sexta-feira, 29 de maio de 2026

A CONTRIBUIÇÃO DA HERMENEUTICA DE MARTIN HEIDEGGER Á EXEGESE BIBLICA

 




Paolo Cugini

 

 

A virada ontológica promovida por Martin Heidegger transformou radicalmente a exegese bíblica moderna, movendo a interpretação de uma mera análise filológica e histórica para um acontecimento existencial. A exegese tradicional tratava o texto sagrado como um objeto distante a ser dissecado por um sujeito neutro. A hermenêutica heideggeriana demonstrou que o intérprete já está inserido em um horizonte prévio de compreensão, tornando a leitura bíblica um encontro vivo que interpela a própria existência do leitor.

A Desconstrução do sujeito neutro e o círculo hermenêutico

Na obra fundamental "Ser e Tempo" (1927), Heidegger desconstrói o modelo epistemológico tradicional sujeito-objeto. Ele estabelece que a compreensão (Verstehen) não é uma operação cognitiva posterior, mas uma estrutura existencial do Dasein (o ser-no-mundo). Heidegger afirma que toda interpretação se funda em uma diretriz prévia, em uma visão prévia  e em uma concepção prévia (Ser e Tempo, §32, p. 150). Para a exegese bíblica, isso significa que o exegeta nunca se aproxima do texto sagrado de forma neutra ou como uma "tábula rasa". O intérprete sempre traz consigo perguntas morais, angústias existenciais e pressupostos históricos que determinam o que o texto pode responder.

O percurso interpretativo não é um vício lógico, mas uma dinâmica existencial. Conforme descrito em Ser e Tempo (§32, p. 153), o importante não é escapar do círculo, mas entrar nele da maneira correta. O exegeta projeta um sentido sobre o texto bíblico com base em sua pré-compreensão, mas o texto fustiga, corrige e reformula essa projeção inicial, alterando a própria existência do leitor no processo.

A Aplicação exegética de Rudolf Bultmann: A desmitologização

A contribuição de Heidegger alcançou o ápice prático na exegese do Novo Testamento por meio do teólogo protestante Rudolf Bultmann, colega de Heidegger na Universidade de Marburg. Bultmann transpôs diretamente a analítica existencial heideggeriana para o método teológico.

 Em seu ensaio clássico "Novo Testamento e Mitologia" (1941), Bultmann argumenta que a mensagem central do Evangelho (Kerygma) está envolta em uma cosmologia mítica do primeiro século, obsoleta para o homem moderno. Inspirado na destruição fenomenológica de Heidegger, o método desmitologizador não visa eliminar o mito, mas interpretá-lo existencialmente. Passagens que narram intervenções cosmológicas (como anjos, demônios ou a descida dos céus) deixam de ser lidas como relatos científicos-históricos da física do mundo (caráter ôntico) para serem compreendidas como expressões da autocompreensão humana diante de Deus (caráter ontológico/existencial).

O Precedente das cartas paulinas no próprio Heidegger

Historicamente, o impacto entre Heidegger e a exegese bíblica não foi uma via de mão única. No curso ministrado em 1920–1921, publicado postumamente como "Introdução à Fenomenologia da Religião", o jovem Heidegger utilizou as cartas de Paulo aos Tessalonicenses e aos Gálatas para moldar sua própria filosofia. Heidegger identificou na experiência cristã primitiva uma mobilidade temporal única. O cristão paulino não aguarda a segunda vinda de Cristo (Parusia) como um evento cronológico objetivo agendado no calendário. Em vez disso, vive na angústia e vigilância do "como o ladrão na noite" (1 Tes 5:2) Essa temporalidade radical da fé cristã originária foi o substrato que permitiu a Heidegger edificar o conceito de tempo existencial em Ser e Tempo.

A hermenêutica de Heidegger libertou a exegese bíblica do dogmatismo enrijecido e do historicismo estéril. Ao recolocar o ser humano diante do texto não como um espectador curioso, mas como um sujeito cuja existência está em jogo, a filosofia heideggeriana forneceu as ferramentas teóricas indispensáveis para que as Escrituras Sagradas continuassem a falar de forma contundente ao homem contemporâneo.

 

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