quinta-feira, 20 de maio de 2021

CARTA ABERTA DO ENCONTRO DOS BISPOS DA AMAZÔNIA LEGAL AO POVO BRASILEIRO

 

 


Vi, então, um novo céu e uma nova terra, morada de Deus com sua gente (…).

Nunca mais haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor.

Sim! As coisas antigas passaram! Eis que faço novas todas as coisas”

(cf Ap 21, 1- 5).


 Amazônia, 19 de maio de 2021.

 


“Cristo aponta para Amazônia”

A convocação de São Paulo VI, que repetidas vezes nos inspirou como interpelação, se configura agora como profecia: os olhares se voltam para Amazônia, pela riqueza da sua biodiversidade e de seus povos, e isto nos alegra; mas também olhares ambiciosos, que lançam sobre a região um avanço de depredação e ameaça à vida, e isto nos causa indignação. Como Igreja Católica, também nós, lançamos nosso olhar vigilantenossa escuta contemplativa e esperançosanosso comprometimento inequívoco; levantamos nossa voz, renovamos os apelos à ecologia integral, ao cuidado com a casa comum, à proteção e preservação da região e renovamos nosso empenho como aliados dos povos desta Querida Amazônia.

Nós, bispos da Amazônia, presbíteros e diáconos, religiosos e religiosas, cristãos leigos e leigas em profunda sintonia com o Sínodo Pan-Amazônico, reunidos nos dias 18 e 19 de maio de 2021, desta vez nos servindo das tecnologias de comunicação, de distantes nos fizemos próximos, como nos fazemos próximos do nosso povo como uma Igreja que se põe à escuta e acolhe as culturas e tradições amazônicas, expressão do Espírito de Deus. No exercício de nossa missão evangelizadora dirigimos esta mensagem a toda sociedade, aos povos da Amazônia, aos homens e mulheres comprometidos com a defesa da vida. E o fazemos profundamente sensibilizados pela situação de vulnerabilidade e ameaças que sofre toda casa comum, agravada pela pandemia da Covid-19, e pelo acirramento das disputas territoriais com expansão das atividades minerais e do agronegócio em terras de populações tradicionais.  A consequência desse cenário de morte tem sido as inúmeras e incontáveis vítimas da pandemia. Chegamos aos quase 440.000 mortos, além dos que sucumbiram diante de processos de violência no campo e na cidade. Nos solidarizamos com todos os que tombaram vítimas do descaso e dos projetos de morte. Como o salmista, reconhecemos a preciosidade da vida de cada homem e de cada mulher que partiu: “É de alto preço, aos olhos do Senhor, a morte dos seus fiéis” (Sl 116,15).

 

Nosso olhar vigilante

Acompanhamos estarrecidos, mas não inertes, o desenrolar de um arquitetado projeto genocida que, por sua vez, revela o devastador agravamento de uma crise que escancara a pobreza diante da escandalosa concentração de riquezas. Este é o sinal evidente da perversidade de uma economia de mercado, embasada no capital especulativo, que se alimenta das necessidades dos estados nacionais, fazendo destes seus novos consumidores. Assim, o capital sequestra a autonomia dos Estados, exige e dita os novos rumos da política, rompe com as históricas conquistas sociais, desmonta as instituições e políticas de seguridade, alimenta-se das posturas extremistas, que por sua vez buscam na religião sua legitimidade de expressão. Essa perversidade busca revestir-se de um maquiado desejo de liberdade e de autonomia diante da lei, derruba os marcos legais que garantem o equilíbrio das relações e a salvaguarda do bem comum. As lutas das populações da Amazônia têm diante de si o escandaloso desafio da pretensiosa legalidade do ilícito. Ou apelamos para a garantia legal da vida e dos territórios, ou nos defendemos quando o extermínio se torna lei!

Este dinamismo é escancaradamente presente diante da questão das lutas dos povos indígenas. O cenário político indigenista vivido no Brasil é de retrocesso, com o agravamento das violações dos direitos destes povos, principalmente no que se refere à regularização dos seus territórios. Eles enfrentam invasões de suas terras, incentivadas por estratégias políticas que favorecem a exploração, por garimpeiros, mineradoras, madeireiros, desmatadores, agentes do agronegócio, entre tantos outros, gerando toda espécie de violências e violações de direitos humanos e da natureza. Somam-se os incêndios, poluição das águas dos rios, contaminação de peixes, contaminação das pessoas e dos animais; assassinatos, violência sexual, pandemia, desassistência.

Percebemos, também, que a crise socioambiental, denunciada em 2019 durante o Sínodo, acentuou-se durante a pandemia e revela os limites de um sistema que está sendo rapidamente destruído e que tende a perecer se a crise não for detida.  Preocupa-nos a cadeia de iniciativas em vista do desmonte e fragilização da legislação socioambiental e fundiária: O PL 3729/2004 que desmonta o sistema de licenciamento ambiental; o PL 2633/2020 e PL 510/2021 que abrem as “porteiras” para a grilagem de terras; o PL 191/2020 permitindo a mineração e atividades econômicas em terras indígenas; o PL 6299/2002 que flexibiliza fabricação e uso de agrotóxicos. A profecia não silencia diante destas práticas: “Ai dos que inventam leis injustas, dos escribas que referendam a injustiça para oprimirem os pobres no julgamento” (Is 10,1-2).

Enquanto escrevemos estas linhas, populações que há mais de 30 anos estavam presentes em seu chão, são despejadas no Assentamento Jacutinga em Porto Nacional – Tocantins, contrariando a recomendação do Conselho Nacional de Justiça de não executar decisões desse tipo em tempo de pandemia.

Outra série de agressões vão se acumulando neste cenário que não escapa aos nossos olhos: as ameaças às unidades de conservação, o acirramento da violência no campo e na cidade, a crise migratória, o feminicídio, a exploração sexual, o trabalho escravo, o tráfico de pessoas, entre tantos. Como se não bastassem essas crises provocadas pela intervenção humana, o fenômeno das enchentes, que pode ser agravado pelas mudanças climáticas, castiga nossas populações ribeirinhas. De olho nas águas, percebemos uma iminente crise hídrica como pauta de um próximo embate.

Somos sabedores que os governantes têm o dever constitucional de agir para evitar a destruição das riquezas naturais e implementar políticas públicas que amenizem a situação de desigualdade e pobreza, porém, na Amazônia isso não vem acontecendo. Assistimos um governo que vira as costas a esses clamores, opta pela militarização em seus quadros, semeia estratégias de criminalização de lideranças e provoca conflito entre os pequenos. Dói em nossos corações de pastores as imagens de escárnio e zombaria das dores de nossa gente: “Nossa alma está farta, em extremo, da zombaria dos satisfeitos e do desprezo dos soberbos” (Sl 123,4).

Não obstante este cenário, mantemos viva e acesa nossa esperança no Ressuscitado: “No mundo tereis aflições, mas tende coragem! Eu venci o mundo”. (Jo 16,33)

 

Nossa escuta contemplativa e esperançosa

Aprendemos da experiência do Sínodo da Amazônia um olhar esperançoso. A Amazônia é também resposta! Ela irrompe como novo sujeito e como novo paradigma pela questão ecológica e pelos seus povos originários. A partir da Amazônia fomos desafiados a assumir esses novos paradigmas em nossa ação evangelizadora. Os caminhos traçados pelo Sínodo da Amazônia, catalogados em forma de compromisso no novo Pacto das Catacumbas pela Casa Comum, deixaram evidente a necessidade de superar uma lógica colonizadora, de escolher a periferia como centro da Igreja, de assumir o caminho da inculturação e interculturalidade, seja no campo dos ministérios como das estruturas: uma Igreja com o rosto Amazônico.

Constatamos com alegria a atuação de uma infinidade de comunidades constituídas e milhares de lideranças de cristãos leigos, na sua maioria mulheres, que atuam no campo da evangelização e educação socioambiental. A partir dos relatórios dos Regionais da CNBB na Amazônia, verificamos que estamos a passos lentos, mas progressivos, tornando concretos os caminhos de conversão propostos no Documento Final do Sínodo e os quatro Sonhos do Papa Francisco na Exortação Apostólica pós-sinodal Querida Amazônia. Foi justamente para retomarmos o ardor do Sínodo da Amazônia e apreciar os passos dados que fomos convocados para este encontro. Perguntamo-nos: “Que mudanças efetivamente têm ocorrido em nossa ação evangelizadora desde as indicações do Sínodo?”

 

Nosso comprometimento inequívoco

A Igreja na Amazônia já tem um caminho. Somos uma Igreja que age sob a força e inspiração do Espírito de Deus. A liberdade e ousadia do Evangelho são mais fortes que as amarras e os desgastes das estruturas. A conversão pastoral, desde a Conferência de Aparecida (2007), nos interpela, a conversão integral, desde o Sínodo da Amazônia, nos inquieta. Somos sabedores dos desafios de manter a unidade em tempos de conflitos, do nosso papel mediador. Não somos ingênuos de pautar nosso agir em polarizações agressivas, como insistem até mesmo alguns que dizem professar a fé em Jesus Cristo, mas não haja dúvidas de que lado nós estamos: por causa do Evangelho e do Reino reafirmamos nossa incondicional escolha por estas populações, por estes territórios, por estas vidas ameaçadas. Em nada nos fascina qualquer aproximação com esses sistemas perversos, mas também aos que neles se envolvem, anunciamos a Boa Nova de Jesus: “Cumpriu-se o tempo, e está próximo o Reino de Deus. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15)!

Não estamos sozinhos, há outros interlocutores da fé cristã, de outras expressões religiosas, de organizações populares, novos sujeitos emergentes; a partir dos pequeninos nos sentimos irmanados neste compromisso. “Tudo isso nos une. Como não lutar juntos? Como não rezar juntos e trabalhar lado a lado para defender os pobres da Amazônia, mostrar o rosto santo do Senhor e cuidar de sua obra criadora?” (Querida Amazônia 110).

Sentimo-nos impulsionados e animados a reafirmar alguns compromissos:

  • Prosseguir e avançar em nossa pauta pastoral as reflexões e indicações ousadas do Sínodo em torno dos ministérios, como apresenta o Documento Final do Sínodo nos números 103 e 111, e da formação inculturada dos nossos agentes;
  • Elaborar um plano estratégico com diretrizes pastorais, que encarne o sonho social, ecológico, cultural e eclesial para a Pan Amazônia;
  • Incentivar a questão da segurança alimentar como estratégia de cuidado pela vida;
  • Reafirmar nosso envolvimento efetivo com o Pacto pela Vida e pelo Brasil, unindo-nos ao “coro dos lúcidos” fazendo nossas as suas pautas: a vacina para todos, a defesa do SUS, o auxílio emergencial digno, pelo tempo que se fizer necessário e a investigação da responsabilidade pela má gestão do sistema de saúde em meio à pandemia do coronavírus. Da mesma forma tornar vivo o Pacto Educativo Global, proposto Papa Francisco, em todas as regiões da Amazônia. Conclamamos todas as instâncias eclesiais e a sociedade como um todo a unir-se neste engajamento;

“O que vos é sussurrado ao ouvido, proclamai-o sobre os telhados” (Mc 10,27). Tendo descoberto a capilaridade das novas dinâmicas de comunicação, das quais nos servimos para chegar junto às nossas comunidades em tempos de distanciamento social, igualmente queremos por meio destes recursos fazer chegar a todos e todas estas nossas inquietações, esperanças e compromissos.

Exortamos, às mais variadas lideranças de cristãos leigos e leigas, que não desanimem da luta, que renovem continuamente o senso de comunhão eclesial, que a paixão pelo Reino de Deus seja sempre alimentada, e que a sensibilidade para com os mais pobres seja permanente.

Não nos faltem a intercessão de nossos mártires, companheiros de caminhada, e o olhar benevolente da Senhora de Nazaré, Mãe da Amazônia: “esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei”! A Mãe de Deus está conosco. Sigamos em frente!


 

 

quarta-feira, 5 de maio de 2021

RELIGIÃO COMO TENTAÇÃO

 



Paolo Cugini

    É a dificuldade de esperar as respostas às questões da vida, que nos faz correr para a primeira religião que nos encontramos e que, na grande maioria das vezes, coincide com a que encontramos na família. É a religião de preços baixos, que nos custa pouco, senão o preço de uma mísera vela elétrica. Afinal, é preciso muito pouco para acalmar a consciência e voltar rapidamente ao nosso trabalho diário, que consiste, resumindo, em perder tempo, em passar o tempo, sem pensar exatamente no porquê das coisas, nos motivos que nos induz a fazer uma coisa em vez de outra. E, o tempo, passa e nos parece lento, ainda nos parece.

Constantemente tentados pela religião a não pensar, a se abrigar, a encontrar um porto seguro, a encostar nela com a garantia da tradição e, sobretudo, com outras pessoas que, talvez, sejam a maior garantia para quem tem dificuldade em encontrar as suas próprias respostas. É a droga do bom senso, do que sempre foi feito assim, do pensamento bem feito. E depois há os rituais que são sempre os mesmos, com as mesmas palavras que dão grande segurança a todos aqueles que, com medo da vida, procuram um sofá para descansar em paz, longe das preocupações.

Devemos ter aprendido a caminhar na solidão em busca de nós mesmos, do sentido das coisas que vivemos. É preciso ter começado a trilhar esse caminho desde a adolescência, para nos tornarmos jovens que se afastam da estupidez coletiva, do senso comum.

Contra a força da estupidez óbvia feita religião, não há razão para sustentá-la. Quando o pensamento de um grupo se uniformiza, não é mais possível raciocinar e, o pensamento diferente, o pensamento que se questiona e que questiona, torna-se perigoso para toda a comunidade. Nestes casos, para o espírito livre, para quem simplesmente busca o sentido das coisas, é melhor mudar o ar, ir para outro lugar.

quarta-feira, 31 de março de 2021

CAMPANHA DA FRATERNIDADE: UNIDADE OU DIVISÃO?

 


Recebi e com muito prazer publico:



 

Não é novidade para ninguém que temas polêmicos sempre foram divisores dentro das instituições religiosas, de modo ainda mais preciso, dentro da Igreja Católica: desde o grande cisma provocado pela divergência quanto ao Filioque, perpassando as heresias e chegando ao problema da iconoclastia e, tempos depois o protestantismo, divisões não faltaram no cristianismo católico e não católico. Mas o fato é que, segundo a minha pobre visão, já vivemos hoje um cisma prático que abarca questões ideológicas muito mais do que questões de fé. Faço-me entender:

Hoje na Igreja temos dois grandes pólos: de um lado, a corrente conservadora que, em suas convicções, preza por resguardar a moral, a “tradição” e os bons costumes cristãos. Por outro lado, encontramos uma corrente progressista que provoca reflexões e busca mudanças no seio do catolicismo. Ambas as alas vivem numa eterna guerra para provar os erros uma da outra. Mas o fato é que estas duas correntes estão bem distantes de viver um consenso, aquela justa medida aristotélica que é, na realidade, o cerne do ensinamento de Jesus, pois o Evangelho conduz a uma visão límpida das coisas, a Boa Nova reclama para si um equilíbrio humano.

Na Igreja do Brasil, nunca se viu um conservadorismo tão forte como aquele que existe hoje, tal conservadorismo é fruto de todas as deturpações e más vivências da Teologia da Libertação e das Ceb’s que, em muitos lugares e situações, ganharam apenas uma conotação social e política e, por hora, deixaram a espiritualidade em segundo plano caindo quase um laicismo travestido de fé. Aqui quero deixar claro que não sou contra a TL e as Ceb’s no que elas são em essência (uma proposta eclesial libertadora e autêntica), mas me refiro especificamente às deturpações que fizeram delas. 

Um fato importante nesse contexto é que o crescimento e o empoderamento da ala conservadora se dá também pela explosão do movimento carismático que virou febre e se misturou ao conservadorismo dando-lhe popularidade. Aqui no Brasil está em alta no meio católico assuntos do tipo: uso do véu pela mulheres, a modéstia no vestir, uma ênfase exacerbada no pecado, Missa Tridentina, um devocionismo que extrapola os níveis da normalidade e um ideal cristão que às vezes foge da realidade humana que se apresenta nos nossos tempos.   

Sob o influxo de argumentos de que a Igreja teria condenado a Teologia da Libertação, o conservadorismo ataca qualquer temática que possa ao menos lembrar questões sociais. Não é à toa que o Papa Francisco é largamente taxado de comunista e criticado por seu ministério marcado por um acento social, ecológico e humanitário. Além do Papa Francisco, um grande alvo dos ataques conservadores é a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) que segue a linha do pontificado do Papa Francisco. A cada ano, com a Campanha da Fraternidade, que acontece sempre no Tempo da Quaresma, a CNBB propõe a conversão dos cristãos para assuntos ligados ao bem comum, ao meio ambiente, problemas sociais e humanos que assolam os nossos tempos.

A cada ano tem crescido a objeção à Campanha da Fraternidade, há muitos padres, leigos, institutos e até bispos (pasmem!) que se manifestam contrários. Acusam a Campanha de ser comunista (Imagine se existe comunismo no Brasil! Risos...), laicista e sem espiritualidade. Reclamam o direito de viver a Quaresma no seu espírito “genuíno” como se refletir sobre a situação do mundo não fosse oportunidade de conversão, de vida nova, de novos tempos. Esse grupo conservador não consegue perceber que a nova criação, os “novos céus e a nova terra” prometidos por Cristo já começam quando nos convertemos ao amor pelo próximo e pela criação.

O tema da CF deste ano talvez tenha sido um dos mais polêmicos de todos os tempos porque envolve a diversidade e, falando deste tema, além de tratar sobre a diversidade religiosa (sendo uma campanha ecumênica), traz à luz da reflexão cristã, o tema da diversidade sexual que está em alta no Brasil. É impossível não falar de conversão quanto à homofobia, transfobia, LGBTQI+fobia, no país onde mais se mata homossexuais e pessoas trans no mundo. É impossível não chamar à conversão uma cultura de intolerância e agressão a quem vive uma orientação sexual diferente dos padrões patriarcais das culturas cristãs. Não dá para fazer vistas grossas a um assunto de tamanha relevância no cenário nacional. O Evangelho toca estas realidades. O que dizer então quando o próprio Catecismo da Igreja manda acolhermos as pessoas homoafetivas com caridade? Acaso está sendo o Catecismo herético e contraditório?

O fato evidente aqui é que falar sobre estes temas na Igreja é ter que tocar na própria ferida, é ter que olhar para dentro da própria instituição e enxergar com objetividade que a questão da homoafetividade não é só ad extra, mas ad intra! A homossexualidade é uma questão teológica séria que precisa ser discutida para além de um parágrafo do Catecismo e para além de uma recomendação a “guardar a castidade” como se fosse simples assim. Na prática, como podemos acolher com caridade, pastoralmente e espiritualmente as pessoas LGBTQI+ se estamos fechamos a perceber que esta realidade está camuflada dentro da própria instituição? É lógico que é mais fácil tomar o caminho da “moral e dos bons costumes”, pois assim, não precisamos mexer em nós mesmos, não precisamos nos expor e não precisaremos passar a vergonha de admitir perante o mundo que estamos errados.

A Campanha da Fraternidade é um ponto cismático na Igreja do Brasil. Torno a repetir: este cisma não existe formalizado e oficial, mas trata-se de uma divisão de cunho prático, uma guerrilha que se expande desde os ambões das Igrejas até as redes sociais onde o bombardeio ideológico é ainda mais forte e descontrolado. Embora o tema da CF trate da unidade: “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”, vemos que ela gerou muito mais divisões, mas ainda assim, creio que ela esteja cumprindo seu papel, pois onde não há tensões e crises, não há também crescimento e purificação. Se dentro da Igreja, essa bonita proposta não consegue atingir sua finalidade, ao menos nos espaços extra-eclesiais ela tem gerado diálogo, reflexão e propostas de mudanças.

Sigamos de cabeça erguida! Possamos nos firmar no texto bíblico que é lema da CF 2021: “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade”. (Ef 2, 14a) O caminho das tensões não pode ser visto negativamente, mas acredito firmemente que Cristo se utilizará disso para continuar chamando ao diálogo e à unidade. Sejamos nós instrumentos nas mãos do Senhor, geradores de comunhão, de acolhimento, de respeito e de amor ao próximo. Como nos ensina o Papa Francisco na “Fratelli Tutti”: sejamos construtores de pontes e não de muros!

Pe. Cláudio Gonçalves | Bahia, Brasil.

quinta-feira, 18 de março de 2021

O OLHAR DO OUTRO

 




Paolo Cugini

Existem olhares e olhares. Nem todas as aparências são iguais.

Existem olhares anônimos e outros que te deixam empolgado. Olhares que te levam e outros que te deixam. Olhares que escapam, como chuva nas folhas e olhares que penetram, como chuva na terra ressecada. Há olhares que te magoam e outros que te dão vida. Há olhares que te deixam indiferente e outros que te levam embora.

O olhar do outro é o bálsamo da vida. Sem o olhar do outro não sei quem sou e corro o risco de ser envolvido por ilusões, por ideias sobre mim e não pela realidade. Sem um olhar sincero não me torno o que posso ser. E se esse olhar estiver cheio de amor, posso finalmente me tornar eu mesmo. Por favor, olhe para mim.

Se ninguém olhar para mim, a solidão mata a vida. Se alguém me olha, a vida volta nas veias e provoca a vontade de organizar o futuro, de fazer planos.

Procuro o seu rosto: não me deixe sem o teu olhar.

terça-feira, 16 de março de 2021

POLIEDRO




Paolo Cugini


      Vem do grego: polis, muitos e èdron, rosto, portanto muitos rostos. É, portanto, um sólido geométrico limitado por superfícies poligonais planas. Depois, há os poliedros regulares, feitos de faces iguais, e os poliedros irregulares. É uma figura que exerce um certo encanto porque realça especificidades. É, de fato, da perspectiva da unidade na diversidade. O realce das partes, por outro lado, não é implementado pela esfera que, por sua característica específica, cancela qualquer aresta, pois na esfera tudo deve ser homogêneo. Poliedro e esfera indicam, portanto, formas de compreender a relação entre indivíduos e comunidades, ou entre comunidades diferentes em relação umas às outras.

     Esta figura geométrica é frequentemente citada pelo Papa Francisco para indicar sua visão da Igreja, como uma união de todas as parcialidades que na unidade mantêm a originalidade das singularidades. É exatamente o oposto do que acontece na esfera em que a superfície não apresenta rebarbas. Sempre que a Igreja se impõe aos fiéis sem possibilidade de ouvir ou responder, manifesta a sua intenção de nivelar a relação para que apareça uma uniformidade, que acalma quem está no poder, mas gera tensão e rebeldia nos que estão no poder. Nesta perspectiva, São Paulo, em mais de uma ocasião, expressou o desejo de estabelecer comunidades cristãs no modelo do poliedro, isto é, tentando alcançar a unidade salvaguardando a diversidade. São Paulo estava convencido de que o Espírito Santo é aquele que desperta a diversidade, manifestando às pessoas que o acolhem os carismas específicos que permitem à comunidade cristã existir à imagem de Cristo.

    No nível social e político, o poliedro e a esfera indicam duas formas de entender as relações dentro de uma comunidade, uma nação. Enquanto, de fato, no modelo da esfera o cidadão se anula ou, muitas vezes e de boa vontade, é anulado por medidas autoritárias e violentas, no modelo do poliedro o cidadão mantém sua peculiaridade. O modelo poliedro permite que os cidadãos interajam com a estrutura sociopolítica, mantendo a sua própria autonomia. Percebe-se o estilo multifacetado de governar um país na antiga polis, uma das raras experiências políticas em que os governantes não apenas agiam pelo bem dos cidadãos, mas os envolviam nas decisões a serem tomadas. Enquanto o modelo esférico anula a parte, a singularidade em benefício do todo, o modelo multifacetado valoriza e acredita que cada cidadão é chamado a dar o melhor de si para o bem da comunidade e consegue fazê-lo com precisão porque ele é instado em sua especificidade.

    Eu amo o poliedro e odeio a esfera. Gosto de me envolver e envolver as pessoas nos projetos que estão na minha cabeça. Não gosto quando encontro no meu caminho pessoas com uma mentalidade “esférica”, que asfaltam as vontades dos indivíduos para se imporem. O pior é quando este modelo esférico é visto implementado na Igreja fazendo-se passar pela vontade de Deus, rasgando assim páginas após páginas do Evangelho.

sexta-feira, 5 de março de 2021

NÃO MALTRATE SEUS LIMITES

 



Paolo Cugini

Não é fácil tornar-se adulto no contexto em que vivemos, porque, ao invés de aprender a nos conhecer e aceitarmos, somos constantemente provocados por mensagens que nos convidam a desejar ser outra coisa. Ao deslocar a atenção para além do nosso horizonte, corremos o risco de, por um lado, perder o contacto com a nossa realidade e, sobretudo, massacrar aquela parte de nós que não consegue atingir objectivos que não respeitam a nossa própria identidade. É com os limites que temos de lidar, os nossos limites que, neste contexto, correm o risco de serem considerados um obstáculo. Pelo contrário, são precisamente os nossos limites que nos revelam quem somos, para onde podemos ir, que caminho seguir.

Portanto, se quiser ser você mesmo, se quiser aprender a se aceitar como você é, não maltrate os seus limites, mas considere-os parte integrante da sua personalidade. O perigo de maltratar o limite também pode ocorrer no caminho espiritual quando a pessoa, perdendo de vista seus próprios limites, sacrifica sua própria realidade para atingir seus próprios objetivos, ou os objetivos que a cultura lhe propõe, sem levar em conta e sem escuta de si mesmo, do que constitui a verdade de si mesmo. Sem dúvida, vivemos em um contexto cultural que estimula a ambição, de atingir metas, quase todas de espessura material, de mostrar algo de nós ao mundo, ainda que esse algo pouco corresponda ao que realmente somos. Quantos sofrimentos internos são causados ​​pelo esmagamento constante de nossa consciência que nos grita para parar, para interromper o caminho que nos levará ao fracasso. Quantos subterfúgios aprendemos a usar para não deixar que nossa consciência nos censure, até o dia em que o mundo inteiro cair ruinosamente sobre nós.

Antes de iniciar os caminhos da recuperação da personalidade, indo em busca do tempo perdido, seria mais importante buscar ajuda para discernir as escolhas certas a fazer na vida. Entre os sinais mais significativos que devemos aprender a ouvir estão os nossos limites, que indicam as reais condições de possibilidade da nossa existência, dos caminhos possíveis que podemos seguir. Para aprendermos a considerar o limite como algo positivo, parte de nossa estrutura humana, um indicador importante de nossas reais condições de possibilidade, precisamos aprender a nos ouvir, a dedicar tempo à nossa vida espiritual, a aprender a calar. De vez em quando, decidir ficar à margem para pensar na própria vida, nas suas escolhas, para verificar o caminho percorrido, não é perda de tempo, mas em nosso benefício.