terça-feira, 31 de agosto de 2021
sábado, 14 de agosto de 2021
O CRISTIANISMO É UMA RELIGIÃO?
Paolo Cugini
A elaboração racional moderna,
que teve seu ápice mais significativo e, em alguns aspectos, representativo no
Iluminismo, queria interpretar a realidade, mas desfigurou-a. A produção
ocorrida na época moderna de sistemas em todos os níveis, com a pretensão de
explicar a realidade, de mostrar seu caminho, em vez disso, enjaulou-a de modo
a provocar sua rebelião. O que vem acontecendo há décadas em diferentes níveis
como clima, finanças, economia, política, só para citar algumas áreas, é o
resultado desse processo de homologação da realidade, com a presunção de que
ela poderia ser apreendida em sua complexidade por um conhecimento
pré-abrangente.
A realidade só pode ser ouvida
e as propostas racionais que podem ser elaboradas, devem ser realizadas como
conseqüência desse primeiro movimento inalienável de escuta. Os desastres dos
métodos heurísticos modernos também foram vistos na ciência, como Paul
Feyerabend sabiamente mostrou, afirmando com que frequência os cientistas
forçam a realidade, ou seja, os dados de experimentos, para comprovar suas
teorias. Não é a realidade que precede a ideia e a orienta, mas o contrário: a
ideia que força a realidade e a desfigura, para que a ideia seja demonstrada e
vitoriosa. Nessa perspectiva, a fenomenologia tem representado para a cultura
ocidental uma tentativa bem-sucedida de mudar caminhos, não de antecipar a
realidade, mas de apreendê-la como ela se manifesta, acompanhá-la e, a partir
desse ponto de vista, elaborar alguns caminhos.
A religião não correspondeu ao processo de homologação moderna mas, ao
contrário, está se propondo de uma maneira nova. É como se o processo de
secularização tivesse feito bem a ela. Depois de passar décadas sob o fogo
cruzado dos sistemas materialista e existencialista, recebendo em várias
ocasiões a marca de ser uma expressão de conteúdos obsoletos, vão surgindo
formas sacrais espontâneas, não vinculadas a dogmas ou doutrinas, mas uma
expressão da experiência pessoal de auto - transcendência. A crítica e a
secularização modernas atingiram duramente o envoltório externo das religiões,
em suas formulações éticas, na tentativa de responder ao desafio racionalista,
fortaleceram o aparato conceitual e doutrinário que, em todo caso, se revelou
muito pesado e inadequado. Por um lado, assistimos ao florescimento de caminhos
religiosos desvinculados da proposta das grandes tradições religiosas, caminhos
individuais ou pequenos grupos, em busca do bem-estar pessoal e não
comunitário.
Por outro lado, o processo de
secularização não promoveu uma superação da religião, mas uma mutação de seu
significado. Isso é particularmente visível no cristianismo, como argumentou
Dacquino, porque: “dentro da diferenciação funcional da sociedade, mostra a
especificidade sociocultural da experiência religiosa”. Sem dúvida, esta
metamorfose tem provocado um debate interno, dentro do próprio Cristianismo,
entre aqueles que defendem a bondade da relação entre a esfera social e mais
estritamente sagrada e aqueles que consideram esta união a negação da missão da
religião, que deveria ser relegada apenas a a esfera sacra e transcendente. O
aspecto mais significativo desse debate dentro do Cristianismo é o
questionamento da identidade religiosa.
Afinal, o Cristianismo é uma
religião? Talvez esta seja uma das contribuições mais significativas, embora
inesperadas, da secularização. Questionar a estrutura religiosa do Cristianismo
significa observá-lo de um novo ponto de vista, não do sacro, mas do princípio
fundador sobre o qual está estruturado, a saber, a Encarnação. O Deus que entra
na história torna inútil qualquer cobertura sacra, porque a partir de agora o
divino é acessível sem qualquer mediação. É a imediação do divino na história
que causa o processo de desconstrução do aparelho sacro da religião. Apesar
disso, o cristianismo, desde o início, não renuncia ao sagrado, antes o usa em
abundância, absorvendo do mundo pagão, especialmente do Sacro Império Romano,
uma quantidade significativa de material, que o cristianismo utilizou para sua
própria cobertura sacra. Além disso, a produção teológica do milênio medieval
tudo fará para revestir de significados racionais os invólucros sacrais do
cristianismo, transformando-o em religião. Um dos aspectos mais significativos
da era pós-moderna consiste em ativar processos de desconstrução, que são, ao
mesmo tempo, processos de desmascaramento em todos os níveis. Pois bem, o
Cristianismo está a passar pelo escrutínio deste processo, recuperando por um
lado a essência da sua proposta contida na Encarnação e, por outro, tendo a
possibilidade de deixar para trás séculos de obscurantismo intelectual e
confusão sagrada.
Um retorno às origens,
portanto, é a grande oportunidade da era pós-moderna. Nesse processo de
desmascaramento, a secularização, que mais ou menos involuntariamente abriu uma
nova temporada para o cristianismo, teve grande mérito pelas considerações
feitas acima. Com efeito, ao afastar-se da marca religiosa, pode ter a
possibilidade de manifestar o conteúdo específico da sua proposta tanto a nível
pessoal como social. Não só isso, mas como afirma Dotolo: “o fim da equação
entre o cristianismo e a religião é, ou pode ser, o início de uma abordagem
diferente para dizer Deus, sem o achatamento barato de um ideal regulador que
também afeta a qualidade de ' existência".
sexta-feira, 6 de agosto de 2021
DEUS NA PRISÃO DE SER
Paolo Cugini
É possível pensar e perceber
Deus fora das categorias metafísicas da filosofia ocidental, que sempre o
descreveram nos termos ontológicos do Ser? O filósofo francês Jean Luc Marion
tentou libertar Deus da prisão do ser. Talvez, entretanto, não haja necessidade
de se preocupar com a filosofia para entender que Deus está além de nossas
grades conceituais.
A percepção de Deus ocorre, em
primeiro lugar, na história pessoal de uma pessoa e, portanto, no horizonte das
percepções sensíveis, tanto interiores como exteriores. Não vamos a Deus porque
demonstramos racionalmente sua existência, mas porque percebemos sua presença.
Passamos a acreditar nele porque, em alguns aspectos, o vemos, o sentimos,
percebemos que há algo novo, qualitativamente diferente. E, então, mais do que
demonstrar sua existência com argumentos racionais, nós o testemunhamos, porque
o vimos, ouvimos, percebemos. Se o argumento racional precisa de uma lógica
férrea, de silogismos bem articulados para que chegue a uma conclusão que não
deixe margem para dúvidas, o que procede do testemunho é bem diferente.
Em primeiro lugar, é sempre
pessoal, subjetivo. Isso não significa que tenha menos validade do que uma
prova de fundamento exclusivamente objetivo, como uma equação matemática.
Estamos, de fato, falando de Deus, que não pode ser classificado por nenhum
argumento, no sentido de que há sempre algo sobre Deus que nos escapa, que fica
fora do nosso horizonte de conhecimento. Este é um aspecto importante a ser
considerado. Ninguém pode presumir que sabe tudo sobre Deus, ou comunicar algo
sobre Ele de forma apodíctica. Sempre que falamos de Deus, devemos aprender a
tirar os sapatos, como Moisés fez quando se aproximou da sarça ardente onde viu
a presença de Deus.
Em segundo lugar, Deus não se
manifesta com características humanas. Nós o chamamos de Pai por conveniência
de expressão filtrada pela cultura patriarcal. Deus não tem sexo, não tem
gênero. Só podemos falar de Deus por suposição, por aproximação. Podemos
compartilhar essa experiência sensível particular de forma qualitativa e
freqüentemente emocionalmente diferente que a chamamos de Deus, sem realmente
saber o que é. Aqueles que podem discernir nossas impressões e verificar sua
bondade só podem ser aqueles que vêm do mesmo tipo de experiência, que têm uma
experiência semelhante para compartilhar.
Depois, há a sua Palavra,
aquela que está escrita na Bíblia e que se define como Palavra de Deus, mas
esta também deve ser filtrada, verificada, porque está repleta de elementos
culturais da época em que foi escrita. Deus se revela e o faz usando a cultura da
época para se comunicar com aqueles homens e mulheres. Os textos que lemos na
Bíblia estão repletos de elementos culturais específicos do período em que
aquele texto em particular foi escrito. Podemos apreender a verdade da Palavra
revelada tanto pela obra dos exegetas, como pela experiência pessoal, que nos
permite reconhecer o Senhor ouvido na Palavra, como aquele que encontramos na
vida.
Dizer Deus nesta conjuntura
particular da história, que em poucas décadas desmantelou a fragilidade dos
sistemas racionais, que à distância se mostraram incapazes de descrever o
Mistério, significa a coragem de dobrar as grades enferrujadas da metafísica,
que durante séculos fingiram encerrar o Mistério e assim libertá-lo, permitindo
que pessoas livres o encontrem como ele se manifesta e não como ele é
representado.
sexta-feira, 2 de julho de 2021
A VOCAÇÃO: É O QUE?
Paolo Cugini
Devemos ter a coragem de
realmente dizer e pensar sobre o que queremos dizer quando falamos sobre o
chamado. Existe uma grande superestrutura espiritual. Já vi tantas vezes, ouvi
tantos discursos, encontrei tantos pressupostos "chamados" que comecei
a desconfiar da dinâmica da chamada. Na verdade, o que é realmente, parece ser
o resultado de emoções, sugestões do momento, fantasias cobertas de misticismo,
algo de forçado de alguns ambientes. Muitas vezes, o desejo de uma vida
diferente daquela que a vida conjugal pode oferecer é indicado como um
“chamado”, especialmente para os jovens que tiveram uma experiencia negativa da
vida familiar.
No contexto atual, o pressuposto
“chamado” à vida presbiteral é colocado em ambiente artificial por um período
muito longo de 6/7 anos, em um momento delicado da vida, a saber, a juventude.
Período em que as pessoas geralmente decidem colocar suas vidas em uma direção,
geralmente casamento ou uma vida de dois. Os jovens que mostram uma
sensibilidade religiosa marcada e um desejo de uma vida diferente, doada aos
outros, são encerrados por um período prolongado para uma formação
principalmente intelectual. Vale dizer também que essa formação intelectual não
é de alto nível e não é para oferecer ferramentas para entender o mundo
contemporâneo, para enfrentar a vida atual. Ao contrário, esses jovens
sensíveis estão literalmente imbuídos de noções doutrinárias, a serem
decoradas, noções históricas de conteúdos muitas vezes em contraste com o
caminho da ciência.
O resultado é de jovens que
saem desse longo percurso de estudos, não com a capacidade de enfrentar a
realidade atual e seus desafios de forma lúcida e criativa, mas como velhos,
preocupados em repetir exatamente os ritos, se considerando os únicos
mediadores entre Deus e a humanidade, totalmente desatualizados e impreparados sobre
os grandes problemas da vida de seus contemporâneos. A tragédia é que serão
esses jovens com uma preparação carente, que ficarão à frente das comunidades.
O resultado está à vista de todos. Abandono das comunidades pelas novas
gerações, por não se sentirem representadas de forma alguma pelos chamados
líderes religiosos com grande dificuldade em compreender os problemas da
atualidade e, consequentemente, totalmente incapazes de oferecer interpretações
significativas para a vida quotidiana. Esses líderes religiosos assim formados
correspondem à necessidade de participar daquela fatia da comunidade de adultos
que identifica o caminho da fé com os ritos. E assim temos uma comunidade onde
o padre celebra os ritos que os adultos desejam e organiza atividades para a
fruição das crianças e dos adolescentes.
Talvez, porém, Jesus estivesse
pensando em outra coisa quando falou às multidões e aos discípulos e as
discípulas.
quinta-feira, 17 de junho de 2021
OS OBSTÁCULOS DA VIDA
Paolo Cugini
Estamos acostumados: esse é o problema. Aprendemos
a reclinar desde cedo naquilo que achamos confortável, e aprendemos com outras
pessoas acostumadas, deitadas nos sofás da vida, pessoas que aprenderam a
identificar a tranquilidade com o sentido da vida e aprenderam isso com outros
sossegados, pessoas serenas, que aprenderam a viver evitando problemas,
evitando obstáculos. No entanto, os obstáculos existem de propósito não
para evitá-los, mas para enfrentá-los. Foi Ele, o Senhor da vida, quem
inventou os obstáculos, para que cresça quem os encontra, aprendendo a
enfrentar estes benditos, diria mesmo sacrossantos obstáculos. Porque, meu
amigo querido, é precisamente enfrentando os obstáculos que aprendemos a viver,
porque a vida não se aprende na escola, mas enfrentando os problemas todos os
dias. A vida não está escrita em livros, mas nós a escrevemos quando
vivemos em plenitude, enfrentando os obstáculos que a vida nos coloca.
E tem mães que se levantam de madrugada para se
certificar de que os pequenos estão com tudo pronto, que não têm que fazer
nenhum esforço, que têm o único problema de enfrentar o dia sem cansaço, sem
ter que enfrentar obstáculos porque mamãe já pensou neles. E então, você encontra aquelas
crianças de quarenta anos que, apesar de seus músculos e barbas, permaneceram
crianças, incapazes de enfrentar a vida, cheias de medos, porque em vez de
enfrentarem obstáculos sempre encontraram uma mãe, que os tirou antes que
eles os vissem. Pobres desgraçados! Que pena esses homens sem um
pingo de bom senso! Que pena esses covardes, esses acovardados,
continuamente exigindo da vida, sempre prontos para reclamar de tudo e de
todos. Porque, a essa altura sabemos, que quem reclama, quem se levanta de
manhã e antes mesmo de dar bom-dia está pronto para reclamar, vem daquele
estoque, vem daquele povo de gente que teve uma mãe mimada que estragou eles e,
desta forma os tornou insuportáveis.
Sem dúvida, Maria foi uma mãe diferente. Certamente
Jesus enfrentou os obstáculos desde criança. Podemos dizer isso pelo tipo
de homem que ele se tornou. Jesus nunca teria alcançado a cruz se não
tivesse aprendido a dizer a verdade e a suportar o impacto das consequências. Ele
nunca teria ressuscitado se não tivesse morrido na cruz por ter amado os seus
de maneira gratuita e desinteressada até o fim. Que homem Jesus! Que mãe ótima ele
tinha!
quinta-feira, 3 de junho de 2021
25 ANOS DE PADRE, APESAR DE TUDO
Hoje, comemoro 25 anos de vida
no ministério sacerdotal. Seria 26, mas no ano passado fiz uma pausa e depois
conto 25.
Na foto que coloquei, pareço
um cara normal, tranquilo, um padre como tantos outros. Na verdade não foi bem
assim, pelo menos a história me preparou para alguns encontros, experiências,
acontecimentos que mudaram minha visão de mundo, minha percepção pessoal de
Deus.
Estes anos foram para mim um
caminho de lenta libertação de todas as formas de religião, entendida como um
conjunto de elementos que procuram segurar Deus, através de doutrinas, dogmas,
ritos, para encontrar Jesus que veio ao meu encontro.
Encontrei Jesus e ainda o encontro
em ambientes estranhos ao mundo religioso.
Te encontrei, Senhor, nos
jovens que, nos primeiros anos de ministério, encontrei nos bares, nos parques.
Jovens que nunca frequentaram a igreja, mas demonstraram grande
espiritualidade.
Te
encontrei nas pessoas dos bairros pobres onde morei quinze anos no Brasil.
Bairros esquecidos pelo governo, mas também pela Igreja. Pessoas excluídas da
possibilidade de ter um trabalho decente, uma casa decente, uma vida decente.
Excluída e, por isso mesmo, amada de um jeito muito especial do Senhor. Quanta
presença de Deus senti nesses excluídos.
Eu te encontrei e continuo a
encontrar-te em tantas mulheres que, de certa forma, me fizeram lembrar de
pertencer a uma instituição de forte caráter patriarcal e misógeno. Mulheres que
lideram comunidades com muito amor e competência, mas que não têm o direito de
participar na hierarquia, nos órgãos de decisão da Igreja. É muito injusto tudo
isso, mas o Deus de Jesus Cristo está do lado dos injustiçados, dos
perseguidos.
Ultimamente te encontrei nas
lésbicas, nos homossexuais massacrados não só pela cultura arrogante dos
ignorantes, mas também por aquela Igreja da qual sou representante. Quanto
sofrimento ouvi nesses cristãos, que as pessoas nas paróquias não queriam que
eles orassem na igreja. Que falta de amor, de misericórdia: que humilhação! Só
ficando perto deles é que percebi a tua presença misteriosa, que está sempre do
lado dos perseguidos, dos marginalizados.
E agora, por tantos motivos
que não vale a pena escrever, vivo no exílio, nos confins de uma diocese, como
um estrangeiro. Do ponto de vista humano, minha trajetória nestes anos seria
lida exatamente como uma derrota, um fracasso total. Pelo contrário, olhando
esta mesma história do lado de Cristo, com o olhar que vem do Evangelho, sinto
todo o carinho de Jesus, o seu amor, a sua misericórdia.
Continue orando por mim, eu
sempre oro por todos vocês.
quinta-feira, 20 de maio de 2021
CARTA ABERTA DO ENCONTRO DOS BISPOS DA AMAZÔNIA LEGAL AO POVO BRASILEIRO
“Vi, então, um novo
céu e uma nova terra, morada de Deus com sua gente (…).
Nunca mais haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor.
Sim! As coisas antigas passaram! Eis que faço novas todas as coisas”
(cf Ap 21, 1- 5).
“Cristo aponta para Amazônia”
A convocação
de São Paulo VI, que repetidas vezes nos inspirou como interpelação, se
configura agora como profecia: os olhares se voltam para Amazônia, pela riqueza
da sua biodiversidade e de seus povos, e isto nos alegra; mas também olhares
ambiciosos, que lançam sobre a região um avanço de depredação e ameaça à vida,
e isto nos causa indignação. Como Igreja Católica, também nós, lançamos nosso olhar vigilante, nossa
escuta contemplativa e esperançosa, nosso
comprometimento inequívoco; levantamos nossa voz, renovamos os
apelos à ecologia integral, ao cuidado com a casa comum, à proteção e
preservação da região e renovamos nosso empenho como aliados dos povos
desta Querida Amazônia.
Nós, bispos
da Amazônia, presbíteros e diáconos, religiosos e religiosas, cristãos leigos e
leigas em profunda sintonia com o Sínodo Pan-Amazônico, reunidos nos dias 18 e
19 de maio de 2021, desta vez nos servindo das tecnologias de comunicação, de
distantes nos fizemos próximos, como nos fazemos próximos do nosso povo como
uma Igreja que se põe à escuta e acolhe as culturas e tradições amazônicas,
expressão do Espírito de Deus. No exercício de nossa missão evangelizadora
dirigimos esta mensagem a toda sociedade, aos povos da Amazônia, aos homens e
mulheres comprometidos com a defesa da vida. E o fazemos profundamente
sensibilizados pela situação de vulnerabilidade e ameaças que sofre toda casa
comum, agravada pela pandemia da Covid-19, e pelo acirramento das disputas
territoriais com expansão das atividades minerais e do agronegócio em terras de
populações tradicionais. A consequência desse cenário de morte tem sido
as inúmeras e incontáveis vítimas da pandemia. Chegamos aos quase 440.000
mortos, além dos que sucumbiram diante de processos de violência no campo e na
cidade. Nos solidarizamos com todos os que tombaram vítimas do descaso e dos
projetos de morte. Como o salmista, reconhecemos a preciosidade da vida de cada
homem e de cada mulher que partiu: “É de alto preço, aos olhos do
Senhor, a morte dos seus fiéis” (Sl 116,15).
Nosso olhar vigilante
Acompanhamos
estarrecidos, mas não inertes, o desenrolar de um arquitetado projeto genocida
que, por sua vez, revela o devastador agravamento de uma crise que escancara a
pobreza diante da escandalosa concentração de riquezas. Este é o sinal evidente
da perversidade de uma economia de mercado, embasada no capital especulativo,
que se alimenta das necessidades dos estados nacionais, fazendo destes seus
novos consumidores. Assim, o capital sequestra a autonomia dos Estados, exige e
dita os novos rumos da política, rompe com as históricas conquistas sociais,
desmonta as instituições e políticas de seguridade, alimenta-se das posturas
extremistas, que por sua vez buscam na religião sua legitimidade de expressão.
Essa perversidade busca revestir-se de um maquiado desejo de liberdade e de
autonomia diante da lei, derruba os marcos legais que garantem o equilíbrio das
relações e a salvaguarda do bem comum. As lutas das populações da Amazônia têm
diante de si o escandaloso desafio da pretensiosa legalidade do ilícito. Ou
apelamos para a garantia legal da vida e dos territórios, ou nos defendemos
quando o extermínio se torna lei!
Este
dinamismo é escancaradamente presente diante da questão das lutas dos povos
indígenas. O cenário político indigenista vivido no Brasil é de retrocesso, com
o agravamento das violações dos direitos destes povos, principalmente no que se
refere à regularização dos seus territórios. Eles enfrentam invasões de suas
terras, incentivadas por estratégias políticas que favorecem a exploração, por
garimpeiros, mineradoras, madeireiros, desmatadores, agentes do agronegócio,
entre tantos outros, gerando toda espécie de violências e violações de direitos
humanos e da natureza. Somam-se os incêndios, poluição das águas dos rios,
contaminação de peixes, contaminação das pessoas e dos animais; assassinatos,
violência sexual, pandemia, desassistência.
Percebemos,
também, que a crise socioambiental, denunciada em 2019 durante o Sínodo,
acentuou-se durante a pandemia e revela os limites de um sistema que está sendo
rapidamente destruído e que tende a perecer se a crise não for
detida. Preocupa-nos a cadeia de iniciativas em vista do desmonte e
fragilização da legislação socioambiental e fundiária: O PL 3729/2004 que
desmonta o sistema de licenciamento ambiental; o PL 2633/2020 e PL 510/2021 que
abrem as “porteiras” para a grilagem de terras; o PL 191/2020 permitindo a
mineração e atividades econômicas em terras indígenas; o PL 6299/2002 que
flexibiliza fabricação e uso de agrotóxicos. A profecia não silencia diante
destas práticas: “Ai dos que inventam leis injustas, dos
escribas que referendam a injustiça para oprimirem os pobres no julgamento” (Is
10,1-2).
Enquanto
escrevemos estas linhas, populações que há mais de 30 anos estavam presentes em
seu chão, são despejadas no Assentamento Jacutinga em Porto Nacional –
Tocantins, contrariando a recomendação do Conselho Nacional de Justiça de não
executar decisões desse tipo em tempo de pandemia.
Outra série
de agressões vão se acumulando neste cenário que não escapa aos nossos olhos:
as ameaças às unidades de conservação, o acirramento da violência no campo e na
cidade, a crise migratória, o feminicídio, a exploração sexual, o trabalho
escravo, o tráfico de pessoas, entre tantos. Como se não bastassem essas crises
provocadas pela intervenção humana, o fenômeno das enchentes, que pode ser
agravado pelas mudanças climáticas, castiga nossas populações ribeirinhas. De
olho nas águas, percebemos uma iminente crise hídrica como pauta de um próximo
embate.
Somos
sabedores que os governantes têm o dever constitucional de agir para evitar a
destruição das riquezas naturais e implementar políticas públicas que amenizem
a situação de desigualdade e pobreza, porém, na Amazônia isso não vem
acontecendo. Assistimos um governo que vira as costas a esses clamores, opta
pela militarização em seus quadros, semeia estratégias de criminalização de
lideranças e provoca conflito entre os pequenos. Dói em nossos corações de
pastores as imagens de escárnio e zombaria das dores de nossa gente: “Nossa alma está farta, em extremo, da zombaria dos satisfeitos e
do desprezo dos soberbos” (Sl 123,4).
Não obstante
este cenário, mantemos viva e acesa nossa esperança no Ressuscitado: “No mundo tereis aflições, mas tende coragem! Eu venci o
mundo”. (Jo 16,33)
Nossa escuta contemplativa e esperançosa
Aprendemos
da experiência do Sínodo da Amazônia um olhar esperançoso. A Amazônia é também
resposta! Ela irrompe como novo sujeito e como novo paradigma pela questão
ecológica e pelos seus povos originários. A partir da Amazônia fomos desafiados
a assumir esses novos paradigmas em nossa ação evangelizadora. Os caminhos
traçados pelo Sínodo da Amazônia, catalogados em forma de compromisso no
novo Pacto das Catacumbas pela Casa Comum, deixaram
evidente a necessidade de superar uma lógica colonizadora, de escolher a
periferia como centro da Igreja, de assumir o caminho da inculturação e
interculturalidade, seja no campo dos ministérios como das estruturas: uma
Igreja com o rosto Amazônico.
Constatamos
com alegria a atuação de uma infinidade de comunidades constituídas e milhares
de lideranças de cristãos leigos, na sua maioria mulheres, que atuam no campo
da evangelização e educação socioambiental. A partir dos relatórios dos
Regionais da CNBB na Amazônia, verificamos que estamos a passos lentos, mas
progressivos, tornando concretos os caminhos de conversão propostos no
Documento Final do Sínodo e os quatro Sonhos do Papa Francisco na Exortação
Apostólica pós-sinodal Querida Amazônia.
Foi justamente para retomarmos o ardor do Sínodo da Amazônia e apreciar os
passos dados que fomos convocados para este encontro. Perguntamo-nos: “Que
mudanças efetivamente têm ocorrido em nossa ação evangelizadora desde as
indicações do Sínodo?”
Nosso comprometimento inequívoco
A Igreja na
Amazônia já tem um caminho. Somos uma Igreja que age sob a força e inspiração
do Espírito de Deus. A liberdade e ousadia do Evangelho são mais fortes que as
amarras e os desgastes das estruturas. A conversão pastoral, desde a Conferência
de Aparecida (2007), nos interpela, a conversão integral, desde o Sínodo da
Amazônia, nos inquieta. Somos sabedores dos desafios de manter a unidade em
tempos de conflitos, do nosso papel mediador. Não somos ingênuos de pautar
nosso agir em polarizações agressivas, como insistem até mesmo alguns que dizem
professar a fé em Jesus Cristo, mas não haja dúvidas de que lado nós estamos:
por causa do Evangelho e do Reino reafirmamos nossa incondicional escolha por
estas populações, por estes territórios, por estas vidas ameaçadas. Em nada nos
fascina qualquer aproximação com esses sistemas perversos, mas também aos que
neles se envolvem, anunciamos a Boa Nova de Jesus: “Cumpriu-se o tempo, e está próximo o Reino de Deus.
Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15)!
Não estamos
sozinhos, há outros interlocutores da fé cristã, de outras expressões
religiosas, de organizações populares, novos sujeitos emergentes; a partir dos
pequeninos nos sentimos irmanados neste compromisso. “Tudo isso nos une. Como não lutar juntos? Como não rezar juntos e
trabalhar lado a lado para defender os pobres da Amazônia, mostrar o rosto
santo do Senhor e cuidar de sua obra criadora?” (Querida
Amazônia 110).
Sentimo-nos
impulsionados e animados a reafirmar alguns compromissos:
- Prosseguir e avançar em nossa pauta
pastoral as reflexões e indicações ousadas do Sínodo em torno dos
ministérios, como apresenta o Documento Final do Sínodo nos números 103 e
111, e da formação inculturada dos nossos agentes;
- Elaborar um plano estratégico com
diretrizes pastorais, que encarne o sonho social, ecológico, cultural e
eclesial para a Pan Amazônia;
- Incentivar a questão da segurança alimentar
como estratégia de cuidado pela vida;
- Reafirmar nosso envolvimento efetivo com o
Pacto pela Vida e pelo Brasil, unindo-nos ao “coro dos lúcidos” fazendo
nossas as suas pautas: a vacina para todos, a defesa do SUS, o auxílio
emergencial digno, pelo tempo que se fizer necessário e a investigação da
responsabilidade pela má gestão do sistema de saúde em meio à pandemia do
coronavírus. Da mesma forma tornar vivo o Pacto Educativo Global, proposto
Papa Francisco, em todas as regiões da Amazônia. Conclamamos todas as
instâncias eclesiais e a sociedade como um todo a unir-se neste
engajamento;
“O que vos é sussurrado ao ouvido, proclamai-o sobre os telhados” (Mc 10,27). Tendo descoberto a
capilaridade das novas dinâmicas de comunicação, das quais nos servimos para
chegar junto às nossas comunidades em tempos de distanciamento social,
igualmente queremos por meio destes recursos fazer chegar a todos e todas estas
nossas inquietações, esperanças e compromissos.
Exortamos,
às mais variadas lideranças de cristãos leigos e leigas, que não desanimem da
luta, que renovem continuamente o senso de comunhão eclesial, que a paixão pelo
Reino de Deus seja sempre alimentada, e que a sensibilidade para com os mais
pobres seja permanente.
Não nos
faltem a intercessão de nossos mártires, companheiros de caminhada, e o olhar
benevolente da Senhora de Nazaré, Mãe da Amazônia: “esses vossos olhos
misericordiosos a nós volvei”! A Mãe de Deus está conosco. Sigamos em frente!
-
Paolo Cugini O desejo de uma Igreja inclusiva não nasce de uma moda sociológica nem de uma concessão superficial ao pluralismo contempor...
-
Paolo Cugini O humanismo renascentista representou uma das mais profundas transformações culturais da história do Ocidente. Não se trato...
-
Paolo Cugini Apesar de ter passado muito século desde que os gregos desenvolveram um pensamento filosófico, alicerçado na razão e susten...





