Paolo Cugini
A virada ontológica promovida
por Martin Heidegger transformou radicalmente a exegese bíblica moderna,
movendo a interpretação de uma mera análise filológica e histórica para um
acontecimento existencial. A exegese tradicional tratava o texto sagrado como
um objeto distante a ser dissecado por um sujeito neutro. A hermenêutica
heideggeriana demonstrou que o intérprete já está inserido em um horizonte
prévio de compreensão, tornando a leitura bíblica um encontro vivo que
interpela a própria existência do leitor.
A Desconstrução do sujeito neutro
e o círculo hermenêutico
Na obra fundamental "Ser
e Tempo" (1927), Heidegger desconstrói o modelo epistemológico
tradicional sujeito-objeto. Ele estabelece que a compreensão (Verstehen)
não é uma operação cognitiva posterior, mas uma estrutura existencial do Dasein
(o ser-no-mundo). Heidegger afirma que toda interpretação se funda em uma
diretriz prévia, em uma visão prévia e
em uma concepção prévia (Ser e Tempo, §32, p. 150). Para a exegese
bíblica, isso significa que o exegeta nunca se aproxima do texto sagrado de
forma neutra ou como uma "tábula rasa". O intérprete sempre traz
consigo perguntas morais, angústias existenciais e pressupostos históricos que
determinam o que o texto pode responder.
O percurso interpretativo não é um vício lógico, mas
uma dinâmica existencial. Conforme descrito em Ser e Tempo (§32, p.
153), o importante não é escapar do círculo, mas entrar nele da maneira correta.
O exegeta projeta um sentido sobre o texto bíblico com base em sua
pré-compreensão, mas o texto fustiga, corrige e reformula essa projeção
inicial, alterando a própria existência do leitor no processo.
A Aplicação exegética de
Rudolf Bultmann: A desmitologização
A contribuição de Heidegger
alcançou o ápice prático na exegese do Novo Testamento por meio do teólogo
protestante Rudolf Bultmann, colega de Heidegger na Universidade de
Marburg. Bultmann transpôs diretamente a analítica existencial heideggeriana
para o método teológico.
Em seu ensaio
clássico "Novo Testamento e Mitologia" (1941), Bultmann
argumenta que a mensagem central do Evangelho (Kerygma) está envolta em
uma cosmologia mítica do primeiro século, obsoleta para o homem moderno.
Inspirado na destruição fenomenológica de Heidegger, o método desmitologizador
não visa eliminar o mito, mas interpretá-lo existencialmente. Passagens que
narram intervenções cosmológicas (como anjos, demônios ou a descida dos céus)
deixam de ser lidas como relatos científicos-históricos da física do mundo
(caráter ôntico) para serem compreendidas como expressões da autocompreensão
humana diante de Deus (caráter ontológico/existencial).
O Precedente das cartas paulinas
no próprio Heidegger
Historicamente, o impacto
entre Heidegger e a exegese bíblica não foi uma via de mão única. No curso
ministrado em 1920–1921, publicado postumamente como "Introdução à
Fenomenologia da Religião", o jovem Heidegger utilizou as cartas de
Paulo aos Tessalonicenses e aos Gálatas para moldar sua própria filosofia. Heidegger
identificou na experiência cristã primitiva uma mobilidade temporal única. O
cristão paulino não aguarda a segunda vinda de Cristo (Parusia) como um
evento cronológico objetivo agendado no calendário. Em vez disso, vive na
angústia e vigilância do "como o ladrão na noite" (1 Tes 5:2) Essa
temporalidade radical da fé cristã originária foi o substrato que permitiu a
Heidegger edificar o conceito de tempo existencial em Ser e Tempo.
A hermenêutica de Heidegger
libertou a exegese bíblica do dogmatismo enrijecido e do historicismo estéril.
Ao recolocar o ser humano diante do texto não como um espectador curioso, mas
como um sujeito cuja existência está em jogo, a filosofia heideggeriana
forneceu as ferramentas teóricas indispensáveis para que as Escrituras Sagradas
continuassem a falar de forma contundente ao homem contemporâneo.
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