quinta-feira, 25 de junho de 2020

genocídio e crimes contra a humanidade




Prof.: FRANCESCO TAGLIARINI

Sábado 20 de junho 2020
Síntese: Paolo Cugini

Estamos vivendo num mundo que é bom repassar as conquistas do passado. No Estatudo de Roma do 1998 foram estabelcidos alguns crimes importantes, sobretudo nos artigos 6 e 7: genocidio e crimes contra a humanidade.


O artigo 5 do Estatuto de Roma de 1998 codificou que eles podem ser chamados de crimes internacionais. Primeiro é o crime de genocídio. O termo crimes foi usado na carta do estatuto. O crime por excelência do tribunal é o genocídio. No tribunal de Nuremberg, os crimes contra a humanidade foram descritos de uma maneira que envolvia genocídio.

Segundo tipo de crime: contra a humanidade. Esta dicção é muito precisa. Na linguagem e no sentimento comum, ninguém poderia negar que o genocídio foi incluído nos crimes contra a humanidade. Queríamos fazer essa distinção a partir da experiência histórica. O genocídio armênio e judeu são os dois pontos de referência.

Outras formas de genocídio têm sido muitas. Há uma parte do mundo que foi criada através do genocídio: a América Latina. Genocídio dos povos indígenas. O objetivo era caçar e expulsar os nativos das terras que eles queriam conquistar. Para a América do Norte, isso era parcialmente diferente.

Crime de genocídio: tem grande relevância porque, enquanto para outros crimes contra a humanidade a cultura legal ainda não estava culturalmente pronta para enfrentar os outros crimes, isso não é verdade para o crime de genocídio. A lei contra o genocídio foi aplicada na assembléia das Nações Unidas em 9 de dezembro de 1948. Na época, a idéia era institucionalizar os tribunais de Nuremberg e Tóquio.
Ou criar instituições ou apelar à solidariedade dos estados para participar das convenções. Havia uma certa tendência a considerar que o genocídio pode ser uma das consequências do estado de guerra.

1. O genocídio pode ocorrer em tempos de paz e em tempos de guerra (art. 6 dos tratados de Roma).
2. O genocídio é sempre um fato que não parte dos povos, mas de organizações estatais ou relacionadas a eles. Começa sempre com um desenho político-militar.

3. Queriam identificar a essência do crime não tanto na conduta, mas na intenção. A intenção do genocídio é destruir um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, no todo ou em parte.
A história está cheia de genocídios tribais. Havia populações como os magiares, os húngaros.



Estatuto de Roma, artigo 6: Crime de genocídio para os fins deste Estatuto, crime de genocídio significa um dos seguintes atos cometidos para destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, e precisamente:

a) matar membros do grupo;

b) causar ferimentos graves à integridade física ou mental das pessoas pertencentes ao grupo;

 c) submeter deliberadamente as pessoas pertencentes ao grupo a condições de vida que resultem na destruição física total ou parcial do próprio grupo;

d) impor medidas para prevenir partos dentro do grupo;

 e) transferência forçada de crianças pertencentes ao grupo para um grupo diferente.
O problema não era uma perseguição a um grupo religioso, mas étnico.

O termo que causa discussão é: grupo nacional. Enquanto falamos de grupos étnicos, raciais e religiosos, a descrição é perfeita. Quando se trata do grupo nacional, o problema é diferente, porque o conceito de nação surgiu no final do século XIX e nasceu não de nacionalismos, mas da afirmação das grandes nações europeias. Surge com as guerras da independência.

O conceito essencial de genocídio é voltado para conflitos étnicos, raciais e religiosos. Estamos na segunda metade do século XX. Momento de grande busca de cooperação. Começo do entendimento com religiões estritamente europeias.

Os principais genocídios eram étnicos e politicamente motivados. A Europa tinha uma memória dos massacres que haviam apoiado as guerras das religiões. A Guerra dos Trinta Anos, no século da reforma, deu origem a um complexo entre os países católicos e protestantes. Esse fenômeno no momento da formação nacional, no século XIX, era um elemento paralelo à monarquia.

No mundo. Hoje existe um problema étnico e religioso do povo rohingya.

Em alguns dos eventos mais graves das guerras iugoslavas, em vez da etnia, também contribuíram os aspectos religiosos. No Kosovo, eles destruíram a igreja ortodoxa pela maioria muçulmana. Na antiga capital, os minaretes foram destruídos pela minoria ortodoxa.

Submeter as populações a um sistema de vida para determinar a eliminação física, moral e psíquica através das formas mais díspares. Um é o sistema de deportações, que têm um conteúdo político e não uma intenção de genocídio. A deportação de armênios tem como único objetivo o genocídio.
Em termos de punição, a distinção é de pouca importância. Não há pena de morte, mas prisão perpétua, sentenças de até trinta anos e multas em dinheiro. Há prisão perpétua, mas a pena de morte foi proibida.



Artigo 7 Estatuto de Roma: Crimes contra a humanidade 1. Para os fins deste Estatuto, crime contra a humanidade significa um dos atos listados abaixo, se cometido no contexto de um ataque extenso ou sistemático às populações civis, e com a conscientização ataque:
 a) assassinato;
b) extermínio;
c) redução da escravidão;
d) Deportação ou transferência forçada da população;

 e) Prisão ou outras formas graves de privação de liberdade pessoal em violação das regras fundamentais do direito internacional;

f) tortura;
 g) Estupro, escravidão sexual, prostituição forçada, gravidez forçada, esterilização forçada e outras formas de violência sexual de gravidade semelhante;

h) Perseguição contra um grupo ou coletivo com identidade própria, inspirada por razões políticas, raciais, nacionais, étnicas, culturais, religiosas ou sexuais, na aceção do parágrafo 3, ou por outras razões universalmente reconhecidas como não permitidas para de acordo com o direito internacional, relacionado a atos sob as disposições deste parágrafo ou a crimes sob a jurisdição da Corte;
i) desaparecimento forçado de pessoas;

 j) Apartheid;
 k) Outros atos desumanos de natureza semelhante, destinados a causar intencionalmente grande sofrimento ou sérios danos à integridade física ou à saúde física ou mental.



 2. Para efeitos do no 1:
a) "ataque direto contra populações civis" significa conduta que implica a prática repetida de qualquer dos atos previstos no parágrafo 1 contra populações civis, na implementação ou execução do plano político de um Estado ou organização, destinado a executar a 'ataque;

 b) "extermínio" significa, em particular, submeter intencionalmente as pessoas a condições de vida destinadas a causar a destruição de parte da população, como impedir o acesso a alimentos e medicamentos;

 (c) "escravização", o exercício de um ou de todos os poderes inerentes aos direitos de propriedade de uma pessoa, inclusive no curso do tráfico de pessoas, em particular mulheres e crianças para fins de exploração sexual;

 d) "deportação ou transferência forçada da população" significa a remoção de pessoas, por expulsão ou por outros meios coercitivos, da região em que estão legitimamente localizadas, na ausência de razões previstas no direito internacional que lhe permitam;

 e) "tortura" significa infligir intencionalmente dor ou sofrimento graves, físicos ou mentais, a uma pessoa sobre quem você tem custódia ou controle; este termo não inclui a dor ou o sofrimento decorrentes exclusivamente de sanções legítimas, que estão inseparavelmente ligadas a essas sanções ou que sejam causadas incidentalmente por elas;

 f) "gravidez forçada" significa a detenção ilegal de uma mulher grávida pela força, a fim de mudar a composição étnica de uma população ou cometer outras violações graves do direito internacional. Esta definição não pode ser interpretada de forma a prejudicar a aplicação das leis nacionais em caso de interrupção da gravidez;

 g) "perseguição", a privação intencional e grave de direitos fundamentais. em violação do direito internacional, por motivos relacionados à identidade do grupo ou da comunidade;

 h) "apartheid" significa atos desumanos de natureza semelhante aos indicados nas disposições do parágrafo 1, cometidos no contexto de um regime institucionalizado de opressão e dominação sistemática por um grupo racial sobre outro ou outros grupos raciais, e para perpetuar esse regime;

(i) "desaparecimento forçado de pessoas" significa a prisão, detenção ou seqüestro de pessoas por ou com a autorização, apoio ou aquiescência de um Estado ou organização política, que posteriormente se recusam a reconhecer privação de liberdade ou fornecer informações sobre o destino dessas pessoas ou sobre o local em que estão localizadas, com a intenção de removê-las da proteção da lei por um longo período de tempo.

3. Para os fins deste Estatuto, o termo "sexo" refere-se aos dois sexos, masculino e feminino, no contexto social. Este termo não implica nenhum outro significado além do mencionado acima.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

SE LIGUE AÍ!


ENTENDER PAPA FRANCISCO






UM LIVRO QUE OFERECE AS CHAVES DE LEITURA PARA 

COMPREENDER A PROPOSTA DO PAPA FRANCISCO



Por que a proposta pastoral e eclesial do Papa Francisco está criando tanta confusão no mundo católico?


  O que incomoda em sua proposta? Acima de tudo, o que não entendemos e por que somos tão difíceis de segui-lo? É tão longe do evangelho ou é muito aderente a ele? Estas são algumas das questões subjacentes ao meu próximo livro, que será publicado em italiano no mês de junho pelas edições dehonianas de Bolonha, com o seguinte título:

  Igreja Povo de Deus: da experiência brasileira à proposta do Papa Francisco


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domingo, 10 de maio de 2020

A PROFECIA DAS MULHERES NA IGREJA




Paolo Cugini

Os estudos da teologia feminista já há anos alcançam não apenas um nível de cientificidade de valor valioso, mas estão levando o entendimento da dinâmica cultural estratificada no texto bíblico e na tradição eclesial a resultados impensáveis. Afinal, para aqueles acostumados a uma abordagem do texto bíblico transmitida pela tradição predominantemente masculina, é difícil compreender as nuances que o olhar feminino pode perceber. É estranho pensar que fazemos parte de uma tradição cultural que tratou as mulheres como inferiores, como seres cuja alma foi questionada até o século VII0 d.C. Houve uma concentração de mundos que se uniram para nocautear o pensamento feminino As culturas que fazem fronteira com o Mediterrâneo e, em particular as semitas, gregas e romanas, não pouparam golpes e argumentos imaginativos para demonstrar a inferioridade do que mais tarde será chamado de sexo mais fraco. Por um lado, o pensamento grego preparou os fundamentos filosóficos para a elaboração de uma antropologia misógina, que apoiou a cultura patriarcal já existente. Então os romanos chegaram, com Sêneca, Plínio o Jovem e Juvenal, só para citar alguns, reforçando a abordagem antropológica dualista e tendenciosa a favor do homem, mostrando como precisamente essa estrutura antropológica justificava a subordinação da mulher em relação ao homem. Subordinação que deveria ser muito clara também no nível social, na distribuição dos espaços: o homem na praça, a mulher em casa para cuidar dos filhos e tudo mais.

A batalha dos sexos é disputada em nível social. No debate cultural dos primeiros séculos do cristianismo, um dos principais temas, que já aparecerão nos escritos do Novo Testamento, será a decisão de quem começa a ensinar em um lugar público. O tema adquire significado precisamente no advento do cristianismo, à medida que a casa doméstica se torna o lugar do estabelecimento das primeiras comunidades cristãs. E é precisamente no lar, um espaço onde culturalmente a mulher não é apenas relegada, mas é chamada a cumprir sua identidade, que as comunidades cristãs testemunham o protagonismo das mulheres, que tomam a palavra para ensinar. O pensamento cristão antigo usará todas as ferramentas possíveis, também adotadas pela cultura pagã circundante, para restaurar a ordem, ou seja, silenciar as mulheres. Ponto de viragem deste declínio cultural, serão as palavras do autor da primeira carta a Timóteo que intimará mulheres para manter a calma: " A mulher aprenda em silêncio em total submissão. Não permito que a mulher ensine, nem domine o homem, permaneça antes em uma atitude calma "(1 Tim 2: 11-12).



A partir deste momento, forma-se uma aliança cultural real para demonstrar a inferioridade das mulheres sobre os homens e a necessidade de os homens guiarem as mulheres, que devem permanecer submissas a elas. O que o pensamento patrístico acrescentará à produção cultural misógina abundante do mundo grego e romano não será apenas o aprofundamento da antropologia platônica sobre o assunto, mas, sobretudo, o fundamento bíblico da subordinação da mulher ao homem. Primeiro, ela enfatiza o fato inegável de que o primeiro a ser criado por Deus era Adam, e só mais tarde criou Eva, a famosa costela. Existe, portanto, uma subordinação que encontra apoio até da vontade de Deus. Além disso, e será um dos cavalos de produção da produção homilética medieval contra a mulher, está fora de questão que foi Eva ser enganada pela cobra e não Adam. A fraqueza natural da mulher, sua fragilidade física e mental, sua inconstância e a consequente necessidade de um homem para poder levar em frente sua existência, doravante encontra no texto bíblico um aliado irrefutável.

Como Selene Zorzi mostrou em um estudo recente[1] , a produção cultural cristã contra as mulheres é desencadeada atingindo níveis paroxísticos, após 1115 depois de Cristo, isto é, após a imposição do celibato obrigatório ao clero. " A marginalização e a difamação das mulheres teriam sido uma espécie de tática para incentivar a continência do celibato " (ZORZI, P. 142) . Um dos textos mais famosos e mais repulsivos desta esquálida produção cultural cristã, o que diz muito sobre o patriarcado e as estruturas misóginas é a pregação do século XIo Peter Damian: "Eu digo a você, feiticeiras, carne voluptuosa do diabo, que você expulsou do paraíso, você, poção de mentes, espadas de almas, veneno de quem bebe e banquetes, questão de pecar, ocasião de se perder [...] Venha agora, me escute, putas , prostitutas com seus beijos lascivos, lugares onde porcos gordos rolam, camas para espíritos impuros, semideuses, sirenes, bruxas [...] " (ZORZI, P. 146). .



A leitura dessas passagens ajuda a entender por que a igreja acha tão difícil admitir mulheres no sacerdócio ministerial. Houve muitos séculos de pregação, manipulação da realidade, alianças culturais, que relegaram as mulheres não apenas ao lar, mas também às favelas da história. A estratificação paternalista e misógina no Ocidente chegou ao ponto de convencer as mulheres a serem inferiores. Basta folhear as páginas de alguns textos produzidos na esfera cristã, que incitam as mulheres a permanecerem submissas aos homens para serem felizes diante de Deus, a perceber o desastre cultural e espiritual posto em prática. A mulher serve para a reprodução e o cuidado das crianças e do lar: ponto. Essa abordagem permanecerá normativa por toda a Idade Média até recentemente. A única diferença que ocorre na era moderna será a perda de importância do argumento antropológico em favor do argumento baseado em papéis sociais. O objetivo explícito desses argumentos será justificar a exclusão das mulheres da ordenação sacerdotal. Ao longo da era moderna, o trabalho de denegrir as mulheres consideradas inconstantes e de coração fraco, inconstante e muito loquaz continua: todos os assuntos consideravam obstáculos à ordenação.
Folheando a literatura cristã da era patrística, medieval e moderna sobre o tema do papel da mulher na sociedade, além de estar chocado com o vazio dos argumentos e com a malícia em relação a eles, percebe-se a total ausência de argumentos significativos em relação ao tema tão delicada da exclusão das mulheres da ordenação sacerdotal. Sem dúvida, percebe-se que o clima altamente hostil criado ao longo dos séculos, dificultou sua inserção na hierarquia eclesial. Hoje, no entanto, não é mais justificado. De fato, esses são tópicos culturais, entre outras coisas, argumentos de nível muito baixo, até repugnantes para as mulheres e não elementos significativos nos quais basear uma decisão tão firme.

Na minha opinião, a admissão de mulheres ao ministério na igreja católica seria um gesto profético. Em um clima cultural cada vez mais hostil às mulheres, que as vêem cada vez mais fracas, objeto sexual mais do que pessoas, menor ao ponto de não receber o mesmo salário que os homens quando fazem o mesmo trabalho, um clima que parece confirmar todos os preconceitos misóginos da cultura patriarcal ocidental, a admissão de mulheres no ministério sacerdotal seria um gesto de contra tendência, o que faria a sociedade pensar muito.  Das palavras dos documentos oficiais, nos quais o "gênio feminino" é exaltado, ao fato de considerá-las dignas de assumir papéis que sempre foram considerados exclusivos para os homens. Além disso, a Bíblia está cheia desses gestos proféticos, de sinais que provocam o povo de Israel, sinais que indicam um novo caminho, que revela, ao mesmo tempo, o erro dos antigos. A profecia vem da capacidade de olhar para longe, da força para se libertar dos fechamentos asfixiais do tempo presente, das lógicas de poder nas quais alguém permanece entrelaçado. A profecia é sempre a vitória da misericórdia sobre a dureza da lei, é o espaço oferecido ao Espírito para entrar na história de homens e mulheres para perturbá-la, reorganizá-la. A profecia é um sinal de liberdade que abre novos caminhos, seguindo o exemplo do que Jesus realizou: a profecia é a força desmascaradora da religião dos homens, que obscurece a beleza libertadora da Palavra de Deus com tradições humanas, com uma lógica perversa, que discrimina e coloca um contra o outro.


É essa profecia que precisamos hoje. E é precisamente essa profecia que esperamos da igreja hoje: a profecia do ministério feminino. Para remover todas as dúvidas, para poder dizer claramente que, se ainda existem no mundo pessoas que consideram as mulheres inferiores aos homens, a Igreja não. Se ainda há quem considera a mulher incapaz de ensinar e explicar a Palavra de Deus em público, a Igreja não. Se ainda há alguém que afirma que a mulher não é capaz de liderar uma comunidade, que não possui carisma suficiente para discernir e orientar, dizemos claramente que isso não é verdade. Querida igreja, pedimos a você: não nos deixe sem argumentos. Acima de tudo, porém, perguntamos a você: não nos negue esta profecia.


[1] ZORZI, S., além do "gênio feminino". Mulheres e gênero na história da teologia cristã, Carocci, Roma 2015


domingo, 26 de abril de 2020

JUVENTUDE E ACOMPANHAMENTO ESPIRITUAL






Paolo Cugini

Uma característica ligada à problemática da juventude gira em redor do problema do sentido da vida. Todo jovem vive a angustia do próprio futuro, daquilo que será dele, do trabalho que irá arrumar e assim em diante. Muitas vezes a angústia do futuro leva o jovem para caminhos errados. É difícil, de fato, agüentar o peso da insegurança, sobretudo quando é encaixada numa situação econômica e social carente. Ser jovem, apesar das aparências e dos mitos que consideram a juventude a idade da alegria, da falta de compromisso, não é fácil.  O jovem percebe a cada dia a responsabilidade de tomar as decisões justas para que a própria vida possa enveredar o caminho certo. Aonde arrumar o dinheiro para entrar no cursinho que prepara para o vestibular? E depois, passado o vestibular, como manter os próprios estudos? Seria melhor arrumar um trabalho sem carteira assinada, ou esperar e correr atrás de algo mais seguro? E que preço seria disposto a pagar para uma segurança econômica? Um dos trabalhos mais seguro é sem dúvida aquilo que se encontra nas prefeituras. Muitas vezes, porém, entrar no orgânico da prefeitura significa calar a boca, não ter mais a possibilidade de denunciar as situações de injustiça, corrupção que acontecem á luz do sol. Vale a pena perder a própria liberdade em troca de uma segurança econômica que, muitas vezes, é mixaria pura? Problemas em cima de problemas; quem ajuda os jovens a resolvê-los? É claro que cada um é responsável da própria vida, mas é possível ajudar um jovem nesta fase tão delicada da sua vida?  

A primeira forma para ajudar um jovem nesta fase tão delicada da vida é, sem dúvida nenhuma, o diálogo. Só que, logo que um adulto se aproxima ao jovem para tentar abrir um espaço, ali encontra uma parede chamada desconfiança. Por toda uma série de fatores, o jovem é naturalmente desconfiado para com o adulto. É preciso, então, se armar de santa paciência e começar a subida da “montanha” da confiança. Trata-se, de fato, de uma verdadeira conquista, feita de etapas, de derrotas, de contínuo esforço para conseguir uma brecha na amizade da juventude. É claro que aquilo que aqui se entende, não é a simples conversa, ou a brincadeira alegre e descontraída.  Dialogar com um jovem para ajudá-lo a enfrentar os problemas da vida, significa entrar no mundo delicado da vida interior. Além disso, a grande dificuldade que se encontra neste caminho, é que dificilmente o jovem na infância e na adolescência foi ajudado a descobrir e a lidar com a própria interioridade.  Isso vale, sobretudo, nos lugares aonde, muitas famílias são envolvidas na busca cotidiana dos elementos básicos para viver ou, em muitos casos, para sobreviver e, para quem deve enfrentar estes problemas, não sobra muito tempo para cuidar da reflexão e da vida interior.  Por isso quando um adulto se aproxima do jovem para tentar ajudá-lo a viver com mais serenidade os problemas da vida, encontra logo a desconfiança e medo de escutar aquilo que sente dentro de si e que amiúde abafa por não querer sofrer.  

Nessa altura dá pra entender que, acompanhar a espiritualmente um jovem, não é apenas ensinar a rezar, a meditar a Palavra de Deus, mas fazer com que a oração e a Palavra possa iluminar e penetrar  a sua vida, influenciar as suas decisões, preencher de sentido os seus atos. Sem dúvida, não é qualquer pessoa que pode fazer isso. Somente quem já passou a própria juventude lidando com a própria vida interior e se esforçando na vida adulta a moldar a própria existência no Evangelho, pode ajudar alguém neste caminho. Seria bom encontrar nas paróquias pessoas disponíveis por este trabalho tão importante e, ao mesmo tempo, tão delicado.


sexta-feira, 10 de abril de 2020

SÁBADO SANTO: O SILÊNCIO DE UM DIA TERRÍVEL





Paolo Cugini


Devemos ter a coragem de ouvi-lo, sem subterfúgios, sem enche-lo de significados, sem querer adoçá-lo a todo custo. Não podemos adoçar o que não é doce, não pode sorrir no dia mais triste do ano: Sábado Santo. O que, então, tem de santo esse dia horrendo eu nunca entendi. De fato, como podemos chamar o dia mais vazio de todos, de santo o dia do absurdo absoluto, o dia em que toda a humanidade ficou sem fôlego, com o respiro suspenso? Porque, na realidade, toda a humanidade naquele dia se levantou sem saber para quem orar, sem poder orar a nenhum Deus, porque Deus havia morrido no dia anterior, assassinado barbaramente.  Nem sempre podemos fingir, sem querer ver, sem querer ouvir. Não temos mulheres como Maria Madalena, que sabem chorar pelo seu mestre morto, que sabem sofrer intensamente sem fingir, sem esconder nada: isso é amor. Aquele amor que flui do coração e não do cálculo, esse amor que é pura paixão e não racionalidade controlada, que calcula, que sabe fazer cálculos mesmo com sentimentos. E não podemos fingir e correr imediatamente no domingo, não podemos passar por este dia terrível, o sábado santo, porque temos medo do escuro e fingir que nada aconteceu; não podemos cobrir os olhos e os ouvidos para ir diretamente para a manhã de domingo. Acima de tudo, porém, não podemos antecipar o domingo de ressurreição ao sábado de manhã, como infelizmente acontece com frequência e de bom grado em certas igrejas, que começam preparar as decorações de domingo, como se o sábado do grande silêncio não existisse. Que desrespeito!

É preciso o silêncio para escutar o nada, entender o que seria o mundo sem significado, ou seja, sem Deus. O vazio deve poder penetrar no coração do homem e na consciência da mulher pelo menos uma vez na vida, para ter, então, a possibilidade de avaliar todas as ideologias que nada mais são do que vazios disfarçados de sentidos, nas quais nos apegamos para não morrer de asfixia. Forçados a inventar significados, quando é possível perceber que não há sentido, que estamos subindo nos espelhos, que estamos conversando ao vento e que não temos coragem de ficar calados por medo de sentir o vazio, de sermos penetrados pelo nada. Este é o significado do Sábado Santo, que é santo por esse motivo, porque nos permite tocar as cinzas da nossa vida, o nada dos nossos projetos sem Deus.

Pendurar-se no vazio, pelo menos uma vez na vida, pode ser de grande ajuda para entender a quem e ao que estamos amarrando a nossa vida, a quem estamos entregando a nossa existência, esforçando-se, pelo menos uma vez na vida, de não mentir pra nós mesmos. Mergulhamos todos os dias em rios de palavras inúteis para embelezar o que é feio por natureza, o que sai mal de nós, que não tem forma, porque não pode ter nenhuma forma, pelo fato que esta forma sai da nossa fantasia e não é real. Seria suficiente ter um dia a coragem, de percorrer os lugares onde as reuniões entre adultos acontecem para ouvir, prestar atenção, abrir bem os ouvidos no que é dito, no nada sobre o qual falamos por horas e horas. Falamos sobre o que somos e o que fazemos, onde o fazer vem substituindo o nada do nosso ser.

 É por isso que demoramos para ficarmos calados no Sábado Santo, lutamos para compreender a profundidade do vazio criado pela ausência de Deus no mundo, porque esse vazio, esse silêncio é revelador, esse vazio daquele dia terrível revela o vazio que temos por dentro e que cresce lentamente em todos os momentos do dia. O significado das coisas vem de dentro do mundo, de dentro do homem, da mulher, de seu coração. Apreendemos quando estamos calados, quando entramos em nós mesmos, percebemos nesses momentos que o sentido da vida, o profundo senso de existência não pode advir da matéria, não pode ser algo de material, temporal, acidental.

Deve haver algo a mais, mais duradouro, mais verdadeiro e profundo. Talvez este seja um dos presentes mais profundos do dia terrível, daquele dia cheio de desespero que é o Sábado Santo. É, de fato, neste dia que podemos tocar o nada da matéria, o nada de todos os pensamentos vazios quando são ditados pela pressa de preencher com significado aquilo que significado não tem. É neste dia terrível que descobrimos a nostalgia de Deus, o desejo de seu amor, a beleza de estar com Ele, o significado que Ele e somente Ele pode dar à vida em todos os seus aspectos. É a partir do terrível dia do Sábado Santo que, ao pôr do sol, podemos ver a luz radiante do amanhecer de domingo, o dia mais radiante e brilhante do ano: o domingo da ressurreição do Senhor.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

CASA ZOEN TENCARARI - BOLONHA - REUNIÃO DE QUINTA-FEIRA





QUINTA-FEIRA, 2 de abril

Tema da noite: JULGAR

Introdução: A casa Zoen Tencarari é o nome do projeto de acolhida da casa paroquial aonde estou morando desde o mês de outubro do ano passado. A casa hospeda jovens provenientes de vários países (Paquistão, Senegal, Burkina Faso, Albânia, Bangladesh, Itália, Afeganistão, Iran, Madagascar, Gambia, Gabon). Alguns destes jovens se encontram na casa porque não sabiam aonde ir, outros, sobretudo aqueles de proveniência italiana, vieram nesta casa para um período de discernimento, descobrir um sentido diferente de viver. Alguns destes jovens trabalha, outros estudam e outros, aqueles que ainda não tem documentos, ficam em casa ajudando nos trabalhos domésticos. Alguns dentre nós são católicos, outros muçulmanos, ortodoxos, outros ainda não pertencem a nenhuma religião. Vários jovens que estão aqui chegaram nesta casa fugindo de guerras o até de perseguições. Esta experiencia foi implantada pelo pároco padre Mario de 76 anos que depois de passar dez anos nas missões em Tanzânia, na África, quando voltou decidiu de abrir a sua casa para os jovens pobres ou em busca de um sentido da vida. Todo dia as refeições são realizadas por eles mesmos conforme um calendário predefinido. Depois do almoço rezemos juntos a hora media e depois da janta partilhamos a leitura do evangelho do dia sucessivo. Toda quinta feira ás 21,45 h realizamos um encontro formativo sobre temáticas que possam ajudar na vida da comunidade. O encontro termina a meia noite com a adoração eucarística e a benção final. Aqui em seguida, o relatório do encontro de ontem a noite. Todo dia uma équipe prepara o almoço por 35 sem teto da cidade. Nesta época de COVID 19 estamos trancados em casa nos epsaços da paróquia. 


[Presentes: Pe Mario, Elia, Ângelo, Bernard, Maurice, Emanuel, Matteo, Hassan, Latif, Vincenzo, Ahmed, Pe Paolo].


Leitura do texto retirado de: GOPFER, Sandro. 40 dias com Dietrich Bonhoeffer. Um livro para meditação. Brescia: Queriniana, 2020.

É suficiente que as pessoas estejam juntas para começar imediatamente a se estudar, a se julgar, a se classificar. Já pela raiz começa assim na comunhão cristã uma tremenda luta até a morte, da qual muitas vezes não percebemos, que muitas vezes permanece invisível (p. 131).

A busca pela autojustificação e pelo julgamento está intimamente ligada, bem como a justificação pela graça e serviço (p. 132).

Bonhoeffer sabia que o julgamento funciona destrutivamente. Na comunidade, deve haver a regra de que, na ausência do irmão, não é permitido falar sobre ele (p. 133).

Como cristão, vivo pelo fato de ser justificado por Deus, por uma graça maior, e não preciso me fazer justo. Portanto, em vez de emitir sentenças a outros, sou livre para servi-los (p. 134).

Deus, o criador, criou os homens à sua imagem. É por isso que consigo entender a diversidade dos outros como um enriquecimento (p. 134).

Intervenções - partilha
Elia: no momento em que consigo ouvir outras pessoas sem preconceitos, eu as recebo como enriquecimento. Mesmo se somos diferentes, cada um de nós tem algo precioso para dar aos outros. O julgamento é ter uma opinião pessoal enquanto o preconceito deriva da falta de conhecimento (narrativa biográfica).

 Vincenzo: hoje experimento o julgamento como um tópico estranho. Até recentemente, o problema era entender os momentos em que me senti julgado (narrativa biográfica). O julgamento diz de uma idéia que deve chegar a um ponto. Precisa encontrar um equilíbrio. "Não fales mal na comunidade de um na sua ausência": fiquei impressionado com esta frase que lemos.

Bernard. Neste inverno, eu realmente fiz uma revisão dos julgamentos. Farei um trabalho - o professor - em contato com as pessoas. Um erro que terei de evitar é julgar as crianças a priori sem conhecê-las bem. É difícil não julgar. Precisamos ter cuidado, porque muitas vezes não percebemos e somos pesados ​​em julgamentos. Uma frase que li diz: "o julgamento diz muito sobre você, mas menos que o outro". Eu gostei (Narrativa biográfica). Estou seguindo um caminho para reconhecer o julgamento, para reconhecer quando estou errado em corrigir a situação. Às vezes, criamos rapidamente mecanismos de associação sem pensar bem na verdade das coisas. É difícil não mencionar aqueles que estão ausentes na comunidade. É difícil ser honesto, porque há um medo de que o outro o leve a mal.

Emanuel: o tema do julgamento é um tema bastardo porque me machuca. Alguém disse que o medo do julgamento dos outros é uma forma de prisão que não permite que você seja você mesmo. É difícil administrar o julgamento. (Narrativa biográfica).

Ângelo: Pensei nas experiências que tive com relação ao julgamento. Ocorreu-me que sou muito confrontado com o contexto da minha família (narrativa biográfica). Penso que, para não julgar os outros, é necessário se aceitar. Você precisa aprender a se analisar e, em seguida, ser capaz de se aceitar como é. Você também deve aprender a sair do julgamento negativo sobre si mesmo.

Pe Mario: o Papa Francisco falava frequentemente da negatividade do julgamento sobre os outros. Falar mal dos outros é uma arma que mata ou são algemas que o aprisionam. Jesus nos ensina que é o que sai do coração que dói. Quando o julgamento é rápido por parte de outras pessoas, acuso-o, sinto-o. No amor, não podemos nos apressar a julgar, porque o amor nos empurra para o bem e para ver o bem que o outro tem. A vida comunitária é o lugar da correção fraterna. Esse limite de julgamento existe em todas as comunidades. Ratzinger disse que o pecado está dentro da Igreja. Na vida de um casal, é essencial aprender a suspender o julgamento. Um garoto que passou pela casa disse que veio aqui para se preparar para o casamento.

Matteo: morar em casa ajuda muito para não julgar o conhecimento do outro. Só me colocando no lugar dos outros mais do que julgá-lo é que justifico. É necessário aprender a reconhecer a diversidade do outro. Esse processo é mais difícil no local de trabalho, porque existe um desejo de emergir. Quando você está em um grupo e o julgamento nasce, é preciso coragem para sair do refrão e você é julgado (narração biográfica).

Maurice: é difícil não entrar em lógicas negativas para com os outros. Para sair disso, você precisa estar em uma grande paz interior dentro de nós. É preciso muito amor. É como Jesus diz no episódio em que as pessoas trazem para ele uma mulher encontrada em adultério para condená-la à morte. Há momentos em que uma pessoa está dentro de espirais negativas que se tornam difíceis de entender a outra em uma perspectiva de amor. Receber amor ajuda a ter uma aparência diferente (narração biográfica). Às vezes, outros são julgados negativamente por se elevarem. São lógicas nas quais todos caímos. Quando isso acontece, significa possuir baixa auto-estima. Começando a se amar, não há mais necessidade de se auto-exaltar e abaixar os outros. É a lógica de amar o seu próximo como a si mesmo. O julgamento negativo não leva a lugar algum. Quem tem raiva por dentro geralmente é a pessoa que dá sentenças. Você está com raiva e depois julga mal todo mundo. É por isso que é certo parar de falar em comunidade quando alguém está ausente.