sexta-feira, 22 de maio de 2026

A Hermenêutica da suspeita: A leitura de Freud por Paul Ricoeur

 




Paolo Cugini

 

Introdução

Para Paul Ricoeur, Sigmund Freud não criou apenas uma psicologia clínica, mas sim uma revolução filosófica que abalou a forma como o ser humano compreende a si mesmo. Em sua obra seminal de 1965, Da Interpretação: ensaio sobre Freud (publicada em francês como: De l'interprétation. essai sur Freud), Ricoeur insere a psicanálise no campo da hermenêutica a teoria da interpretação de textos e símbolos.

No cenário filosófico do século XX, Paul Ricoeur propôs uma virada metodológica ao aproximar a psicanálise da filosofia da linguagem. Em vez de tratar o inconsciente como uma realidade puramente biológica, Ricoeur o define como um texto que precisa ser decifrado. Ele posiciona Freud ao lado de Karl Marx e Friedrich Nietzsche como um dos "mestres da suspeita", pensadores que desmascararam a falsa clareza da consciência humana.

1. A Escola da suspeita e o descentralramento do sujeito

Ricoeur argumenta que Freud destrói a ilusão cartesiana de que a consciência é transparente para si mesma. O cogito ("penso, logo existo") dá lugar a um sujeito que desconhece suas próprias motivações básicas. "Três mestres dominam a escola da suspeita: Marx, Nietzsche e Freud. [...] Todos os três começam a partir da suspeita em relação às ilusões da consciência" (RICOEUR, 1965, p. 42).

Nessa perspectiva, o papel de Freud não é destruir o sujeito, mas purificá-lo de suas falsas certezas. A consciência deixa de ser uma origem dada e passa a ser uma tarefa a ser conquistada através da interpretação.

2. A Dupla dimensão de Freud: energética vs. hermenêutica

O cerne da tese de Ricoeur sobre Freud reside em uma tensão dialética essencial. Por um lado, Freud usa uma linguagem de forças físicas, fluidos e cargas (a "energética" ou economia da mente). Por outro lado, ele trabalha com o sentido, com relatos de sonhos, lapsos e símbolos (a "hermenêutica"). "O que o discurso freudiano apresenta é uma articulação constante da força e do sentido, da energética e da hermenêutica" (RICOEUR, 1965, p. 77).

Ricoeur demonstra que um desejo humano nunca se apresenta de forma pura; ele sempre se expressa mediado por uma linguagem simbólica. O sintoma neurótico ou o sonho são textos distorcidos que demandam tradução.

3. A Arqueologia e a teleologia do sujeito

Para Ricoeur, a interpretação freudiana é fundamentalmente uma "arqueologia". Ela escava o passado do indivíduo, buscando na infância e nas pulsões primitivas a causa das manifestações atuais. "A psicanálise se apresenta como uma arqueologia do sujeito; ela nos remete sempre ao arcaico, ao infantil, ao inconsciente como o fundamento esquecido" (RICOEUR, 1965, p. 441).

Contudo, Ricoeur complementa que uma hermenêutica puramente arqueológica seria redutiva. Ele propõe uma dialética com a "teleologia" (inspirada em Hegel), sugerindo que o ser humano não é apenas determinado pelo seu passado (arqueologia), mas também se move em direção a um sentido futuro, autoconsciente e espiritual (teleologia). O sujeito se descobre no movimento entre o que o determinou e o que ele projeta ser.

4. O Símbolo como expressão do desejo

Na leitura ricoeuriana, o analista e o paciente trabalham sobre o símbolo. O símbolo possui uma estrutura de duplo sentido: existe um significado literal (o manifesto) e um significado oculto (o latente). Freud é o mestre que ensina a decifrar essa linguagem cifrada do desejo.

"O símbolo é a estrutura de significação onde um sentido direto, primário, literal, designa além disso um outro sentido indireto, secundário, figurado, que só pode ser apreendido através do primeiro" (RICOEUR, 1965, p. 25).

Conclusão

Paul Ricoeur não aceitou a psicanálise como uma ciência natural exata, mas validou-a como uma rigorosa disciplina de interpretação do sentido humano. Ao ler Freud sob uma lente hermenêutica, Ricoeur salvou o pensamento freudiano do reducionismo materialista, transformando a psicanálise em uma via indispensável para a filosofia da existência e para o autoconhecimento.

 

Referências Bibliográficas 

RICOEUR, Paul. De l'interprétation. Essai sur Freud. Paris: Éditions du Seuil, 1965.

RICOEUR, Paul. Da Interpretação: Ensaio sobre Freud. 

 

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