Paolo Cugini
A violência contra meninas e
mulheres no Brasil não constitui um fenômeno isolado. Ela reflete a
manifestação concreta de estruturas profundas machistas, patriarcais, misóginas
e capitalistas que moldam a sociedade. Essa opressão estrutural se perpetua por
meio de discursos que institucionalizam a desigualdade. Segundo Safiotti
(2024), essa realidade brutal decorre de uma construção histórica contínua.
Entre esses discursos, as narrativas religiosas fundamentalistas atuam como
potentes normalizadoras da submissão feminina.
A engrenagem do sistema patriarcal
O patriarcado funciona como um
sistema de administração da desigualdade de gênero. Para operar, ele utiliza o
machismo como sua tecnologia política e a misoginia como o discurso de ódio
legitimador (TIBURI, 2023). Não há separação entre essas forças: o patriarcado
depende do machismo, que por sua vez se alimenta da misoginia.
Essa organização social
rege-se por dois princípios básicos de dominação que determinam a rigidez das
posições de poder dentro das comunidades e famílias, como explica Millet
(1970):
[...] as mulheres estão
hierarquicamente submetidas aos homens: os jovens estão hierarquicamente
subordinados aos homens velhos.
Portanto, a violência de
gênero ultrapassa o comportamento individual de homens agressores. Ela é um
sistema institucionalizado e legitimado pela estrutura social, o que torna o
rompimento desse ciclo complexo e dependente de reformas estruturais.
O discurso religioso e a violência
doméstica
Os discursos religiosos
frequentemente reforçam a ideia simbólica de que a família tradicional salvará
a sociedade. Esse modelo idealizado define o homem como o "chefe" e a
mulher como a esposa servil e mãe dedicada. Essa assimetria de poder encontra
respaldo em leituras literalistas e fundamentalistas feitas por lideranças
cristãs, que transformam a submissão em norma divina. Como a palavra do pastor
ou do padre é recebida como a verdade de Deus, o cristianismo patriarcal acaba
por chancelar a opressão. Os dados estatísticos revelam o impacto destas
narrativas no ambiente doméstico. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública
detalha a prevalência da violência de acordo com o pertencimento religioso das
vítimas (2025, p. 18):
42,7% das mulheres que se
identificam como evangélicas sofrem violência por parceiro íntimo ou
ex-parceiro íntimo, e 35% das que se identificaram como católicas. de acordo
com estes dados do fórum, 77,8% das mulheres violentadas se autodeterminaram
pertencentes a tradição religiosa cristã.
Esses indicadores demonstram
que a fé cristã não imuniza as mulheres contra o abuso. Pelo contrário, os
discursos de lideranças religiosas muitas vezes silenciam as vítimas, que
passam a enxergar o sofrimento e a submissão como provações espirituais ou deveres
sagrados. Para combater a violência de gênero de forma eficaz, torna-se
indispensável questionar as bases teológicas que instrumentalizam a fé para
subjugar os corpos e as vidas femininas.
Políticas públicas atuais no
Brasil: avanços institucionais
Para conter o avanço
estrutural da violência descrita pelos autores, o Estado brasileiro busca
formular respostas que integrem a repressão criminal e o acolhimento
institucional das vítimas. Entre as principais ações
contemporâneas, destacam-se:
- O Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio: Lançada de forma conjunta pelos Três Poderes, a
medida articula ações federais, estaduais e municipais para unificar
canais de denúncia, estruturar Casas da Mulher Brasileira e implementar
ações preventivas de segurança.
- Sistema Nacional de Enfrentamento da Violência contra Meninas e
Mulheres:
Aprovado pelo parlamento para unificar a governança dos recursos públicos
e otimizar o monitoramento estatístico, garantindo verbas carimbadas para
redes assistenciais e delegacias especializadas.
- Ampliação do Atendimento Psicossocial no SUS: Medidas de saúde que estenderam a prioridade de
assistência psicológica e cirurgias reparadoras gratuitas no Sistema Único
de Saúde a todas as mulheres vítimas de abusos, removendo barreiras
burocráticas como a exigência prévia de laudos periciais.
O redesenho dessas políticas
públicas — incluindo o lançamento de um novo Plano Nacional de Políticas para
as Mulheres — busca justamente quebrar a barreira cultural e religiosa que,
historicamente, naturalizou as agressões de gênero no âmbito privado.
A Articulação entre Estado e estrutura:
uma análise teórica
A consolidação de políticas
públicas protetivas dialoga diretamente com as reflexões de Safiotti (2024) e
Tiburi (2023), evidenciando que a resposta estatal não pode se limitar ao
punitivismo penal. Ao compreender o machismo como uma "tecnologia política"
e a misoginia como sua sustentação discursiva (TIBURI, 2023), fica claro que o
acolhimento institucional e a autonomia financeira são essenciais para
desmontar os mecanismos que aprisionam a mulher na dependência do agressor. Da
mesma forma, as ações governamentais enfrentam o nó estrutural apontado por
Safiotti (2024), pois a violência doméstica deixa de ser vista como um
"problema familiar privado" e assume o status de violação de direitos
humanos fundamentais. Assim, ao investir em redes integradas de saúde,
assistência social e segurança, o Estado atua para desmantelar os pilares do
patriarcado capitalista, oferecendo caminhos reais de emancipação para além das
barreiras ideológicas e religiosas que perpetuam a opressão.
Referências
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA
PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública: 2025. São Paulo: FBSP,
2025. p. 18.
MILLET, Kate. Política
Sexual. Tradução de Alice Sampaio. Lisboa: Dom Quixote, 1970.
SAFIOTTI, Heleieth. Violência de Gênero: Poder e
Impotência. São Paulo: Expressão Popular, 2024.
TIBURI, Marcia. Como Derrotar o Turbomachismo.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2023.
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