segunda-feira, 1 de junho de 2026

O METODO TEOLOGICO DE BERNARD LONERGAN E A TEOLOGIA DAS MARGENS: CONTRASTES OU POSSÍBILIDADE DE ENCONTRO?

 




Paolo Cugini

 

 

A teologia contemporânea enfrenta o desafio constante de articular a fé com a realidade histórica, buscando pontes entre o rigor metodológico e o compromisso ético-social. Uma análise crítica comparativa revela que a etapa de comunicação de Bernard Lonergan e a práxis libertadora na teologia das margens representam duas abordagens distintas, porém potencialmente complementares, para a transformação da realidade a partir da reflexão teológica. Enquanto Lonergan propõe um caminho de dentro para fora, focado na conversão da subjetividade humana e na mediação cultural, a teologia das margens (profundamente ligada à Teologia da Libertação) opera de fora para dentro, elegendo o clamor do oprimido como o lugar teológico de onde emerge toda verdade e ação.

 A etapa de comunicação em Bernard Lonergan: A teologia em saída cultural

No método teológico de Bernard Lonergan, exposto em sua obra fundamental Método em Teologia, o fazer teológico é estruturado em oito especialidades funcionais. A última dessas etapas é a comunicação.

A comunicação é o momento em que a teologia deixa o ambiente puramente acadêmico para se universalizar, inserindo-se nas diversas culturas e mídias. Ela depende diretamente das etapas anteriores, especialmente da Conversão (religiosa, moral e intelectual) e das Diretrizes (escolhas de horizontes). Seu propósito é colaborar na construção de uma comunidade humana autêntica, iluminando a história com o significado cristão purificado.

Para Lonergan, a comunicação não é mera transmissão de dogmas, mas uma mediação cognitiva e existencial que visa curar o declínio social através da restauração da racionalidade e da responsabilidade humana.

A práxis libertadora na teologia das margens: o primado do pobre

A teologia das margens, herdeira do método ver-julgar-agir, inverte a prioridade clássica da teoria sobre a prática. A práxis libertadora não é o resultado final de um sistema de pensamento; ela é o ponto de partida e o critério de verificação da própria teologia. Práxis é a ação histórica consciente e transformadora dos sujeitos que habitam as periferias sociais, econômicas e existenciais.  Utiliza as ciências sociais para analisar as estruturas de opressão (o "ver"), julga essas realidades à luz da Palavra de Deus (o "julgar") e engaja-se na libertação concreta (o "agir").  Objetivo é superar o pecado estrutural e antecipar o Reino de Deus na história através da emancipação dos marginalizados.

Aqui, o teólogo não é apenas um mediador cultural, mas um intelectual orgânico que caminha com a comunidade oprimida.

Limitações da Abordagem Lonerganiana sob a ótica das margens

A teologia das margens direciona uma crítica contundente ao formalismo de Lonergan. Ao focar excessivamente nas operações da consciência (experiência, entendimento, julgamento, decisão), o método lonerganiano corre o risco de se tornar um idealismo intelectualista. Para quem sofre a urgência da fome ou da violência estatal nas periferias, o refinamento do método pode parecer um luxo acadêmico burguês. A etapa de comunicação, se não for tensionada pela urgência geopolítica, corre o risco de se reduzir a uma "inculturação" abstrata que comunica o Evangelho sem subverter as estruturas de poder que geram as margens.

Limitações da práxis libertadora sob a ótica Lonerganiana

Por outro lado, o método de Lonergan oferece um antídoto vital contra os perigos de instrumentalização ideológica da teologia das margens. Sem uma sólida fundamentação metodológica e epistemológica, a práxis libertadora pode cair no ativismo cego ou no reducionismo sociopolítico, onde a teologia se torna mera linha de apoio de partidos ou movimentos sociais. Lonergan recorda que, para haver uma práxis verdadeiramente libertadora, é indispensável a conversão moral e intelectual dos agentes. Sem a superação dos preconceitos egocêntricos e grupais (que Lonergan chama de biases), a revolução de hoje pode facilmente se transformar na tirania de amanhã.

 Síntese prospectiva: por uma práxis comunicativa transversal

O diálogo crítico entre Lonergan e a teologia das margens não deve resultar em exclusão mútua, mas em enriquecimento recíproco. A comunicação lonerganiana ganha corpo, carne e urgência histórica quando assume o horizonte dos esquecidos como seu destinatário e interlocutor principal. A teologia não pode apenas comunicar significados autênticos; ela deve comunicar libertação. Simultaneamente, a práxis das margens ganha densidade reflexiva e autocrítica ao adotar as exigências de conversão e rigor metodológico de Lonergan. O resultado dessa síntese é uma práxis comunicativa transversal: uma teologia que nasce das margens, purifica-se pelo rigor da consciência convertida e comunica-se ao mundo não como um discurso colonial superior, mas como uma força histórica capaz de humanizar tanto o oprimido quanto o opressor.

 

13 comentários:

  1. O diálogo entre Bernard Lonergan e a teologia das margens mostra que fé e compromisso social podem caminhar juntos. Enquanto um destaca a importância da conversão pessoal, da reflexão crítica e da comunicação responsável, a outra enfatiza a ação concreta em favor dos mais vulneráveis. Assim, quando essas perspectivas se complementam, a teologia torna-se mais humana, crítica e transformadora, contribuindo tanto para a mudança das pessoas quanto da sociedade.

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  2. O texto mostra que existem dois jeitos diferentes de fazer teologia hoje: um, de Lonergan, foca na reflexão interna e na comunicação cuidadosa do Evangelho; o outro, da teologia das margens, começa pela ação junto aos pobres e oprimidos. Cada abordagem tem pontos fortes e limites, mas juntas podem criar uma teologia mais completa, que une pensamento rigoroso e compromisso real com a transformação social.

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  3. ao confrontar a etapa de comunicação de Bernard Lonergan com a práxis libertadora da teologia das margens, não apenas delineia duas metodologias teológicas, mas também suscita profundas questões éticas e epistemológicas. A riqueza do diálogo proposto reside precisamente na explicitação das tensões e complementariedades que emergem quando a busca pela autenticidade do sujeito se encontra com a urgência da libertação do oprimido.

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  4. É mostrado aqui o método teológico de Lonergan, tendo a importância da reflexão crítica, da experiência humana e do diálogo entre fé e razão. um ponto positivo é a valorização da teologia que busca compreender a realidade de forma mais profunda e consciente. Porém, a proposta pode parecer bastante acadêmica e complexa, sendo distante da vivência cotidiana de muitos fiéis. Ainda assim, o texto contribui para pensar uma teologia mais aberta ao conhecimento e aos desafios do mundo atual.
    – Thiago Araújo

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  5. A abordagem de Lonergan busca uma verdade universal e estruturada.Nas margens, a prioridade é a sobrevivência material imediata.O método falha por exigir uma racionalidade elitista e abstrata.Ele ignora que o sofrimento molda o conhecimento popular.Falta à teoria o vigor da urgência e da práxis política.

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  6. A análise epistemológica do diálogo entre Bernard Lonergan e a teologia das margens evidencia a existência de diferentes pressupostos acerca da origem, da validação e da comunicação do conhecimento teológico. Em Lonergan, o conhecimento é compreendido a partir das operações da consciência humana, exigindo um processo de conversão intelectual, moral e religiosa que possibilite julgamentos autênticos e responsáveis. Já a teologia das margens desloca o foco epistemológico para a experiência histórica dos sujeitos marginalizados, assumindo a práxis libertadora como critério fundamental para a elaboração teológica. Embora partam de horizontes distintos, ambas as perspectivas estabelecem um diálogo crítico que revela potencialidades e limites recíprocos: a abordagem lonerganiana oferece rigor metodológico e autocrítica à práxis teológica, enquanto a teologia das margens confere concretude histórica e sensibilidade social ao processo de construção do conhecimento. Por isso a análise demonstra que o diálogo entre essas correntes não implica a superação de uma pela outra, mas a possibilidade de uma compreensão teológica mais ampla, na qual reflexão crítica e compromisso histórico se enriquecem mutuamente.

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  7. Na minha compreensão, essas perspectivas não são opostas, mas complementares, pois uma ação transformadora precisa tanto de compromisso com os excluídos quanto de reflexão crítica e responsabilidade ética. Assim, a teologia pode contribuir de maneira mais eficaz para a construção de uma sociedade mais justa, humana e solidária.

    Ass: Bua Barreto

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  8. A teologia contemporânea une a reflexão de Bernard Lonergan à prática libertadora das periferias. O método de Lonergan favorece o discernimento crítico, enquanto a realidade dos marginalizados mantém a teologia próxima da vida concreta. Dessa integração surge uma ação transformadora, comprometida com a justiça e a humanização da sociedade.

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  9. O texto apresenta uma reflexão profunda e equilibrada sobre dois caminhos importantes da teologia contemporânea: o método de Bernard Lonergan e a teologia das margens, ligada à Teologia da Libertação. A análise mostra que, embora partam de perspectivas diferentes, ambas buscam transformar a realidade humana à luz da fé cristã.
    Por outro lado, Lonergan valoriza a conversão interior, o rigor metodológico e a comunicação da fé como mediação cultural capaz de renovar a sociedade. De outro, a teologia das margens enfatiza a prática concreta junto aos pobres e excluídos, entendendo a libertação como ponto central da experiência teológica.
    Além disso, o comentário também é importante porque evita extremismos: reconhece que o método de Lonergan pode parecer distante das urgências sociais, enquanto a práxis libertadora pode correr o risco do ativismo ideológico sem uma reflexão crítica mais profunda. Assim, a síntese proposta é muito rica: unir consciência crítica, conversão ética e compromisso histórico com os marginalizados.
    Portanto, o texto defende uma teologia mais humana, crítica e transformadora, capaz de dialogar com a realidade concreta sem perder a profundidade espiritual e intelectual.

    Jainer Reina!!

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  10. A aproximação entre o método de Bernard Lonergan e a teologia das margens demonstra que a reflexão teológica alcança maior relevância quando une profundidade intelectual e compromisso com a realidade concreta. Enquanto Lonergan oferece instrumentos para uma compreensão crítica da experiência humana, a teologia das margens recorda que essa compreensão deve estar voltada para aqueles que vivem situações de exclusão e vulnerabilidade. Dessa forma, o pensamento teológico evita tanto o risco do intelectualismo distante quanto o perigo de uma prática sem fundamentação crítica.
    Além disso, a integração dessas perspectivas contribui para uma Igreja mais sensível aos desafios contemporâneos. A escuta das vozes marginalizadas, aliada ao discernimento responsável proposto por Lonergan, favorece ações transformadoras que promovem justiça, dignidade e inclusão. Assim, a teologia torna-se não apenas um exercício de interpretação da fé, mas também um instrumento de diálogo e esperança capaz de responder às necessidades concretas da sociedade atual.

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  11. Para Lonergan o ser humano para transformar a sociedade ao seu repor, primeiramente ele deve olhar a realidade a sua volta , e apartar desse desse olhar para com o outro buscar uma compreensão mais profunda e humana. Dessa forma ele trata os assuntos teológicos apartir da realiddos pobres e excluídos.

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