domingo, 26 de abril de 2020

JUVENTUDE E ACOMPANHAMENTO ESPIRITUAL






Paolo Cugini

Uma característica ligada à problemática da juventude gira em redor do problema do sentido da vida. Todo jovem vive a angustia do próprio futuro, daquilo que será dele, do trabalho que irá arrumar e assim em diante. Muitas vezes a angústia do futuro leva o jovem para caminhos errados. É difícil, de fato, agüentar o peso da insegurança, sobretudo quando é encaixada numa situação econômica e social carente. Ser jovem, apesar das aparências e dos mitos que consideram a juventude a idade da alegria, da falta de compromisso, não é fácil.  O jovem percebe a cada dia a responsabilidade de tomar as decisões justas para que a própria vida possa enveredar o caminho certo. Aonde arrumar o dinheiro para entrar no cursinho que prepara para o vestibular? E depois, passado o vestibular, como manter os próprios estudos? Seria melhor arrumar um trabalho sem carteira assinada, ou esperar e correr atrás de algo mais seguro? E que preço seria disposto a pagar para uma segurança econômica? Um dos trabalhos mais seguro é sem dúvida aquilo que se encontra nas prefeituras. Muitas vezes, porém, entrar no orgânico da prefeitura significa calar a boca, não ter mais a possibilidade de denunciar as situações de injustiça, corrupção que acontecem á luz do sol. Vale a pena perder a própria liberdade em troca de uma segurança econômica que, muitas vezes, é mixaria pura? Problemas em cima de problemas; quem ajuda os jovens a resolvê-los? É claro que cada um é responsável da própria vida, mas é possível ajudar um jovem nesta fase tão delicada da sua vida?  

A primeira forma para ajudar um jovem nesta fase tão delicada da vida é, sem dúvida nenhuma, o diálogo. Só que, logo que um adulto se aproxima ao jovem para tentar abrir um espaço, ali encontra uma parede chamada desconfiança. Por toda uma série de fatores, o jovem é naturalmente desconfiado para com o adulto. É preciso, então, se armar de santa paciência e começar a subida da “montanha” da confiança. Trata-se, de fato, de uma verdadeira conquista, feita de etapas, de derrotas, de contínuo esforço para conseguir uma brecha na amizade da juventude. É claro que aquilo que aqui se entende, não é a simples conversa, ou a brincadeira alegre e descontraída.  Dialogar com um jovem para ajudá-lo a enfrentar os problemas da vida, significa entrar no mundo delicado da vida interior. Além disso, a grande dificuldade que se encontra neste caminho, é que dificilmente o jovem na infância e na adolescência foi ajudado a descobrir e a lidar com a própria interioridade.  Isso vale, sobretudo, nos lugares aonde, muitas famílias são envolvidas na busca cotidiana dos elementos básicos para viver ou, em muitos casos, para sobreviver e, para quem deve enfrentar estes problemas, não sobra muito tempo para cuidar da reflexão e da vida interior.  Por isso quando um adulto se aproxima do jovem para tentar ajudá-lo a viver com mais serenidade os problemas da vida, encontra logo a desconfiança e medo de escutar aquilo que sente dentro de si e que amiúde abafa por não querer sofrer.  

Nessa altura dá pra entender que, acompanhar a espiritualmente um jovem, não é apenas ensinar a rezar, a meditar a Palavra de Deus, mas fazer com que a oração e a Palavra possa iluminar e penetrar  a sua vida, influenciar as suas decisões, preencher de sentido os seus atos. Sem dúvida, não é qualquer pessoa que pode fazer isso. Somente quem já passou a própria juventude lidando com a própria vida interior e se esforçando na vida adulta a moldar a própria existência no Evangelho, pode ajudar alguém neste caminho. Seria bom encontrar nas paróquias pessoas disponíveis por este trabalho tão importante e, ao mesmo tempo, tão delicado.


sexta-feira, 10 de abril de 2020

SÁBADO SANTO: O SILÊNCIO DE UM DIA TERRÍVEL





Paolo Cugini


Devemos ter a coragem de ouvi-lo, sem subterfúgios, sem enche-lo de significados, sem querer adoçá-lo a todo custo. Não podemos adoçar o que não é doce, não pode sorrir no dia mais triste do ano: Sábado Santo. O que, então, tem de santo esse dia horrendo eu nunca entendi. De fato, como podemos chamar o dia mais vazio de todos, de santo o dia do absurdo absoluto, o dia em que toda a humanidade ficou sem fôlego, com o respiro suspenso? Porque, na realidade, toda a humanidade naquele dia se levantou sem saber para quem orar, sem poder orar a nenhum Deus, porque Deus havia morrido no dia anterior, assassinado barbaramente.  Nem sempre podemos fingir, sem querer ver, sem querer ouvir. Não temos mulheres como Maria Madalena, que sabem chorar pelo seu mestre morto, que sabem sofrer intensamente sem fingir, sem esconder nada: isso é amor. Aquele amor que flui do coração e não do cálculo, esse amor que é pura paixão e não racionalidade controlada, que calcula, que sabe fazer cálculos mesmo com sentimentos. E não podemos fingir e correr imediatamente no domingo, não podemos passar por este dia terrível, o sábado santo, porque temos medo do escuro e fingir que nada aconteceu; não podemos cobrir os olhos e os ouvidos para ir diretamente para a manhã de domingo. Acima de tudo, porém, não podemos antecipar o domingo de ressurreição ao sábado de manhã, como infelizmente acontece com frequência e de bom grado em certas igrejas, que começam preparar as decorações de domingo, como se o sábado do grande silêncio não existisse. Que desrespeito!

É preciso o silêncio para escutar o nada, entender o que seria o mundo sem significado, ou seja, sem Deus. O vazio deve poder penetrar no coração do homem e na consciência da mulher pelo menos uma vez na vida, para ter, então, a possibilidade de avaliar todas as ideologias que nada mais são do que vazios disfarçados de sentidos, nas quais nos apegamos para não morrer de asfixia. Forçados a inventar significados, quando é possível perceber que não há sentido, que estamos subindo nos espelhos, que estamos conversando ao vento e que não temos coragem de ficar calados por medo de sentir o vazio, de sermos penetrados pelo nada. Este é o significado do Sábado Santo, que é santo por esse motivo, porque nos permite tocar as cinzas da nossa vida, o nada dos nossos projetos sem Deus.

Pendurar-se no vazio, pelo menos uma vez na vida, pode ser de grande ajuda para entender a quem e ao que estamos amarrando a nossa vida, a quem estamos entregando a nossa existência, esforçando-se, pelo menos uma vez na vida, de não mentir pra nós mesmos. Mergulhamos todos os dias em rios de palavras inúteis para embelezar o que é feio por natureza, o que sai mal de nós, que não tem forma, porque não pode ter nenhuma forma, pelo fato que esta forma sai da nossa fantasia e não é real. Seria suficiente ter um dia a coragem, de percorrer os lugares onde as reuniões entre adultos acontecem para ouvir, prestar atenção, abrir bem os ouvidos no que é dito, no nada sobre o qual falamos por horas e horas. Falamos sobre o que somos e o que fazemos, onde o fazer vem substituindo o nada do nosso ser.

 É por isso que demoramos para ficarmos calados no Sábado Santo, lutamos para compreender a profundidade do vazio criado pela ausência de Deus no mundo, porque esse vazio, esse silêncio é revelador, esse vazio daquele dia terrível revela o vazio que temos por dentro e que cresce lentamente em todos os momentos do dia. O significado das coisas vem de dentro do mundo, de dentro do homem, da mulher, de seu coração. Apreendemos quando estamos calados, quando entramos em nós mesmos, percebemos nesses momentos que o sentido da vida, o profundo senso de existência não pode advir da matéria, não pode ser algo de material, temporal, acidental.

Deve haver algo a mais, mais duradouro, mais verdadeiro e profundo. Talvez este seja um dos presentes mais profundos do dia terrível, daquele dia cheio de desespero que é o Sábado Santo. É, de fato, neste dia que podemos tocar o nada da matéria, o nada de todos os pensamentos vazios quando são ditados pela pressa de preencher com significado aquilo que significado não tem. É neste dia terrível que descobrimos a nostalgia de Deus, o desejo de seu amor, a beleza de estar com Ele, o significado que Ele e somente Ele pode dar à vida em todos os seus aspectos. É a partir do terrível dia do Sábado Santo que, ao pôr do sol, podemos ver a luz radiante do amanhecer de domingo, o dia mais radiante e brilhante do ano: o domingo da ressurreição do Senhor.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

CASA ZOEN TENCARARI - BOLONHA - REUNIÃO DE QUINTA-FEIRA





QUINTA-FEIRA, 2 de abril

Tema da noite: JULGAR

Introdução: A casa Zoen Tencarari é o nome do projeto de acolhida da casa paroquial aonde estou morando desde o mês de outubro do ano passado. A casa hospeda jovens provenientes de vários países (Paquistão, Senegal, Burkina Faso, Albânia, Bangladesh, Itália, Afeganistão, Iran, Madagascar, Gambia, Gabon). Alguns destes jovens se encontram na casa porque não sabiam aonde ir, outros, sobretudo aqueles de proveniência italiana, vieram nesta casa para um período de discernimento, descobrir um sentido diferente de viver. Alguns destes jovens trabalha, outros estudam e outros, aqueles que ainda não tem documentos, ficam em casa ajudando nos trabalhos domésticos. Alguns dentre nós são católicos, outros muçulmanos, ortodoxos, outros ainda não pertencem a nenhuma religião. Vários jovens que estão aqui chegaram nesta casa fugindo de guerras o até de perseguições. Esta experiencia foi implantada pelo pároco padre Mario de 76 anos que depois de passar dez anos nas missões em Tanzânia, na África, quando voltou decidiu de abrir a sua casa para os jovens pobres ou em busca de um sentido da vida. Todo dia as refeições são realizadas por eles mesmos conforme um calendário predefinido. Depois do almoço rezemos juntos a hora media e depois da janta partilhamos a leitura do evangelho do dia sucessivo. Toda quinta feira ás 21,45 h realizamos um encontro formativo sobre temáticas que possam ajudar na vida da comunidade. O encontro termina a meia noite com a adoração eucarística e a benção final. Aqui em seguida, o relatório do encontro de ontem a noite. Todo dia uma équipe prepara o almoço por 35 sem teto da cidade. Nesta época de COVID 19 estamos trancados em casa nos epsaços da paróquia. 


[Presentes: Pe Mario, Elia, Ângelo, Bernard, Maurice, Emanuel, Matteo, Hassan, Latif, Vincenzo, Ahmed, Pe Paolo].


Leitura do texto retirado de: GOPFER, Sandro. 40 dias com Dietrich Bonhoeffer. Um livro para meditação. Brescia: Queriniana, 2020.

É suficiente que as pessoas estejam juntas para começar imediatamente a se estudar, a se julgar, a se classificar. Já pela raiz começa assim na comunhão cristã uma tremenda luta até a morte, da qual muitas vezes não percebemos, que muitas vezes permanece invisível (p. 131).

A busca pela autojustificação e pelo julgamento está intimamente ligada, bem como a justificação pela graça e serviço (p. 132).

Bonhoeffer sabia que o julgamento funciona destrutivamente. Na comunidade, deve haver a regra de que, na ausência do irmão, não é permitido falar sobre ele (p. 133).

Como cristão, vivo pelo fato de ser justificado por Deus, por uma graça maior, e não preciso me fazer justo. Portanto, em vez de emitir sentenças a outros, sou livre para servi-los (p. 134).

Deus, o criador, criou os homens à sua imagem. É por isso que consigo entender a diversidade dos outros como um enriquecimento (p. 134).

Intervenções - partilha
Elia: no momento em que consigo ouvir outras pessoas sem preconceitos, eu as recebo como enriquecimento. Mesmo se somos diferentes, cada um de nós tem algo precioso para dar aos outros. O julgamento é ter uma opinião pessoal enquanto o preconceito deriva da falta de conhecimento (narrativa biográfica).

 Vincenzo: hoje experimento o julgamento como um tópico estranho. Até recentemente, o problema era entender os momentos em que me senti julgado (narrativa biográfica). O julgamento diz de uma idéia que deve chegar a um ponto. Precisa encontrar um equilíbrio. "Não fales mal na comunidade de um na sua ausência": fiquei impressionado com esta frase que lemos.

Bernard. Neste inverno, eu realmente fiz uma revisão dos julgamentos. Farei um trabalho - o professor - em contato com as pessoas. Um erro que terei de evitar é julgar as crianças a priori sem conhecê-las bem. É difícil não julgar. Precisamos ter cuidado, porque muitas vezes não percebemos e somos pesados ​​em julgamentos. Uma frase que li diz: "o julgamento diz muito sobre você, mas menos que o outro". Eu gostei (Narrativa biográfica). Estou seguindo um caminho para reconhecer o julgamento, para reconhecer quando estou errado em corrigir a situação. Às vezes, criamos rapidamente mecanismos de associação sem pensar bem na verdade das coisas. É difícil não mencionar aqueles que estão ausentes na comunidade. É difícil ser honesto, porque há um medo de que o outro o leve a mal.

Emanuel: o tema do julgamento é um tema bastardo porque me machuca. Alguém disse que o medo do julgamento dos outros é uma forma de prisão que não permite que você seja você mesmo. É difícil administrar o julgamento. (Narrativa biográfica).

Ângelo: Pensei nas experiências que tive com relação ao julgamento. Ocorreu-me que sou muito confrontado com o contexto da minha família (narrativa biográfica). Penso que, para não julgar os outros, é necessário se aceitar. Você precisa aprender a se analisar e, em seguida, ser capaz de se aceitar como é. Você também deve aprender a sair do julgamento negativo sobre si mesmo.

Pe Mario: o Papa Francisco falava frequentemente da negatividade do julgamento sobre os outros. Falar mal dos outros é uma arma que mata ou são algemas que o aprisionam. Jesus nos ensina que é o que sai do coração que dói. Quando o julgamento é rápido por parte de outras pessoas, acuso-o, sinto-o. No amor, não podemos nos apressar a julgar, porque o amor nos empurra para o bem e para ver o bem que o outro tem. A vida comunitária é o lugar da correção fraterna. Esse limite de julgamento existe em todas as comunidades. Ratzinger disse que o pecado está dentro da Igreja. Na vida de um casal, é essencial aprender a suspender o julgamento. Um garoto que passou pela casa disse que veio aqui para se preparar para o casamento.

Matteo: morar em casa ajuda muito para não julgar o conhecimento do outro. Só me colocando no lugar dos outros mais do que julgá-lo é que justifico. É necessário aprender a reconhecer a diversidade do outro. Esse processo é mais difícil no local de trabalho, porque existe um desejo de emergir. Quando você está em um grupo e o julgamento nasce, é preciso coragem para sair do refrão e você é julgado (narração biográfica).

Maurice: é difícil não entrar em lógicas negativas para com os outros. Para sair disso, você precisa estar em uma grande paz interior dentro de nós. É preciso muito amor. É como Jesus diz no episódio em que as pessoas trazem para ele uma mulher encontrada em adultério para condená-la à morte. Há momentos em que uma pessoa está dentro de espirais negativas que se tornam difíceis de entender a outra em uma perspectiva de amor. Receber amor ajuda a ter uma aparência diferente (narração biográfica). Às vezes, outros são julgados negativamente por se elevarem. São lógicas nas quais todos caímos. Quando isso acontece, significa possuir baixa auto-estima. Começando a se amar, não há mais necessidade de se auto-exaltar e abaixar os outros. É a lógica de amar o seu próximo como a si mesmo. O julgamento negativo não leva a lugar algum. Quem tem raiva por dentro geralmente é a pessoa que dá sentenças. Você está com raiva e depois julga mal todo mundo. É por isso que é certo parar de falar em comunidade quando alguém está ausente.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

SANTO NATAL 2019






Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura Lc 2, 12

É isso que chama atenção, o contraste absurdo, aquilo que ninguém podia imaginar, ou seja, que o sinal da presença do Salvador na terra fosse algo de tão pobre e simples: um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura. Nada de vestimentas sacerdotais, nada de trajes sagradas, nada de algo que pudesse marcar uma distância, uma separação com o mundo – pois é isso o sentido da palavra sacro: separado mas uma presença que todo mundo pudesse reconhecer. É isso que Deus, desde o começo quis realizar com a humanidade: uma aproximação. Toda vez que nos aproximamos dos outros, sobretudo os mais pobres e humilde, tornamos presente o menino Jesus para que o mundo o veja e acredite. Toda vez que marcamos distancia, com a nossa roupa, com o luxo, com algo que é sinal de desigualdade, afastamos a possibilidade da humanidade encontrar o Senhor. Um santo Natal.
Pe Paolo

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

POR DENTRO DO SINODO PAN-AMAZONICO

O Papa Francisoc ao Sínodo rodeado com as mulheres que participam dos trabalhos



Muitas coisas estão acontecendo em Roma no Sínodo Pan;Amazonico e muita conversa está saindo nas redes sobre assuntos que nem tudo mundo entende. O amigo pe Luís Miguel Modino, que trabalhou na diocese De Ruy Barbosa e á alguns anos está trabalhando em Manaus, é um parceiro do Instituto Humanitas Unisinos – IHU que acompanhou toda a preparação do Sínodo e agora está em Roma acompanhando atentamente os debates. Diariamente, e em uma página especial, o IHU publica notícias e textos que repercutem as reuniões sinodais. Por essa razão, e para ajudar as pessoas a entenderem o que está se passando no Sínodo, publico a intervista que Pe Modino realizou com o teólogo Pe Paulo Suess, que é perito do Sínodo. Pe Paulo Suess é doutor em Teologia Fundamental, fundador do curso de Pós-Graduação em Missiologia, na então Pontifícia Faculdade Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo, assessor teológico do Conselho Indigenista Missionário - Cimi e professor em várias Faculdades de Teologia no ciclo de Pós-Graduação em Missiologia.



Pe Modino – Qual a importância da promoção de uma discussão como essa do Sínodo Pan-Amazônico, de uma Igreja com rosto indígena, com rosto amazônico?
Paulo Suess – Vai ser muito importante, pois nós criaremos raízes como Igreja. E, nas igrejas locais, passaremos de uma Igreja de visita para uma igreja de presença. Isso vai tocar todo nosso esquema, inclusive a nossa identidade católica. Se falou, hoje mesmo num grupo, dessa indentidade cattolica. Precisamos aprofundar os estudos bíblicos, estudos catequéticos, mas, às vezes, se esquece o essencial dessa identidade, pois ela anda com duas pernas: com a palavra e com o sacramento.
 No que diz respeito à palavra, é relativamente fácil, pois basta aprofundar o que já fizemos, o que as igrejas pentecostais fazem, e ampliar a palavra. Mas, com a palavra somente, podemos tirar os altares das nossas comunidades. Então, a palavra pode ser feita pela visita, pela internet, por um curso em que aprofundamos e mandamos literatura depois. Agora, o sacramento exige a mudança, o câmbio de uma igreja de visita para uma igreja de presença. E tal só pode ser feito estando presente. Então, essa outra perna, essa outra parte da identidade católica que é o sacramento, ao lado da palavra, exige uma igreja descentralizada, uma igreja que passa a ser presente.
E, uma vez já sendo presente, vai ser mais barato, porque se queixam que na Amazônia é tudo muito caro, precisa de muito dinheiro para gasolina, para chegar nos locais, viajar. Então, se é assim, que fiquemos lá. Assim, não se precisa mais pagar a gasolina porque você é da comunidade. Ou seja, é fazer ser da comunidade esses ministérios. Só quando esses ministérios são da comunidade haverá também uma presença sacramental e uma presença da palavra.
Creio que o novo caminho poderia ser este: o que fizemos com visitas, o que fizemos com gente de fora pode passar a ser feito com gente do local. Isso não quer dizer que vamos substituir a missionalidade, pois essa igreja local também vai ser missionária. A partir de uma igreja com rosto amazônico, vai ser missionária não alienante, não colonizadora, uma igreja mesmo segundo o espírito de Jesus que se encarnou nesse mundo.

Pe Luis Miguel Modino


Pe Modino – Como avalia as primeiras movimentações do Sínodo? O que o senhor destacaria dos debates nesses primeiros dias?
Paulo Suess – É um grande balaio, uma cesta em que apareceu tudo. E apareceu tudo com uma grande liberdade. Eu estive aqui, certa vez, participando do Sínodo para as Américas e na ocasião havia temas proibidos. Não se poderia falar porque o Papa não queria. Agora não, não há proibições estruturais. Um ou outro cardeal quer proibir alguns temas, acha inconveniente falar de algumas coisas e gostaria de fechar algumas questões. Mas, a partir da presença do Papa Francisco, tudo está aberto, tudo está interligado e com isso apareceram todos esses temas.
Agora, vai depender muito da redação, dos primeiros esquemas, capítulos, o que se aproveita a partir também dos grupos, porque atualmente estamos todos com um leque de temas. Já iniciamos o segundo passo essa semana, a construção do documento final. É nesse momento que vai depender muito das escolhas desse balaio, o que tiramos e realmente achamos como um novo caminho que estamos procurando.

Pe Modino – E nos cafés, nas residências e em outros encontros que vão ocorrendo, nos bastidores, o que está sendo comentado?
Paulo Suess – Eu estou sentindo que estamos com certo otimismo. Se conhece a máquina e como ela funciona, se conhecem as forças presentes, porém, numericamente, ao menos, há muitos que querem andar nesses novos caminhos. Nesses 500 anos aqui, nos tornamos de uma igreja majoritária em uma igreja minoritária, porque ocuparam os espaços que deixamos abertos por causa da centralização dos ministérios. Por isso, creio que a maioria vai compreender que descentralizando os ministérios vamos marcar presença e vamos poder retomar, de uma certa maneira, essa Amazônia com espírito do Evangelho que luta por justiça e liberdade e contra a violência e tudo que observamos na análise da realidade.

Pe Modino – O Sínodo tem sido um momento muito elogiado, mas também muito criticado, inclusive dentro da própria Igreja. Essas críticas estão incidindo de alguma maneira dentro da assembleia sinodal?
Paulo Suess – Creio que não tenha um impacto. Porém, é bom observar as vozes contrárias, analisar seus motivos, que às vezes são pessoais, sentir como pode ser uma quebra na sua trajetória profissional aqui em Roma, porque agora a linha é outra e eles ainda não se deram conta do espírito da época em que vivemos. Então, a gente escuta e procura esvaziar os argumentos que muitas vezes não são argumentos, são apenas autodefesas apenas para continuar assim como sempre se fez e com isso estamos fora do processo histórico em que se desenvolve a evangelização.

O teologo Paulo Suess com o Papa Francisco


Pe Modino – Esse Sínodo é o que conta com mais presença feminina. Até agora, nesses primeiros dias, como estão se posicionando as mulheres dentro da Assembleia Sinodal?
Paulo Suess – O Sínodo é um sínodo de bispos e não de leigos, de padres nem de mulheres. Porém, sempre que são mencionados temas candentes para as mulheres se percebem os aplausos, as interrupções, as satisfações e se vê em todos os casos a presença das mulheres. Assim, embora não tenham a presença, a força pelo voto se introduz mais pela força do argumento.

Pe Modino – E, pessoalmente, o que mais o marcou até agora?
Paulo Suess – Essa abertura, em que se pode falar de tudo, em que há um grande consenso sobre os novos caminhos, sobre a descentralização, sobre a ministerialidade, sobre o rosto amazônico. Eu cheguei na Amazônia em 1966, trabalhei dez anos em diferentes regiões, depois trabalhei com a questão indígena. Por isso, a questão do rosto amazônico é bálsamo para minha alma. Bálsamo no sentido de que vai ao encontro do que nós sempre defendemos. Assumir para redimir, isso está em Puebla N. 400. É preciso assumir essas culturas, assumir o rosto e sua diversidade e depois vamos falar em redenção.

Pe Modino – O papa Francisco, inclusive, tenta trazer imagens para mostrar que está muito perto do povo. Tem uma imagem, que até apareceu como capa do L'Osservatore Romano, em que ele abraça uma mulher negra brasileira que está participando da assembleia. Também apareceu tomando chimarrão e em fotos com todas as pessoas. Como isso influencia aqueles que estão participando da assembleia?
Paulo Suess – O chimarrão, provavelmente, já tomava na Argentina. Não precisava muito de inculturação (risos). Mas os outros são grandes elementos. O Papa é bom em dar sinais, que vão mais longe do que as palavras. Porém, nós sabemos que ele está numa estrutura ainda muito cristalizada e, para aquecer um pouco esses cristais, ainda não conseguiu tudo. E não pode fazer tudo como nós pensamos, como falamos nos corredores porque, se ele fizer isso, amanhã outro papa iria desfazer. Então, ele precisa também em tudo lutar internamente por um grande consenso para poder dar durabilidade para novos caminhos e para que não possam dizer que esse não é o caminho e parar tudo, levando para outra direção.

Pe Modino – Qual é sua expectativa para o “pós-sínodo”, o que espera que pode nascer dessa experiência sinodal?
Paulo Suess – Eu creio que o pós-sínodo vai ser como o Concílio Vaticano II. Vai haver momentos em que se esquece, momentos em que nos lembramos e vai haver, sobretudo, horizontes e processos iniciados e, mesmo se não der para concluir tudo no Sínodo, na admoestação apostólica que o Papa vai fazer no documento, marcará que os caminhos são abertos. E são abertos para, na região, nos sentarmos e pensarmos como vamos aplicar essa parte do Sínodo em nossa região, em nossa diocese.
Esse é o caminho sinodal, ele é mais complicado do que o caminho ditatorial ou imperial em que se decide. No Sínodo, se quer trabalhar na base do consenso. E consenso não da unanimidade, porém num grande consenso, o que leva tempo, tempo de conscientização da própria Igreja, dos nossos irmãos. E, ainda, vai depender da nomeação de bispos, da escolha de padres, vai depender muito da formação de padres, que se falou que não se faça em redomas, mas com processos participativos, com o povo, com a comunidade. Tudo isso leva tempo porque implica em mudanças culturais.






CANONIZAÇÃO DE IRMÃ DULCE




ROMA 13 DE OUTUBRO 2013

Paolo Cugini


Estou participando dos eventos paralelos que forma organizados para ajudar a refletir sobre o Sínodo da Amazônia, que está acontecendo em Roma. Cada evento tem seu próprio organizador. Todos os eventos públicos têm informações de contato, para que quem quiser possa entrar em contato para saber mais e se inscrever no evento. Alguns eventos são particulares e estão incluídos no calendário apenas por informação. Por esta razão, participei domingo 13 de outubro á solene canonização de ir Dulce, que se tornou a primeira santa nascida no Brasil, em Salvador da Bahia. Muitos baianos participaram do evento. Eu tive a possibilidade de encontrar pessoas de Andaraí e de Utinga na praça de são Pedro. 50 mil pessoas acompanharam a cerimônia. Também foram celebrados outros quatro novos santos: um cardeal inglês, uma freira italiana, uma freira indiana e uma catequista suíça.

Irmã Dulce nasceu em Salvador em 26 de maio de 1914 com o nome de Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes, ela desde muito cedo se envolveu com a religião e o cuidado dos mais necessitados. Com apenas 13 anos, já acolhia doentes e mendigos em sua casa. Adotou o nome de Irmã Dulce aos 19 anos em homenagem à sua mãe. Foi nessa época que ela entrou para a vida religiosa e passou a fazer parte das irmãs missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus.



 A partir daí, começou com vários trabalhos voltados à comunidade carente. Criou a associação obras sociais Irmã Dulce, com albergue e um centro educacional para abrigar meninos sem referência familiar. Esse centro funciona até hoje e atende 750 crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Ela também foi a responsável pela criação do Hospital Santo Antônio, um dos maiores da Bahia. O hospital surgiu quando a Irmã Dulce improvisou um abrigo para atender pacientes no galinheiro do convento. Hoje, o hospital realiza mais de 3 milhões de atendimentos pelo SUS por ano.

Toda essa dedicação fez com que ela chamasse a atenção do Papa João Paulo II, que a incentivou a dar continuidade aos seus trabalhos. Em sua segunda visita ao Brasil, o papa quebrou os protocolos apenas para visitar a Irmã Dulce, que já estava doente. Em 1988, ela chegou a ser indicada ao prêmio Nobel da Paz.

O Brasil verá Irmã Dulce na glória dos altares, como afirma o jornalista Juan Arias num artigo publicado domingo 13 de outubro no site IHU.UNISINOS, “em um momento quase de cruzada religiosa no país, onde a intolerância de alguns grupos de evangélicos extremistas perseguem outras religiões, sobretudo de origem africana. Irmã Dulce nasceu e atuou justamente na cidade com mais negros fora da África e a que melhor mantém suas tradições culturais e religiosas”.



A religiosa, intrépida e obcecada com os mais marginalizados da sociedade, dizia: “Meu partido é a pobreza”. Nunca teve escrúpulos em bater à porta dos políticos importantes do seu tempo, mas sempre para suplicar recursos para os mais abandonados, aos quais dedicou sua vida, e às obras por ela criadas exclusivamente para aliviar a dor e a pobreza.

Irmã Dulce, que como religiosa manteve sua visão moderna da mulher liberada que deve participar ativamente na vida pública, “é canonizada justo neste momento em que a reivindicação da mulher por seus direitos e peculiaridades, sem discriminações, representa uma das grandes batalhas no mundo e particularmente no Brasil, um dos países com maior número de feminicídios, e que vive um momento de machismo e obscurantismo cultural e religioso” (Juan Arias).