quinta-feira, 16 de novembro de 2023

O AMOR

 




Pe Paolo Cugini

 

O amor é o dom mais precioso que uma pessoa possa receber. O amor não é algo ao nosso alcance, que podemos conseguir com os nossos esforços humanos, ou que podemos adquirir com o dinheiro. O amor não é fruto de cálculo, de uma maquinação. O amor podemos somente acolhê-lo ou recusá-lo. O amor é como um trem que desde sempre almejamos, mas que passa na hora que menos esperamos: se não subir, nunca mais voltará. O amor não olha na cara, não pergunta a idade, nem se importa com a aparência: entra e pronto. O amor não entra na vida das pessoas perguntando a conta do banco ou tipo do trabalho: o amor não se importa com isso. O amor é romântico e não racional, é vida ao estado puro. O amor não é covarde, mas sim ousado. O amor é participação da vida de Deus, pois o amor vem de Deus.

 

Não é amor, então, a troca de parceiros. Não é amor arrumar alguém para não querer sentir a dor da solidão, ou para esquecer alguém. Não é amor fazer sexo para preencher uma carência. Não é amor arrumar alguém para se sentir igual aos outros. Não é amor também arrumar um parceiro/a para fazer uma família, pois o amor não tem finalidade. Não é amor arrumar alguém que não gosta, mas esperando que um dia vá gostar.

 

O amor é único e para sempre. Não tem dois amores na vida, nem três, mas um. Por isso, a unidade vai de braços dados com o amor. O amor é eterno e nunca passa e ninguém tira do coração. Vive conosco para sempre, pois, como nos ensina a Bíblia, o amor é mais forte do que a morte (Pintadas-Bahia, 2011).

 

 

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Mês da Consciência Negra: maior URGÊNCIA é ser Antirracista!

 




"COITADISMO" dos NEGROS

- 1837: Primeira lei de educação - Negros NÃO podem ir à escola.

- 1850: Lei das terras - Negros NÃO podem ser proprietários.

- 1871: Lei do ventre Livre - Quem nascia livre?

- 1885: Lei do sexagenário - Quem sobrevivia para ficar livre?

- 1888: Abolição (atentem, foram 388 anos de escravidão).

- 1890: Lei dos Vadios & Capoeiras - Os que perambulavam pelas ruas, sem trabalho ou residência comprovada, iriam pra cadeia. Eram mesmo "livres"? Dá para imaginar, qual era a cor da população carcerária, daquela época? Você sabe a cor predominante, nos presídios hoje?

- 1968: Lei do Boi - PRIMEIRA lei de cotas! Não, não foi para negros, foi para filhos de donos de terras, que conseguiram vaga, nas escolas técnicas e nas universidades (volte e releia sobre a lei de 1850!!!)

- 1988: Nasce nossa ATUAL CONSTITUIÇÃO. Foram necessários 488 anos, para se ter uma Constituição, que dissesse que Racismo é Crime! Na maioria das ocorrências, se minimiza o racismo, enquanto injúria racial e nada acontece.



- 2001: Conferência de Durban, o Estado reconhece, que terá que fazer políticas de reparação e ações afirmativas. Mas, não foi porque acordaram bonzinhos! Não foi sem luta. Foram décadas de lutas, para que houvesse esse reconhecimento! E olha que, até hoje, tem gente que ignora, hein!

- 2003: Lei 10639, estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir, no currículo oficial da Rede de Ensino, a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira". Que convenhamos, não é cumprida, né?

 

- 2009: PRIMEIRA Política de Saúde, da População Negra. Que prossegue, sendo negligenciada e violentada (quem são as maiores vítimas da violência obstétrica?), no sistema de saúde.

- 2010: Lei 12288 - Estatuto da Igualdade Racial. Em um país que se nega a reconhecer, a existência do racismo.

- 2012: Lei 12711 - Cotas nas universidades. A revolta da casa grande, sob um falso pretexto meritocrático.




...

Nossa sociedade, é racista, e ainda escravocrata, e essa linha do tempo, tá aí pra evidenciar.

As Cotas NÃO SÃO PRIVILÉGIOS, mas Sim, uma CORREÇÃO, por Tantos Infortúnios Passados, pelos Afrodescendentes.

 

Enquanto Houver Um(a) Irmão (ã), Sofrendo Qualquer Tipo de Injustiça Social, Nossa Comunhão Não Será Perfeita.

 

De: Gisele Machado

(Com Adaptações).

domingo, 22 de outubro de 2023

O DEUS QUE É PAI TAMBÉM É HOMEM?

 





Paolo Cugini

A grande tarefa da teologia feminista, expressa em numerosos estudos, consiste em libertar a palavra de Deus da estrutura patriarcal que, antes de ser um modelo religioso, é um modelo cultural e social bem estruturado. É o patriarcado que justifica o sistema familiar que define pais como chefes de família com poder explícito sobre a esposa e os filhos (SAFFIOTI, 2015). 

O próprio patriarcado estende, em nível social, a definição de papéis específicos para homens e mulheres, homens que sempre ocupam posições dominantes das quais as mulheres são excluídas. O sistema patriarcal, portanto, elabora um processo de desigualdade entre homens e mulheres, criando uma situação cultural constante de submissão de mulheres a homens. O patriarcado, assim entendido, não é apenas um produto social, mas encontrou apoio no mundo religioso até os dias atuais. De fato, o Ocidente cristão "produziu uma série de relações desiguais de poder; Deus como Pai governa o mundo, santos padres governam a Igreja, pais clericais governam os leigos, homens governam mulheres, maridos esposas e filhos e, finalmente, a humanidade governa a criação " (CAAR, 1991, p. 93). 

Nesse ponto da discussão, o pensamento feminino suspende a reflexão para se perguntar: o Deus Pai tem a ver o que com esse sistema opressivo? É a vontade de Deus que as mulheres sejam submissas aos homens? É possível pensar de maneira diferente sobre Deus e seu relacionamento com a criação e as criaturas? Mais uma vez: é possível libertar a palavra de Deus de formas antropomórficas, que ao longo dos séculos, fizeram de Deus um ser cada vez mais masculino às custas do mundo feminino, com todas as consequências daí decorrentes? Se é o sistema patriarcal que descreve a identidade de Deus, a teóloga Mary Daly tem razão quando diz: "se Deus é homem, então homem é Deus" (DALY, 1990, p.27). 

Novamente no livro mencionado, refletindo sobre as consequências da assimilação do modelo patriarcal pela igreja, a teóloga estadunidense Mary Daly mostra como os dogmas e artigos de fé emitidos tendem a propor a estrutura bilateral da relação homem-mulher, que justifica o modelo de submissão, tornando-o credível na sociedade civil. Portanto, não é simplesmente uma questão de entender um modelo social específico que foi estruturado ao longo dos séculos e que justifica as relações binárias de submissão e dominação, com todas as consequências da violência e abuso que todos conhecemos. 

Não é por acaso que, depois que as massas trabalhadoras do século passado se afastaram da Igreja devido à sua identificação com o poder político e econômico, encontrando-se, portanto, nem representadas nem protegidas, hoje muitas mulheres, que no ocidente atingiram um nível cultural significativo, não mais se veem representadas por uma estrutura religiosa patriarcal que justifica a inferioridade de um sexo em outro e a consequente submissão e, por isso, afastam-se dela. 

O problema é entender de que lado Deus está e se é realmente que justifica esse sistema de relações injustas ou se ocorreram interpolações culturais, que mudaram a interpretação em uma certa direção, a saber, a direção patriarcal. Nesse ponto, torna-se extremamente importante, não apenas para as mulheres, mas também para os homens, ouvir as reflexões das teólogas feministas que, em várias ocasiões e de maneiras diferentes, releram o texto bíblico com essas questões significativas. É possível, então, libertar a palavra de Deus do patriarcado, organizado por meio de uma série de relações de subordinação e exclusão? "Como podemos dizer o relacionamento de Deus com o mundo - Elisabeth Green se pergunta - para não reproduzir relacionamentos hierárquicos entre pessoas e principalmente homens e mulheres?" (GREEN, 2015, p. 27). Ainda seguindo Green, que estudou em profundidade este tema em várias pesquisas, tomamos o Antigo Testamento como um ponto de referência para compreender alguns aspectos que o pensamento masculino não nos permite observar.

 Se lermos atentamente o texto de Êxodo 3: 13-15, no qual Deus, depois de manifestar seu nome, acrescenta: “Você dirá aos israelitas: O Senhor Deus de seus pais, Deus de Abraão, Deus de Isaque, Deus de Jacó, ele me enviou para você. " De como a história realmente vai, percebemos que esse versículo não justifica a abordagem patriarcal. "Se olharmos para a narração das origens de Israel, descobrimos que ela não apresenta uma identificação simples entre Deus e a ordem patriarcal, pois isso está arranhada em três pontos importantes: paternidade, sucessão, protagonismo das mulheres" (GREEN, 2015, p. 48). Na história de Abraão, por exemplo, o fluxo dos relacionamentos dos pais é interrompido pela ordem de Deus para abandonar a casa do pai. Tudo isso é muito semelhante a uma relativização dos laços familiares de Deus, um sentimento confirmado pelo relacionamento com seu filho Isaac, sancionado por seu sacrifício, que passa por um vínculo e uma desligação, entendido como a libertação de Isaac da necessidade de paternidade (RECALCATI, 2013, p. 34). Elisabeth Green observa que tudo isso acontece não em resposta à palavra paterna, mas a uma palavra divina sem conotações paternas, senão aquelas que lhe foram atribuídas mais tarde. "Portanto, a ordem patriarcal - continua Green - não é simplesmente confirmada: Abraão é introduzido em outra ordem: a da promessa" (GREEN, 2015, p. 49).

Também é interessante notar a questão da sucessão que, diferentemente de como a imaginamos, na história patriarcal, a herança patrilinear não ocorre através do primogênito, mas na direção oposta. De fato, não é o primogênito de Abraham Ishmael que herda as promessas, mas Isaac, que é o primogênito não de Abraão, mas de Sara. O mesmo acontece com Jacob, o favorito da mãe, que herda a promessa enquanto é o segundo filho, roubando a primogenitura de Esaú. Existe, portanto, uma ordem patriarcal que a palavra de Deus parece ignorar, fazendo as promessas passarem por caminhos diferentes daqueles marcados pela cultura dominante. Enquanto a cultura patriarcal ignora a presença de mulheres, deixando-as de lado e proibindo-as de falar, a palavra de Deus parece ser diferente.

Muitos estudos de teologia feminista enfatizam o protagonismo feminino nas histórias dos patriarcas. É difícil, de fato, passar despercebida a esterilidade de todas as esposas dos três primeiros patriarcas, Sara, Rebeca e Raquel, esposas de Abraão, Isaac e Jacó, respectivamente. Para Elisabeth Green, esse dado bíblico retomado em outras partes das Escrituras, em vez de indicar que é Deus quem dá vida e não o homem, sublinha que não é o pai que cumpre as promessas. Na verdade, é Deus quem torna Sarah, Rebecca e Rachel capazes de conceber um filho e não seus respeitáveis ​​maridos. O que está em jogo não é tanto a autoria desses homens que, como sabemos, já eram pais por causa da estrutura poligâmica da cultura atual, mas a maternidade das mulheres que Deus escolheu para cumprir suas promessas. Segundo a teóloga Irmtraud Fischer: "Desde o início, a promessa divina relativiza os laços familiares e o relacionamento pai-filho, rompe a ordem da sucessão patriarcal e funda a casa de Israel através das mulheres, dando-nos lendas com uma estrutura igualitária" (FISCHER, 2009, p. 241).

Também interessante nessa perspectiva, como o nome que Deus revela a Moisés em Êx 3,14, na verdade não é um nome, mas um verbo mais um pronome, que nada tem a ver com a paternidade. Segundo o filósofo Paul Ricoeur, essa revelação do nome representa "a destruição de todos os antropomorfismos, de todas as figuras e figuras, incluindo a do pai: o nome contra o ídolo" (RICOEUR, 1977, p.502). Juntamente com Robert Con Davis (1993), Elisabeth Green argumenta que o tetragrama, sendo escrito de uma maneira e lida de outra, pode ser considerado um texto imperfeito, cuja interpretação nunca é completa, exigindo um esforço contínuo de compreensão. Nesta perspectiva, muitos argumentam que o propósito do nome revelado a Moisés é proteger a incompreensibilidade de Deus, proteger sua identidade de antropomorfismos fáceis e identificações materiais. É por essa razão que algumas teólogas veem a possibilidade de declinar Deus à maneira feminina (JOHNSON, 1999), de falar dele em novos termos, libertando-se, por assim dizer, do esquema patriarcal.

Sempre mantendo o Antigo Testamento como ponto de referência, é importante focar a atenção no tipo de simbolismo colocado em prática para descrever o caminho da eleição e da aliança, que revela a relação entre Deus e o povo de Israel. No que é definido como simbolismo indireto, expresso por exemplo em textos como Êx 6,7 ou Os 11,1, a paternidade divina é social e não biológica. De fato, não há relacionamento parental entre o pai Deus e o filho Israel. Deus não gera Israel e, portanto, somos confrontados com um tipo de paternidade absolutamente desprovida de sexualidade (SARACENO, 2012). O simbolismo direto implementado especialmente nos períodos em que Israel esquece a aliança com Deus, manifesta uma riqueza de versículos nos quais a referência ao gênero feminino é visível. Entre as muitas possíveis, cito o famoso texto de Isaías 49.15, que diz: “Uma mulher pode esquecer o bebê que amamenta, deixa de sentir pena dos frutos do intestino? Mesmo que as mães esqueçam, eu não vou te esquecer". Declinar ao masculino textos como esse é problemático. Ouvir o texto sagrado, desconstruir as estratificações patriarcais, permite trazer tesouros insuspeitos da graça, tesouros com um sabor feminino que enriquecem e dão um novo significado também às leituras masculinas da Palavra. Percebemos que declinar Deus ao masculino não é apenas arriscado, mas enganoso.

 

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

SOBRE A DIREITA CATÓLICA E A SINODALIDADE

 





Romero Venâncio (UFS)

A direita católica brasileira que estudo é representada por um leigo (Bernardo Kuster), um padre (Paulo Ricardo), um bispo (Adair J. Guimarães - Formosa/GO) e um grupo (Centro Dom Bosco do Rio de Janeiro) e como marco temporal o pós-2013. Os acontecimentos políticos e ideológicos de 2013 e o que se seguiu, a presença de Olavo de Carvalho dentro do catolicismo e a nomeação do Papa Francisco. O projeto de estudo tem esse escopo sociológico/teológico e político.

Essa direita católica (que as vezes chamo de "extrema direita" por conta de sua virulência e beligerância na internet) foi crescendo nas redes digitais e tendo grande impacto em dioceses, paróquias e pastorais na última década. Eles traçaram como meta a recuperação de um pensamento conservador na Igreja enquanto reação aos valores modernos. Atacar de maneira deliberada tudo que venha da modernidade é o comum a todos/todas. Do Concílio de Trento ao Papa Pio IX. De Pio X a Pio XII. Formar uma "consciência conservadora" dentro e fora da Igreja.

Três horizontes diretos de ataques foram bem delimitados: o Concílio Vaticano II, a Teologia da Libertação e o papa Francisco. Os ataques são desiguais e combinados. A depender do momento e contexto, a virulência torna-se maior. Neste momento (2022-2023) as baterias se voltam contra o Papa Francisco e o projeto de sinodalidade. Para melhores esclarecimentos sobre o termo "Sinodalidade", recomendo o breve livro: "Sinodalidade: tarefa de todos" de Dom Pedro Carlos Cipolini (editora Paulus, 2021).

O Vaticano II seria origem da Sinodalidade e a eleição do papa Francisco seria a realização perfeita da "conspiração" moderna dentro da Igreja, segundo essa direita católica. Nota-se de cara que a paranoia e teorias da conspiração são crenças constantes que povoam a mente deles. A eleição de Lula, então... Vira delírio apocalíptico. Toda essa situação parece até "irracional" (sentido dado por Lukács no monumental livro: "A destruição da razão") mas não é bem assim. Tem uma racionalidade subterrânea em tudo que a direita católica brasileira faz e pensa.

Atacar o Concílio Vaticano II e sua consequência direta que é o papado de Francisco tem uma lógica nos projetos desta direita atuante nos nossos dias. A fragilidade argumentativa deles perante o mundo moderno é visível em tudo que fazem. O medo de coisas como "relativismo", "feminismo", "socialismo", "ambientalismo", "educação sexual", "diálogo interreligioso" ou "igreja democrática" chega a ser digno de pena. Parecem "montanhas a parirem ratinhos". A saída é sempre recorrer a figura do diabo como categoria explicativa. Aqui mora o ponto fraco e o sectarismo de toda  a direita católica. Recuperam uma "teologia do diabo" completamente anacrônica e carente de fundamentação histórico.

A referência teológica básica que usamos neste momento é um breve e rigoroso livro do teólogo Karl Rahner intitulado: "O cristão do futuro" publicado pela Fonte editorial. O livro tem quatro ensaios todos publicados nos anos 60 durante e depois do Concílio Vaticano II. Os títulos dos quatro textos que fazem o livro são bastantes sugestivos: "A Igreja que muda", "Situação ética numa perspectiva ecumênica", "Os limites da Igreja: contra o triunfalismo clerical e leigos derrotistas" e "O ensino do Concílio Vaticano II sobre a Igreja e a realidade futura da vida cristã". Como percebemos, ensaios bastante atuais e bem ao estilo de Rahner. Nem será preciso dizer e fundamentar porque Karl Rahner e sua teologia são odiados pela direita católica atual.

O ódio da vez dessa gente é o projeto de "Sinodalidade". Para essa direita, a convocação de um sínodo pelo Papa Francisco é uma “afronta à tradição". É mais uma "tática modernista" para entregar a Igreja ao mundo. Primário tudo isto. Um recuo histórico-teológico, podemos ver o primeiro grande projeto sinodal na primeira igreja dos Apóstolos/Apóstolas. Seria cobrar demais desta direita católica saber da primeira Igreja ou da teologia que a fundamenta. A indigência teológica de toda essa gente é notória e vergonhosa. Não passa de puro suco de fundamentalismos.

Para exemplificar a paranoia da vez contra a "Sinodalidade". O tal do Bernardo Kuster está em Roma fazendo o que chama de "cobertura" dos primeiros momentos do Sínodo para o seu canal e para "orientação" de seus seguidores bem ao "estilo Olavo de Carvalho". A primeira deprimente live é intitulada: "DIRETO DE ROMA: O ecumenismo invade a Vigília no Vaticano". A "tese" dele é que a Teologia da Libertação tem como objetivo "sequestrar o Sínodo". Tá tudo lá. Nos 17 minutos da sofrível live vemos toda uma paranoia sobre o que chama de "bastidores do Sínodo". Triste saber que milhares de católicos seguem isto. Lamentável, mas real. Faz parte desta nova e triste face do catolicismo no Brasil.


domingo, 24 de setembro de 2023

PADRE NO MUNDO PÓS-MODERNO

 




 Paolo Cugini

 

1. A conjuntura atual não apresenta um quadro positivo para vida do padre. Os escândalos da pedofilia solaparam a credibilidade do clero. A rapidez das mudanças culturais da pós-modernidade descortina a velhice do sistema eclesial e, sobretudo, a sua incapacidade de se atualizar, de elaborar uma proposta ao passo com os tempos. A cultura pós-moderna, que questiona as formas rígidas de racionalidade, não aceita mais as atitudes autoritárias, típicas das estruturas que se formaram na época medieval. O mundo caminha sempre mais na direção do diálogo democrático e quem tem dificuldade a sair das formas rígidas do pensamento corre o risco de ficar de fora do contexto. Enquanto até poucas décadas atrás o padre era uma figura respeitada e referência moral do povo, hoje, neste novo quadro sócio-cultural, o padre é uma figura ambígua, pouco crível e parte de uma estrutura que dia após dias perde de credibilidade.

2. O padre vive esta época com grande angústia, pois ele é ao mesmo tempo parte da estrutura rígida da Igreja e também parte desta cultura pós-moderna em continua mudança. De um lado, o padre se sente continuamente solicitado a ser fiel a uma estrutura na qual acredita, pois é nela que amadureceu a própria escolha de vida; do outro, percebe todo dia a urgência de uma mudança radical e o sofrimento pela lerdeza da Instituição a abraçar este caminho de mudança. O padre no diálogo cotidiano com as pessoas que encontra é solicitado a oferecer respostas a problemas que ele não vive na própria pele. Além do mais, o conteúdo que ele tem a disposição para orientar as pessoas não é atualizado, pois é fruto de uma elaboração conceitual de uma época que não tem mais a ver conosco. E, assim, o padre se encontra a toda hora num rumo cego, sem saída: sabe que o Evangelho de Jesus é o Caminho certo que a humanidade deve percorrer para realizar uma existência mais humana, mas, ao mesmo tempo, percebe que os conteúdos elaborados pela Instituição do qual ele é fiel servidor tem pouco a ver com a demanda e os questionamentos dos seus interlocutores.

3.  Acho extremamente importante entender este elemento da atualização, pois mexe com um dato fundamental do cristianismo, que é a vida no Espírito. De fato, Jesus não pronunciou um conjunto de dogmas rígidos e infalíveis, mas sim uma proposta viva par os homens e as mulheres de todos os tempos. Nesta história, o Espírito Santo tem um papel fundamental, pois é graça a Ele que a Palavra de Jesus é atualizada nos novos contextos culturais. Existem períodos na história da humanidade e, sem dúvida, o nosso que estamos vivendo é um deles, aonde é visível a tensão entre Espírito e Instituição, entre Carisma e Poder. O ideal seria o equilíbrio entre as duas forças, mas este equilíbrio é difícil alcançar em tempo de crise, que exige capacidade de resposta à altura da situação. É nessa altura que o padre deveria exercer um papel importante, pois ele vive a contato com o povo – pelo menos deveria – e por isso sente na própria pele as mudanças culturais que necessitam de respostas imediatas. Infelizmente, quando a Igreja elabora um documento sobre os temas da atualidade, raramente o padre é interpelado para expor suas opiniões. Quem faz os documentos da Igreja são pessoas que tem pouco contato com o povo, pessoas que vivem dentro de palácios, que conversam entre si sem entender bem o que se passa no mundo. Não é de estranhar, então, se os documentos oficiais da Igreja são uma citação contínua de documentos passados, tentando de adaptá-los e nem sempre com sucesso, ás novas exigências. O padre verdadeiro, aquele que ama Deus e vive a contato com o povo, sofre demais por esta distância entre a mensagem da Igreja, que deveria atualizar o Evangelho á luz do Espírito Santo e os problemas reais. O padre percebe que no Evangelho tem uma força explosiva, têm indicações suficientes para oferecer respostas uteis às pessoas que toda hora o procuram e o questionam sobre os problemas essências da vida. Ao mesmo tempo, porém, o padre sente que não tem a resposta certa, pois as respostas que ele tem a disposição tem pouco a ver com a realidade que ele vive e que o seu povo vive: fazer o que?

 4. Ser padre neste quadro não é fácil, pois se trata de viver num contínuo questionamento, numa continua ambigüidade. Num mundo em continua mudança o padre deve transmitir a toda hora valores eternos.  Num contexto cultural que, como nos lembra o sociólogo polonês Bauman é preciso não se identificar com algo de fixo, o padre é o sinônimo da estabilidade, daquilo que nunca muda. O padre deveria ser a pessoa capaz de repassar aos seus contemporâneos o testemunho da presença de Cristo, uma presença viva e clara do amor de Deus que se manifestou na sua ação e nas suas Palavras. O problema é que nunca como hoje este testemunho foi tão ofuscado, nunca como hoje a transparência da vida de Jesus foi tão danificada por aquela instituição que deveria manifestá-la. E ai vem o problema do padre, ou seja, daquele homem que sente-se chamado por Deus a viver integralmente o amor de Jesus, mas que percebe a dificuldade de fazer isso dentro uma Instituição que parece ter perdido o rumo, a alegria de servir a Cristo, a força moral de testemunhá-lo. Por isso vários deles, ao longo dos anos, deixam o ministério, outro se afrouxam, outros ainda se entregam aos vícios. Sem dúvida, tem muitos que continuam firmes no ministério servindo a Deus e ao povo com o maior carinho do mundo. Mas é visível o descaso, a perca de terreno, o constrangimento que os padres vivem para não conseguir caminhar ao passo com os tempos. Seria mais fácil e menos doloroso se o padre vivesse preso dentro num mosteiro, num palácio: mas o padre vive no meio do povo e o seu sentir é o sentir real do povo.

Como sair deste círculo viçoso? Que caminho percorrer para ajudar o padre a votar com força a ser testemunho vivo do Evangelho? Como ajudar a Hierarquia eclesiástica que está meio perdida, afastada dos problemas do povo?

domingo, 17 de setembro de 2023

UMA IDADE PÓS-CRISTIANA?

 





Paolo Cugini

Falamos cada vez mais da era pós-cristã. Isso significa que há uma percepção de uma mudança radical que ocorreu e que, em alguns aspectos, ainda não terminou. Afinal, é difícil pensar que em pouco tempo uma cultura que marcou séculos de história desaparecerá no ar, muito rapidamente. De qualquer forma, se é verdade que os sinais do que se definia como um processo de descristianização eram presentes desde o final do século XIX, também é verdade que, nas últimas décadas, essa mudança de época se acelerou significativamente. O fato é que o cristianismo, embora tenha uma influência flagrante na formação da cultura ocidental, agora parece ter ficado sem influência. Se tentarmos olhar de perto esse fenômeno, o qual é ao mesmo tempo histórico e cultural, percebemos que o cristianismo começou a ranger quando as metanarrativas ocidentais começaram a mostrar seus limites, dando lugar ao advento da era pós-moderna. A modernidade e o cristianismo ocidental entraram em colapso e, em alguns aspectos, não é possível apreender as causas de um sem considerar o outro. O aspecto mais interessante, que vale a pena analisar, é o patrimônio de rituais religiosos e de sacralidade que o cristianismo produziu e manifestou não apenas nas celebrações religiosas, mas também na arte e na cultura. Qual é o destino de todo esse patrimônio espiritual, cultural e artístico? A impressão geral que se tem, é que o Ocidente vive essa transição de forma serena, como se nada estivesse acontecendo. Este aspecto, a nosso ver, revela o grau de exteriorização do cristianismo que, mais do que representar a alma de uma cultura, era sobretudo um modo de estar no mundo, ou seja, uma política, um poder entre os poderes, assim como uma estética.

Folheando as páginas dos livros que apresentam as análises e reflexões sobre o fim do cristianismo, impressiona que, a maioria da produção desses textos, ser oriunda, de autores franceses. Na França, mais do que em outros países, a reflexão sobre a descristianização do mundo ocidental, começou na época da Revolução Francesa. Além disso, não poderia ser de outra forma, também porque a Revolução Francesa afetou significativamente o cristianismo, ao ponto de considerar o ano da revolução como o ano zero. Além desse fato, há outro, a saber, a maioria dos autores franceses que analisam o processo de descristianização são tradicionalistas, preocupados, portanto, em salvar o que pode ser salvo, em procurar os defeitos e os culpados, mais do que indicar novos caminhos no contexto que está surgindo. Dentre essas análises, vale destacar a do sociólogo francês Guillaume Cuchet (2018), que, ao invés de buscar a origem da descristianização, indica seus sinais incontornáveis. Segundo Cuchet, os sinais evidentes da descristianização em curso, devem ser identificados na queda vertiginosa de alguns aspectos do culto católico, como a confissão individual e a escassa presença de jovens na missa dominical. Além disso, outros sinais são o fim da prática obrigatória e no silêncio sobre os "fins últimos", ou seja, sobre os mistérios da Igreja sobre o que será depois da morte: inferno, purgatório e paraíso. É especialmente digno de nota que, esses sinais, são indicados com um tom acusatório, e não como um sinal de uma cultura em mudança. De qualquer forma, segundo Cuchet, a causa que incentivou o processo de descristianização deve ser identificada no Concílio Vaticano II, considerado o verdadeiro événement déclencheur sem possibilidade de reparação (Cuchet, 2018, p. 143). São análises que revelam uma dificuldade em aceitar a mudança de época em curso e, sobretudo, considerá-la como definitiva.