar a natureza e a verdade sem ser censurada por autoridades religiosas. A partir dessa leitura, Espinoza defende que o verdadeiro ensinamento da Escritura é um simples imperativo moral: amar a Deus e ao próximo. As disputas teológicas sobre dogmas metafísicos são irrelevantes para a verdadeira piedade e não devem ser motivo para perseguição ou controle do pensamento. Sabemos que, por causa destas posições, Espinosa foi perseguido sobretudo do mundo religioso hebraico .

quinta-feira, 10 de abril de 2025

BÍBLIA E HERMENÊUTICA: CARLOS MESTERS

 





CONGRESSO CONTINENTAL DE TEOLOGIA

PORTO ALEGRE – OUTUBRO 2012


Síntese: pe Paolo Cugini

Centro dos estudos Bíblicos: CEBI. Sem os movimentos populares nãohaveria leitura popular da Bíblia. É necessário colocar a Bíblia na mão do povo. 

Desenvolver uma metodologia de leitura bíblica numa caminhada pastoral. É aqui que nasce o método: ver, julgar, agir. 

A leitura popular da Bíblia ajudou a dar a palavra aqueles que não são acostumados. Este fato ajudou no caminho do protagonismo dos leigos. Quando o leigo se conscientiza com a Palavra de Deus a coisa vai para a frente. 

Onde se manifestou isso?

1. Teologia da terra: é a questão que mais se destaca a nível nacional.

2. Movimento político. Lei da ficha limpa, lei 9840, etc.

3. A consciência indígena. 

4. A luta dos afrodescendentes

5. Lutas das mulheres. Lei Maria da Penha

6. Mobilização dos homossexuais

7. Frentes ecológicas

8. Novos avanços da ciência (biotecnologia, física quântica, etc)

Problemas abertos: saúde, educação, alimentação, moradia.

A pauta ampliou o leque, mas os grandes problemas estão abertos.

Ap 13: a visão das duas bestas. 

A besta que vem da terra é o neoliberalismo que produz o consumismo. Hoje a morte está presente em muitas casas. Hoje a questão é saber se estamos sabendo enfrentar esta segunda besta. 

A Dei Verbum é o documento talvez mais importante do Concilio. Deus fala também hoje, e não apenas no passado. A Bíblia nos ensina onde Deus fala hoje, no meio do povo, na nossa vida. Deus fala hoje. 

“Aquilo que vimos e ouvimos nós o anunciamos a vós”. 

7 pontos 

1. A Bíblia é a Palavra de Deus. A Palavra já está no coração do povo. A missão principal é revelar. Deus está nos fatos. Tirar o véu dos fatos. A vida ajuda entender a Bíblia e vice-versa. Tudo é revelação, pois Deus criou chamando. 

2. A Bíblia é a Palavra de Deus em linguagem humana. Se é linguagem humana deve ser interpretada. 

3. Jesus é a chave principal da Palavra. 

4. A Bíblia é livro da Igreja. A infalibilidade nasce de baixo para cima. A força das CEBs é na base. A leitura fundamentalista agrada aos poderes conservadores.

5. A leitura orante. A interpretação da Bíblia deve estar a serviço da evangelização e não de ideologias. 

6. No céu convive água e fogo: é típico do pensamento semitio, convivência dos polos oposto. Na mentalidade europeu-grega os opostos se eliminam: a razão e o mito, a razão acaba com o mito. Na mentalidade semítica acontece a convivência dos apostos: marido e mulher. O discurso científico é fundamentalista, porque exige sempre a fundamentação; pelo contrário o conhecimento do povo não precisa disso. 

7. Justiça de Deus: nova possibilidade de ser salvo.