sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

AKEDIA: O MAL OBSCURO

 





Paolo Cugini

 

Lembrei nestes dias de um livro de espiritualidade que li alguns meses atrás e que falava de um mal obscuro chamado akedia (é uma palavra grega que, em português, poderia se traduzir com preguiça), que seria uma tristeza profunda da alma, que se manifesta quando a pessoa perdeu o sabor da vida. Esta situação existencial se transforma em preguiça, na falta de vontade de qualquer coisa, levando a vida do jeito que vier. A akedia é a incapacidade de ver no horizonte algo que possa valer a pena de lutar para alcança-lo. Segundo Gabriel Bunge – um mestre espiritual contemporâneo e estudioso da vida monástica - na raiz da acedia está a frustração para um desejo não realizado. E assim a akedia vai se insinuando devagarzinho na alma da pessoa ao ponto de se tornar um estado de vida permanente, imobilizando a pessoa. Este mal espiritual se manifesta na aversão à tudo aquilo que tem a disposição e, ao mesmo tempo, um desejo por tudo aquilo que não é ao seu alcance. Esta situação da alma se manifesta seja na vida matrimonial que religiosa. É o detestar aquilo que se tem – marido, mulher, filhos, etc. - e o desejar aquilo que não tem (outra mulher, marido, casa, situação financeira, trabalho, etc.).  Acontece quando a pessoa não consegue mais vislumbrar no seu presente algo de estimulante e, ao mesmo tempo, se torna incapaz de formular novas motivações, transferindo a própria tensão emotiva em desejos inalcançáveis, fora da realidade e, por isso, a situação se torna frustrante ao ponto da criar um círculo vicioso que amiúde desemboca nas formas depressivas. A akedia é a consequência deste processo de desmanche do eu consciente, pois a frustração chega ao ponto de aniquilar até a capacidade onírica da pessoa, deixando-a totalmente esmagada num presente no qual não se percebe mais nenhum sentido da vida. Segundo Gabriel Bunge não é raro que a akedia, nas suas formas mais agudas, chega até ao ponto do suicídio.

É possível sair desta situação lastimável? A akedia, este mal obscuro da alma, tem remédio? Segundo Gabriel Bunge sim. O primeiro remédio é resistir. Durante o período em que se sente forte a tentação da fuga, da mudança da situação existencial, o primeiro remédio é ficar ai, permanecer com paciência e esperar tempos melhores. Pode ser um remédio ridículo, mas não é. Um dado importante na vida espiritual é a necessidade de suspender qualquer tipo de decisão nos momentos de crise, de instabilidade. Perseverar na própria situação de vida, derrubando toda fantasia de fuga é um grande exercício de ascese, que deve ser acompanhado do esforço constante de levar em frente os compromissos assumidos, também se a vontade é fraca. O trabalho é sem duvido um grande instrumento nos períodos em que a preguiça – akedia penetra na alma. Nestas situações precisa fazer de tudo para não deixar a tristeza tomar conta da alma e, assim, o trabalho é um caminho de saída significativo. A pessoa que vive a akedia precisa de um grande autodomínio, que é um dom do Espírito Santo, que permite à pessoa de não deixar o barco da vida desandar. Nesta perspectiva, percebe-se que a akedia, enquanto ameaça a alma no sentido profundo das suas aspirações, ao mesmo tempo se torna instrumento para aprimorar a própria vontade e reorganizar as motivações da vida andando em busca de novos sentidos, mais conforme à nova situação existencial.

Sem dúvida nenhuma para quem é tomado pela akedia, a oração constante e profunda se torna o clima espiritual propicio que permite a alma não apenas de respirar nestes momentos de sufoco, mas, sobretudo, de captar a presença consoladora do Senhor. “Pesada é a tristeza –dizia o padre Evagrio, grande e profundo pai espiritual do IVº século d. C. – e insuportável a akedia, mas as lagrimas dirigidas à Deus dom mais poderosas de ambas”. As lagrimas são o reconhecimento silencioso da nossa necessidade de sermos salvos. Famosas são as lagrimas de Pedro, ou da mulher pecadora. Pedimos ao Senhor a humildade de derramarmos lagrimas de misericórdia para acolhermos a sua salvação. 

sábado, 2 de dezembro de 2023

COMO FALAR DE DEUS NO MUNDO PÓS-MODERNO?

 



Paolo Cugini

 

 

Mudando a cultura e o contexto cultural deve mudar também a maneira de falar de Deus. Aquilo que aparece com sempre mais evidência é uma cultura da indiferença pela qual todas as posições são iguais, e nenhuma tem o direito de se impor as outras. É a Koiné da tolerância que está sempre mais se difundindo no quadro cultural do relativismo. Se os valores Ocidentais foram varridos pelo fracasso das grandes narrações da modernidade, então agora não existe mais nenhuma autoridade que possa se impor aos outros. Se Deus é colocado no ângulo das pertenças parciais e se é considerado relativo à uma cultura ou tradição, então tudo é colocado no mesmo patamar. Neste novo quadro cultural relativista que abre o caminho a toda forma de pluralismo os grandes problemas da sociedade se resolvem de forma democrática, no redor de uma mesa. A teoria da comunicação de Jürgen Habermas indica que, num debate tipicamente pós-moderno, onde nenhuma autoridade tem moral para impor aos outros a própria posição, o único caminho a ser percorrido consiste no dialogo da forma tal que tudo aquilo que é colocado deve ser entendido por todos. Isso quer dizer que, neste diálogo pós-moderno na busca de uma solução a um problema, qualquer discurso tipicamente religioso deve ser traduzido para que fique inteligível para todos os interlocutores.  

Aprender a dialogar de maneira não autoritária e agressiva, talvez seja um dos grandes desafios que a cultura pós-moderna está levando para o cristianismo, ou melhor, para o catolicismo. Vinte séculos de conversa arrogante exige uma conversão muito dura e difícil, mas necessária e possível, pois não se muda de um dia para o outro. Quem é acostumado a dialogar dando ordens de cima para baixo, tem dificuldade de fazer o pequeno exercício importante da escuta do outro.  É difícil porque por trás do catolicismo estão séculos de intolerância, da incapacidade atávica de lidar com o diferente, com ideias diferentes, com culturas diferentes. A história da Igreja Católica, nesta perspectiva, é assombradora porque é alastrada de paginas terríveis, de imposições de uma fé que exigiria a adesão pessoal, imposições amiúde violentas. Esta violência se tornou ao longo dos séculos herança maldita, forma cultural, mentalidade que moldou a maneira da Igreja se relacionar com o mundo. O filosofo italiano Gianni Vattimo, ao longo da sua obra, dedica diversas páginas para argumentar sobre a maneira da Igreja fazer teologia e como esta seja marcada por um cunho violento, devida a mesma metafisica assumida como esquema referencial. Um pensamento forte não pode que gerar argumentos agressivos e absolutistas, saindo de uma entidade que se acha dona da verdade e pouco disponível ao confronto. Passar séculos alimentando este estilo autoritário, esta maneira unilateral de considerar as coisas, cria um costume que se transforma em mentalidade, em jeito de ser.

A cultura pós-moderna está criando um clima onde não tem muito espaço por posturas arrogantes e autoritárias. Neste clima novo até uma instituição como a Igreja é destinada a mudar de tom se quiser veicular os próprios conteúdos. Hoje em dias não é mais possível falar de Deus com o dedo na cara, ou impondo uma moral. A cultura pós-moderna exige um discurso mais manso, delicado, atento ao interlocutor e, por isso, exige uma grande capacidade de escuta. Além do mais, nesta época pós-moderna é difícil pensar de anunciar o Evangelho somente esperando nos próprios perímetros os interlocutores, mas é necessário sair, entrando nos perímetros dos outros. Esta saída fora enfraquece a força dos argumentos e provoca a capacidade da escuta atenta e desinteressada, pois qualquer forma de interesse é considerada com suspeita. É preciso sair da complexidade das estruturas e amiúde dos documentos, para voltarmos á simplicidade dos evangelhos. Uma fé simples numa sociedade complexa: este é o grande desafio.

 Talvez estamos vivendo numa época que favorece mais do que nunca o estilo do Evangelho: é bom pensar nisso.

 

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

O AMOR

 




Pe Paolo Cugini

 

O amor é o dom mais precioso que uma pessoa possa receber. O amor não é algo ao nosso alcance, que podemos conseguir com os nossos esforços humanos, ou que podemos adquirir com o dinheiro. O amor não é fruto de cálculo, de uma maquinação. O amor podemos somente acolhê-lo ou recusá-lo. O amor é como um trem que desde sempre almejamos, mas que passa na hora que menos esperamos: se não subir, nunca mais voltará. O amor não olha na cara, não pergunta a idade, nem se importa com a aparência: entra e pronto. O amor não entra na vida das pessoas perguntando a conta do banco ou tipo do trabalho: o amor não se importa com isso. O amor é romântico e não racional, é vida ao estado puro. O amor não é covarde, mas sim ousado. O amor é participação da vida de Deus, pois o amor vem de Deus.

 

Não é amor, então, a troca de parceiros. Não é amor arrumar alguém para não querer sentir a dor da solidão, ou para esquecer alguém. Não é amor fazer sexo para preencher uma carência. Não é amor arrumar alguém para se sentir igual aos outros. Não é amor também arrumar um parceiro/a para fazer uma família, pois o amor não tem finalidade. Não é amor arrumar alguém que não gosta, mas esperando que um dia vá gostar.

 

O amor é único e para sempre. Não tem dois amores na vida, nem três, mas um. Por isso, a unidade vai de braços dados com o amor. O amor é eterno e nunca passa e ninguém tira do coração. Vive conosco para sempre, pois, como nos ensina a Bíblia, o amor é mais forte do que a morte (Pintadas-Bahia, 2011).

 

 

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Mês da Consciência Negra: maior URGÊNCIA é ser Antirracista!

 




"COITADISMO" dos NEGROS

- 1837: Primeira lei de educação - Negros NÃO podem ir à escola.

- 1850: Lei das terras - Negros NÃO podem ser proprietários.

- 1871: Lei do ventre Livre - Quem nascia livre?

- 1885: Lei do sexagenário - Quem sobrevivia para ficar livre?

- 1888: Abolição (atentem, foram 388 anos de escravidão).

- 1890: Lei dos Vadios & Capoeiras - Os que perambulavam pelas ruas, sem trabalho ou residência comprovada, iriam pra cadeia. Eram mesmo "livres"? Dá para imaginar, qual era a cor da população carcerária, daquela época? Você sabe a cor predominante, nos presídios hoje?

- 1968: Lei do Boi - PRIMEIRA lei de cotas! Não, não foi para negros, foi para filhos de donos de terras, que conseguiram vaga, nas escolas técnicas e nas universidades (volte e releia sobre a lei de 1850!!!)

- 1988: Nasce nossa ATUAL CONSTITUIÇÃO. Foram necessários 488 anos, para se ter uma Constituição, que dissesse que Racismo é Crime! Na maioria das ocorrências, se minimiza o racismo, enquanto injúria racial e nada acontece.



- 2001: Conferência de Durban, o Estado reconhece, que terá que fazer políticas de reparação e ações afirmativas. Mas, não foi porque acordaram bonzinhos! Não foi sem luta. Foram décadas de lutas, para que houvesse esse reconhecimento! E olha que, até hoje, tem gente que ignora, hein!

- 2003: Lei 10639, estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir, no currículo oficial da Rede de Ensino, a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira". Que convenhamos, não é cumprida, né?

 

- 2009: PRIMEIRA Política de Saúde, da População Negra. Que prossegue, sendo negligenciada e violentada (quem são as maiores vítimas da violência obstétrica?), no sistema de saúde.

- 2010: Lei 12288 - Estatuto da Igualdade Racial. Em um país que se nega a reconhecer, a existência do racismo.

- 2012: Lei 12711 - Cotas nas universidades. A revolta da casa grande, sob um falso pretexto meritocrático.




...

Nossa sociedade, é racista, e ainda escravocrata, e essa linha do tempo, tá aí pra evidenciar.

As Cotas NÃO SÃO PRIVILÉGIOS, mas Sim, uma CORREÇÃO, por Tantos Infortúnios Passados, pelos Afrodescendentes.

 

Enquanto Houver Um(a) Irmão (ã), Sofrendo Qualquer Tipo de Injustiça Social, Nossa Comunhão Não Será Perfeita.

 

De: Gisele Machado

(Com Adaptações).

domingo, 22 de outubro de 2023

O DEUS QUE É PAI TAMBÉM É HOMEM?

 





Paolo Cugini

A grande tarefa da teologia feminista, expressa em numerosos estudos, consiste em libertar a palavra de Deus da estrutura patriarcal que, antes de ser um modelo religioso, é um modelo cultural e social bem estruturado. É o patriarcado que justifica o sistema familiar que define pais como chefes de família com poder explícito sobre a esposa e os filhos (SAFFIOTI, 2015). 

O próprio patriarcado estende, em nível social, a definição de papéis específicos para homens e mulheres, homens que sempre ocupam posições dominantes das quais as mulheres são excluídas. O sistema patriarcal, portanto, elabora um processo de desigualdade entre homens e mulheres, criando uma situação cultural constante de submissão de mulheres a homens. O patriarcado, assim entendido, não é apenas um produto social, mas encontrou apoio no mundo religioso até os dias atuais. De fato, o Ocidente cristão "produziu uma série de relações desiguais de poder; Deus como Pai governa o mundo, santos padres governam a Igreja, pais clericais governam os leigos, homens governam mulheres, maridos esposas e filhos e, finalmente, a humanidade governa a criação " (CAAR, 1991, p. 93). 

Nesse ponto da discussão, o pensamento feminino suspende a reflexão para se perguntar: o Deus Pai tem a ver o que com esse sistema opressivo? É a vontade de Deus que as mulheres sejam submissas aos homens? É possível pensar de maneira diferente sobre Deus e seu relacionamento com a criação e as criaturas? Mais uma vez: é possível libertar a palavra de Deus de formas antropomórficas, que ao longo dos séculos, fizeram de Deus um ser cada vez mais masculino às custas do mundo feminino, com todas as consequências daí decorrentes? Se é o sistema patriarcal que descreve a identidade de Deus, a teóloga Mary Daly tem razão quando diz: "se Deus é homem, então homem é Deus" (DALY, 1990, p.27). 

Novamente no livro mencionado, refletindo sobre as consequências da assimilação do modelo patriarcal pela igreja, a teóloga estadunidense Mary Daly mostra como os dogmas e artigos de fé emitidos tendem a propor a estrutura bilateral da relação homem-mulher, que justifica o modelo de submissão, tornando-o credível na sociedade civil. Portanto, não é simplesmente uma questão de entender um modelo social específico que foi estruturado ao longo dos séculos e que justifica as relações binárias de submissão e dominação, com todas as consequências da violência e abuso que todos conhecemos. 

Não é por acaso que, depois que as massas trabalhadoras do século passado se afastaram da Igreja devido à sua identificação com o poder político e econômico, encontrando-se, portanto, nem representadas nem protegidas, hoje muitas mulheres, que no ocidente atingiram um nível cultural significativo, não mais se veem representadas por uma estrutura religiosa patriarcal que justifica a inferioridade de um sexo em outro e a consequente submissão e, por isso, afastam-se dela. 

O problema é entender de que lado Deus está e se é realmente que justifica esse sistema de relações injustas ou se ocorreram interpolações culturais, que mudaram a interpretação em uma certa direção, a saber, a direção patriarcal. Nesse ponto, torna-se extremamente importante, não apenas para as mulheres, mas também para os homens, ouvir as reflexões das teólogas feministas que, em várias ocasiões e de maneiras diferentes, releram o texto bíblico com essas questões significativas. É possível, então, libertar a palavra de Deus do patriarcado, organizado por meio de uma série de relações de subordinação e exclusão? "Como podemos dizer o relacionamento de Deus com o mundo - Elisabeth Green se pergunta - para não reproduzir relacionamentos hierárquicos entre pessoas e principalmente homens e mulheres?" (GREEN, 2015, p. 27). Ainda seguindo Green, que estudou em profundidade este tema em várias pesquisas, tomamos o Antigo Testamento como um ponto de referência para compreender alguns aspectos que o pensamento masculino não nos permite observar.

 Se lermos atentamente o texto de Êxodo 3: 13-15, no qual Deus, depois de manifestar seu nome, acrescenta: “Você dirá aos israelitas: O Senhor Deus de seus pais, Deus de Abraão, Deus de Isaque, Deus de Jacó, ele me enviou para você. " De como a história realmente vai, percebemos que esse versículo não justifica a abordagem patriarcal. "Se olharmos para a narração das origens de Israel, descobrimos que ela não apresenta uma identificação simples entre Deus e a ordem patriarcal, pois isso está arranhada em três pontos importantes: paternidade, sucessão, protagonismo das mulheres" (GREEN, 2015, p. 48). Na história de Abraão, por exemplo, o fluxo dos relacionamentos dos pais é interrompido pela ordem de Deus para abandonar a casa do pai. Tudo isso é muito semelhante a uma relativização dos laços familiares de Deus, um sentimento confirmado pelo relacionamento com seu filho Isaac, sancionado por seu sacrifício, que passa por um vínculo e uma desligação, entendido como a libertação de Isaac da necessidade de paternidade (RECALCATI, 2013, p. 34). Elisabeth Green observa que tudo isso acontece não em resposta à palavra paterna, mas a uma palavra divina sem conotações paternas, senão aquelas que lhe foram atribuídas mais tarde. "Portanto, a ordem patriarcal - continua Green - não é simplesmente confirmada: Abraão é introduzido em outra ordem: a da promessa" (GREEN, 2015, p. 49).

Também é interessante notar a questão da sucessão que, diferentemente de como a imaginamos, na história patriarcal, a herança patrilinear não ocorre através do primogênito, mas na direção oposta. De fato, não é o primogênito de Abraham Ishmael que herda as promessas, mas Isaac, que é o primogênito não de Abraão, mas de Sara. O mesmo acontece com Jacob, o favorito da mãe, que herda a promessa enquanto é o segundo filho, roubando a primogenitura de Esaú. Existe, portanto, uma ordem patriarcal que a palavra de Deus parece ignorar, fazendo as promessas passarem por caminhos diferentes daqueles marcados pela cultura dominante. Enquanto a cultura patriarcal ignora a presença de mulheres, deixando-as de lado e proibindo-as de falar, a palavra de Deus parece ser diferente.

Muitos estudos de teologia feminista enfatizam o protagonismo feminino nas histórias dos patriarcas. É difícil, de fato, passar despercebida a esterilidade de todas as esposas dos três primeiros patriarcas, Sara, Rebeca e Raquel, esposas de Abraão, Isaac e Jacó, respectivamente. Para Elisabeth Green, esse dado bíblico retomado em outras partes das Escrituras, em vez de indicar que é Deus quem dá vida e não o homem, sublinha que não é o pai que cumpre as promessas. Na verdade, é Deus quem torna Sarah, Rebecca e Rachel capazes de conceber um filho e não seus respeitáveis ​​maridos. O que está em jogo não é tanto a autoria desses homens que, como sabemos, já eram pais por causa da estrutura poligâmica da cultura atual, mas a maternidade das mulheres que Deus escolheu para cumprir suas promessas. Segundo a teóloga Irmtraud Fischer: "Desde o início, a promessa divina relativiza os laços familiares e o relacionamento pai-filho, rompe a ordem da sucessão patriarcal e funda a casa de Israel através das mulheres, dando-nos lendas com uma estrutura igualitária" (FISCHER, 2009, p. 241).

Também interessante nessa perspectiva, como o nome que Deus revela a Moisés em Êx 3,14, na verdade não é um nome, mas um verbo mais um pronome, que nada tem a ver com a paternidade. Segundo o filósofo Paul Ricoeur, essa revelação do nome representa "a destruição de todos os antropomorfismos, de todas as figuras e figuras, incluindo a do pai: o nome contra o ídolo" (RICOEUR, 1977, p.502). Juntamente com Robert Con Davis (1993), Elisabeth Green argumenta que o tetragrama, sendo escrito de uma maneira e lida de outra, pode ser considerado um texto imperfeito, cuja interpretação nunca é completa, exigindo um esforço contínuo de compreensão. Nesta perspectiva, muitos argumentam que o propósito do nome revelado a Moisés é proteger a incompreensibilidade de Deus, proteger sua identidade de antropomorfismos fáceis e identificações materiais. É por essa razão que algumas teólogas veem a possibilidade de declinar Deus à maneira feminina (JOHNSON, 1999), de falar dele em novos termos, libertando-se, por assim dizer, do esquema patriarcal.

Sempre mantendo o Antigo Testamento como ponto de referência, é importante focar a atenção no tipo de simbolismo colocado em prática para descrever o caminho da eleição e da aliança, que revela a relação entre Deus e o povo de Israel. No que é definido como simbolismo indireto, expresso por exemplo em textos como Êx 6,7 ou Os 11,1, a paternidade divina é social e não biológica. De fato, não há relacionamento parental entre o pai Deus e o filho Israel. Deus não gera Israel e, portanto, somos confrontados com um tipo de paternidade absolutamente desprovida de sexualidade (SARACENO, 2012). O simbolismo direto implementado especialmente nos períodos em que Israel esquece a aliança com Deus, manifesta uma riqueza de versículos nos quais a referência ao gênero feminino é visível. Entre as muitas possíveis, cito o famoso texto de Isaías 49.15, que diz: “Uma mulher pode esquecer o bebê que amamenta, deixa de sentir pena dos frutos do intestino? Mesmo que as mães esqueçam, eu não vou te esquecer". Declinar ao masculino textos como esse é problemático. Ouvir o texto sagrado, desconstruir as estratificações patriarcais, permite trazer tesouros insuspeitos da graça, tesouros com um sabor feminino que enriquecem e dão um novo significado também às leituras masculinas da Palavra. Percebemos que declinar Deus ao masculino não é apenas arriscado, mas enganoso.

 

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

SOBRE A DIREITA CATÓLICA E A SINODALIDADE

 





Romero Venâncio (UFS)

A direita católica brasileira que estudo é representada por um leigo (Bernardo Kuster), um padre (Paulo Ricardo), um bispo (Adair J. Guimarães - Formosa/GO) e um grupo (Centro Dom Bosco do Rio de Janeiro) e como marco temporal o pós-2013. Os acontecimentos políticos e ideológicos de 2013 e o que se seguiu, a presença de Olavo de Carvalho dentro do catolicismo e a nomeação do Papa Francisco. O projeto de estudo tem esse escopo sociológico/teológico e político.

Essa direita católica (que as vezes chamo de "extrema direita" por conta de sua virulência e beligerância na internet) foi crescendo nas redes digitais e tendo grande impacto em dioceses, paróquias e pastorais na última década. Eles traçaram como meta a recuperação de um pensamento conservador na Igreja enquanto reação aos valores modernos. Atacar de maneira deliberada tudo que venha da modernidade é o comum a todos/todas. Do Concílio de Trento ao Papa Pio IX. De Pio X a Pio XII. Formar uma "consciência conservadora" dentro e fora da Igreja.

Três horizontes diretos de ataques foram bem delimitados: o Concílio Vaticano II, a Teologia da Libertação e o papa Francisco. Os ataques são desiguais e combinados. A depender do momento e contexto, a virulência torna-se maior. Neste momento (2022-2023) as baterias se voltam contra o Papa Francisco e o projeto de sinodalidade. Para melhores esclarecimentos sobre o termo "Sinodalidade", recomendo o breve livro: "Sinodalidade: tarefa de todos" de Dom Pedro Carlos Cipolini (editora Paulus, 2021).

O Vaticano II seria origem da Sinodalidade e a eleição do papa Francisco seria a realização perfeita da "conspiração" moderna dentro da Igreja, segundo essa direita católica. Nota-se de cara que a paranoia e teorias da conspiração são crenças constantes que povoam a mente deles. A eleição de Lula, então... Vira delírio apocalíptico. Toda essa situação parece até "irracional" (sentido dado por Lukács no monumental livro: "A destruição da razão") mas não é bem assim. Tem uma racionalidade subterrânea em tudo que a direita católica brasileira faz e pensa.

Atacar o Concílio Vaticano II e sua consequência direta que é o papado de Francisco tem uma lógica nos projetos desta direita atuante nos nossos dias. A fragilidade argumentativa deles perante o mundo moderno é visível em tudo que fazem. O medo de coisas como "relativismo", "feminismo", "socialismo", "ambientalismo", "educação sexual", "diálogo interreligioso" ou "igreja democrática" chega a ser digno de pena. Parecem "montanhas a parirem ratinhos". A saída é sempre recorrer a figura do diabo como categoria explicativa. Aqui mora o ponto fraco e o sectarismo de toda  a direita católica. Recuperam uma "teologia do diabo" completamente anacrônica e carente de fundamentação histórico.

A referência teológica básica que usamos neste momento é um breve e rigoroso livro do teólogo Karl Rahner intitulado: "O cristão do futuro" publicado pela Fonte editorial. O livro tem quatro ensaios todos publicados nos anos 60 durante e depois do Concílio Vaticano II. Os títulos dos quatro textos que fazem o livro são bastantes sugestivos: "A Igreja que muda", "Situação ética numa perspectiva ecumênica", "Os limites da Igreja: contra o triunfalismo clerical e leigos derrotistas" e "O ensino do Concílio Vaticano II sobre a Igreja e a realidade futura da vida cristã". Como percebemos, ensaios bastante atuais e bem ao estilo de Rahner. Nem será preciso dizer e fundamentar porque Karl Rahner e sua teologia são odiados pela direita católica atual.

O ódio da vez dessa gente é o projeto de "Sinodalidade". Para essa direita, a convocação de um sínodo pelo Papa Francisco é uma “afronta à tradição". É mais uma "tática modernista" para entregar a Igreja ao mundo. Primário tudo isto. Um recuo histórico-teológico, podemos ver o primeiro grande projeto sinodal na primeira igreja dos Apóstolos/Apóstolas. Seria cobrar demais desta direita católica saber da primeira Igreja ou da teologia que a fundamenta. A indigência teológica de toda essa gente é notória e vergonhosa. Não passa de puro suco de fundamentalismos.

Para exemplificar a paranoia da vez contra a "Sinodalidade". O tal do Bernardo Kuster está em Roma fazendo o que chama de "cobertura" dos primeiros momentos do Sínodo para o seu canal e para "orientação" de seus seguidores bem ao "estilo Olavo de Carvalho". A primeira deprimente live é intitulada: "DIRETO DE ROMA: O ecumenismo invade a Vigília no Vaticano". A "tese" dele é que a Teologia da Libertação tem como objetivo "sequestrar o Sínodo". Tá tudo lá. Nos 17 minutos da sofrível live vemos toda uma paranoia sobre o que chama de "bastidores do Sínodo". Triste saber que milhares de católicos seguem isto. Lamentável, mas real. Faz parte desta nova e triste face do catolicismo no Brasil.