sábado, 10 de junho de 2023
sexta-feira, 2 de junho de 2023
Abraham Joshua Heshel e a crise da religião
Paolo Cugini
O discurso de Heschel sobre a
liberdade como essência da religião nasce da tomada de consciência da crise
religiosa do seu tempo. A seu ver a religião se distanciou progressivamente dos
problemas vitais, isolando-se e, por isso, tornando-se insossa. O problema
dessa crise não deve ser procurado fora do âmbito religioso, como se ela
dependesse de uma recusa da sua específica proposta, mas sim no seu interior,
na sua maneira de se colocar no contexto atual. Parece que a religião perdeu o
rumo, tornando[1]se
incapaz de expressar o próprio específico. Tudo isso, segundo Hescel, vem de
muito longe, do processo constante que a religião aceitou de um progressivo e
constante isolamento.
A religião foi vítima da
tendência de se tornar fim a si mesma, a isolar o sagrado, a viver em modo
paroquial, toda encentrada em si mesma; como se o seu compromisso fosse não de
nobilitar a natureza humana, mas aumentar o poder e a grandeza das suas
instituições o de ampliar o corpo das suas doutrinas. Muitas vezes a religião
se esforçou muito mais para canonizar os seus preconceitos que lutar em defensa
da verdade; para petrificar o sagrado que para santificar o secular (HESCHEL,
1999, p.10-11).
Este isolamento no qual se
encontra a religião hoje é fruto de uma série de operações acontecidas por
dentro do dinamismo religioso, que modificaram estruturalmente a sua proposta.
E assim, a fé torna-se credo, deixando o âmbito vital do relacionamento pessoal
com Deus para se refugiar num dogmatismo estéril. Sempre neste caminho, é fácil
observar como a religião se reduziu sempre mais a disciplina, modificando desta
maneira o sentido profundo do culto, identificando-a com a Lei. Este fenômeno
que Heschel, em páginas memoráveis, chamou de comportamentismo religioso, é bem
visível no hebraísmo contemporâneo. O comportamentismo religioso sustenta que a
vontade de Deus se realiza somente através da ação exterior, da observância da
Lei. Nessa altura, a devoção interior não é elemento importante não apenas para
o hebraísmo, mas sim pela religião no geral. Por isso se insiste muito sobre a
tradição, a observância, a disciplina, dando pouquíssimo espaço pelos temas
ligados à experiência religiosa. Esta perspectiva, que dominou o hebraísmo
moderno, provocou um enfraquecimento na sua sensibilidade pela dimensão
metafísica, que se manifesta no elemento sagrado, no misterioso. Reduzindo a
religião à observância, o centro se torna o homem e a sua capacidade, em
detrimento do elemento de novidade que o sagrado traz consigo. Por esta
corrente do pensamento hebraico, que Heschel considera extremamente negativa, o
estudo da Lei é a única expressão do autêntico hebraísmo e, em consequência, a
teologia é um fator estranho e exterior ao hebraísmo autêntico. Contra esta
posição radical Heschel sustenta que:
As regras da observância são
leis na forma, mas a substância é o amor. E a Torá contém seja a lei que o
amor. A lei é o elemento que tem unido o mundo, enquanto o amor leva o mundo
para frente. A lei é o meio, não o fim; o caminho, não a meta (HESCHEL, 2006,
p.348).
O homem é criado à semelhança
de Deus não apenas para obedecer a uma lei externa, mas para colaborar neste
projeto e criar o mundo conforme a visão dele. Isso quer dizer que o homem
autenticamente religioso, longe de ser um mero executor passivo de leis
externas, torna-se protagonista ativo do projeto da criação de Deus. O perigo
de uma adesão formal à lei do Criador comporta o esquecimento do compromisso da
pessoa como um todo no projeto de Deus. Além disso, se a religião é relegada à
observância externa da lei, esta atitude abre o caminho da separação da
religião do mundo, sobretudo do compromisso de transformá-lo para que se torne
a semelhança do Pai6 . É essa atitude legalista, que abre o caminho à crise
contemporânea da religião. Como em toda época de crise é o passado que é exaltado,
mas não como motivo para impulsionar o presente, mas sim como fuga sintomática
de uma incapacidade de colher a força intrínseca ao fenômeno religioso. Isso é
visível quando a religião fala enfatizando desmedidamente o nome da autoridade,
dos conteúdos dogmáticos, da força das leis em detrimento dos conteúdos típicos
da religião que são o amor, a compreensão, a misericórdia. Por isso, não é de
estranhar se a religião nos dias de hoje tornou-se insignificante, pois é
incapaz de incidir na cultura.
Os frutos negativos do
comportamentismo religioso são bem visíveis, segundo Heschel, no quadro da
cultura contemporânea, na separação produzida, relegando a religião à condição
de uma das disciplinas humanas, e não como o fermento da vida. Nessa altura do
discurso, podemos nos perguntar: a final de conta qual deveria ser o específico
da religião? Se é verdade que perdeu o rumo, como podemos definir a tarefa dela
no mundo? Antes de tudo “a religião é resposta aos questionamentos últimos. No
momento em que esquecemos os questionamentos últimos, a religião torna-se
irrelevante, e a sua crise e incentivada” (HESCHEL, 1999, p. 30). A dificuldade
que a religião encontra na modernidade é devida ao fato de que a cultura
moderna modificou o eixo e o quadro dos valores. De fato, a Bíblia é resposta
ao interrogativo: o que quer Deus do homem? Para o homem moderno a pergunta foi
modificada na seguinte maneira: o que o homem pede a Deus? De uma atenção a
Deus se passou a colocar a preocupação sobre o homem e as suas necessidades e,
desta maneira a teologia virou antropologia, as ciências teológicas se tornaram
ciências humanas. Este é, segundo Heschel, o foco do problema, pois é neste
nível que aconteceu a modificação do eixo cultural que mudou bastante a
essência da religião no mundo contemporâneo. Esquecendo que é um dom, o homem
focaliza sempre mais os próprios interesses nas suas necessidades.
Hoje se olha as necessidades
como se fossem sagradas, quase coubessem a totalidade da existência. As
necessidades são os nossos deuses e nos preocupamos e não poupamos fadigas para
gratificá-los (HESCHEL, 1999, p. 32). O problema apontado pelo nosso autor é de
suma importância, pois oferece uma chave de leitura das problemáticas da
modernidade. Se, de fato, o centro de interesse não é mais Deus e as suas
exigências, mas o homem com as suas necessidades, este último não se percebe
mais como dom, como apelo, mas sim como um punhado de necessidades a serem gratificadas.
Outro dado importante nesta perspectiva é a análise do tipo de necessidade que
caracteriza o homem que, diferentemente dos animais, modifica-as a partir do
contexto no qual vive. Existem múltiplas necessidades que se tornam assim, por
causa da influência cultural dos mass-mídia, da publicidade. Muitos dos
interesses que cultivamos com cuidado são impostos pelas convenções da
sociedade. Isso quer dizer que existem necessidades reais, que é necessário
cuidar e, ao mesmo tempo, existe toda uma gama de necessidades que são
efêmeras, invenções da cultura que, como consequência, passam com o tempo. Se a
religião sofre tanto na época moderna, se ela é sempre mais isolada é também
por este motivo, por esta mudança de eixo dos valores da modernidade.
O individualismo exacerbado,
fruto maduro do idealismo de cunho cartesiano, distrai o homem da atenção ao
apelo de Deus, para fechar-se na preocupação de gratificar as próprias
necessidades, que se tornam sempre mais os novos ídolos. A religião hebraica não
ensina somente que o centro da lei é o mandamento do amor, mas tem muita
atenção para que os ídolos não entrem a deturparem o relacionamento com Deus. A
crise da religião atual é devida a esta mudança radical que arrastou também o
espírito religioso. “A religião – continua Heschel – acostumou-se ao humor
moderno, proclamando si mesma como satisfação de uma necessidade humana” (HESCHEL,
1999, p.36).
Esta ideia, que é
profundamente oposta ao autêntico espírito religioso, está contribuindo
bastante para a esterilização do pensamento religioso. De fato, se também a
religião se torna resposta a uma necessidade humana, se coloca no mesmo patamar
das outras necessidades, perdendo a força e, ao mesmo tempo, a exigência de ter
algo a mais, de qualitativamente diferente. Este é segundo Heschel o foco do
problema da crise contemporânea da religião, que para não ser considerada
superada da cultura atual, abriu progressivamente mão do seu específico,
virando produto tipicamente humano. Na realidade, a religião não é busca de
gratificações pessoais, de satisfação de necessidades humanas, mas resposta a
um apelo que vem de outro nível da realidade. Colocando a religião ao nível das
necessidades humanas, perde-se imediatamente a dimensão transcendente da
realidade8 . Os dez mandamentos não foram oferecidos ao povo para satisfazer
uma necessidade. O povo naquela época sentia a necessidade (cultural) de uma
imagem, mas tal necessidade foi frustrada por Deus. A mesma Bíblia não começa
com a criação do homem, ou com a história da religião, mas sim com a criação do
céu e da terra.
Quando se transformam as
necessidades humanas em objetivos, ali começa a confusão. Deus é muito mais da
suma das necessidades humanas. Isso vale também para o homem, cujo destino e
vocação vão bem além da satisfação das necessidades que ele percebe.
A religião não é uma maneira de satisfazer necessidades. É a resposta a
um questionamento: Quem é que precisa do homem? É a consciência que alguém
precisa de nós, do fato que o homem é uma necessidade de Deus. É o caminho que
conduz a santificação da satisfação das necessidades autenticas [...]. Tarefa
da religião é de ser um desafio á desestabilização dos valores (HESCHEL, 1999,
p. 38-39).
O ponto de partida da religião
é a certeza de que aos homes é pedido algo, que existem objetivos que precisam
de nós. Diferentemente de outros valores ou necessidades, os fins morais e
religiosos suscitam em nós um sentimento de obrigação. A religião tem esta
tarefa única na história: ajudar o homem a perceber a dimensão transcendente, o
apelo do sagrado que o chama para realizar algo que não é, de forma alguma,
definível com meras características humanas. O específico dos valores
religiosos é que se apresentam não como objetos de percepção, como necessidades
humanas manipuláveis para o homem, mas sim como tarefas, apelos que exigem uma
resposta pessoal. A tarefa da religião é ajudar o homem, a mulher a manter vivo
o “sim” à realidade superior, manter a capacidade do homem de dizer: eis me
aqui.
quarta-feira, 17 de maio de 2023
A doutrina da força e suas aplicações na filosofia de Emmanuel Mounier
Paolo Cugini
Mounier percebe o perigo de que a
revolução nunca aconteça. E, refletindo sobre isso, o autor se interroga sobre
o sentido da violência como passagem obrigatória pela realização da nova
sociedade. O mundo da pessoa – escreve Mounier – exclui a violência como meio
de constrição interior, mas algumas necessidades que se formaram na desordem
anterior produzem ainda violência nas pessoas (MOUNIER, 1982, p. 35). Se é
verdade que, em algumas circunstâncias, o uso da violência pode ser consentido,
é preciso limitar ao máximo este meio revolucionário. Porém:
Se somente da violência pode, em
algumas circunstâncias, depender a decisão final, nenhuma razão plausível pode
exclui-la. A violência pode chegar somente como extrema necessidade. Quando é
utilizada de forma prematura sufoca os homens e prejudica o resultado final.
(MOUNIER, 1982, p.49).
Percebe-se, dentro o pensamento de Mounier, uma
profunda tensão entre o reconhecimento como princípio do uso da violência em
situações limites e, do outro lado, uma constante aspiração à paz. A não
violência deve ser o fruto da força e deve conseguir repudiar toda aliança com
o medo e a fraqueza. A renúncia de subverter com violência a desordem estabelecida
é legitima somente se nasce da aceitação dos limites inevitáveis que a ação
impõe e não por causa do medo.
Se, como vimos, Mounier não exclui em linha de
princípio a ação violenta, todavia a sua preferência é com os meios de ação não
violenta. No livro Revolução personalista e comunitária, o autor manifesta a
vontade de experimentar, antes de tudo, os meios não violentos e de não utilizar
nunca os meios violentos que, em si mesmos e num sentido absoluto, sejam condenáveis
mas, acrescenta Mounier: “nós não acreditamos que todos os meios violentos sejam
negativos pelo único fato de que são violentos” (MOUNIER, 1984, p. 281). Por
isso, o cristão não deve recusar de forma prevenida o uso da violência, mas se
questionar sobre a sua legitimidade e manter uma constante atenção sobre os
meios que são envolvidos em cada ação. A não violência é uma arma tipicamente
cristã, mas não é a única[1]. A
teoria da revolução encontra-se aqui com uma filosofia da ação, aquela mesma
que Mounier amadureceu no Trattato del Carattere (MOUNIER, 1993). Nessa
obra, o autor insiste sobre a relação entre homem e ambiente e sobre a
importância da experiência da ação.
A única prova da verdade
de um homem são os seus atos. O valor das suas palavras, a autenticidade do seu
pensamento, se revela somente na confirmação que é data, pois nós mesmos somos
jogados na ação antes de refletirmos sobre ela (MOUNIER, 1993, p. 5).
Como é muito fácil perceber, a reflexão de Mounier
acaba formalizando uma ética da ação, mais do que uma técnica da ação. O
filósofo francês sublinha a exigência da ação, contra toda forma de pureza
idealista que foge da realidade[2].
As páginas que dedica a este tema são de grande importância na estrutura do seu
pensamento. O personalismo se recusa a ser técnica de ação e, ao mesmo tempo,
recusa a acusação de ser uma mera filosofia utópica, sem nenhuma relevância
para a história. Pelo contrário, o personalismo, que se desenvolveu ao longo
dos anos 30 e 40 do século passado, sobretudo nas páginas da revista Ésprit,
sempre ofereceu propostas concretas para os problemas encontrados[3].
O discurso sobre as formas concretas da ação é apenas
esboçado. De um lado, de fato, nos anos entre as duas guerras, quando Mounier
amadureceu o seu pensamento revolucionário, a exigência primeira era romper com
a desordem estabelecida e o personalismo nesta época não conseguiu desenvolver
um programa político social; do outro lado, quando Mounier, depois do segundo
conflito mundial, teria as condições necessárias para enfrentar o problema,
encontrou uma situação histórica e política extremamente mudada, de uma certa
forma uma sociedade pós-revolucionária. Nem por isso Mounier reduziu o
personalismo a uma espécie de revolução interior. De fato, depois da
libertação, denunciava “a doença infantil da revolução espiritual” que amiúde
se resolve numa postura
conservadora sem futuro, que fica confundindo a
denúncia com a ação, sem conseguir incidir na ação da história.
Para inserir o personalismo no
drama histórico do nosso temo não basta dizer: pessoa, comunidade, homem, etc.;
é também preciso dizer: fim da burguesia ocidental, advento das estruturas do
socialismo, função iniciadora do proletariado. (MOUNIER, p. 105) Somente assim,
será possível evitar que o personalismo se torne uma ideologia boa para todos,
sem alguma possibilidade de orientar as pessoas e, sobretudo, sem ter a chance
de mudar o caminho da história. A filosofia personalista, portanto, não pode
ser uma máscara para uma política de conservação social. Apesar disso, é bom
salientar que o personalismo nunca conseguiu elaborar uma teoria da ação
política[4].
“Recusada a democracia parlamentar, condenados sem apelo os partidos,
considerados com suspeita os sindicatos, falta ao personalismo o meio para
desenvolver o seu potencial revolucionário” (CAMPANINI, 2012, p. 113).
O pensamento político de Mounier consegue elaborar
apenas uma teoria da ação para pequenos grupos. Foi isso que aconteceu logo no
início da experiência da revista Ésprit, quando Mounier formou sobre todo o
território francês pequenos grupos de estudo – os “grupos Ésprit” – que
conseguissem manter uma ligação entre a realidade e a elaboração filosófica. A
estrutura da sociedade do futuro pode ser criada no:
pequeno grupo, que vale para os
homens que recolhem e pela intensidade da difusão, mais que pelo número, que
não se propõe grandes tarefas revolucionárias, mas a descoberta corajosa de
panoramas desconhecidos e a vigilância sobre um tesouro necessário ao bem-estar
de todos, tesouro que os tumultos esquecem e ameaçam. (MOUNIER, p. 29).
A praxe revolucionária se resolve nesse contexto numa
preparação da nova sociedade dentro de pequenos grupos, na espera de que estas
formas novas de relacionamento social se ampliem, afetando toda a estrutura
social. Mais uma vez, Mounier revela a sua vocação tipicamente cultural, mais
do que política. A reflexão sobre a ação se resolve na passagem de uma ética do
compromisso para uma ética do testemunho. Assim como também desenvolveu o
discurso na sua obra fundamental – O personalismo –, Mounier indica quatro
dimensões da ação: fazer, agir, contemplar, ação coletiva. Na realidade,
somente o primeiro desses pontos tem como finalidade a ação propriamente dita,
o poiéin, que Mounier resolve, sobretudo na economia, na ação do homem sobre
as coisas, com todas as ligações que existem entre economia e política. O agir,
que Mounier indica com o grego pràttein, tem como objetivo a ação ética,
caracterizada pela autenticidade do seu jeito de se colocar, mais do que as
formas concretas de como ela se realiza no plano dos acontecimentos históricos.
Também na categoria da theoréin, a contemplação
não tem muito sentido da ação, assim como é compreendida no pensamento comum.
Segundo a reflexão de Mounier, “a contemplação é uma tarefa do homem na sua
totalidade; não é evasão da atividade comum para uma atividade escolhida e
separada, mas aspiração para um reino de valores que desenvolvem toda a
atividade humana” (MOUNIER, 2006, p. 125). A teoria da ação termina afirmando
uma tensão entre o “polo político” e o “polo profético”, o primeiro mais
concentrado sobre o sucesso, o segundo mais orientado sobre o
testemunho, todos dois, porém, indispensáveis ao homem
de ação. É bom salientar que a teoria da ação do personalismo não se resolve
numa confissão de impotência ou num refúgio sobre o plano ético e religioso. Na
realidade, em Mounier existe uma teoria da ação, não uma técnica da ação[5].
Examinando com atenção a posição política de Mounier,
percebe-se uma relevância prática. De fato, o filósofo francês reconhece o
valor da não violência como atitude religiosa, como apelo à santidade. Isso,
porém, não exclui o dever de se opor à força com a força. O homem não consegue
se opor somente com o testemunho pessoal perante estruturas construídas contra
a pessoa. “Nunca conseguirá sozinho sacudir a instituição do mal na estrutura
do mundo moderno” (MOUNIER, 1984, p. 226). Por isso, junto com o compromisso espiritual,
é preciso uma revolução interior, mas também política, para remover o reino da injustiça
e da desordem estabelecida.
A teoria de Mounier sobre a ação indica dois polos: de
um lado a denúncia de uma impossível pureza absoluta do compromisso; do outro,
a indicação do perigo que a política se transforme em pura vontade de potência.
Entre espiritualismo puro e vontade de potência, o personalismo se esforça para
criar um difícil equilíbrio, sem porém, sacrificar a contemplação da ação, sem
renunciar à técnica e, ao mesmo tempo, conferindo a prioridade aos meios espirituais.
[1] Cfr. Muito
interessante, para aprofundar o relacionamento entre ação violenta e ação não
violenta, são os escritos publicados em: Pacifistes ou bellicistes?,
Paris 1939 (Em: MOUNIER, Emmanuel, Oeuvres, vol. 1, Paris: Bibliothéque de la
Pléiade, pp. 785-836).
[2] Mounier enfrentou
o tema da fuga da realidade em: Che cos’é il personalismo? Torino, 1948,
cit. p. 22.
[3] Sobre esse assunto
cfr. O nosso trabalho sobre o nascimento da revista Ésprit (CUGINI, 2009).
[4] É isso que
sustenta CAMPANINI, 1968, p. 213.
[5] Segundo Giorgio
Campanini (1968, p. 216) a teoria da ação de Mounier manifesta o grande limite
do personalismo e a explicação da sua escassa incidência na política francesa.
A técnica dos meios espirituais e o compromisso revolucionário no pensamento de Emmanuel Mounier
A revolução espiritual, declara Mounier,
não é uma revolução feita por pessoas impotentes: querem uma maior pureza para
conseguir uma maior eficácia. Ele, porém, se pergunta: “Toda ação não é
condenada a ser ineficiente enquanto é pura, e não é impura enquanto eficaz?”.
A resposta tenta ligar o rigor ético com a eficácia prática. Se, de fato, os meios
materiais são os mais queridos, eles geram a hipocrisia, a mentira, enquanto os
meios puramente espirituais realizam uma silenciosa ação de presença, mas não
levam ao sucesso. Mounier pensa que o contraste pode ser superado através de:
Meios que sejam temporais,
encarnados, que exigem uma técnica cuja alma, cujo fim e então o mesmo rosto
pertencem a um mundo diferente daquilo dominado pela utilidade da força. Por
isso torna-se necessária uma técnica da ação espiritual, não apenas de uma
ética da ação, mas também de uma técnica, pois não se trata simplesmente de
sugerir algumas ideias, mas de apontar os meios para rendê-las eficazes.
(MOUNIER, 1984, p. 273).
Essa técnica dos meios espirituais baseia-se numa
ligação estreita entre meios e fins, ações e valores. É preciso elaborar uma
lúcida consciência do valor da ação, das suas características e dos seus
limites, evitando de se jogar na ação sem antes avaliar os fins que ela envolve
e os meios da qual precisa. Essa lucidez nasce somente de uma decidida assunção
das próprias responsabilidades. A ação revolucionária, portanto, não pode
prescindir de uma precisa referência a um parâmetro de valores. Cada ação
revolucionária é destinada à falência sem este compromisso pessoal, sem ser
também uma revolução pessoal. Chamamos de pessoal aquela prática que nasce a
cada momento de uma consciência, de ter uma cativa consciência revolucionária,
de uma revolta que num primeiro momento cada um dirige contra si mesmo, contra
a própria participação ao desordem estabelecido, entre o espaço admitido entre
aquilo que serve e aquilo que diz servir, e que num segundo tempo, brota numa
conversão contínua de toda a pessoa. (MOUNIER, 1984, p. 294). Manter a ligação entre ação e pessoa é o
único caminho que permite não cair no mito da revolução, que se forma quando a
ação e o sucesso são procurados por si mesmos. A revolução, sendo feita por
homens, nunca poderá ser o bem total, assim como não existe estrutura que seja
o mal total. “Nós mereceremos a nossa revolução – afirma Mounier – somente se
tivermos a coragem de começar a revolucionar nós mesmos” (MOUNIER, 1984,
p.307).
Mais uma vez o discurso passa das estruturas à pessoa.
Além de todo mito de esquerda e de direita, a revolução é sempre uma conquista
difícil e também uma conquista permanente, que precisa ser renovada a toda
hora, através de um renovado impulso revolucionário. Dessa maneira, voltamos à
pessoa. Os Principes d’action personaliste do Manifeste au servisse du personnalisme,
que deveriam representar a tradução prática das ideias que se encontram em Revolução
personalista e comunitária, terminam em marcar muito mais a ligação entre ação
e pessoa, que as dimensões operativas da mesma ação. Como linhas de ação para
construir a nova sociedade personalista são, de fato, apontadas: a tomada de
consciência de si, a dissolução dos falsos mitos, a exigência de ser antes de
fazer e de conhecer antes de agir. Nessa fase do seu pensamento, Mounier
insiste muito sobre a necessidade de uma conversão integral, para evitar uma
adesão apenas superficial ao compromisso revolucionário. “Ser para fazer,
conhecer para agir: a revolução personalista realiza uma ligação interior entre
espiritualidade da pessoa, pensamento e ação, que o idealismo tinha despedaçado
e que o marxismo se recusa a restabelecer”. (MOUNIER, 1982, p172).
As linhas de uma teoria do compromisso revolucionário
deveriam se desenvolver em três direções: compromisso pessoal, ruptura com as
estruturas do mundo moderno burguês, estudo de uma técnica dos meios
espirituais. Mounier tem bem claro na mente que sem uma ruptura radical com
aquilo que ele chama de desordem estabelecida, ou seja, com o mundo moderno
burguês, é impossível realizar uma revolução personalista.
A crítica da sociedade burguesa e da “desordem estabelecida” em Emmanuel Mounier
Paolo Cugini
A filosofia de Emmanuel Mounier, e todo o seu
pensamento político, são baseados na categoria do compromisso. A crítica do
mundo moderno assume um lugar de primeiro plano na gênesis do mesmo conceito de
revolução. Refaire la Renaissance, como expressa o ambicioso programa da
Revista Esprit, por ele mesmo fundada em 1932, significa uma radical ruptura com
o mundo moderno. O problema – afirma Mounier – não é de purificar, mas de
reformar à raiz, com coragem, todas as estruturas sociais e também o coração
dos homens; mas isso é outra coisa. Uma mudança radical foi sempre chamada de revolução.
Tem medo da palavra, percebo o medo da coisa. Sem dúvida, nenhuma revolução
acontece sem nenhuma violência. O problema não é mais entre revolução e as
meias medidas, mas entre a revolução que salva os valores humanos e a revolução
que os sufoca. (MOUNIER, 1984, p. 267). Para Mounier, o problema não é fazer a
revolução, mas como fazer, pois, pare ele, a revolução é inevitável e
necessária. As estruturas sociais do tempo de Mounier parecem a seu ver tão
deformadas que não tem mais outro caminho que possa substitui-las. A crise que Mounier
percebia, não era apenas política e econômica, mas muito mais profunda. É a
crise daquela sociedade nascida no final da idade média e que proporcionou a
revolução industrial. Mounier percebe que no horizonte está aparecendo uma
civilidade nova, que substitui a velha, uma mudança de civilidade que apresenta
também a necessidade de um homem novo. Se, de fato, na sociedade que se
constituiu na revolução industrial o homem era o grande absente, agora torna-se
necessário restituir à pessoa o seu lugar de destaque. Isso significa romper
com a civilidade industrial de cunho individualista e burguês.
Esse processo de decadência, visível na sociedade
burguesa, percebe-se na parábola do herói que passa a burguês, do chefe de
indústria ao mesquinho poupador. Assim, o burguês é o homem que perdeu o
sentido do Ser, que não consegue agir sem realizar algo de concreto. O burguês
é “o homem que perdeu o amor; cristão sem inquietação, ateu sem paixão” (MOUNIER,
1982, p. 186).
Este individualismo sem amor e sem paixão
produziu uma civilidade alicerçada sobre a ruptura entre espírito e matéria,
entre pensamento e ação. A ação revolucionária deve construir um novo tipo de civilidade,
uma civilidade personalista. Personalista é uma civilidade cujas estruturas e
cujo espírito são orientados a completar como pessoa cada indivíduo. A
realização desta civilidade só será possível através da superação da sociedade
capitalista que sufoca a possibilidade e o desejo de ser pessoa. (MOUNIER,
1982, p. 234). O mundo burguês vive uma profunda crise, mas apesar disso,
precisa de uma derrota final para abrir o caminho da nova sociedade. A
sociedade burguesa ainda tem os seus
defensores, aqueles que, querendo defender a ordem,
defendem a realidade da desordem estabelecida por eles mesmos. “Os homens da
ordem perpetuam a desordem, enquanto a aparente violência das revoluções
contribui ao progresso da razão” (MOUNIER, 1984, p. 22).
Mounier é preocupado em manter bem distinta a ligação
entre revolução e materialismo de um lado, ordem e valores espirituais do
outro. É preciso evitar o monopólio materialista da revolução e o monopólio
pseudo-espiritualista da ordem. Nesse contexto, Mounier denuncia a
identificação falsa que o mundo burguês conseguiu realizar ao longo dos séculos
entre mundo espiritual e mundo reacionário. A revolução, para surtir efeito,
deve ser política e econômica de um lado, espiritual e
moral do outro. É nessa perspectiva que uma filosofia
do compromisso se une com uma filosofia da história:
Nós
somos revolucionários duas vezes, mas em nome do espírito. Uma primeira vez,
que dura até que irá durar o gênero humano, porque a vida do espírito é uma conquista sobre a nossa
covardia. Uma segunda vez – e isso aconteceu nos anos ao redor de 1930 – porque
o mundo moderno está num estado de putrefação tão avançado e tão profundo, que
é necessária a queda total para que possam surgir novos brotos” (MOUNIER, 1984,
p. 37).
Sobre uma exigência espiritual se
desenvolve um julgamento histórico. Tão forte é o prevalecer dos
condicionamentos materiais neste período histórico, que é necessário realizar uma
revolução política e econômica antes daquela espiritual. Colocar em primeiro
lugar os problemas materiais é uma necessidade de uma época cuja parábola
burguesa chegou ao fim e as estruturas da sociedade sufocam a vida das pessoas.
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