Paolo Cugini
A teologia contemporânea
enfrenta o desafio constante de articular a fé com a realidade histórica,
buscando pontes entre o rigor metodológico e o compromisso ético-social. Uma
análise crítica comparativa revela que a etapa de comunicação de Bernard
Lonergan e a práxis libertadora na teologia das margens representam duas
abordagens distintas, porém potencialmente complementares, para a transformação
da realidade a partir da reflexão teológica. Enquanto Lonergan propõe um
caminho de dentro para fora, focado na conversão da subjetividade humana e na
mediação cultural, a teologia das margens (profundamente ligada à Teologia da
Libertação) opera de fora para dentro, elegendo o clamor do oprimido como o
lugar teológico de onde emerge toda verdade e ação.
A etapa de comunicação em Bernard Lonergan: A teologia
em saída cultural
No método teológico de Bernard
Lonergan, exposto em sua obra fundamental Método em Teologia, o fazer
teológico é estruturado em oito especialidades funcionais. A última dessas
etapas é a comunicação.
A comunicação é o momento em
que a teologia deixa o ambiente puramente acadêmico para se universalizar,
inserindo-se nas diversas culturas e mídias. Ela depende diretamente das etapas
anteriores, especialmente da Conversão (religiosa, moral e intelectual)
e das Diretrizes (escolhas de horizontes). Seu propósito é colaborar na
construção de uma comunidade humana autêntica, iluminando a história com o
significado cristão purificado.
Para Lonergan, a comunicação
não é mera transmissão de dogmas, mas uma mediação cognitiva e existencial que
visa curar o declínio social através da restauração da racionalidade e da
responsabilidade humana.
A práxis libertadora na teologia
das margens: o primado do pobre
A teologia das margens,
herdeira do método ver-julgar-agir, inverte a prioridade clássica da teoria
sobre a prática. A práxis libertadora não é o resultado final de um sistema de
pensamento; ela é o ponto de partida e o critério de verificação da própria
teologia. Práxis é a ação histórica consciente e transformadora dos sujeitos
que habitam as periferias sociais, econômicas e existenciais. Utiliza as ciências sociais para analisar as
estruturas de opressão (o "ver"), julga essas realidades à luz da
Palavra de Deus (o "julgar") e engaja-se na libertação concreta (o
"agir"). Objetivo é superar o
pecado estrutural e antecipar o Reino de Deus na história através da
emancipação dos marginalizados.
Aqui, o teólogo não é apenas
um mediador cultural, mas um intelectual orgânico que caminha com a comunidade
oprimida.
Limitações da Abordagem
Lonerganiana sob a ótica das margens
A teologia das margens
direciona uma crítica contundente ao formalismo de Lonergan. Ao focar
excessivamente nas operações da consciência (experiência, entendimento,
julgamento, decisão), o método lonerganiano corre o risco de se tornar um idealismo
intelectualista. Para quem sofre a urgência da fome ou da violência estatal nas
periferias, o refinamento do método pode parecer um luxo acadêmico burguês. A
etapa de comunicação, se não for tensionada pela urgência geopolítica, corre o
risco de se reduzir a uma "inculturação" abstrata que comunica o
Evangelho sem subverter as estruturas de poder que geram as margens.
Limitações da práxis libertadora
sob a ótica Lonerganiana
Por outro lado, o método de
Lonergan oferece um antídoto vital contra os perigos de instrumentalização
ideológica da teologia das margens. Sem uma sólida fundamentação metodológica e
epistemológica, a práxis libertadora pode cair no ativismo cego ou no
reducionismo sociopolítico, onde a teologia se torna mera linha de apoio de
partidos ou movimentos sociais. Lonergan recorda que, para haver uma práxis
verdadeiramente libertadora, é indispensável a conversão moral e intelectual
dos agentes. Sem a superação dos preconceitos egocêntricos e grupais (que
Lonergan chama de biases), a revolução de hoje pode facilmente se
transformar na tirania de amanhã.
Síntese prospectiva: por uma práxis comunicativa
transversal
O diálogo crítico entre
Lonergan e a teologia das margens não deve resultar em exclusão mútua, mas em
enriquecimento recíproco. A comunicação lonerganiana ganha corpo, carne e
urgência histórica quando assume o horizonte dos esquecidos como seu
destinatário e interlocutor principal. A teologia não pode apenas comunicar
significados autênticos; ela deve comunicar libertação. Simultaneamente, a
práxis das margens ganha densidade reflexiva e autocrítica ao adotar as
exigências de conversão e rigor metodológico de Lonergan. O resultado dessa
síntese é uma práxis comunicativa transversal: uma teologia que nasce
das margens, purifica-se pelo rigor da consciência convertida e comunica-se ao
mundo não como um discurso colonial superior, mas como uma força histórica
capaz de humanizar tanto o oprimido quanto o opressor.
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