quarta-feira, 17 de maio de 2023

A doutrina da força e suas aplicações na filosofia de Emmanuel Mounier





 

Paolo Cugini

Mounier percebe o perigo de que a revolução nunca aconteça. E, refletindo sobre isso, o autor se interroga sobre o sentido da violência como passagem obrigatória pela realização da nova sociedade. O mundo da pessoa – escreve Mounier – exclui a violência como meio de constrição interior, mas algumas necessidades que se formaram na desordem anterior produzem ainda violência nas pessoas (MOUNIER, 1982, p. 35). Se é verdade que, em algumas circunstâncias, o uso da violência pode ser consentido, é preciso limitar ao máximo este meio revolucionário. Porém:

Se somente da violência pode, em algumas circunstâncias, depender a decisão final, nenhuma razão plausível pode exclui-la. A violência pode chegar somente como extrema necessidade. Quando é utilizada de forma prematura sufoca os homens e prejudica o resultado final. (MOUNIER, 1982, p.49).

 

Percebe-se, dentro o pensamento de Mounier, uma profunda tensão entre o reconhecimento como princípio do uso da violência em situações limites e, do outro lado, uma constante aspiração à paz. A não violência deve ser o fruto da força e deve conseguir repudiar toda aliança com o medo e a fraqueza. A renúncia de subverter com violência a desordem estabelecida é legitima somente se nasce da aceitação dos limites inevitáveis que a ação impõe e não por causa do medo.

Se, como vimos, Mounier não exclui em linha de princípio a ação violenta, todavia a sua preferência é com os meios de ação não violenta. No livro Revolução personalista e comunitária, o autor manifesta a vontade de experimentar, antes de tudo, os meios não violentos e de não utilizar nunca os meios violentos que, em si mesmos e num sentido absoluto, sejam condenáveis mas, acrescenta Mounier: “nós não acreditamos que todos os meios violentos sejam negativos pelo único fato de que são violentos” (MOUNIER, 1984, p. 281). Por isso, o cristão não deve recusar de forma prevenida o uso da violência, mas se questionar sobre a sua legitimidade e manter uma constante atenção sobre os meios que são envolvidos em cada ação. A não violência é uma arma tipicamente cristã, mas não é a única[1]. A teoria da revolução encontra-se aqui com uma filosofia da ação, aquela mesma que Mounier amadureceu no Trattato del Carattere (MOUNIER, 1993). Nessa obra, o autor insiste sobre a relação entre homem e ambiente e sobre a importância da experiência da ação.

 

A única prova da verdade de um homem são os seus atos. O valor das suas palavras, a autenticidade do seu pensamento, se revela somente na confirmação que é data, pois nós mesmos somos jogados na ação antes de refletirmos sobre ela (MOUNIER, 1993, p. 5).

 

Como é muito fácil perceber, a reflexão de Mounier acaba formalizando uma ética da ação, mais do que uma técnica da ação. O filósofo francês sublinha a exigência da ação, contra toda forma de pureza idealista que foge da realidade[2]. As páginas que dedica a este tema são de grande importância na estrutura do seu pensamento. O personalismo se recusa a ser técnica de ação e, ao mesmo tempo, recusa a acusação de ser uma mera filosofia utópica, sem nenhuma relevância para a história. Pelo contrário, o personalismo, que se desenvolveu ao longo dos anos 30 e 40 do século passado, sobretudo nas páginas da revista Ésprit, sempre ofereceu propostas concretas para os problemas encontrados[3].

O discurso sobre as formas concretas da ação é apenas esboçado. De um lado, de fato, nos anos entre as duas guerras, quando Mounier amadureceu o seu pensamento revolucionário, a exigência primeira era romper com a desordem estabelecida e o personalismo nesta época não conseguiu desenvolver um programa político social; do outro lado, quando Mounier, depois do segundo conflito mundial, teria as condições necessárias para enfrentar o problema, encontrou uma situação histórica e política extremamente mudada, de uma certa forma uma sociedade pós-revolucionária. Nem por isso Mounier reduziu o personalismo a uma espécie de revolução interior. De fato, depois da libertação, denunciava “a doença infantil da revolução espiritual” que amiúde se resolve numa postura

conservadora sem futuro, que fica confundindo a denúncia com a ação, sem conseguir incidir na ação da história.

Para inserir o personalismo no drama histórico do nosso temo não basta dizer: pessoa, comunidade, homem, etc.; é também preciso dizer: fim da burguesia ocidental, advento das estruturas do socialismo, função iniciadora do proletariado. (MOUNIER, p. 105) Somente assim, será possível evitar que o personalismo se torne uma ideologia boa para todos, sem alguma possibilidade de orientar as pessoas e, sobretudo, sem ter a chance de mudar o caminho da história. A filosofia personalista, portanto, não pode ser uma máscara para uma política de conservação social. Apesar disso, é bom salientar que o personalismo nunca conseguiu elaborar uma teoria da ação política[4]. “Recusada a democracia parlamentar, condenados sem apelo os partidos, considerados com suspeita os sindicatos, falta ao personalismo o meio para desenvolver o seu potencial revolucionário” (CAMPANINI, 2012, p. 113).

O pensamento político de Mounier consegue elaborar apenas uma teoria da ação para pequenos grupos. Foi isso que aconteceu logo no início da experiência da revista Ésprit, quando Mounier formou sobre todo o território francês pequenos grupos de estudo – os “grupos Ésprit” – que conseguissem manter uma ligação entre a realidade e a elaboração filosófica. A estrutura da sociedade do futuro pode ser criada no:

pequeno grupo, que vale para os homens que recolhem e pela intensidade da difusão, mais que pelo número, que não se propõe grandes tarefas revolucionárias, mas a descoberta corajosa de panoramas desconhecidos e a vigilância sobre um tesouro necessário ao bem-estar de todos, tesouro que os tumultos esquecem e ameaçam. (MOUNIER, p. 29).

 

A praxe revolucionária se resolve nesse contexto numa preparação da nova sociedade dentro de pequenos grupos, na espera de que estas formas novas de relacionamento social se ampliem, afetando toda a estrutura social. Mais uma vez, Mounier revela a sua vocação tipicamente cultural, mais do que política. A reflexão sobre a ação se resolve na passagem de uma ética do compromisso para uma ética do testemunho. Assim como também desenvolveu o discurso na sua obra fundamental – O personalismo –, Mounier indica quatro dimensões da ação: fazer, agir, contemplar, ação coletiva. Na realidade, somente o primeiro desses pontos tem como finalidade a ação propriamente dita, o poiéin, que Mounier resolve, sobretudo na economia, na ação do homem sobre as coisas, com todas as ligações que existem entre economia e política. O agir, que Mounier indica com o grego pràttein, tem como objetivo a ação ética, caracterizada pela autenticidade do seu jeito de se colocar, mais do que as formas concretas de como ela se realiza no plano dos acontecimentos históricos.

Também na categoria da theoréin, a contemplação não tem muito sentido da ação, assim como é compreendida no pensamento comum. Segundo a reflexão de Mounier, “a contemplação é uma tarefa do homem na sua totalidade; não é evasão da atividade comum para uma atividade escolhida e separada, mas aspiração para um reino de valores que desenvolvem toda a atividade humana” (MOUNIER, 2006, p. 125). A teoria da ação termina afirmando uma tensão entre o “polo político” e o “polo profético”, o primeiro mais concentrado sobre o sucesso, o segundo mais orientado sobre o

testemunho, todos dois, porém, indispensáveis ao homem de ação. É bom salientar que a teoria da ação do personalismo não se resolve numa confissão de impotência ou num refúgio sobre o plano ético e religioso. Na realidade, em Mounier existe uma teoria da ação, não uma técnica da ação[5].

Examinando com atenção a posição política de Mounier, percebe-se uma relevância prática. De fato, o filósofo francês reconhece o valor da não violência como atitude religiosa, como apelo à santidade. Isso, porém, não exclui o dever de se opor à força com a força. O homem não consegue se opor somente com o testemunho pessoal perante estruturas construídas contra a pessoa. “Nunca conseguirá sozinho sacudir a instituição do mal na estrutura do mundo moderno” (MOUNIER, 1984, p. 226). Por isso, junto com o compromisso espiritual, é preciso uma revolução interior, mas também política, para remover o reino da injustiça e da desordem estabelecida.

A teoria de Mounier sobre a ação indica dois polos: de um lado a denúncia de uma impossível pureza absoluta do compromisso; do outro, a indicação do perigo que a política se transforme em pura vontade de potência. Entre espiritualismo puro e vontade de potência, o personalismo se esforça para criar um difícil equilíbrio, sem porém, sacrificar a contemplação da ação, sem renunciar à técnica e, ao mesmo tempo, conferindo a prioridade aos meios espirituais.

 



[1] Cfr. Muito interessante, para aprofundar o relacionamento entre ação violenta e ação não violenta, são os escritos publicados em: Pacifistes ou bellicistes?, Paris 1939 (Em: MOUNIER, Emmanuel, Oeuvres, vol. 1, Paris: Bibliothéque de la Pléiade, pp. 785-836).

[2] Mounier enfrentou o tema da fuga da realidade em: Che cos’é il personalismo? Torino, 1948, cit. p. 22.

[3] Sobre esse assunto cfr. O nosso trabalho sobre o nascimento da revista Ésprit (CUGINI, 2009).

[4] É isso que sustenta CAMPANINI, 1968, p. 213.

[5] Segundo Giorgio Campanini (1968, p. 216) a teoria da ação de Mounier manifesta o grande limite do personalismo e a explicação da sua escassa incidência na política francesa.

A técnica dos meios espirituais e o compromisso revolucionário no pensamento de Emmanuel Mounier

 








A revolução espiritual, declara Mounier, não é uma revolução feita por pessoas impotentes: querem uma maior pureza para conseguir uma maior eficácia. Ele, porém, se pergunta: “Toda ação não é condenada a ser ineficiente enquanto é pura, e não é impura enquanto eficaz?”. A resposta tenta ligar o rigor ético com a eficácia prática. Se, de fato, os meios materiais são os mais queridos, eles geram a hipocrisia, a mentira, enquanto os meios puramente espirituais realizam uma silenciosa ação de presença, mas não levam ao sucesso. Mounier pensa que o contraste pode ser superado através de:

 

Meios que sejam temporais, encarnados, que exigem uma técnica cuja alma, cujo fim e então o mesmo rosto pertencem a um mundo diferente daquilo dominado pela utilidade da força. Por isso torna-se necessária uma técnica da ação espiritual, não apenas de uma ética da ação, mas também de uma técnica, pois não se trata simplesmente de sugerir algumas ideias, mas de apontar os meios para rendê-las eficazes. (MOUNIER, 1984, p. 273).

 

Essa técnica dos meios espirituais baseia-se numa ligação estreita entre meios e fins, ações e valores. É preciso elaborar uma lúcida consciência do valor da ação, das suas características e dos seus limites, evitando de se jogar na ação sem antes avaliar os fins que ela envolve e os meios da qual precisa. Essa lucidez nasce somente de uma decidida assunção das próprias responsabilidades. A ação revolucionária, portanto, não pode prescindir de uma precisa referência a um parâmetro de valores. Cada ação revolucionária é destinada à falência sem este compromisso pessoal, sem ser também uma revolução pessoal. Chamamos de pessoal aquela prática que nasce a cada momento de uma consciência, de ter uma cativa consciência revolucionária, de uma revolta que num primeiro momento cada um dirige contra si mesmo, contra a própria participação ao desordem estabelecido, entre o espaço admitido entre aquilo que serve e aquilo que diz servir, e que num segundo tempo, brota numa conversão contínua de toda a pessoa. (MOUNIER, 1984, p. 294).  Manter a ligação entre ação e pessoa é o único caminho que permite não cair no mito da revolução, que se forma quando a ação e o sucesso são procurados por si mesmos. A revolução, sendo feita por homens, nunca poderá ser o bem total, assim como não existe estrutura que seja o mal total. “Nós mereceremos a nossa revolução – afirma Mounier – somente se tivermos a coragem de começar a revolucionar nós mesmos” (MOUNIER, 1984, p.307).

Mais uma vez o discurso passa das estruturas à pessoa. Além de todo mito de esquerda e de direita, a revolução é sempre uma conquista difícil e também uma conquista permanente, que precisa ser renovada a toda hora, através de um renovado impulso revolucionário. Dessa maneira, voltamos à pessoa. Os Principes d’action personaliste do Manifeste au servisse du personnalisme, que deveriam representar a tradução prática das ideias que se encontram em Revolução personalista e comunitária, terminam em marcar muito mais a ligação entre ação e pessoa, que as dimensões operativas da mesma ação. Como linhas de ação para construir a nova sociedade personalista são, de fato, apontadas: a tomada de consciência de si, a dissolução dos falsos mitos, a exigência de ser antes de fazer e de conhecer antes de agir. Nessa fase do seu pensamento, Mounier insiste muito sobre a necessidade de uma conversão integral, para evitar uma adesão apenas superficial ao compromisso revolucionário. “Ser para fazer, conhecer para agir: a revolução personalista realiza uma ligação interior entre espiritualidade da pessoa, pensamento e ação, que o idealismo tinha despedaçado e que o marxismo se recusa a restabelecer”. (MOUNIER, 1982, p172).

As linhas de uma teoria do compromisso revolucionário deveriam se desenvolver em três direções: compromisso pessoal, ruptura com as estruturas do mundo moderno burguês, estudo de uma técnica dos meios espirituais. Mounier tem bem claro na mente que sem uma ruptura radical com aquilo que ele chama de desordem estabelecida, ou seja, com o mundo moderno burguês, é impossível realizar uma revolução personalista.

A crítica da sociedade burguesa e da “desordem estabelecida” em Emmanuel Mounier

 





Paolo Cugini

A filosofia de Emmanuel Mounier, e todo o seu pensamento político, são baseados na categoria do compromisso. A crítica do mundo moderno assume um lugar de primeiro plano na gênesis do mesmo conceito de revolução. Refaire la Renaissance, como expressa o ambicioso programa da Revista Esprit, por ele mesmo fundada em 1932, significa uma radical ruptura com o mundo moderno. O problema – afirma Mounier – não é de purificar, mas de reformar à raiz, com coragem, todas as estruturas sociais e também o coração dos homens; mas isso é outra coisa. Uma mudança radical foi sempre chamada de revolução. Tem medo da palavra, percebo o medo da coisa. Sem dúvida, nenhuma revolução acontece sem nenhuma violência. O problema não é mais entre revolução e as meias medidas, mas entre a revolução que salva os valores humanos e a revolução que os sufoca. (MOUNIER, 1984, p. 267). Para Mounier, o problema não é fazer a revolução, mas como fazer, pois, pare ele, a revolução é inevitável e necessária. As estruturas sociais do tempo de Mounier parecem a seu ver tão deformadas que não tem mais outro caminho que possa substitui-las. A crise que Mounier percebia, não era apenas política e econômica, mas muito mais profunda. É a crise daquela sociedade nascida no final da idade média e que proporcionou a revolução industrial. Mounier percebe que no horizonte está aparecendo uma civilidade nova, que substitui a velha, uma mudança de civilidade que apresenta também a necessidade de um homem novo. Se, de fato, na sociedade que se constituiu na revolução industrial o homem era o grande absente, agora torna-se necessário restituir à pessoa o seu lugar de destaque. Isso significa romper com a civilidade industrial de cunho individualista e burguês.

Esse processo de decadência, visível na sociedade burguesa, percebe-se na parábola do herói que passa a burguês, do chefe de indústria ao mesquinho poupador. Assim, o burguês é o homem que perdeu o sentido do Ser, que não consegue agir sem realizar algo de concreto. O burguês é “o homem que perdeu o amor; cristão sem inquietação, ateu sem paixão” (MOUNIER, 1982, p. 186).

Este individualismo sem amor e sem paixão produziu uma civilidade alicerçada sobre a ruptura entre espírito e matéria, entre pensamento e ação. A ação revolucionária deve construir um novo tipo de civilidade, uma civilidade personalista. Personalista é uma civilidade cujas estruturas e cujo espírito são orientados a completar como pessoa cada indivíduo. A realização desta civilidade só será possível através da superação da sociedade capitalista que sufoca a possibilidade e o desejo de ser pessoa. (MOUNIER, 1982, p. 234). O mundo burguês vive uma profunda crise, mas apesar disso, precisa de uma derrota final para abrir o caminho da nova sociedade. A sociedade burguesa ainda tem os seus

defensores, aqueles que, querendo defender a ordem, defendem a realidade da desordem estabelecida por eles mesmos. “Os homens da ordem perpetuam a desordem, enquanto a aparente violência das revoluções contribui ao progresso da razão” (MOUNIER, 1984, p. 22).

Mounier é preocupado em manter bem distinta a ligação entre revolução e materialismo de um lado, ordem e valores espirituais do outro. É preciso evitar o monopólio materialista da revolução e o monopólio pseudo-espiritualista da ordem. Nesse contexto, Mounier denuncia a identificação falsa que o mundo burguês conseguiu realizar ao longo dos séculos entre mundo espiritual e mundo reacionário. A revolução, para surtir efeito, deve ser política e econômica de um lado, espiritual e

moral do outro. É nessa perspectiva que uma filosofia do compromisso se une com uma filosofia da história:

Nós somos revolucionários duas vezes, mas em nome do espírito. Uma primeira vez, que dura até que irá durar o gênero humano, porque a vida do  espírito é uma conquista sobre a nossa covardia. Uma segunda vez – e isso aconteceu nos anos ao redor de 1930 – porque o mundo moderno está num estado de putrefação tão avançado e tão profundo, que é necessária a queda total para que possam surgir novos brotos” (MOUNIER, 1984, p. 37).

 

Sobre uma exigência espiritual se desenvolve um julgamento histórico. Tão forte é o prevalecer dos condicionamentos materiais neste período histórico, que é necessário realizar uma revolução política e econômica antes daquela espiritual. Colocar em primeiro lugar os problemas materiais é uma necessidade de uma época cuja parábola burguesa chegou ao fim e as estruturas da sociedade sufocam a vida das pessoas.

sábado, 4 de março de 2023

Gianni Vattimo: O cristianismo entre morte de Deus e enfraquecimento do ser

 


Paolo Cugini


A análise que Gianni Vattimo desenvolveu ao longo destes anos tem como pontos referenciais dois filósofos: Nietzsche e Heidegger[1]. O anúncio nietzschiano da morte de Deus e o niilismo como consequência do pensamento Ocidental, na perspectiva de Vattimo desembocam na análise heideggeriana do fim da metafísica, da história da metafísica Ocidental como enfraquecimento do ser. Sendo que a proposta de Vattimo que chamamos de “religiosa” não pode ser entendida em sua profundeza e em suas consequências extremas senão a partir deste pano de fundo filosófico, que retorna em várias páginas de sua obra, sobretudo nos textos das últimas duas décadas, é necessário aprofundar o discurso. Na análise de Vattimo, tanto a reflexão niilista de Nietzsche quanto o anúncio heideggeriano do fim da metafísica apontam para aquilo que hoje chamamos de fim da modernidade.3 Nessa altura, a pós-modernidade não seria outra coisa que o esgotamento do projeto moderno da metafísica clássica, da maneira de interpretar o ser como presença, como algo de fixo, de rígido. A metafísica, alvo das críticas de Vattimo, é a filosofia sistemática, capaz de fornecer uma representação coerente, unitária e rigorosamente fundada das estruturas estáveis do ser.[2] Metafísica, neste sentido, seria um pensamento que identifica a verdade do ser com a possibilidade de medir e de manipular o objeto da ciência. Esta crítica, como sabemos, não é nova. Já a partir dos anos oitenta, vários epistemólogos[3] questionavam a veridicidade das teorias científicas, sobretudo, a presunção de achá-las melhores daquelas de cultura diferente. A novidade da análise de Vattimo consiste na ligação que ele realiza entre a crise da metafísica Ocidental e as consequências – por ele positivas – no cristianismo. Existe toda uma série de eventos acontecidos nas últimas décadas que comprovam a dissolução da metafísica clássica, o enfraquecimento de um ser apresentado como fundamento único e objetivo da realidade. A queda do muro de Berlim, a crise sistemática do modelo econômico neoliberal, o mundo pluralista em que vivemos, o desmoronamento do mito do progresso ilimitado, fruto maduro do iluminismo setecentesco: são todos sintomas de um enfraquecimento do ser da metafísica forte de cunho Ocidental que desembocam no niilismo. Na Babel do pluralismo do ocaso da modernidade, do desmoronamento das metanarrativas de lyotardiana memória,[4] das ideologias fortes centradas sobre verdades absolutas se multiplicam as narrativas sem um centro e uma hierarquia. “O fim da metafísica, vista como crença em uma ordem fundada, estável, necessária, e objetivamente cognitiva do ser, foi acompanhado, no pensamento e na prática social, pela morte do Deus moral, do Deus dos filósofos” (Vattimo 1996, p. 37). Pela metafísica clássica que Vattimo critica, a verdade não é nada mais que o fruto de uma projeção subjetiva, idealista, um dado fixo. A este tipo de verdade o mundo pós-moderno está dizendo adeus. A reflexão de Nietzsche que desemboca no anúncio da morte de Deus e no advento do niilismo se encaixa com a análise heideggeriana do fim da modernidade, abrindo o caminho através de novas perspectivas filosóficas. Se, de fato, ao longo dos séculos, a metafísica Ocidental tentou reiteradamente apresentar o ser como algo de forte, fundamento objetivo da realidade, ocultando sua autêntica natureza que é a fraqueza ou a tendência ao aniquilamento como todo evento histórico, para Vattimo, isso mostra como na realidade o niilismo não é algo de extrínseco ao mondo ocidental, à sua cultura e a seu berço cristão, mas sim, intrínseco. “A metafísica se manifesta, na sua essência, quando chega ao fim e alcança o seu fim precisamente enquanto se revela na sua essência” (Vattimo 2006, p. 64), ou seja, como enfraquecimento, como esquecimento do ser. Os eventos do mundo contemporâneo supraindicados não fazem outra coisa que confirmar esta análise no plano metafísico. A análise que Vattimo elaborou nas últimas duas décadas oferece assim uma leitura filosófica dos acontecimentos históricos que estão se alastrando no mundo Ocidental. Existe uma lógica no desastre que a todos os níveis está se manifestando, um desastre devido a uma interpretação errada do ser como presença, como algo de fixo e, sobretudo, como algo que o homem pode manipular. O destino do Ocidente não pode não ser marcado pelo caminho do enfraquecimento do ser, caminho que, infelizmente, ao longo dos séculos, deixou um marco profundo na história, o marco da violência. Refletir sobre o nexo entre violência e metafísica parece um paradoxo, mas, à luz da análise histórica tão paradoxal, não é.

A conatural necessidade à qual corresponde a metafísica, aquela de apreender a arché, está profundamente ligada à hýbris de quem quer alcançar a plena posse da própria existência e, portanto, no final, do predomínio em nós das leis da sobrevivência, aquelas que “justificam”, em última análise, a violência na qual reside o mal” (Vattimo 2004, p. 141).

A metafísica como fixação rígida do ser produziu sempre um pensamento forte incapaz de acolher as identidades alheias, as diferenças culturais e religiosas. O mundo Ocidental é um mundo substancialmente violento e esta violência tem sua própria raiz na metafísica que até agora a inspirou. Os poderes políticos fortes que se suscederam ao longo dos séculos no Ocidente cristão foram sempre sustentados por uma metafísica forte, que, ao invés de se colocar à escuta da realidade para responder a ela, sempre tentou antecipá-la e, assim, prendê-la dentro do próprio sistema. Vattimo não esconde a profunda ligação da Igreja católica com as estruturas de violência brotadas do seio da metafísica clássica. A defesa que a Igreja faz da lei da natureza para, ainda hoje, defender os seus dogmas no campo moral, e, sobretudo, “a maneira pela qual quer impô-los correspondem a um modo específico de conceber a figura da Igreja no mundo: uma estrutura fortemente organizada em sentido hierárquico, vertical e definitivamente autoritário” (Vattimo 2004, p. 145). Nessa altura, como veremos, o abandono da metafísica forte em favor de uma débil, deveria ajudar não apenas a Igreja, mas também as estruturas políticas Ocidentais a elaborar projetos e morais mais tolerantes e atentas ao pluralismo típico do fim da modernidade. Para entendermos isso, precisamos realizar um caminho, ou melhor, uma mudança de perspectiva. Se o ser como presença está manifestando todas as suas falhas não apenas no plano teórico, mas também e sobretudo, no plano histórico e existencial, então é nesta última perspectiva que o ser deve ser de agora em diante interpretado, ou seja, como evento.

Aquilo que o homem tem de específico e que o distingue das coisas é o fato de estar referido à possibilidade e, portanto, de não existir como realidade simplesmente presente. O termo existência, no caso do homem, deve entender-se no sentido etimológico de ex-sistere, estar fora, ultrapassar a realidade simplesmente presente na direção da possibilidade (Vattimo 1996, p. 25).

É nessa altura que Vattimo recupera o discurso heideggeriano de Ser e Tempo, da existência como Dasein, ser no mundo. Não é possível entender o ser fora de uma específica dimensão temporal, histórica. Parece ter sido este o problema maior da filosofia europeia: incapacidade de pensar a historicidade e a vida em sua efetividade. O homem está situado na história de uma forma dinâmica e é somente nesta maneira que deve ser considerado. Se a verdade não pode ser mais o reflexo de uma estrutura eterna do real, um princípio único e unificador, um sistema de pensamento rígido e abrangente, então a totalidade deve ser captada como “uma mensagem histórica que devemos ouvir e à qual somos chamados a dar uma resposta” (Vattimo 2004, p. 13). Na perspectiva filosófica de Vattimo, a palavra evento é tão significativa em nossa época como foi para os gregos o termo logos ou para os chineses, o Tao. De fato, quando não dá para pensar o ser como simples presença por causa de seu enfraquecimento progressivo, só pode aparecer como evento, em sua dinamicidade histórica. Só que é desta forma e somente assim que o ser deve ser entendido, ou seja, como interligado à existência humana. Em outras palavras: o fim da metafísica como presença, provocado pelo desmoronamento dos sistemas fortes elaborados na busca de uma objetividade absoluta, desvenda a realidade do ser e do próprio homem, que não existe em si e por si, mas somente como relacionamento recíproco.

O ser relaciona-se com o homem enquanto tem necessidade deste para acontecer; e o acontecer não é um acidente ou uma propriedade do ser, mas é o próprio ser. Nem o homem nem o ser podem conceber-se como “em si”, que depois se encontram em relação (Vattimo 1996, p. 116).

O fim da metafísica como busca do fundamento único da realidade, além de manifestar o niilismo como consequência deste projeto, revela ao mesmo tempo a nova possibilidade de pensar o homem assim como ele é, ou seja, dentro de seu dinamismo histórico e existencial. O ser nunca é outra coisa senão seu modo de se dar na história aos homens de uma determinada época.



[1]. Cf. sobretudo: Gianni VATTIMO, Introdução a Heidegger, Instituto Piaget, Lisboa 1996; Le avventure della differenza. Che cosa significa pensare dopo Nietzsche e Heidegger, Garzanti, Milano 2001; O fim da modernidade. Niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna, Martins Fontes, São Paulo 2002; Il soggetto e la maschera. Nietzsche e Il problema della liberazione, Bompiani, Milano 2003.

[2]. Esta crítica está presente sobretudo em: G. VATTIMO, Addio alla veritá, Maltemi, Roma 2009

[3]. Cf. A.J. AYER, Linguagem, verdade e lógica, Editorial Presença, Lisboa 1991; Paul FEYERABEND, Contra o Método, Francisco Alves, Rio de Janeiro 1989.

[4]. Cf. F. LYOTARD, A condição pós-moderna, José Olimpio, Rio de Janeiro 20048.

A origem da vocação: Deus

 




Paolo Cugini


Se existe um dado inalterável e, ao mesmo tempo, irrenunciável para abordar qualquer discurso sobre a vocação, é este: é Deus que chama, é Ele que toma a iniciativa. Encontramos este “fenômeno” já nas primeiras páginas da Bíblia, quando Javé se dirige a Abraão com estas palavras: “Sai da sua terra, do meio dos seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu te mostrarei” (Gen 12, 1). Da mesma maneira, mas em circunstâncias diferentes, é Deus quem toma a iniciativa para salvar o seu povo do cativeiro do Egito escolhendo um guia. “Do meio da sarça Deus chamou: ‘Moisés, Moisés!’ Ele respondeu: ‘aqui estou’” (Ex 3,4 ). Assim por diante, nas páginas da Bíblia, encontramos o chamado de Samuel, Elias, Davi, Isaías, Jeremias, até chegar ao chamado dos discípulos de Jesus.

O primeiro dado que aparece nos relatos bíblicos da vocação, é que Deus chama uma pessoa por nome, buscando a aproximação, o relacionamento pessoal. O segundo dado, que se apresenta nestas narrações, é que a identidade das pessoas chamadas por Deus se realiza na mesma relação com Deus. Tudo isso nos leva a concluir que a prioridade da primeira fase do acompanhamento do vocacionado, não deveria ser concentrada frisando o serviço à comunidade, mas ajudando o vocacionado a aprofundar o mistério do chamado de Deus. De fato, se Deus chama Moisés para salvar o povo de Israel e não chama outras pessoas, isto quer dizer que, na libertação do povo de Israel e no conhecimento do caminho que ele realizou para chegar à terra prometida, o conhecimento da identidade e da pessoa de Moisés é extremamente importante. Isso vale para qualquer personagem da Bíblia, que tenha um sentido vocacional. É por isso que podemos afirmar com segurança que, do ponto de vista bíblico, a prioridade da história da salvação não é o serviço ao povo mas o chamado daquela pessoa específica[1].

Pastoralmente falando podemos dizer que, se Deus chama, é necessário acompanhar o jovem chamado para que seja colocado na condição de escutar, para aprofundar o relacionamento pessoal com o protagonista do chamado, que é Deus mesmo. É isso que encontramos na experiência dos grandes vocacionados da Bíblia. Abraão é visitado em várias circunstâncias ao longo da sua vida por Deus, que lhe manifesta o seu projeto e a renovação das promessas, por causa da sua mesma obediência e fidelidade. Também Moisés e Elias, que sintetizam todo o Antigo Testamento -a Lei e os profetas- vivem um intenso relacionamento pessoal com Deus e o próprio Javé se manifesta pessoalmente a eles de maneira diferente, conforme o específico da vocação de cada um (cf. Ex 33, 18s; 1Rs 19, 1-18).

A experiência pessoal de Deus, é um traço típico do profetismo de Israel. Assim, encontramos páginas de uma intensidade única no diário de Jeremias[2], expressões que demonstram uma busca pessoal sem limites, que o distancia em profundeza de qualquer outra pessoa do povo de Israel. O relacionamento que Deus institui e cultiva ao longo dos anos com os seus profetas, os seus escolhidos, não é apenas ministerial, mas de amor[3]. Deus escolhe os seus enviados, os seus profetas, envolvendo-os de atenção amorosa, pois o serviço que eles são chamados a realizar é manifestar, com o próprio testemunho de vida, que Deus é amor e ama o seu povo. Existe um laço de paternidade incrível entre Javé e seus profetas. Elias, por exemplo, se encontra no auge da sua missão totalmente desesperado pelo aparente fracasso do seu trabalho profético[4]. Javé, então, o chama, o alimenta, se apresenta, o anima e estimula para continuar a missão, mostrando assim que servir o Reino de Deus não é um puro e simples trabalho material, que busca a eficiência, a segurança humana dos resultados, mas é apoiado exclusivamente na confiança em Deus, na sua ternura, no seu amor. Aquilo que aconteceu com Elias, com matizes diferentes, é vivido também por Jeremias, Davi, Isaías, Ezequiel, Malaquias, Oséias, e tantos outros.

Estas simples anotações, têm como objetivo frisar o dado bíblico fundamental que o profeta não é apenas um funcionário de Deus, que deve realizar um trabalho: é um escolhido de Javé, que ele mesmo chama e constantemente acompanha e cuida com carinho e amor.

A tudo isso podemos dar um nome: espiritualidade vocacional. Esta, de fato, não é apenas identificada com a coragem tipicamente profética de enfrentar reis e políticos, para questionar as injustiças e, assim, apontar o julgamento de Deus. Esta identificação da espiritualidade profética com a ação social deles é extremamente limitante e escassamente fundada na Bíblia. A espiritualidade dos profetas aponta, antes de mais nada, para aquela busca pessoal de Deus que faz do profeta um apaixonado de Javé. “Tu me seduziste, Javé, e eu me deixei seduzir. Fostes mais forte do que eu e venceste” (Jer 20,7). Palavras tocantes que desvendam uma experiência de amor, um envolvimento total, que abrange todo o universo pessoal. É este o dado que, nestas últimas décadas, por causa sobretudo dos eventos políticos, sociais e culturais, que afetaram o mundo todo, se perdeu no caminho formativo. Nas décadas dos anos ‘70 e ‘80, o compromisso social da Igreja levou a identificar o cristianismo como uma prática social e política, uma atividade. Dizia-se que Cristo é presente nos pobres e, por isso, não precisava explicitar o Evangelho, ou o nome de Jesus, enquanto era possível encontrá-lo na ação considerada especificamente evangélica: a opção pelos pobres. Infelizmente, a história mostrou que muita gente explorou a opção pelos pobres para se promover politicamente. O grande santo Charles de Foucauld[5] nos mostrou que, para amar os pobres de uma forma gratuita e desinteressada, precisa abastecer a própria alma daquele amor de Deus que se manifestou em Jesus e que encontramos na Eucaristia. A sua dedicação aos pobres era uma consequência das horas que passava ajoelhado em silêncio perante a Eucaristia.

Do outro lado, nos anos ‘90, a Igreja do Brasil assistiu à impressionante expansão das Igrejas neopentecostais e à explosão do movimento da Renovação Carismática Católica que, de uma certa forma, se apoderou da palavra espiritualidade[6]. O contexto religioso e histórico no qual a RCC se desenvolveu no Brasil, fez com que a palavra “espiritualidade” fosse identificada com individualismo e, do outro lado, com desempenho no campo social. E assim está acontecendo, na Igreja do Brasil, aquilo que aconteceu na época da Reforma. Sendo que Lutero frisava a importância da palavra de Deus, colocando em segundo plano a Tradição, a contra reforma Católica decidiu, no Concílio de Trento, priorizar a Tradição da Igreja, deixando em segundo plano a Bíblia. A história, com a falta de escuta de um e do outro, levou os protestantes e os católicos por caminhos de incompreensão que geraram guerras, violências e ódio que se protelaram até os dias de hoje. Esta atenção à escuta do outro deveria acontecer hoje dentro da Igreja Católica do Brasil, para chegar a uma vivência mais coerente e fraterna com o Evangelho que prega.

A espiritualidade bíblica aponta para uma unidade da experiência mística pessoal com Deus com o compromisso, que esta mesma experiência gera. Nada, então, de contraste e antagonismo entre interioridade e empenho social, mas unidade profunda entre as duas dimensões da experiência espiritual[7]. Isso quer dizer que, quando aparecem formas antagônicas entre interioridade e empenho social, não é por causa da verdadeira oposição entre os dois mundos, mas por causa de uma falta na compreensão dos dados bíblicos.

Se Deus deixou na Palavra revelada um modelo de guia que, com a ajuda do Espírito Santo, deve ser reproduzido, isso quer dizer que espiritual e social não são duas antinomias, mas sim dois elementos complementares da mesma experiência de Deus. É porque os profetas eram repletos do amor de Deus, que não aguentavam ver as injustiças dos políticos e ricos do tempo contra os pobres e os indefesos. Além disso, esta mesma circularidade entre momento contemplativo e ativo, encontra-se no próprio Jesus, o qual era acostumado a se entregar na oração de noite ou de madrugada e depois, ao longo do dia, dedicar o seu tempo para cuidar dos pobres, curar os doente e liberar os endemoniados (Cf. Mc 1, 17-37).

Na própria vida de Jesus é assim possível entender que a busca da intimidade com Deus, longe de ser uma fuga no individualismo egoísta ou num espiritualismo desencarnado, torna-se uma exigência profunda na vida do escolhido de Deus. Aliás, talvez seja esta busca de Deus o sintoma mais claro da autenticidade da vocação.



[1] Sobre este assunto cf. REINER, J., -DREIFUSS, G., Abramo: l’uomo e il simbolo, Giustina, Firenze 1994; KIRSCH, J., Mosè, una vita, Garzanti, Milano 2005; HESS, R., Giosuè, GBU, Roma 2006. Nessa altura, achamos interessantes as reflexões de CENCINI, A., Quando Deus chama, Paulinas, São Paulo 2003; e também as reflexões teológicas de: SANNA, I., Chiamati per nome. Antropologia teologica, San Paolo, Cinisello Balsamo 1994.

 

[2] Cf. sobretudo os capítulos 7,15 e 20.

[3] Cf SHOKEL, L.A., Profetas I,II, Paulus, São Paulo 2004, sobretudo o comentário ao capítulo 31 do profeta Jeremias e do capítulos 2 e 11 do profeta Oseias; SICRE, J.L., Profetismo em Israel, Vozes, São Paulo 1996.

[4] Cf. 1 Reis 19,1-18.

[5] Charles de Foucauld (1858-1916). Para uma primeira abordagem sobre a espiritualidade deste santo, cf.: AA.VV., L’eloquenza di una vita secondo l’Evangelo, Qiqaion, Bose- Magnano, 2003.

[6] Emanule Mounier, analisando a situação politica dos anos Trinta na Europa, dizia que quando os movimento de direita se apoderam da palavra “espiritual”, os movimentos de esquerda começam a falar de “Mistica”, abrindo o campo a muitas reflexões ambiguas (cf. Cristianità nella storia, cit..p. 78;91).

[7] É este um dos temas que Mounier enfrenta na sua obra principal:O personalismo, cit. p. 69-77.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

BIBLIOGRAFIA DOS ULTIMOS TRES ARTIGOS

 





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A VIDA PÓS MODERNA COMO ESCUTA DA REALIDADE E FUGA NO PRESENTE

 




Como está se delineando a vida neste novo contexto cultural? Como viver numa realidade que não oferece mais um quadro de referência e orientação? Com quais critérios as pessoas podem tomar decisões importantes quando falta uma estrutura de valores fixa? Nesse nível do discurso, mais que apontar ideias certas e seguras, podemos humildemente esboçar algumas veredas que estão se apresentando no horizonte cultural pós-moderno.

Uma primeira mudança significativa consiste em buscar as soluções perante situações conflitantes, não mais se apoiando sobre sistemas metafísicos cuja fundamentação objetiva encontra-se no além, fora do mundo fenomênico e ao alcance da vida real, mas utilizando uma forma dialógica, sinodal. Como vimos nos parágrafos anteriores, uma característica fundamental da cultura pós-moderna consiste no fim da racionalidade metafisica, naquele tipo de mentalidade que buscava apoio para a confirmação das próprias decisões. O filósofo alemão Jürgen Habermas há anos vem desenvolvendo uma reflexão que busca uma nova objetividade para orientar as decisões a serem tomadas, sobretudo quando envolvem a sociedade, que não são mais fundamentadas numa ontologia de tipo metafisico, mas sim na busca de uma convergência entre as pessoas envolvidas na discussão. Na sociedade moderna, as religiões (e em especial o Cristianismo) estão num contraste crescente com as estruturas da racionalidade, que se emancipam e cada vez mais se diferenciam e se especializam. Habermas, do ponto de vista empírico, observa uma tendência à subjetivação e à privatização da fé, que perde a função de imagem do mundo capaz de fornecer uma interpretação unitária do ser e apresentar um sentido do todo, capaz de estabilizar as contingências inevitáveis, justificando-as à luz de um imperscrutável plano de salvação da humanidade e de todo o cosmos (HABERMAS, 1998). Com a passagem ao pensamento moderno, as interpretações religiosas do mundo, assim como acontece com todo passo evolutivo crucial, “são desvalorizadas no seu sistema categorial, seja qual for o seu conteúdo, uma vez que não é mais esta ou aquela razão que não convence, mas o tipo de razão utilizada” (HABERMAS, 1998, p. 89). A esses elementos de contraste com a racionalidade moderna, que são todos eles comuns também às concepções metafísicas do mundo, poder-se-ia acrescentar um outro, que é, por sua vez, específico das religiões: o fato de ligarem a interpretação global, indissoluvelmente verídica e normativa, a uma oferta de sentido capaz de propiciar consolo diante das situações individuais de negatividade insuperável uma tarefa que, segundo Habermas, a filosofia pós-moderna jamais assumiria.

Fora da igreja, fora do governo e fora da vida doméstica, existe um espaço para as pessoas discutirem sobre vida. Habermas chama isto de esfera pública onde ideias são examinadas, discutidas e argumentadas. O espaço dessa esfera pública tem diminuído sob a influência das grandes corporações e do poder da mídia. Uma implicação óbvia é que isto é uma estratégia de divisão e conquista. Um recente evento interessante é o surgimento da Internet como uma nova esfera pública. Habermas argumenta que qualquer um que usa a linguagem, presume que ela pode ser justificada em quatro níveis de validade:

a.                  Que o dito é inteligível, ou seja, a utilização de regras semânticas compreendidas pelos outros;

b.                 Que o conteúdo do que é dito é verdadeiro;

c.                  Que o emissor se justifica por certos direitos sociais ou normas que são invocadas no uso de idioma;

d.                 Que o emissor é sincero no que diz, não tentando enganar o receptor.

Isto é o que o Habermas classifica de comunicação não distorcida (HABERMAS, 2012, p. 134). Quando uma das regras é violada, ou seja, o locutor está mentindo, então a comunicação está distorcida. Esta teoria de comunicação tem muitas implicações, inclusive uma definição de verdade de caráter universal. E em cada um desses temas expressa-se a característica de Habermas, herança explícita da Escola de Frankfurt, isto é, a abordagem dita crítica a respeito das teorias, das ciências e do próprio presente, construindo, assim, um conhecimento engajado e revolucionário. Seguindo esse eixo e introduzindo uma nova visão a respeito das relações entre a linguagem e a sociedade, em 1981 Habermas publicou aquela que é considerada sua obra mais importante: A teoria da ação comunicativa.

Para Habermas a linguagem serve como garantia da democracia, uma vez que a própria democracia pressupõe a compreensão de interesses mútuos e o alcance de um consenso. Contudo, para que a linguagem assuma este papel democrático, no pensamento habermasiano é necessário que a comunicação seja clara. “O conceito do agir comunicativo pressupõe a linguagem como médium de uma espécie de processos de entendimento ao longo dos quais os participantes, quando se referem a um mundo, manifestam de parte a parte pretensões de validade que podem ser aceitas ou contestadas”. (HABERMAS, 2012, p. 191)

Para Habermas, a distorção de palavras e de sua compreensão impede uma comunicação efetiva, o consenso e, portanto, a prática efetiva da democracia. O uso correto das palavras, entretanto, só ocorreria quando fosse abandonado o uso exclusivo da razão instrumental – ou iluminista – a razão utilizada pelo sujeito cognoscente ao conhecer a natureza com o fim de dominá-la, ou seja, a confusão do conhecimento com a dominação, exploração e poder.  Dessa maneira, a razão torna-se um instrumento de uma ciência que, deixando de ser acesso a conhecimentos verdadeiros, torna-se meio de dominação e poder da Natureza e dos próprios seres humanos.  Dessa maneira, torna-se necessária uma razão que não seja instrumento de dominação, mas de democracia: a razão comunicativa. A razão comunicativa, além de compreender a esfera instrumental de conhecimentos objetivos, alcança a esfera da interação entre sujeitos, marcada por simbolismo e subjetivismo, experiências pessoais e a contextualização dialógica de agentes linguísticos. A prática da ação comunicativa não se limita apenas à busca do consenso da democracia, mas também é instrumento para pedagogia, filosofia e muitos outros campos da ação humana. (HABERMAS, 2014)

Outra mudança que nos chama atenção consiste na dificuldade de levar em frente as decisões tomadas, sobretudo aquelas que deveriam ser definitivas. É o para sempre que assusta. Essa mudança percebe-se folheando as páginas dos registros de matrimônio que se encontram nas paróquias: simplesmente despencaram. A mesma atitude se percebe nas vocações religiosas. Os conventos são vazios, os seminários também. Há algumas décadas, como nos ensinou o filósofo canadense Charles Taylor, a identidade pessoal era construída sobre convicções sólidas, alicerçadas em valores que pareciam eternos, inquebrantáveis. Hoje, esse modelo existencial não aguenta mais. O desmoronamento das metanarrações está nos mostrando o caráter fictício dos assim chamados valores eternos que, aos olhos do novo contexto cultural, não são tão eternos. O novo contexto cultural nos mostra que aquilo que era chamado de vocação, produzindo rios de escritos espirituais sobre este aspecto, na realidade trata-se de um fato sociológico. Até a chamada vocação religiosa é fruto de um contexto sociocultural. Esta análise não tira a bondade da existência de tantas pessoas que, ao longo dos séculos, abraçaram este específico estilo de vida, mas simplesmente é possível salientar, graças ao novo contexto que desmascara as construções culturais, que aquilo que era chamado de vocação com um sentido marcadamente espiritual e, por isso, algo que tinha uma proveniência extra fenomênica, que dava a este estilo de vida um marco de definitividade, é o fruto de um específico contexto cultural que molda também o mundo religioso. A fenomenologia da religião nos ensina há anos as interligações entre religião e os vários setores da sociedade (VAN DER LEEUW, 2017).

O fracasso dos sistemas produzidos, seja na época medieval, seja na modernidade, está desmascarando a alegada eternidade dos valores apontados. Esse aspecto abre o caminho para o niilismo de um lado e o relativismo ético do outro. Em âmbito religioso, niilismo e relativismo sempre foram marcados negativamente, mas escondem algo de positivo, que vale a pena analisar. Como nos alertava Nietzsche, o niilismo é a consequência do fim da metafísica, ou seja, daquela forma de pensar o mundo antecipando a realidade, para interpretá-la e colocá-la dentro de esquemas pré-constituídos. O niilismo, assim entendido, não aponta simplesmente o fim dos valores construídos na modernidade, mas indica também um novo caminho. O desmoronamento dos valores da modernidade revela uma maneira errada de abordar a realidade que, forçando a natureza, constrói um mundo e uma realidade fictícia, irreal, tornando a mesma existência irreal e, então, falsa. Dessa maneira, o niilismo não indica apenas o esvaziamento dos valores metafísicos, mas sobretudo, o desmascaramento de uma realidade construída sobre conjeturas. A cultura pós-moderna abre o caminho para uma nova maneira de se relacionar com a realidade, com o cosmo, enfim, uma maneira mais respeitosa. Não precisamos mais viver uma existência moldada em valores eternos, mas simplesmente buscando o bem corriqueiro que brota das relações humanas, do concreto viver. O sentido de valores se descobre vivendo no dia a dia, em contato direto com as pessoas e com a natureza. Acostumados a sacrificar o presente em prol de bens futuros, a sacrificar a vida real no altar do paraíso futuro, ficamos desnorteados perante esta perspectiva: não somos preparados e, por isso, não sabemos para onde ir, nem por onde começar. É estranho pensar que o homem e a mulher não estejam preparados para viver o presente, a realidade corriqueira, mas infelizmente é aquilo que percebemos. Vem à nossa mente as palavras pronunciadas por Nietzsche em “Assim Falou Zaratustra” quando, depois de ter anunciado a morte de Deus e a vinda do super homem, constatando o sarcasmo e a incompreensão das pessoas que escutaram a mensagem, se questiona se talvez o anúncio não foi adiantado demais. (NIETZSCHE, 2018).

Aprofundando o discurso, podemos nos questionar: o que significa viver no presente, escutar a realidade? Do ponto de vista geral, significa aprender a não antecipar o contato com o fenomênico, mas acolhê-lo assim como se oferece à consciência. O momento da elaboração racional deveria acontecer numa segunda fase. É isso que nos ensina o Papa Francisco, quando afirma que a realidade é mais importante do que a ideia.

 A ideia – as elaborações conceituais – está ao serviço da captação, compreensão e condução da realidade. A ideia desligada da realidade dá origem a idealismos e nominalismos ineficazes que, no máximo, classificam ou definem, mas não empenham. O que empenha é a realidade iluminada pelo raciocínio (FRANCISCO, 2016, n. 231-233).

O grande risco que acompanhou ao longo dos séculos o mundo ocidental é a possibilidade de viver um mundo artefato e, por isso, irreal. Os idealismos como construções racionais voltadas a sistemas que organizam a realidade, conforme princípios pré-constituídos, é uma forma de se defender da realidade, percebida como perigo. Este dado cultural é altamente paradoxal, pois nos alerta sobre uma cultura que se estruturou não para viver a realidade, mas para defender-se dela. Como nos lembrou Jean Luc Marion, um dos maiores fenomenólogos da atualidade: “O ser não pode ser pensado que no momento em que se oferece” (MARION, 2010, 46). Acolher o ser, como se manifesta no presente da história, é o único caminho para não deformar a realidade, moldá-la ao nosso gosto, subjugá-la para que realize os nossos desejos. É também, o único caminho que temos para experimentar a realidade que se manifesta no tempo presente. Antes der ser uma ameaça, é um dom.

A intuição de Papa Francisco acenada anteriormente, é bem visível no princípio da encarnação do Verbo. Depois da vinda de Jesus, não é mais possível falar de Deus sem se deparar com a realidade histórica do Verbo encarnado. É a realidade de Jesus que precede qualquer ideia ou ideologia sobre Deus. A teologia só pode ser reflexão a partir da escuta da realidade que se manifestou em Jesus e continua se manifestando através da ação do Espirito Santo na Igreja e fora dela. Quanta teologia foi produzida sem levar em conta este princípio fundamental do Cristianismo. Muita teologia não foi nada mais que ideologia a serviço de interesses particulares. Ainda hoje, toda vez que uma teologia se declara em defesa de valores eternos, imóveis, inalteráveis, fixos uma vez por todos, está se colocando fora da realidade de Jesus, que viveu uma dinâmica histórica feita de nascimento, existência concreta, relações humanas, morte e ressureição. Acompanhar a realidade da encarnação do Verbo significa a humildade de depor as armas filetadas das ideologias cômodas elaboradas num escritório, para se colocar a serviço da vida, que é dinâmica, em movimento e, por isso, sujeita à mobilidade. 

No plano da vida social, a tentativa de viver a realidade presente deveria significar elaborar uma política, uma economia não como projeção de cálculos que devem demostrar um sistema previamente elaborado, mas sim levando em conta as reais condições das pessoas. Como nos lembra o economista francês Thomas Piketty, a desigualdade social é interligada ao sistema econômico dominante (PIKETTY, 2015). Uma economia, que não leva em conta a realidade e o contexto social das pessoas, não pode produzir uma proposta solidária, de partilha entre todos e, ao mesmo tempo, uma política que ajude as pessoas a viverem bem. Enquanto a justiça, o bem e a solidariedade forem considerados conceitos, ideias abstratas, continuaremos a viver mal, a produzir monstros e a destruir o planeta. Mas agora, quando estamos assistindo ao desmoronamento das projeções dos sistemas elaborados no passado, desmoronamentos bem visíveis na eterna crise econômica, na crescente desigualdade social, no contundente colapso ecológico, é possível mudar de rumo, deixando de elaborar projeções que passam por cima da realidade para finalmente focar o nosso interesse no bem da humanidade na sua totalidade, que abrange também o mundo animal e o mundo material. É ainda este desmoronamento que está manifestando a verdade das economias e das políticas produzidas na modernidade, que se revelam ideologias a serviço não da vida do povo, mas de interesses particulares de poucos.

Nesta fase intermediária, que gera ansiedade e insatisfação pela incapacidade de encontrar novas resposta que oriente a vida, a tentação existencial é a fuga. A relativização dos valores absolutos e a perda de sentido do fim, provoca como consequência um esmagamento existencial no presente. Nesse sentido, a tentação da fuga, que acompanha a fantasia da geração pós-moderna, não é num mundo fantasioso, como poderia ter sido na época moderna, mas, pelo contrário, trata-se de uma fuga no tempo presente, um mergulho em tudo aquilo que pode oferecer o instante atual, liberado de toda forma de estrutura metafisica, que forçava a existência e a coletividade a projetar-se num mundo futuro a detrimento do tempo presente. Não é um caso que encontramos, logo após a queda do muro de Berlim, considerado por muitos pensadores como um dos eventos que marcaram o fim da época moderna (VATTIMO, 2002), alguns assim chamados profetas da pós-modernidade que falaram de fim da história (FUKUJAMA, 1992) e do fim da era das utopias (FEST, 1992). Faltando uma estrutura metafísica que justifique valores transcendentes, toda a atenção é dada àquilo que o tempo presente pode oferecer. Enquanto, num tempo, as pessoas se apoiavam sobre valores eternos partilhados pela comunidade, que ajudava as pessoas a levar em frente por toda a vida as decisões tomadas na juventude, agora esse esforço de fidelidade parece sem sentido. Ninguém, de fato, quer mais sacrificar o presente por algo que não se percebe e talvez não exista mesmo. O mundo dos valores espirituais, que fundamentavam as decisões da época moderna, deixa livre o campo para aproveitar ao máximo aquilo que a realidade presente oferece. Essa mudança radical de perspectiva, incide, também na estruturação da identidade pessoal. Bauman sustenta que, no mundo líquido, como ele define a cultura pós-moderna, não é mais possível agarrar-se num único tipo de identidade, como acontecia na modernidade. A rapidez de mudanças do mundo líquido exige a capacidade de um grande espirito de adaptação. O risco é ficar de fora e tornar-se inatual, fora do tempo e do lugar (BAUMAN, 2005).

A inquietação provocada pela rapidez das mudanças torna difícil se apegar a uma única opção de vida e, sobretudo, a levar em frente essa única opção pela vida toda. Papa Francisco, em várias circunstâncias[1], alertou os fiéis sobre a tentação de viver uma vida dupla, seja no matrimônio, seja na vida religiosa. A frustração causada por uma escolha que não satisfaz mais, leva a pessoa a buscar outro caminho mantendo válida, porém, a primeira escolha. Tudo isso, é causado pela necessidade de salvar de um lado a aparência social, do outro, a não causar uma fratura na identidade forte, que exige uma continuidade com as escolhas tomadas. Essa necessidade de salvar a aparência típica da cultura moderna, brota da necessidade de permanecer fiel à única possibilidade de vida escolhida. Talvez seja esse um dos limites daquela proposta que exige das pessoas uma identificação única, pela qual o ser da pessoa é identificado com a tarefa que assume no contexto social em que vive. Se de um lado esta proposta, que moldou o ocidente por muitos séculos, facilita a vivência numa específica sociedade, que assim permite classificar as pessoas e identificá-las, do outro lado, essa identificação, tão estrita, aperta demais a existência, sufocando a liberdade das pessoas, que se sentem forçadas a viver no único modelo escolhido. A fuga desse modelo existencial era, anteriormente, considerada um ato desafiador pela inteira sociedade, porque se sentia questionada no seu alicerce moral. No novo contexto cultural, não apresenta notas tão negativas. De fato, a pós-modernidade, concentrando-se na vida real do tempo presente, ajuda a aliviar a pressão de salvar, a qualquer preço, escolhas que, com o passar do tempo, perdem sentido, visando verificá-las continuamente, buscando novos sentidos a partir das mudanças vivenciadas. Viver no presente significa abandonar as fáceis seguranças oferecidas pelos horizontes metafísicos, mas que lentamente esvaziam o sentido de escolhas realizadas e nunca atualizadas, em prol da coragem de levar responsavelmente em frente a própria vida, renovando em cada momento o rumo da existência pessoal. Nesse sentido, a fuga na realidade como paradigma da pós-modernidade, longe de ser algo negativo, apresenta aspectos positivos. É verdade que uma vida esmagada na realidade presente, perdendo um horizonte de vida mais abrangente, corre o perigo constante de uma deriva materialista. Famosas são, a este respeito, as páginas de Bauman quando analisa o vazio que o consumismo está gerando no mundo líquido. Sem pontos referenciais aos quais se apoiar, a vida pessoal, acostumada a se escorar neste apoio estrutural, preenche sempre mais o vazio com a matéria (BAUMAN, 2008). É também verdade, porém, que o esforço de acolher a realidade como um dom, aprendendo a viver no presente da história permite resgatar aqueles elementos da vida que a tradição ocidental deixou de lado e muitas vezes menosprezou. Talvez seja nesta época que o dionisíaco e o apolíneo podem voltar a viver em harmonia, sem querer que um prevaleça sobre o outro. Uma harmonia alcançada como fruto de uma atenta escuta da realidade mergulhada no presente da vida, mas não esmagada nele. A fuga na realidade presente não significa esquecimento do passado nem recusa de pensar o futuro. Pelo contrário, aprender a escutar a realidade para acolher os dons que ela traz consigo, significa valorizar a experiência que vem do passado, porque no presente da história encontramos traços significativos do tempo que foi. Ao mesmo tempo, a vida no presente, contextualizada na comunidade em diferentes níveis de pertencimento, ajuda a assumir a responsabilidade que as relações humanas exigem. Caminhar no presente da história, levando consigo os ensinamentos do passado rumo a uma meta que não está planejada de antemão, mas que é construída dia após dia, é o sentido desse itinerário. Trata-se, então, de uma fuga do mundo irreal planejado com antecedência, que não permite às pessoas viverem o presente, para finalmente poder sentir na pele o ar da vida real. Mais uma vez, é a este nível que é possível reconstruir a antiga harmonia de apolíneo e dionisíaco,  sentimento e racionalidade, espírito e matéria. É esta harmonia que, respeitando profundamente a realidade da nossa estrutura antropológica, nos ajuda a saborear a novidade que a realidade manifesta a cada dia no tempo presente.



[1] Na homilia do 5 de maio 2017, na capela de Santa Marta, o Papa Francisco falou: “São os rígidos de vida dupla: se mostram belos, honestos, mas quando ninguém os vê, fazem coisas feias. Ao invés, este jovem era honesto, acreditava nisso. Quando falo disso, penso em muitos jovens que caíram na tentação da rigidez, hoje, na Igreja. Alguns são honestos, são bons, devemos rezar para que o Senhor os ajude a crescer no caminho da mansidão”. É interessante notar a ligação intrínseca entre rigidez, típica da formação da cultura moderna, e vida dupla produto negativo da mesma.