domingo, 22 de outubro de 2023

O DEUS QUE É PAI TAMBÉM É HOMEM?

 





Paolo Cugini

A grande tarefa da teologia feminista, expressa em numerosos estudos, consiste em libertar a palavra de Deus da estrutura patriarcal que, antes de ser um modelo religioso, é um modelo cultural e social bem estruturado. É o patriarcado que justifica o sistema familiar que define pais como chefes de família com poder explícito sobre a esposa e os filhos (SAFFIOTI, 2015). 

O próprio patriarcado estende, em nível social, a definição de papéis específicos para homens e mulheres, homens que sempre ocupam posições dominantes das quais as mulheres são excluídas. O sistema patriarcal, portanto, elabora um processo de desigualdade entre homens e mulheres, criando uma situação cultural constante de submissão de mulheres a homens. O patriarcado, assim entendido, não é apenas um produto social, mas encontrou apoio no mundo religioso até os dias atuais. De fato, o Ocidente cristão "produziu uma série de relações desiguais de poder; Deus como Pai governa o mundo, santos padres governam a Igreja, pais clericais governam os leigos, homens governam mulheres, maridos esposas e filhos e, finalmente, a humanidade governa a criação " (CAAR, 1991, p. 93). 

Nesse ponto da discussão, o pensamento feminino suspende a reflexão para se perguntar: o Deus Pai tem a ver o que com esse sistema opressivo? É a vontade de Deus que as mulheres sejam submissas aos homens? É possível pensar de maneira diferente sobre Deus e seu relacionamento com a criação e as criaturas? Mais uma vez: é possível libertar a palavra de Deus de formas antropomórficas, que ao longo dos séculos, fizeram de Deus um ser cada vez mais masculino às custas do mundo feminino, com todas as consequências daí decorrentes? Se é o sistema patriarcal que descreve a identidade de Deus, a teóloga Mary Daly tem razão quando diz: "se Deus é homem, então homem é Deus" (DALY, 1990, p.27). 

Novamente no livro mencionado, refletindo sobre as consequências da assimilação do modelo patriarcal pela igreja, a teóloga estadunidense Mary Daly mostra como os dogmas e artigos de fé emitidos tendem a propor a estrutura bilateral da relação homem-mulher, que justifica o modelo de submissão, tornando-o credível na sociedade civil. Portanto, não é simplesmente uma questão de entender um modelo social específico que foi estruturado ao longo dos séculos e que justifica as relações binárias de submissão e dominação, com todas as consequências da violência e abuso que todos conhecemos. 

Não é por acaso que, depois que as massas trabalhadoras do século passado se afastaram da Igreja devido à sua identificação com o poder político e econômico, encontrando-se, portanto, nem representadas nem protegidas, hoje muitas mulheres, que no ocidente atingiram um nível cultural significativo, não mais se veem representadas por uma estrutura religiosa patriarcal que justifica a inferioridade de um sexo em outro e a consequente submissão e, por isso, afastam-se dela. 

O problema é entender de que lado Deus está e se é realmente que justifica esse sistema de relações injustas ou se ocorreram interpolações culturais, que mudaram a interpretação em uma certa direção, a saber, a direção patriarcal. Nesse ponto, torna-se extremamente importante, não apenas para as mulheres, mas também para os homens, ouvir as reflexões das teólogas feministas que, em várias ocasiões e de maneiras diferentes, releram o texto bíblico com essas questões significativas. É possível, então, libertar a palavra de Deus do patriarcado, organizado por meio de uma série de relações de subordinação e exclusão? "Como podemos dizer o relacionamento de Deus com o mundo - Elisabeth Green se pergunta - para não reproduzir relacionamentos hierárquicos entre pessoas e principalmente homens e mulheres?" (GREEN, 2015, p. 27). Ainda seguindo Green, que estudou em profundidade este tema em várias pesquisas, tomamos o Antigo Testamento como um ponto de referência para compreender alguns aspectos que o pensamento masculino não nos permite observar.

 Se lermos atentamente o texto de Êxodo 3: 13-15, no qual Deus, depois de manifestar seu nome, acrescenta: “Você dirá aos israelitas: O Senhor Deus de seus pais, Deus de Abraão, Deus de Isaque, Deus de Jacó, ele me enviou para você. " De como a história realmente vai, percebemos que esse versículo não justifica a abordagem patriarcal. "Se olharmos para a narração das origens de Israel, descobrimos que ela não apresenta uma identificação simples entre Deus e a ordem patriarcal, pois isso está arranhada em três pontos importantes: paternidade, sucessão, protagonismo das mulheres" (GREEN, 2015, p. 48). Na história de Abraão, por exemplo, o fluxo dos relacionamentos dos pais é interrompido pela ordem de Deus para abandonar a casa do pai. Tudo isso é muito semelhante a uma relativização dos laços familiares de Deus, um sentimento confirmado pelo relacionamento com seu filho Isaac, sancionado por seu sacrifício, que passa por um vínculo e uma desligação, entendido como a libertação de Isaac da necessidade de paternidade (RECALCATI, 2013, p. 34). Elisabeth Green observa que tudo isso acontece não em resposta à palavra paterna, mas a uma palavra divina sem conotações paternas, senão aquelas que lhe foram atribuídas mais tarde. "Portanto, a ordem patriarcal - continua Green - não é simplesmente confirmada: Abraão é introduzido em outra ordem: a da promessa" (GREEN, 2015, p. 49).

Também é interessante notar a questão da sucessão que, diferentemente de como a imaginamos, na história patriarcal, a herança patrilinear não ocorre através do primogênito, mas na direção oposta. De fato, não é o primogênito de Abraham Ishmael que herda as promessas, mas Isaac, que é o primogênito não de Abraão, mas de Sara. O mesmo acontece com Jacob, o favorito da mãe, que herda a promessa enquanto é o segundo filho, roubando a primogenitura de Esaú. Existe, portanto, uma ordem patriarcal que a palavra de Deus parece ignorar, fazendo as promessas passarem por caminhos diferentes daqueles marcados pela cultura dominante. Enquanto a cultura patriarcal ignora a presença de mulheres, deixando-as de lado e proibindo-as de falar, a palavra de Deus parece ser diferente.

Muitos estudos de teologia feminista enfatizam o protagonismo feminino nas histórias dos patriarcas. É difícil, de fato, passar despercebida a esterilidade de todas as esposas dos três primeiros patriarcas, Sara, Rebeca e Raquel, esposas de Abraão, Isaac e Jacó, respectivamente. Para Elisabeth Green, esse dado bíblico retomado em outras partes das Escrituras, em vez de indicar que é Deus quem dá vida e não o homem, sublinha que não é o pai que cumpre as promessas. Na verdade, é Deus quem torna Sarah, Rebecca e Rachel capazes de conceber um filho e não seus respeitáveis ​​maridos. O que está em jogo não é tanto a autoria desses homens que, como sabemos, já eram pais por causa da estrutura poligâmica da cultura atual, mas a maternidade das mulheres que Deus escolheu para cumprir suas promessas. Segundo a teóloga Irmtraud Fischer: "Desde o início, a promessa divina relativiza os laços familiares e o relacionamento pai-filho, rompe a ordem da sucessão patriarcal e funda a casa de Israel através das mulheres, dando-nos lendas com uma estrutura igualitária" (FISCHER, 2009, p. 241).

Também interessante nessa perspectiva, como o nome que Deus revela a Moisés em Êx 3,14, na verdade não é um nome, mas um verbo mais um pronome, que nada tem a ver com a paternidade. Segundo o filósofo Paul Ricoeur, essa revelação do nome representa "a destruição de todos os antropomorfismos, de todas as figuras e figuras, incluindo a do pai: o nome contra o ídolo" (RICOEUR, 1977, p.502). Juntamente com Robert Con Davis (1993), Elisabeth Green argumenta que o tetragrama, sendo escrito de uma maneira e lida de outra, pode ser considerado um texto imperfeito, cuja interpretação nunca é completa, exigindo um esforço contínuo de compreensão. Nesta perspectiva, muitos argumentam que o propósito do nome revelado a Moisés é proteger a incompreensibilidade de Deus, proteger sua identidade de antropomorfismos fáceis e identificações materiais. É por essa razão que algumas teólogas veem a possibilidade de declinar Deus à maneira feminina (JOHNSON, 1999), de falar dele em novos termos, libertando-se, por assim dizer, do esquema patriarcal.

Sempre mantendo o Antigo Testamento como ponto de referência, é importante focar a atenção no tipo de simbolismo colocado em prática para descrever o caminho da eleição e da aliança, que revela a relação entre Deus e o povo de Israel. No que é definido como simbolismo indireto, expresso por exemplo em textos como Êx 6,7 ou Os 11,1, a paternidade divina é social e não biológica. De fato, não há relacionamento parental entre o pai Deus e o filho Israel. Deus não gera Israel e, portanto, somos confrontados com um tipo de paternidade absolutamente desprovida de sexualidade (SARACENO, 2012). O simbolismo direto implementado especialmente nos períodos em que Israel esquece a aliança com Deus, manifesta uma riqueza de versículos nos quais a referência ao gênero feminino é visível. Entre as muitas possíveis, cito o famoso texto de Isaías 49.15, que diz: “Uma mulher pode esquecer o bebê que amamenta, deixa de sentir pena dos frutos do intestino? Mesmo que as mães esqueçam, eu não vou te esquecer". Declinar ao masculino textos como esse é problemático. Ouvir o texto sagrado, desconstruir as estratificações patriarcais, permite trazer tesouros insuspeitos da graça, tesouros com um sabor feminino que enriquecem e dão um novo significado também às leituras masculinas da Palavra. Percebemos que declinar Deus ao masculino não é apenas arriscado, mas enganoso.

 

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

SOBRE A DIREITA CATÓLICA E A SINODALIDADE

 





Romero Venâncio (UFS)

A direita católica brasileira que estudo é representada por um leigo (Bernardo Kuster), um padre (Paulo Ricardo), um bispo (Adair J. Guimarães - Formosa/GO) e um grupo (Centro Dom Bosco do Rio de Janeiro) e como marco temporal o pós-2013. Os acontecimentos políticos e ideológicos de 2013 e o que se seguiu, a presença de Olavo de Carvalho dentro do catolicismo e a nomeação do Papa Francisco. O projeto de estudo tem esse escopo sociológico/teológico e político.

Essa direita católica (que as vezes chamo de "extrema direita" por conta de sua virulência e beligerância na internet) foi crescendo nas redes digitais e tendo grande impacto em dioceses, paróquias e pastorais na última década. Eles traçaram como meta a recuperação de um pensamento conservador na Igreja enquanto reação aos valores modernos. Atacar de maneira deliberada tudo que venha da modernidade é o comum a todos/todas. Do Concílio de Trento ao Papa Pio IX. De Pio X a Pio XII. Formar uma "consciência conservadora" dentro e fora da Igreja.

Três horizontes diretos de ataques foram bem delimitados: o Concílio Vaticano II, a Teologia da Libertação e o papa Francisco. Os ataques são desiguais e combinados. A depender do momento e contexto, a virulência torna-se maior. Neste momento (2022-2023) as baterias se voltam contra o Papa Francisco e o projeto de sinodalidade. Para melhores esclarecimentos sobre o termo "Sinodalidade", recomendo o breve livro: "Sinodalidade: tarefa de todos" de Dom Pedro Carlos Cipolini (editora Paulus, 2021).

O Vaticano II seria origem da Sinodalidade e a eleição do papa Francisco seria a realização perfeita da "conspiração" moderna dentro da Igreja, segundo essa direita católica. Nota-se de cara que a paranoia e teorias da conspiração são crenças constantes que povoam a mente deles. A eleição de Lula, então... Vira delírio apocalíptico. Toda essa situação parece até "irracional" (sentido dado por Lukács no monumental livro: "A destruição da razão") mas não é bem assim. Tem uma racionalidade subterrânea em tudo que a direita católica brasileira faz e pensa.

Atacar o Concílio Vaticano II e sua consequência direta que é o papado de Francisco tem uma lógica nos projetos desta direita atuante nos nossos dias. A fragilidade argumentativa deles perante o mundo moderno é visível em tudo que fazem. O medo de coisas como "relativismo", "feminismo", "socialismo", "ambientalismo", "educação sexual", "diálogo interreligioso" ou "igreja democrática" chega a ser digno de pena. Parecem "montanhas a parirem ratinhos". A saída é sempre recorrer a figura do diabo como categoria explicativa. Aqui mora o ponto fraco e o sectarismo de toda  a direita católica. Recuperam uma "teologia do diabo" completamente anacrônica e carente de fundamentação histórico.

A referência teológica básica que usamos neste momento é um breve e rigoroso livro do teólogo Karl Rahner intitulado: "O cristão do futuro" publicado pela Fonte editorial. O livro tem quatro ensaios todos publicados nos anos 60 durante e depois do Concílio Vaticano II. Os títulos dos quatro textos que fazem o livro são bastantes sugestivos: "A Igreja que muda", "Situação ética numa perspectiva ecumênica", "Os limites da Igreja: contra o triunfalismo clerical e leigos derrotistas" e "O ensino do Concílio Vaticano II sobre a Igreja e a realidade futura da vida cristã". Como percebemos, ensaios bastante atuais e bem ao estilo de Rahner. Nem será preciso dizer e fundamentar porque Karl Rahner e sua teologia são odiados pela direita católica atual.

O ódio da vez dessa gente é o projeto de "Sinodalidade". Para essa direita, a convocação de um sínodo pelo Papa Francisco é uma “afronta à tradição". É mais uma "tática modernista" para entregar a Igreja ao mundo. Primário tudo isto. Um recuo histórico-teológico, podemos ver o primeiro grande projeto sinodal na primeira igreja dos Apóstolos/Apóstolas. Seria cobrar demais desta direita católica saber da primeira Igreja ou da teologia que a fundamenta. A indigência teológica de toda essa gente é notória e vergonhosa. Não passa de puro suco de fundamentalismos.

Para exemplificar a paranoia da vez contra a "Sinodalidade". O tal do Bernardo Kuster está em Roma fazendo o que chama de "cobertura" dos primeiros momentos do Sínodo para o seu canal e para "orientação" de seus seguidores bem ao "estilo Olavo de Carvalho". A primeira deprimente live é intitulada: "DIRETO DE ROMA: O ecumenismo invade a Vigília no Vaticano". A "tese" dele é que a Teologia da Libertação tem como objetivo "sequestrar o Sínodo". Tá tudo lá. Nos 17 minutos da sofrível live vemos toda uma paranoia sobre o que chama de "bastidores do Sínodo". Triste saber que milhares de católicos seguem isto. Lamentável, mas real. Faz parte desta nova e triste face do catolicismo no Brasil.


domingo, 24 de setembro de 2023

PADRE NO MUNDO PÓS-MODERNO

 




 Paolo Cugini

 

1. A conjuntura atual não apresenta um quadro positivo para vida do padre. Os escândalos da pedofilia solaparam a credibilidade do clero. A rapidez das mudanças culturais da pós-modernidade descortina a velhice do sistema eclesial e, sobretudo, a sua incapacidade de se atualizar, de elaborar uma proposta ao passo com os tempos. A cultura pós-moderna, que questiona as formas rígidas de racionalidade, não aceita mais as atitudes autoritárias, típicas das estruturas que se formaram na época medieval. O mundo caminha sempre mais na direção do diálogo democrático e quem tem dificuldade a sair das formas rígidas do pensamento corre o risco de ficar de fora do contexto. Enquanto até poucas décadas atrás o padre era uma figura respeitada e referência moral do povo, hoje, neste novo quadro sócio-cultural, o padre é uma figura ambígua, pouco crível e parte de uma estrutura que dia após dias perde de credibilidade.

2. O padre vive esta época com grande angústia, pois ele é ao mesmo tempo parte da estrutura rígida da Igreja e também parte desta cultura pós-moderna em continua mudança. De um lado, o padre se sente continuamente solicitado a ser fiel a uma estrutura na qual acredita, pois é nela que amadureceu a própria escolha de vida; do outro, percebe todo dia a urgência de uma mudança radical e o sofrimento pela lerdeza da Instituição a abraçar este caminho de mudança. O padre no diálogo cotidiano com as pessoas que encontra é solicitado a oferecer respostas a problemas que ele não vive na própria pele. Além do mais, o conteúdo que ele tem a disposição para orientar as pessoas não é atualizado, pois é fruto de uma elaboração conceitual de uma época que não tem mais a ver conosco. E, assim, o padre se encontra a toda hora num rumo cego, sem saída: sabe que o Evangelho de Jesus é o Caminho certo que a humanidade deve percorrer para realizar uma existência mais humana, mas, ao mesmo tempo, percebe que os conteúdos elaborados pela Instituição do qual ele é fiel servidor tem pouco a ver com a demanda e os questionamentos dos seus interlocutores.

3.  Acho extremamente importante entender este elemento da atualização, pois mexe com um dato fundamental do cristianismo, que é a vida no Espírito. De fato, Jesus não pronunciou um conjunto de dogmas rígidos e infalíveis, mas sim uma proposta viva par os homens e as mulheres de todos os tempos. Nesta história, o Espírito Santo tem um papel fundamental, pois é graça a Ele que a Palavra de Jesus é atualizada nos novos contextos culturais. Existem períodos na história da humanidade e, sem dúvida, o nosso que estamos vivendo é um deles, aonde é visível a tensão entre Espírito e Instituição, entre Carisma e Poder. O ideal seria o equilíbrio entre as duas forças, mas este equilíbrio é difícil alcançar em tempo de crise, que exige capacidade de resposta à altura da situação. É nessa altura que o padre deveria exercer um papel importante, pois ele vive a contato com o povo – pelo menos deveria – e por isso sente na própria pele as mudanças culturais que necessitam de respostas imediatas. Infelizmente, quando a Igreja elabora um documento sobre os temas da atualidade, raramente o padre é interpelado para expor suas opiniões. Quem faz os documentos da Igreja são pessoas que tem pouco contato com o povo, pessoas que vivem dentro de palácios, que conversam entre si sem entender bem o que se passa no mundo. Não é de estranhar, então, se os documentos oficiais da Igreja são uma citação contínua de documentos passados, tentando de adaptá-los e nem sempre com sucesso, ás novas exigências. O padre verdadeiro, aquele que ama Deus e vive a contato com o povo, sofre demais por esta distância entre a mensagem da Igreja, que deveria atualizar o Evangelho á luz do Espírito Santo e os problemas reais. O padre percebe que no Evangelho tem uma força explosiva, têm indicações suficientes para oferecer respostas uteis às pessoas que toda hora o procuram e o questionam sobre os problemas essências da vida. Ao mesmo tempo, porém, o padre sente que não tem a resposta certa, pois as respostas que ele tem a disposição tem pouco a ver com a realidade que ele vive e que o seu povo vive: fazer o que?

 4. Ser padre neste quadro não é fácil, pois se trata de viver num contínuo questionamento, numa continua ambigüidade. Num mundo em continua mudança o padre deve transmitir a toda hora valores eternos.  Num contexto cultural que, como nos lembra o sociólogo polonês Bauman é preciso não se identificar com algo de fixo, o padre é o sinônimo da estabilidade, daquilo que nunca muda. O padre deveria ser a pessoa capaz de repassar aos seus contemporâneos o testemunho da presença de Cristo, uma presença viva e clara do amor de Deus que se manifestou na sua ação e nas suas Palavras. O problema é que nunca como hoje este testemunho foi tão ofuscado, nunca como hoje a transparência da vida de Jesus foi tão danificada por aquela instituição que deveria manifestá-la. E ai vem o problema do padre, ou seja, daquele homem que sente-se chamado por Deus a viver integralmente o amor de Jesus, mas que percebe a dificuldade de fazer isso dentro uma Instituição que parece ter perdido o rumo, a alegria de servir a Cristo, a força moral de testemunhá-lo. Por isso vários deles, ao longo dos anos, deixam o ministério, outro se afrouxam, outros ainda se entregam aos vícios. Sem dúvida, tem muitos que continuam firmes no ministério servindo a Deus e ao povo com o maior carinho do mundo. Mas é visível o descaso, a perca de terreno, o constrangimento que os padres vivem para não conseguir caminhar ao passo com os tempos. Seria mais fácil e menos doloroso se o padre vivesse preso dentro num mosteiro, num palácio: mas o padre vive no meio do povo e o seu sentir é o sentir real do povo.

Como sair deste círculo viçoso? Que caminho percorrer para ajudar o padre a votar com força a ser testemunho vivo do Evangelho? Como ajudar a Hierarquia eclesiástica que está meio perdida, afastada dos problemas do povo?

domingo, 17 de setembro de 2023

UMA IDADE PÓS-CRISTIANA?

 





Paolo Cugini

Falamos cada vez mais da era pós-cristã. Isso significa que há uma percepção de uma mudança radical que ocorreu e que, em alguns aspectos, ainda não terminou. Afinal, é difícil pensar que em pouco tempo uma cultura que marcou séculos de história desaparecerá no ar, muito rapidamente. De qualquer forma, se é verdade que os sinais do que se definia como um processo de descristianização eram presentes desde o final do século XIX, também é verdade que, nas últimas décadas, essa mudança de época se acelerou significativamente. O fato é que o cristianismo, embora tenha uma influência flagrante na formação da cultura ocidental, agora parece ter ficado sem influência. Se tentarmos olhar de perto esse fenômeno, o qual é ao mesmo tempo histórico e cultural, percebemos que o cristianismo começou a ranger quando as metanarrativas ocidentais começaram a mostrar seus limites, dando lugar ao advento da era pós-moderna. A modernidade e o cristianismo ocidental entraram em colapso e, em alguns aspectos, não é possível apreender as causas de um sem considerar o outro. O aspecto mais interessante, que vale a pena analisar, é o patrimônio de rituais religiosos e de sacralidade que o cristianismo produziu e manifestou não apenas nas celebrações religiosas, mas também na arte e na cultura. Qual é o destino de todo esse patrimônio espiritual, cultural e artístico? A impressão geral que se tem, é que o Ocidente vive essa transição de forma serena, como se nada estivesse acontecendo. Este aspecto, a nosso ver, revela o grau de exteriorização do cristianismo que, mais do que representar a alma de uma cultura, era sobretudo um modo de estar no mundo, ou seja, uma política, um poder entre os poderes, assim como uma estética.

Folheando as páginas dos livros que apresentam as análises e reflexões sobre o fim do cristianismo, impressiona que, a maioria da produção desses textos, ser oriunda, de autores franceses. Na França, mais do que em outros países, a reflexão sobre a descristianização do mundo ocidental, começou na época da Revolução Francesa. Além disso, não poderia ser de outra forma, também porque a Revolução Francesa afetou significativamente o cristianismo, ao ponto de considerar o ano da revolução como o ano zero. Além desse fato, há outro, a saber, a maioria dos autores franceses que analisam o processo de descristianização são tradicionalistas, preocupados, portanto, em salvar o que pode ser salvo, em procurar os defeitos e os culpados, mais do que indicar novos caminhos no contexto que está surgindo. Dentre essas análises, vale destacar a do sociólogo francês Guillaume Cuchet (2018), que, ao invés de buscar a origem da descristianização, indica seus sinais incontornáveis. Segundo Cuchet, os sinais evidentes da descristianização em curso, devem ser identificados na queda vertiginosa de alguns aspectos do culto católico, como a confissão individual e a escassa presença de jovens na missa dominical. Além disso, outros sinais são o fim da prática obrigatória e no silêncio sobre os "fins últimos", ou seja, sobre os mistérios da Igreja sobre o que será depois da morte: inferno, purgatório e paraíso. É especialmente digno de nota que, esses sinais, são indicados com um tom acusatório, e não como um sinal de uma cultura em mudança. De qualquer forma, segundo Cuchet, a causa que incentivou o processo de descristianização deve ser identificada no Concílio Vaticano II, considerado o verdadeiro événement déclencheur sem possibilidade de reparação (Cuchet, 2018, p. 143). São análises que revelam uma dificuldade em aceitar a mudança de época em curso e, sobretudo, considerá-la como definitiva.

 

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

SOBRE UM INTEGRISMO CATÓLICO BRASILEIRO DE PLANTÃO. NOTA

 Recebi este significativo artigo e partilho no meu blog.






Romero Venâncio (UFS)

Neste domingo 10/9/2023 ocorreu no estádio do Morumbi em São Paulo um grande evento organizado por uma série de católicos romanos brasileiros chamado de: "DESPERTA BRASIL" que durou das 6:00 da manhã às 22:00 da noite. O evento que foi coordenado quase todo o tempo por uma figura chamado de Frei Gilson (ilustre conhecido nas redes digitais católicas) e por toda uma série de padres, alguns poucos bispos, algumas freiras e muitos fieis que passaram o dia rezando rosário, terço, louvando delirantemente, pregações agitadas e apelativas, discursos contra aborto, "ideologia da gênero", "comunismo" (seja lá o que isto for...) e sempre uma sorrateira defesa de um tipo de "teocratismo" cristão/católico (do tipo, ah! se o Brasil fosse governado por católicos de verdade). O evento estava (acredito que ainda esteja) no YouTube e transmitido pela TV canção nova (segundo informação dos coordenadores).

O evento tinha a função semelhante das antigas procissões, ou seja, demonstrar a força católica na sociedade e intimar os governantes para fazer política que beneficie a estrutura católica do país. Nítido isto. Quanto mais procuravam disfarçar não falar de política, mais evidente ficava que o evento era político.  Até porque não há o que disfarçar. Está tudo nas redes digitais ou plataformas de formação desta geração de católicos. O negócio era para ser "só religioso" na imaginação da coordenação do mega evento. Impossível num Brasil como este atual e diante do conflito interno que vive o catolicismo na atual quadra histórica. Público e notório e nem precisa ser católico para perceber. Só para termos uma ideia: todos esses religiosos católicos de direita conscientes de seu trabalho dito apostólico, são/foram "bolsonaristas" desde o primeiro momento na largada de 2013.

Em síntese: um palco enorme armado no meio do estádio de futebol, uma aparelhagem de som perfeita que ecoava em todo o campo e um revezamento de músicas "carismáticas" com discurso religioso estridente com intuito de chocar as vezes. A insistência de falar a palavra "inferno" quase em todas as pregações e dedicação ao personagem "diabo/demônio" torna-se sintomático. Parece que eles pularam das redes digitais particulares para o estádio. O que fazem em suas "redes" demonstraram para a multidão. As várias tomadas que a câmara que filmava o encontro fazia das milhares de pessoas que encheram o campo, nos faz ver o quanto estavam correspondendo ao chamado dos prelados, freiras ou leigos que desfilavam com seus discursos inflamados. A maioria de padres, freiras e leigos conservadores que falaram no palco improvisado são bastante conhecidos nas redes digitais. Até acredito que é uma coisa combinada: preparar nas redes o que vai para as ruas. Estudo esse fenômeno da "direita católica" já faz tempo e vejo um crescimento significativo desse movimento. E grande parte, começou nas redes digitais (evito o nome "rede social", porque de "social" têm muito pouco ou nada!).

No título uso um termo que foi comum a cultura francesa dos anos 20 do século passado. Trata-se de "integrismo". Chamo esse movimento desta "nova direita" católica advinda das redes digitais de "integristas". Numa breve e genérica definição do termo: "Disposição de espírito de certos católicos (ditos "da direita") que, pretendendo manter a integridade da doutrina, relutam em se adaptar às condições da sociedade moderna, em aceitar o "progressismo" de outros católicos (ditos "de esquerda"). Não tomemos essa definição como definitiva e nem única. o termo pode ser mais aprofundado (o que não faremos aqui!). Mas serve para uma situação importante que ocorre dentro do catolicismo atual: "manter a integridade da doutrina". Tenho estudado uma série destes católicos nas redes e fora delas (paróquias, dioceses, pastorais, eventos de formação) e este tema é central em todas as formas de conservadorismo católico. Há uma necessidade de voltar a uma "identidade católica". O culto do padre de batina preta todo o tempo, a exposição forçada de símbolos católicos na vida pública (mesmo o país se dizendo laico), a tentativa de volta ao rito tridentino (missa em latim, por exemplo) e todo o cortejo de sinais espalhados na vida pública em que defendem o que é "próprio do catolicismo" vira questão de honra para este fiéis. Como se todos/todas estivessem numa "guerra santa" contra potestades demoníacas em praça pública. Reparem que neste tipo de "integrismo" torna-se necessário sempre criar um inimigo e combatê-lo. Aqui mora o perigo para qualquer vivência democrática numa sociedade minimamente liberal. Atentemos!

Tenho observado a preocupação em momentos de formação destes católicos integristas no Brasil em valorizar e ler bastante documentos de papas como Pio IX, Pio X ou Pio XII (os Papas da defesa intransigente da "identidade católica" contra o mundo moderno). E, obviamente, abominarem figuras como os Papas João XXIII ou Paulo VI e nem precisa dizer o que pensam do Papa Francisco (para uma parte dessa gente, nem Papa ele é!!!). Uma coisa eles não percebem ou não querem, propositalmente, perceber: a história demonstrou que esse projeto é fadado ao fracasso. Esse tipo de "evangelização terrorista" de cunho integrista em sua radicalidade leva a derrota do próprio catolicismo. Esbarra sempre num mundo irreversivelmente moderno (que vive no presente). Ou seja, já dizia um barbudo alemão do Século XIX: "A roda da história não volta para trás". Mesmo que eles arregimentem multidões. Um número grande de "católicos sensatos" (eles existem, por incrível que pareça!) já sabem disto e faz um tempinho e desembarcaram dessa aventura conservadora/integrista que não leva a nada de cristão no mundo contemporâneo desde, pelo menos, o advento do Concílio Vaticano II. Estes sensatos católicos atravessaram o "riacho de fogo" chamado Feuerbach e já estão atravessando outros rios. 

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

CURSO DE EXTENSÃO UNIVERSITARIA-FACULDADE CATÓLICA DA AMAZONAS

 



                                                                                             

AREA MISSIONARIA SAGRADA FAMILIA

CURSO DE FORMAÇÃO PARA LEIGAS E LEIGOS

 

CONHECER O CONCILIO VATICANO II


 

Introdução

 Conseguir a ter nas comunidades leigas e leigos preparados é de suma importância e leva os coordenadores de áreas missionarias e paróquias a estruturar percursos formativos adequados, como este que estamos apresentando. Como foi escrito no Plano de evangelização (2023-2026) da nossa área missionaria: “a vocação do laicato deve ser zelada e cultivada no seio da comunidade. Nossa Area Missionaria não pode eximir-se da responsabilidade de oferecer formação solida e sistemática aos agentes de pastoral e aos membros das comunidades, assim como os mesmos agentes de pastoral, sobretudo, não devem abdicar a este direito e dever, no que tange o aprofundamento da fé, da teologia e da doutrina da Igreja em vista de um qualificado serviço pastoral” (PE, p. 21).  

É por estas profundas motivações que estamos propondo um curso de formação para leigas e leigos engajados nos vários serviços das comunidades, para aprofundar o conhecimento dos principais documentos do Concilio Vaticano II. Sabemos que a nossa caminhada de Igreja tem como ponto referencial os conteúdos do Vaticano II e, por isso, queremos que toda leiga e leigo tenha a possibilidade de conhecer o conteúdo destes documentos, á luz, também, de como foram atualizados na caminhada especifica da igreja latino-americana (Medelin, Puebla, Santo Domingo e Aparecida). Para dar valor a esta proposta formativa, buscamos o apoio da Faculdade Católica do Amazonas, que nos oferece a oportunidade de estruturar esta formação na linha de um curso de extensão, com a possibilidade de receber um certificado final.

 

 

Objetivo do curso: oferecer um conhecimento básico do Concilio Vaticano II e, in modo especial, dos quatros documentos principais: Dei Verbum (a Palavra de Deus na vida da Igreja), Gaudium et Spes (diálogo da Igreja com o mundo), Lumen Gentium (o sentido da Igreja como povo de Deus) e Sacrostantum Concilium (renovação da liturgia)

 


Modulo I- 6 hs: SÁBADO 16 SETEMBRO das 14 ás 16,30: A importância do Concilio Vaticano II na vida da Igreja Católica e o diálogo com o mundo no documento Gaudium et Spes. Trabalho em casa: leitura dos capítulos 1 e2.

 

Modulo II- 6 hs: SÁBADO 14 OUTUBRO das 14 ás 16,30: Como a Igreja Católica interpreta a Bíblia? O documento Dei Verbum. Trabalho em casa: leitura integral do texto da Dei Verbum

 

Modulo III- 6 hs: SÁBADO 28 OUTUBRO das 14 ás 16, 30: A renovação litúrgica e o documento Sacrosantum Concilium Trabalho em casa: leitura dos primeiros 40 números.

 

Modulo IV- 6 hs: SÁBADO 25 NOVEMBRO das 14 ás 16,30: O sonho da Igreja do Concilio Vaticano II: Igreja povo de Deus no documento Lumen Gentium. Trabalho em casa: leitura dos capítulos: 1,2, 4 e 5.


 


Indicações:


ü  Os encontros acontecerão na igreja da Sagrada Família

ü  Horário: 14-16,30

ü  O certificado do curso será entregue somente para as pessoas que participaram do curso na sua proposta integral.

ü  Inscrições na secretária paroquial.

ü  CH: 24 hs: 10 teóricas e 14 de estudo pessoal.

ü  Coordenador e palestrante do curso de extensão: Pe Paolo Cugini, prof. da Faculdade Católica do Amazonas.

ü  No final os cursistas devem entregar um relatório conforme as indicações que serão oferecidas.

 

Secretaria - Área Missionária Sagrada Família -Japiim

Av. da Penetração II, 1843 - Japiim, Manaus - AM, 69076-800, Brasil

Horário:

Terça a Sexta-feira:        08:00 - 12:00

                                  13:00 - 17:00

Sábado:                           08:00 - 12:00

 

Cell: 92 8431-5178

e-mail: areamissionariasagradafamilia1@gmail.com

 

Aguardamos a vossa valiosa presença. Pe Candido e as equipes das comunidades

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Desmonte ambiental de Bolsonaro fez Amazônia dobrar emissões de gás carbônico, diz estudo publicado na Nature

 



 

24 agosto 2023. Pesquisa concluiu que desmatamento contribuiu para um aumento de 693% na exportação de madeira bruta. A reportagem é de Thalita Pires, publicada por Brasil de Fato, 23-08-2023.

As emissões de gás carbônico da Amazônia brasileira mais do que dobraram nos anos de 2019 e de 2020, os dois primeiros anos de governo Jair Bolsonaro (PL). A conclusão é de um estudo publicado nesta quarta-feira (23) na revista Nature.

A autoria da pesquisa é de Luciana Gatti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em parceria com mais de 20 pesquisadores de outras universidade e institutos.

"Nossos resultados indicam que um enfraquecimento na aplicação da lei levou ao aumento do desmatamento, queima de biomassa e degradação florestal, o que aumentou as emissões de carbono e aumentou a seca e o aquecimento das florestas amazônicas", diz o resumo do artigo.

O trabalho científico calculou as médias de emissões entre 2010 e 2018, anos das gestões Michel Temer e Dilma Rousseff, e as comparou com o biênio do início do governo Bolsonaro.

Desmatamento e commodities agrícolas em alta

Os autores atribuem a destruição da floresta ao desmonte ambiental que marcou administração bolsonarista. Bolsonaro congelou o Fundo Amazônia, criou entraves para a fiscalização do Ibama e se referia aos fiscais ambientais como "indústria da multa".

Os dados mostraram ainda aumento de 122% nas emissões de carbono, de 80% no desmatamento e de 42% nas áreas queimadas. A exportação de madeira bruta cresceu 693%.

No lugar da floresta, a pesquisa aponta crescimento do rebanho bovino (13%) e das áreas plantadas de soja (68%) e milho (58%). Os itens são commodities do agronegócio que se valorizaram no mercado mercado externo.

Por outro lado, os números da fiscalização ambiental caíram. De 2010 a 2018, a média anual de autos por infração ambiental foi de 4,7 mil. Nos dois primeiros anos de Bolsonaro, o número caiu para 3,3 mil.

Amazônia ocidental virou emissora de carbono

Os cientistas relataram ainda que houve aumento do desmatamento na porção oeste da Amazônia, que era até então a área mais preservada, onde estão Roraima, Amazonas, Rondônia e Acre.

Fonte: Desmonte ambiental de Bolsonaro fez Amazônia dobrar emissões de gás carbônico, diz estudo publicado na Nature - Instituto Humanitas Unisinos - IHU