Paolo Cugini
Tudo o que Péguy tem a denunciar em relação à Igreja
Católica concentra-se na figura dos padres, por vezes chamados de curés,
ou clergé, ou simplesmente prêtres. É em Vèronique Dialogue de
l’histoire et de l’ame charnelle que encontramos tematizados todos os
argumentos de uma acusação que frequentemente atinge tons de pura polêmica.
O padre caminha nos jardins da graça com uma
brutalidade espantosa. Nesta terra nobre, nesta terra abençoada, nesta terra de
graça [...] eles afundam o calcanhar, fazem torrões. Dir-se-á que estão
empenhados nisso. São os operários da hora em que se trabalha mal. Dir-se-á que
eles se propõem unicamente a sabotar os jardins eternos. Que eles não têm senão
uma preocupação no tempo: a de impedir alguma floração, a floração da
santidade, a frutificação dos frutos da santidade. Que eles não têm senão este
objetivo na vida, estes rapazes [...] Não se deve dizer que é danoso, deve-se
dizer que é espantoso. E quando se pensa que realizam isso desde o início do
mundo [...] De uma brutalidade, de uma indiscrição terrível, também e sobretudo
para com a graça e (naturalmente com esta) falam sempre de discrição; arrastam
sempre os seus pés barrentos (não digo terrenos, não digo terrestres), são como
pés de elefantes moles nos jardins do Senhor. Assim, os curas trabalham na
demolição do pouco que resta.
Há nos padres uma espécie de cegueira que os leva a
crer que Deus trabalha apenas para eles, esquecendo que a situação correta está
exatamente nos antípodas: são os padres que devem trabalhar para Deus. Mas eles
dirigem aos outros aquilo que, por vocação, é tarefa deles: convidam outros a
realizar atos de contrição, enquanto eles próprios não os realizam. Não se pode
senão sufocar e dizer: é terrível. E o que há de mais terrível – sustenta Péguy
– é que fazem isso desde o início do mundo. Tudo isso serve para introduzir o
verdadeiro problema que toca o coração de Péguy, a saber, a descristianização
do mundo moderno que é, essencialmente, segundo ele, um problema
histórico.
A eternidade abortou no tempo (para aquele tempo); o
eterno foi temporariamente suspenso porque os encarregados do poder, os
procuradores do poder do eterno, desconheceram, ignoraram, esqueceram,
desprezaram o temporal.
A expulsão do eterno do temporal tem a sua
manifestação concreta na distinção entre século (mundo laico) e regra (clero).
A regra não conseguiu salvar o século porque historicamente ignorou o século.
Péguy, neste ponto do discurso, faz notar como na origem as coisas não eram
assim. Se, de fato, está fora de dúvida que na origem do cristianismo está
Jesus, então deve-se sublinhar que Jesus não era nem secular nem regular. Outra
precisão importante é que, sempre na origem:
O século era incontestavelmente o objeto e a regra era
a matéria de onde vinha o nutrimento. Originariamente, primitivamente, a vida
mística, a operação cristã voltava-se para, consistia não em evitar o mundo,
mas em salvar o mundo; não em fugir do século, separar-se, entrincheirar-se,
subtrair-se, cortar-se do século, mas, pelo contrário, consistia em nutrir
misticamente o século.
Esta separação entre momento místico e momento
prático, entre regular e secular, não foi uma simples separação conceitual, mas
sobretudo uma dissociação que conduziu historicamente a uma separação de
poderes, uma distribuição de funções e uma divisão de trabalho. A união
histórica e fundamental entre mística e mundo, entre regra e século, uma vez
separada, produziu uma série inumerável de contradições e ambiguidades. A
primeira delas é a distinção entre leigo e padre, chegando-se a indicar a
vocação do pai de família como a menos empenhada, a menos aventurosa. Na
realidade:
É diametralmente o contrário. A vida de família está
na outra extremidade da vida da regra. Nenhum homem no mundo está tão empenhado
no mundo, na história e no destino do mundo como o homem de família, como o pai
de família, tão plenamente, tão carnalmente [...] acredita-se comumente que é o
celibatário, o homem sem família, que é um homem de companhia, um aventureiro
que corre aventuras. É o pai de família, ao contrário, o homem de família, que
é um aventureiro, que corre não apenas aventuras, mas uma só, mas uma grande,
mas uma imensa, mas uma total aventura, a aventura mais terrível, mais
continuadamente trágica, da qual a própria vida é uma aventura, o próprio
tecido da vida, o pão cotidiano. Eis o aventureiro, o verdadeiro, real
aventureiro. O pai de família sozinho coloca, joga, arrisca, empenha
infinitamente mais no destino do mundo, no século, no destino de todo um povo,
no futuro de uma raça. É notório, é considerável, que esta vida de família, tão
desacreditada, tão desprezada é considerável que seja esta vida de família, tão
mergulhada por todos os lados, empenhada no século, que Jesus tenha escolhido,
que a tenha eleito entre todas para vivê-la, que a tenha efetivamente, que a
tenha realmente, que a tenha historicamente vivido durante os primeiros trinta
anos da sua existência (terrestre).
Deus entrou no mundo através da vida familiar: é uma
escolha que deve ser aceita. Escolheu a vida de família porque, aos olhos de
Péguy, é a mais comprometida que pode haver no século. Aqui reside o sentido da
encarnação de Deus que desceu para salvar o homem, para revelar o sentido do
seu caminho. É a este nível que deve ser compreendida a mística e a mecânica da
mística que deu origem ao cristianismo.
Nesta linha de reflexão, Péguy observa que, se é
verdade que os outros três anos, os últimos três anos da vida de Jesus, tiveram
um caráter público, é igualmente verdade que não foram na direção da regra, mas
do século. Os primeiros três anos da Igreja foram, portanto, anos seculares, “secularmente
místicos, historicamente místicos, voltados para o século e para a história”. A
mística de Jesus não é a mística da regra, mas da carpintaria.
O erro histórico cometido pelos padres situa-se a este
nível, que é simultaneamente histórico e místico. A separação entre regra e
século, a incompreensão do mistério da encarnação de Deus que vem ao mundo para
salvar o homem e o mundo, produziu dois tipos de padres: os padres leigos que
negam o eterno do temporal e os padres eclesiásticos que negam o temporal do
eterno. Para Péguy, ambos os tipos de padres, frutos maduros do mundo moderno,
não podem ser considerados cristãos, pois traíram a mística originária do
cristianismo. Assim, temos alguns padres que caem no mais baixo materialismo e
outros que vivem no mais vago espiritualismo. A grande maioria dos padres
pertence, segundo Péguy, à primeira categoria, ou seja, àqueles “atolados no
século e nas tentações do século até à garganta e acima da cabeça”. Os mais
perigosos, porém, são aqueles que negam a temporalidade, os puros: eis a mais
grave, a mais infinitamente grave tentação das grandes almas. Os padres leigos
e os padres clericais são a prova tangível de que a ruptura entre o eterno e o
temporal foi sancionada. Não há mais o compromisso do temporal no eterno e do
eterno no temporal.
Os padres não acreditam mais em nada. É a frase que Péguy afirma ser a fórmula corrente do
seu tempo. Infelizmente, porém, não é uma simples fórmula, mas, salvo casos
esporádicos, corresponde à realidade. Para que o padre volte a ser ministro de
Deus, é preciso rezar por ele.
(Os padres) foram instituídos para rezar pelos pecados do mundo, é um
fundamento, uma parte essencial, capital, da sua instituição; foram fundados
para rezar pelos pecados do mundo, e hoje, por esta inversão, temos a impressão
de que é o mundo que precisará rezar por eles.
O texto completo do artigo (em italiano) se encontra aqui:
https://www.academia.edu/40075605/P%C3%89GUY_E_LA_SCRISTIANIZZAZIONE_DEL_MONDO_MODERNO
Fazendo parte do mundo, estarei sempre rezando por ti. Um abraço...
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