segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Fé, política e consciência: a paróquia a caminho da votação


 Como já é tradição, durante os anos de eleições políticas, a paróquia de San Vincenzo de Paoli na Compensa de Manaus realiza um trabalho de sensibilização através do Movimento Fé e Política.

 

Paulo Cugini

 

 

Como já é tradição em anos eleitorais, a paróquia de São Vicente de Paulo optou por caminhar ao lado do povo, percorrendo as ruas do bairro Compensa, em Manaus, e promovendo pacientemente a conscientização e a divulgação da mensagem. O objetivo não é promover um partido político ou um candidato, mas sim ajudar as pessoas a redescobrirem o valor do voto como um ato de responsabilidade, liberdade e preocupação com o bem comum.

O caminho foi pavimentado por meio de uma série de reuniões comunitárias, nas quais estudamos as diretrizes políticas elaboradas pela Arquidiocese de Manaus. Essas diretrizes incentivam os eleitores a fazerem escolhas informadas, avaliando a trajetória dos candidatos, sua integridade pública, seus antecedentes criminais limpos, em conformidade com o espírito da lei Ficha Limpa, e, sobretudo, sua presença genuína na vida da comunidade. Um candidato não deve apenas aparecer durante o período de campanha: sua credibilidade provém de sua trajetória, compromisso visível e proximidade tangível com as pessoas.

 

O perigo sempre presente é que indivíduos corruptos, ligados a interesses privados, grupos econômicos obscuros, tráfico de drogas ou crime organizado, sejam eleitos. Quando a política se torna uma ferramenta para enriquecimento pessoal ou para a proteção de poderes criminosos, os mais pobres pagam o preço mais alto. Faltam recursos para escolas, saúde, moradia, segurança e todas as políticas públicas que poderiam melhorar o cotidiano da população.

Neste ano, no primeiro domingo de outubro, o Brasil irá às urnas para eleger o Presidente da República, governadores estaduais, deputados federais e deputados estaduais. É um momento decisivo, pois a votação não se trata apenas dos nomes que ocuparão os cargos, mas do projeto de sociedade que queremos construir. As escolhas políticas impactam a vida concreta das famílias, a distribuição de recursos, a proteção da Amazônia, a dignidade do trabalho e a possibilidade de um futuro mais justo para os jovens.

O contraste entre os privilégios da política e a realidade da maioria da população é um dos aspectos que mais fere a consciência. Segundo informações publicadas na imprensa local, no Amazonas, discutiu-se um subsídio mensal para deputados estaduais no valor aproximado de 34.774 reais; outras reportagens apontaram pagamentos maiores e disputas sobre os valores recebidos. Mesmo considerando os valores menores, a disparidade permanece evidente em comparação com aqueles que vivem com salário mínimo, insuficiente para suprir integralmente as necessidades básicas de uma família. Essa desproporção nos ajuda a compreender por que a política não pode ser encarada como uma carreira de privilégios, mas sim como um serviço público a ser exercido com sobriedade e transparência.

 

A desigualdade social continua sendo um grande problema no Brasil. Estamos falando de um país rico em recursos naturais, culturais e humanos, mas ainda marcado por profunda pobreza, famílias vivendo em condições desumanas, periferias negligenciadas e comunidades lutando diariamente pelo acesso a direitos básicos. Nesse cenário, o voto não pode ser tratado como moeda de troca. Vender o voto significa entregar o próprio futuro àqueles que, depois de eleitos, muitas vezes desaparecem das ruas e das comunidades que prometeram defender.

Por isso, estamos comprometidos, com humildade, mas também com determinação, a tentar mudar a situação, ao menos incentivando as pessoas que encontramos no bairro da Compensa a não venderem seu voto, mas a se informarem, dialogarem, compararem propostas e escolherem pessoas honestas, competentes e próximas da realidade do povo. A consciência política nasce da escuta e da proximidade: constrói-se por meio de visitas, conversas em frente às casas, reuniões comunitárias e grupos de jovens e adultos que desejam um Brasil mais justo.

É maravilhoso ver jovens e adultos unidos nesta obra do Movimento Fé e Política. A fé, quando autêntica, não fecha os olhos à realidade, mas ensina responsabilidade, participação e a defesa da dignidade dos pobres. A política, quando vivida como serviço, pode se tornar um espaço de transformação social e esperança. Nossa tarefa, como comunidade cristã, é ajudar as pessoas a compreenderem que votar é um ato moral, um gesto que diz respeito à justiça, à paz e ao futuro das próximas gerações.

Em tempos marcados pela corrupção, violência e desconfiança nas instituições, escolher com sabedoria torna-se uma forma concreta de resistência. Não podemos mudar tudo sozinhos, mas podemos semear a consciência. Podemos ajudar uma pessoa a não vender o seu voto, uma família a discutir assuntos com mais clareza, um jovem a compreender que a política não é apenas um lugar de escândalos, mas também um lugar onde se decide se a vida dos pobres será respeitada ou esquecida. É a partir destas pequenas sementes que pode crescer uma sociedade mais fraterna, mais transparente e mais fiel ao Evangelho da justiça.

 

 

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