quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Maria, o lado materno de Deus


ARQUIVO



Paolo Cugini

Conforme uma tradição muito antiga, o mês de maio na Igreja católica é o mês dedicado a Maria. Desde o começo da sua historia, a Igreja sempre teve um carinho todo especial por Maria, a mãe de Jesus, o nosso Salvador. Devoção a Maria que se espalhou, sobretudo nas camadas mais pobres da sociedade, que sempre encontram em Maria a ternura e Deus, o seu lado materno, carinhoso. Por isso a devoção Mariana sempre encontrou grande respaldo, pois ajuda a perceber a dimensão terna de Deus, a sua misericórdia, amenizando assim os elementos de dureza que as vezes aparecem na Bíblia e que amiúde encontramos na pregação, sobretudo de cunho pentecostal. Além disso, a devoção a Maria mãe do Senhor valoriza a figura da mulher, contribuindo a desmanchar aquele machismo endêmico que espalhou-se injustamente também no cristianismo. O mistério da salvação da humanidade passa necessariamente do consentimento de uma mulher, Maria, escolhida desde a eternidade, para ser a mãe do Salvador Jesus Cristo.  A sã devoção Mariana ajuda, assim, a purificar a vida espiritual e a experiência religiosa daquele machismo que estraga o relacionamento entre os irmãos, distorcendo a imagem da mulher. Por isso, podemos afirmar tranqüilamente que o mundo de hoje precisa muito de Maria, do jeito dela, da maneira delicada e silenciosa de enfrentar os problemas da vida. Precisamos de Maria para que Ela nos ajude a considerar a mulher não apenas do lado do prazer, mas sim como parceira amiga e sensível, que Deus quis colocar ao nosso lado para humanizar a historia.
Precisamos de Maria neste mundo violento para aprendermos a solucionar os problemas do dia a dia não com a arrogância e a truculência, mas sim com aquela delicadeza típica do estilo feminino.

 Que Maria mãe de Jesus e mãe nossa, nos acompanhe sempre e nos ajude a sermos discípulos autênticos do seu Filho Jesus, na construção do seu reino de justiça e de amor.




Esperando São Pedro ou... O cão?


ARQUIVO (agosto 2006)



 Paolo Cugini


“Vamos sozinhos para algum lugar deserto, para que vocês descansem um pouco!” (Mc 6,32).

Ouvimos nestes dias este versículo de Jesus que convida os seus discípulos para descansar um pouco com Ele. É uma atitude importante que vale a pena escutar com atenção e transferir no nosso dia a dia. Se e verdade que devemos trabalhar com firmeza e responsabilidade para colaborar a realização do plano de Deus, é também verdade que de vez em quanto é importante descansar. O problema sobre este assunto é este: como descansar. De fato, se prestarmos atenção ao jeito do povo descansar, parece que, quanto mais descansa, tanto mais... cansa! Nas festas de São Pedro, por exemplo, muitos jovens passaram três dias e três noites na rua dançando, pulando, bebendo, cantando ininterruptamente. Como é que descansa um cara numa agonia dessa?!
Nestes dias realizei uma pesquisa entre os jovens que estão freqüentando a Catequese do Crisma, sobre o tema da festa: o resultado foi extremamente interessante. Perguntando sobre o motivo das pessoas procurarem as festas, muitos jovens responderam assim: “para esquecer os problemas”.

Achei importante e, ao mesmo tempo, um pouco triste, esta resposta. Quando uma pessoa é feliz da vida, não precisa arrumar algo para esquecer os problemas. Aliás, o esforço que deve ser feito, é ajudar as pessoas a enfrentar os próprios problemas e não fugir. Afinal de conta são as crianças que fogem dos perigos, enquanto os adultos ao longo da vida aprendem a enfrentá-los. É verdade que uma festa não é nada de mal, aliás, é bom e faz bem a saúde física e moral, mas quando numa cidade há três meses todo final de semana tem festa, isso é demais e prejudica a higiene mental. Um povo todo alienado ao longo dos anos precisa aumentar sempre mais as doses de “Diesepan”. Pelo contrário, um povo tudo conscientizado não precisa de nada e não dá prejuízo nenhum ás farmácias da cidade.

2. Além disso, sempre na mesma pesquisa, procuramos entender se São Pedro tem a ver com a festa popular que se espalhou na Bahia. Descobrimos que Pedro foi o apóstolo que Jesus escolheu para chefiar a sua Igreja e que hoje este papel é do Papa, o chefe da Igreja Católica. Nada ver então, com a cachaça, as músicas indecentes, as brigas, as imoralidades que se encontram na assim chamada “Festa de são Pedro” ou “Esperando são Pedro”.
 Os jovens que participaram da pesquisa, acharam interessante apresentar uma proposta para mudar de nome a esta festa e, assim, ao invés de se chamar “Esperando São Pedro” poderia se chamar: “Esperando o diabo” ou, se preferir: “Esperando o diacho”. É bom aprender a dar o nome certo as coisas, para não confundir o povo.


Anunciai a Boa Nova a Todos!


ARQUIVO (março 2018)



Paolo Cugini

1. A Páscoa está se aproximando e todos nós somos convidados a refletir sobre o mistério da morte e da Ressurreição de Cristo, pra entendermos o sentido que este evento tem pela nossa vida. Passei estas ultimas semanas de quaresma lendo e meditando com os jovens das comunidades da zona rural, os capítulos do Evangelho de Marcos que relatam a paixão e morte de Jesus. Muitos destes jovens ficaram se questionando: “Mas porque Jesus, o Filho de Deus, que veio ao mundo para anunciar a Boa Nova aos pobres, que realizava milagres esbanjando vida para todos, que curava os dentes e amava a todos e a todas, foi massacrado e humilhado naquela forma horrível que é narrada nos Evangelhos?”. A resposta a esta pergunta foi encontrada no Evangelho de Mateus ao capitulo 23, aonde se relata o discurso de Jesus contra os chefes religiosos e políticos do tempo, criticando a hipocrisia deles e denunciando as atitudes erradas. A palavra e a ação de Jesus incomodava o poder acostumado a fazer qualquer malandragem á luz do sol, sem ninguém se queixar por medo das retaliações. A Boa Nova que Jesus anunciou contem também esta denuncia profética contra toda forma de exploração, todo abuso de poder prejudicando o povo mais pobre e humilde. Por isso os chefes políticos e religiosos se juntar para decidirem de matar Jesus (Marcos 3,6).

2. Dá pra perceber imediatamente que, apesar de ter passado mais de dois mil anos da morte e ressurreição de Jesus, as coisas não mudaram muito.  Ainda hoje, como naquele tempo, o poder é acostumado a fazer o que quiser, se beneficiando de qualquer forma, as custas dos pobres. E se alguém se queixar é cassete na hora. Existe todo um povo que vive apavorado, com medo de denunciar os abusos e as explorações que corriqueiramente agüenta por medo das retaliações. Existe todo um povo que passa a vida toda se censurando, vivendo não na forma que bem queria, mas encostado no poder achando que pelo menos o poder oferece alguma coisa. O questionamento sobre esta atitude é grande: será que vale a pena abrir mão dos próprios ideais por um pedaço de pão? Será que vale a pena abrir mão até da própria fé, pra viver encostados a vida toda nestas pessoas que não sabem nem onde fica a Igreja?  Será que esta é vida? Será que Jesus veio ao mundo para que o povo vivesse deste jeito? Dá pra acordar?

3. Jesus morreu e ressuscitou. Este é um dato bíblico fundamental. De fato, se Cristo ressuscitou quer dizer que está vivo, que o mal não prevaleceu sobre Ele. Se Cristo é vivo isso quer dizer não apenas que Ele é presente e acompanha de perto os nossos passos, mas também que o Seu Espírito está dentro de nós e nos impulsiona para que o Seu Reino de amor se realize entre nós. Não basta gritar Aleluia! Gloria a Deus! Para manifestarmos o nosso agradecimento a Deus por tudo aquilo que em Cristo nos proporcionou, precisamos dar continuidade á Sua obra maravilhosa, saindo do medo, manifestando a nossa fé na Ressurreição de Cristo, denunciando as maracutaias do poder corrupto. É neste ano de eleições políticas que precisamos manifestar a nossa fé na ressurreição de Cristo. Como é, de fato, que podemos gritar Aleluia! na Igreja e depois sermos cúmplices  das armadilhas corruptas do poder, sendo instrumentos de compra e venda de votos? A fé na Ressurreição de Cristo que na Páscoa celebramos com tanto vigor, exige um estilo de vida que seja digno de Cristo, respeitoso do seu sofrimento, em continuidade com o seu anuncio. Pedimos a Deus a força de sermos cristãos corajosos, capazes de enfrentar as conseqüências de uma vida autentica, manifestando a alegria de viver uma vida justa e fraterna.



Amizade em Cristo: a única que vale


ARQUIVO (2008)


Paolo Cugini

Muitas pessoas nestes meses estão mudando de atitude. Alguns que sempre sorriam estão fechando a cara. Outros, que até então nem conhecia, estão se aproximando, outros ainda que nunca pisaram os pés na Igreja, estão virando católicos fervorosos. É o milagre da política, aliás, da politicagem: em ano de eleições tudo muda e, de repente, o inimigo se torna amigo e o amigão vira rival.

A amizade é um sentimento muito profundo que nasce de dentro do coração. “Quem encontra um amigo encontra um tesouro” (Ecl 6,15), pois encontrar alguém que partilha conosco as idéias, que nos acolhe do jeito que somos, que é desinteressado, que está perto de nós em todo momento, na alegria e no sofrimento, é muita graça de Deus. “Amigo fiel não tem preço e o seu valor é incalculável” (Ecl 6, 16).

Dizia um grande filósofo que cada um tem os amigos que merece: quem é bom provavelmente terá amigos bons, que é ruim é fácil que atraia pessoas ruins. Para termos amigos bons precisamos zelar de nós mesmos, buscar uma vida justa, aprimorar as nossas atitudes, fortalecer a nossa vida espiritual.
É Jesus que nos ensinou o caminho da verdadeira amizade. Foi Ele que anunciou o Reino de Deus criando um relacionamento de profunda amizade com um grupo de pessoas, homens e mulheres (Cf. Lc 8,1-3), amizade tão profunda que o Senhor fez de tudo para que pudesse permanecer para sempre. É isso que experimentamos na Missa do domingo: a presença amiga de Jesus, que nos convida a buscar o bem, a justiça, a fraternidade. E é também isso que encontramos na Igreja: pessoas dispostas a zelar da própria alma, atentas às necessidades dos irmãos e irmãs.

É com este espírito de amizade que participamos da comunidade, criando laços novos para que o mundo acredite que existe um pedacinho de humanidade aonde é o amor que prevalece, é a justiça o centro de interesse. Quem experimenta a amizade verdadeira infundida por Cristo em nós, não sentirá mais a tentação mundana de “amizades” que duram uma estação, uma promessa.
Neste ano de eleições temos, então, a possibilidade de avaliarmos a profundidade das nossas amizades, dos relacionamentos que estamos tecendo, da verdade da nossa caminhada cristã. Todos aqueles que se afastam de nós somente por motivos políticos, porque não somos do partido deles, são cristãos que não prestam e é bom agradecer a Deus por este afastamento. Todos aqueles que se aproximam de nós com um sorriso deslumbrante para nos seduzir, são da pior raça de hipócritas: é bom mantê-los à distância.

Pedimos a Jesus a força e a firmeza de não vacilar nunca, mas de mantermos firme o nosso propósito de amar a Deus sobre qualquer coisa. E, como dizia uma grande filósofa, quem ama a Deus não aceita qualquer coisa; quem ama a Deus não aceita qualquer amigo. Saibamos ser exigentes com as pessoas que nos rodeiam para depois não nos arrependermos e nos queixarmos da nossa solidão.



Páscoa, a vida que vence a morte

ARQUIVO (Avril 2006)





Paolo Cugini

1.A liturgia do assim chamado “sábado do aleluia” é rica de símbolos e de sentidos, que ajudam os fieis a entrar no mistério da ressurreição de Jesus Cristo. Mistério que transforma a realidade  e a vida daqueles que o acolhem.
 Ressuscitar quer dizer voltar a viver: isso aconteceu com Jesus. O mundo massacrou o corpo de Jesus, mas o Pai o ressuscitou: a vida venceu a morte. Tudo isso é simbolizado na vigília do sábado santo com a liturgia do fogo. O povo se reúne  num lugar escuro, fora da Igreja, no redor de uma fogueira. Depois da benção do fogo o povo entra devagarinho na Igreja atras do círio  Pascal aceso: a luz que vence as trevas.

2. Quer dizer esta simbologia litúrgica para a nossa vida corriqueira? 
Quem acredita que Jesus ressuscitou da morte, sabe que a ultima palavra da historia é de Deus. Se é verdade que o mal exerce no tempo cotidiano um poder extraordinário, que arrasta multidões, é também verdade que o dono da vida é Deus e, quem confia nele, não ficará desamparado. É isso que nos ensina a historia de Jesus: ficou fiel até o fim. Acreditou no amor de seu Pai também debaixo dos golpes do carrasco. E agora Ele está vivo enquanto aqueles que o mataram estão mortos: esta é a verdade que a Palavra de Deus nos ensina.

3. Estamos mergulhados numa realidade aonde os corruptos dominam a historia. Quantos pobres são humilhados, massacrados, esculhambados! Os poderosos deste mundo ( que na realidade são um monte de idiotas e ignorantes, muitas vezes chegando ao poder com o dinheiro dos outros, explorando a influencia dos amigos e roubando o que puder roubar) gostam de judiar  dos pobres, também porque o pobre não tem como se defender. Estes poderosos sem escrúpulo e sem vergonha, não sabem, porem que, atrás de cada pobre que é por eles massacrado, é presente o mesmo Cristo. E Cristo ressuscitou e é vivo, enquanto todos os poderosos deste mundo estão de baixo do chão, comidos pelos vermes. Esta é a realidade misteriosa, que nós aprendemos na caminhada da Igreja e que nos impulsiona a continuar alegres e cheios de coragem gritando ao mundo, com as palavras e com a nossa mesma vida:
“Jesus Cristo é vivo!” “Vocês mataram o Autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos” (Atos dos Apóstolos 3, 15). Durmam com um barulho deste!

                                                                                                              


domingo, 3 de fevereiro de 2019

O PROFETISMO DE LÉO




Paolo Cugini
[publicamos um artigo escrito no 2011 sobre um amigo querido que muitas pessoas conhece]
Infelizmente Léo foi embora. Ganhou um concurso do Estado no Sul da Bahia. Bom para ele, ruim para nós que ficamos órfãos, apesar de torcer para que ele se possa dar bem neste novo trabalho. Se Léo quisesse, com os conhecimentos que ele tem e, sobretudo com a sua oratória arrasadora e a capacidade incomum de articular discursos de deixar o interlocutor maluco, poderia ensinar em qualquer faculdade do Brasil. Só que Léo gosta de fazer aquilo que mais sente no momento: não é o cara que corre atrás de oportunidades. Ele é um amigo, no sentido amplo e antigo do termo, ou seja, no sentido da gratuidade, da doação e, quem se doa não tem tempo por cálculos. 

Existem pessoas racionais, sentimentais, malucas: Leo é uma mistura de tudo isso com algo a mais, ou seja, o instinto da verdade. Sempre criticaram Léo pelo fato dele escrever, falar e nunca fazer. Na realidade o fazer de Léo foi exatamente o seu dizer, denunciar. Denunciando o poder, enfrentando com textos polêmicos os políticos locais,  Léo fazia com que o povo, os pobres, os jovens enxergassem uma maneira de ver diferente. Num contexto aonde o esforço corriqueiro é criar um pensamento único, o Vírus do Léo, as suas matérias escandalosamente polemicas, provocavam imediatamente um olhar diferente.

Em todos estes anos Léo não se corrompeu. Por isso não cresceu. O Leo do 2011 é o mesmo do 2001. Nestes dez anos quantas pessoas se venderam, mudaram de partido, se tornaram improvisamente ricas. Leo não: é o mesmo cara de sempre, que mora num apartamento alugado, com o dinheiro ganho do seu mesmo trabalho: professor de história. A força dele, que pouquíssimos têm, é a moral. Léo escreve aquilo que pensa porque tem moral e esta ninguém compra e ninguém tira. A moral é o preço da coerência com as próprias idéias. Leo pagou duramente ao longo destes anos o preço da sua moral. Foi agredido, insultado, ameaçado, denunciado. Até levantaram falso contra ele dizendo que bate na mãe. Somente nós amigos sabemos o quanto Léo ama a própria mãe. Apesar di tudo isso Léo está ainda ali, de pé, sorrindo com aquela alegria que deriva da consciência limpa, de ter feito o seu trabalho, alegre de ter ajudado tanta gente a enxergar o mundo e a história de Miguel Calmon de forma diferente. Por isso sentimos a sua falta. Léo não é um santo, mas um homem coerente e autentico sim. Boa viagem Léo. Continue sendo aquele professor de história que os estudantes admiram. Sobretudo continue sendo a voz da verdade dos sem voz, dos injustiçados. Continue sendo o profeta do povo. Que Deus te abençoe. 


sexta-feira, 28 de setembro de 2018

DICAS PARA UMA REVOLUÇÃO ESPIRITUAL




Paolo Cugini

Dizia Charles Péguy, grande poeta e filosofo francês, que a verdadeira revolução não se realiza com as armas, mas com o espírito. O problema de uma sociedade corrupta não se resolve com a violência, mas com uma educação moral e cultural. Se a podridão escancarada está tomando conta da classe política, isso é um reflexo daquilo que está dentro. Então não adiantam medidas exteriores: é um homem novo, uma mulher nova que deve ser construído/a. Quem acredita nas possibilidades do homem, reconhece que o caminho é por ai. Quem acredita que o homem foi criado a imagem de Deus, sabe que é a reconstrução desta imagem o grande trabalho a ser realizado.
O problema é sempre o mesmo: como? Como sair dessa situação lastimável?

Em primeiro lugar, é necessário criar espaços para ajudar as pessoas à pensar, se confrontarem, discutir, formar-se uma própria idéia. Em municípios onde quem não fica com a situação é sistematicamente perseguido ou, pior ainda, considerado um inimigo, torna-se urgente criar espaços culturais aonde as pessoas se sintam a vontade para expressarem as próprias idéias sem medo de retaliações. Uma das características da imagem de Deus contida no homem é a liberdade. Onde a liberdade estiver ameaçada, como é no nosso caso, deve ser feito tudo o possível para criar estratégias capazes de estimular a capacidade reflexiva das pessoas. A liberdade é de fato, ligada à capacidade de pensar típica do homem e da mulher. Sempre admirei a liberdade de expressão que, neste contexto sócio-politico de terceiro-mundo, torna-se coragem, ousadia. È isto que deveria produzir uma seria reflexão na liderança política dos nossos municípios. Não é possível, de fato, medir o desenvolvimento de um povo fazendo referencia somente aos indicadores econômicos. Não adianta expor a lista das obras realizadas, quando não se fez nada para ajudar a criar um clima social mais livre. A democracia é a convivência dos opostos, o respeito das idéias alheias. Aonde isto não acontece, não é possível falar de democracia, mas de oligarquia- governo de poucos-, ou de monarquia, governo de um só.  

Liberdade e cultura caminham juntas. Até quando é o prefeito da cidade que decide quem ensina aonde, não haverá crescimento cultural. Um professor amedrontado passa para os próprios alunos a própria covardia e, esta, não favorece o desenvolvimento de uma personalidade autônoma. Sendo que dificilmente mudarão no breve período estas leis feitas pela mesma elite na época do coronelismo, será necessário que os poucos homens e as poucas mulheres livres, ou seja não atrelados/as ao poder, inventem meios para despertar os espíritos mais ousados. Não basta, de fato debater, analisar. Precisamos de homens e de mulheres que saibam agüentar a maldade do poder, as suas mesquinharias para inventar estratégias novas. Nessa altura, fazer cultura significa inventar técnicas de resistência, um contra-pensamento que desmascare as armadilhas de morte escondidas nas mentiras do poder. Se quisermos reconstruir cidades aonde seja possível pensar, gritar a própria liberdade, falar com qualquer pessoa sem medo de sermos vistos pela posição, devemos considerar totalmente fracassado o atual projeto político. De fato, estamos nauseados de políticos corruptos, que cuidam discaradamente dos próprios interesses pessoais o familiares, que gostam cinicamente de humilhar aqueles que eles chamam de inimigos.  Chega de promessas mentirosas, de mascaras nas épocas das eleições, de palavras recheadas do nada. Precisamos de homens e mulheres autênticos, que tenham uma só palavra. Estes homens e estas mulheres não se encontram no atual poder político. Por isso não queremos nas nossas fileiras pessoas interessadas a subir a escada do poder político. Se no passado cometeram este pecado, serão perdoados se terão a força de libertar-se destes desejos impuros e imorais.

A libertação será moral o não será nunca: é este o nosso grito. Por isto é necessário ajudar os adolescentes e jovens para que eles descubram a riqueza da própria vida interior, não para fugir num narcisistico individualismo, mas para assumir com mais força a própria dignidade humana. Ser homem e mulher não é apenas um direito: é também um dever. Sentir o compromisso de cuidar de si mesmo e das pessoas que moram perto de nós; perceber a responsabilidade que ser pessoa é cuidar dos outros, interessar-se deles: é esta consciência que deve ser despertada e formada. Estamos, de fato, vivendo não em décadas economicamente perdidas, mas sum humanamente disperdiçadas. Recuperaremos este tempo somente se fizermos o esforço de ajudar as novas gerações para que aprendam a pensar com a própria cabeça, sem medo de ninguém, mas somente com um grande temor de Deus no coração. O tempo é de Deus e Ele está  com todos aqueles e aquelas que se esforçam de proteger as suas criaturas do mal, para que no mundo reine o bem.