sábado, 14 de setembro de 2024

PROJETO MARGENS A que ponto se encontra?

 




 

Paulo Cugini

Cerca de seis meses após a apresentação da proposta, consideramos importante fazer uma avaliação inicial. A razão do nome. Margens em português significa margens e refere-se ao Rio do Amazonas e a todos os rios que atravessam o território amazônico. Nas margens desses rios vivem muitas pessoas, os chamados ribeirinhos, que se encontram dentro de comunidades que surgem às margens dos rios. A paróquia de São Vicente de Paulo, que administro há cerca de um ano, é formada por sete comunidades, três das quais fazem fronteira com o Rio Negro, grande afluente do Rio Amazonas, e as outras quatro são muito perto. Possui uma população de aproximadamente 35 mil habitantes. O bairro Compensa é famoso por estar localizado em uma das chamadas áreas vermelhas de Manaus, vermelha porque é perigosa. A situação geral de pobreza aliada aos problemas de segurança, levou-nos a desenvolver, com um querido amigo italiano, um projeto à longo praz, que pode intervir a vários níveis para a promoção cultural e social da população local.

Um primeiro nível de intervenção é o apoio a projetos de sensibilização sociopolítica já presentes no território paroquial, mas pouco incentivados. Nos últimos meses acompanhamos quatro deles:

a.      Faça bonito. É um evento de conscientização contra o abuso infantil, uma verdadeira praga por aqui. Ajudamos em algumas despesas – camisetas, banners, panfletos – para viabilizar o evento. O evento contou com o envolvimento de crianças, jovens e adultos das sete comunidades

 


b.      Movimento de fé e cidadania. Quando cheguei esse movimento, nascido na década de 1980, estava desativado há duas décadas. Tendo em conta as eleições municipais, que se realizam neste ano e que provocam muitos conflitos nas próprias comunidades e muitas vezes divisões no seio das famílias, devido à corrupção política, que entra nas classes pobres, oferecendo de tudo para comprar o voto dos pobres, temos decidido reativar o Movimento. O projeto Margens veio com financiamento significativo, pagando camisetas, 5 mil exemplares da lei 9.840 contra a corrupção eleitoral, ônibus para movimentação de integrantes do Movimento. Além de um curso de formação, realizamos cinco eventos em que membros do Movimento foram de casa em casa para distribuir o texto da lei e realizar teatro de rua sobre o tema em questão.

 


c.       Setembro amarelo. É um projeto brasileiro de prevenção ao suicídio. A paróquia está muito atenta ao tema, até porque, após a construção da ponte sobre o Rio Negro, os suicídios aumentaram dramaticamente. Há um grande sofrimento mental na região. Dom Hudson decidiu que a nossa paróquia realizará um evento diocesano no último sábado de setembro, para sensibilizar a população sobre o tema. O projeto Margens entra com financiamento para suportar alguns custos do projeto.

 

d.      PASCOM: é o nome da pastoral que ajuda a divulgar os acontecimentos das sete comunidades. O projeto Margens interveio através da aquisição de uma máquina fotográfica, que também será utilizada para ativar cursos de fotografia, quando os espaços estiverem prontos.

 


e.       PJ: é a sigla da Pastoral Juvenil. Com a Margens intervimos com bolsas de estudo para permitir aos jovens o ingresso nos cursos de teatro, música e dança ativados pela paroquia, e adquirir parte do material que foi utilizado nos bailes juvenis (quadrilhas) realizados nos meses festivos de Junho e Julho. .

 


f.        Projeto de assistência psicológica. A situação precária da região levou-nos a decidir envolver duas psicólogas - Vanessa e Wanilda - para atender às necessidades de muitas pessoas que pediam ajuda. Margens juntou-se ao projeto para arrumar o quarto e comprar alguns livros e jogos para os menores que são acompanhados.

 

As psicologas Vanessa e Wanilda

Outro tipo de intervenção foi financiar algumas ferramentas que poderiam ser utilizadas pela comunidade para realizar um serviço social específico.

1.      Comunidade São Pedro. Situado na zona mais perigosa da paróquia, com o projeto Margens contribuímos para a compra de uma cerca de arame farpado para colocar no portão. Além disso, financiamos a compra de um bebedouro que é utilizado quando a comunidade recebe funcionários municipais, que realizam jornadas com enfermeiros e médicos para vacinar a população e outros tipos de serviços médicos gratuitos.

 


2.      Santo Inácio. Precisáva de uma fritadeira para vender alimentos e arrecadar fundos e por isso intervimos para adquiri-la.

 


3.      ão Vicente. Substituímos a antiga cozinha por uma nova, que serve para preparar comida dos eventos da comunidade e da paróquia.

 


Um terceiro nível em que intervimos e continuaremos a intervir é a disposição de alguns espaços. A intuição dos colaboradores do projeto Margens não foi construir nada específico, mas sim consertar estruturas já existentes para envolver as comunidades locais. Pedimos às comunidades que desenvolvessem projetos sociais a partir do seu observatório específico e, a partir do que vão apresentando, criamos um calendário de intervenções.

a.       Salão Paroquial. A primeira intervenção, que envolveu boa parte dos fundos da Margens, foi um salão que, até então, se encontrava sem utilização e, portanto, em condições verdadeiramente precárias. As obras de remodelação permitiram recuperar um espaço onde já começámos a organizar encontros com jovens e agendamos projetos de dança, música e teatro.

 



b.      Próximas intervenções. As comunidades de Santo Ignácio, Rosário e San Sebastião apresentaram uma série de projetos sociais e culturais que incluirão intervenções nas estruturas.







quinta-feira, 22 de agosto de 2024

MENSAGEM POR OCASIÃO DAS ELEIÇÕES MUNICIPAIS DE 2024

 


 

 “Ninguém pode exigir-nos que releguemos a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social” (Papa Francisco, Evangelium Gaudium,182)

Reunidos no V Encontro da Igreja Católica na Amazônia Legal, em Manaus-AM, de 19 a 22 de agosto de 2024, fazemos chegar às irmãs e aos irmãos em Cristo e a todas as pessoas de boa vontade, nossas esperanças e preocupações a respeito das eleições municipais que se aproximam.

No dia 6 de outubro próximo iremos às urnas para escolher aqueles e aquelas que estarão à frente do Poder Executivo (prefeitos e prefeitas - vice-prefeitos e vice-prefeitas) e do Poder Legislativo (vereadores e vereadoras) de nossos municípios. Essas eleições têm uma importância particular pela proximidade dos candidatos e candidatas com os eleitores, bem como com suas preocupações mais concretas, por exemplo, a educação de qualidade para as crianças e adolescentes, o sistema público de saúde eficiente e universal, a segurança para vivermos em sociedade, a moradia digna e acessível à população de baixa renda, o cuidado com o meio ambiente – nossa Casa Comum, a atenção especial aos povos indígenas, ribeirinhos, pescadores, quilombolas, população em situação de rua e outros grupos em situação de risco e vulnerabilidade social. Diante dessas preocupações, e de tantas outras que afligem os povos, espera-se a garantia de políticas públicas que atendam principalmente os empobrecidos.

Um dos meios para dar a devida resposta a essas preocupações é identificar e escolher bem os candidatos e as candidatas. Dos prefeitos e prefeitas espera-se uma conduta ética nas ações públicas, nos contratos assinados, nas relações com os demais agentes políticos e com os poderes econômicos. Dos vereadores e das vereadoras requer-se uma ação correta de fiscalização e legislação que não passe pela simples identificação com a bancada de sustentação ou de oposição ao Executivo. O equilíbrio e a complementariedade entre os poderes Legislativo e Executivo são indispensáveis para a consolidação da democracia e o avanço da justiça social nos municípios. Portanto, deve ser dada igual atenção à escolha dos prefeitos e prefeitas e dos vereadores e vereadoras, visto que ambos devem ter um compromisso irrenunciável com a defesa integral da vida, que passa necessariamente pelos direitos humanos e sociais. Defender a vida é defender a Casa Comum em toda a sua complexidade. Para isso, nossos candidatos e candidatas devem ter a capacidade de colocar afetiva e efetivamente o bem comum acima de seus interesses pessoais ou corporativos.



Votemos responsavelmente pela Amazônia! É urgente, nos municípios de nossos territórios, políticas públicas que minimizem os efeitos das mudanças climáticas, favoreçam a agricultura familiar e as iniciativas agroecológicas, enfrentem o escandaloso problema do saneamento básico dando, por exemplo, tratamento eficaz aos resíduos sólidos urbanos através de aterros sanitários que possam recebê-los e tratá-los de forma segura e ambientalmente correta. Ao mesmo tempo, o apoio à fiscalização, identificação e punição dos crimes ambientais deve ser compromisso dos gestores públicos municipais. De quem pede o nosso voto, é importante verificar a história e os processos vividos, conhecer as trajetórias e o passado, identificar suas alianças políticas. A Igreja Católica no Brasil tem longa tradição na valorização da Ficha Limpa e na denúncia da imoral e antiética compra de votos que, além de crime, passou a cassar os mandatos dos culpados.

Votar por troca de favores ou simplesmente por amizade pode comprometer seriamente nosso futuro. Voto não tem preço, tem consequência! Lembramos que todas as informações sobre os candidatos e candidatas em que se pretende votar são importantes. É preciso examinar em fontes seguras se as propostas apresentadas correspondem à realidade. Infelizmente as desinformações, hoje potencializadas pela internet, têm a capacidade de mudar a vontade do voto popular, comprometendo assim a democracia.



Eleitor e eleitora, não permitam que a mentira determine seu voto. Outra atitude fundamental é repudiar quaisquer formas de violência e divisão. Numa sociedade plural e democrática, é legítimo que todos tenham a possibilidade de chegar às suas próprias conclusões, que nem sempre serão e nem precisam ser, iguais às dos outros. Um traço essencial do cristianismo é chamarmos a Deus de Pai-Nosso e, assim, assumimos que somos todos irmãos e irmãs. Nossa sociedade e os municípios em que vivemos não podem sair do processo eleitoral ainda mais divididos, pois “se um reino se divide contra si mesmo, ele não poderá manter-se” (Mc 3,24). Sendo assim, vamos aproveitar a oportunidade de, num período eleitoral pacífico e participativo, ajudarmos a construir uma sociedade de comunhão e amizade social.

Concluímos conclamando a todos e todas que se unam e rezem pelo bom êxito das próximas eleições. Que Nossa Senhora de Nazaré, rainha e padroeira da Amazônia, nos conduza pelos caminhos da justiça, da fraternidade e da paz. Manaus, 21 de agosto de 2024.

 

Participantes do V Encontro da Igreja Católica na Amazônia Legal

Rito Amazônico e Ministerialidade: Muito mais que uma mediação pastoral

 



 

Luis Miguel Modino

O V Encontro da Igreja na Amazônia Legal, que está sendo realizado em Manaus de 19 a 22 de agosto, é um espaço de reflexão sobre diversos passos que a Igreja na Amazônia está dando. Um deles é o Rito Amazônico, algo que foi se configurando a partir do desejo de uma Igreja com rosto amazônico, que acompanha a vida da Igreja na região desde a chegada do Evangelho, no século XVI.

O Encontro de Santarém, em 1972, pode ser considerado um divisor de águas nessa configuração de uma Igreja com rosto amazônico. Ao longo dos últimos 50 anos foram se dando passos, sendo o Sínodo para a Amazônia, em 2019, o momento em que surgiu a proposta de um rito amazônico, segundo recolhe o número 119 do Documento Final. O Rito Amazônico deve se somar aos outros 23 ritos presentes na Igreja.

Segundo Agenor Brighenti, é um rito que quer ser muito mais que um rito litúrgico, pois não pode ser reduzido à inculturação da Liturgia ou do Missal Romano. Nessa perspectiva está sendo trabalhado sobre sacramentos e sacramentais, a Iniciação à Vida Cristã, a Liturgia das Horas, o Ano Litúrgico, os Ministérios, o Espaço Litúrgico, as Estruturas e organização da Igreja. O objetivo é que seja um rito que configure um modelo de Igreja para a Amazônia.

 

 

 

O teólogo brasileiro insiste em que um rito não se cria, ele é elaborado a partir dos processos de inculturação do Evangelho e de encarnação da Igreja, fruto de um longo processo de comunidades insertas na realidade, algo que vem sendo feito desde a chegada dos primeiros missionários. Dada a grande extensão e diversidade da região, Brighenti questionava: “É possível um só rito para toda a Amazônia?”. Ele defende a necessidade de respeitar e potencializar a diversidade, que em uma Amazônia múltipla possa se encontrar um denominador comum, mas suficientemente aberto para que cada região possa encarnar seu específico nesse rito.

Desde 2020 vem se dando passos com aportes de diversos especialistas e comissões de trabalho, que deu passo ao Marco Geral do Rito Amazônico e a recolhida de registros de experiências de inculturação, buscando criar os componentes do Rito Amazônico que leva a elaborar os Rituais do Rito Amazônico. Um processo que irá até março de 2025, com três anos ad experimentum para avaliar e ajustar o Rito Amazônico.

A prática da Ministerialidade é uma realidade presente na Igreja da Amazônia. “Não se pode pensar nos ministérios somente como mediação pastoral, são mais que isso”, segundo a Ir. Sônia Matos, que igualmente insiste em que “não pode pensar em ministérios por causa da falta de ministros ordenados, seria desviá-los de seu significado e fundamento”. A religiosa faz um chamado a partir do sacerdócio comum que deriva do batismo, que leve a entender os ministérios como trilhas para encarnar o Evangelho e a vivência da Igreja.

“Para uma Igreja com rosto amazônico é necessário uma ministerialidade amazônida de fato, através de uma vivência eclesial que siga a capilaridade-sinodalidade dos rios”, destaca a superiora da Congregação das Irmãs Adoradoras do Sangue de Cristo. Na Amazônia, dada a história da região, não pode ser esquecido que “as mulheres são sujeitos nas paróquias e nas dioceses, com múltiplas formas de serviço pastoral e ricas experiências de ministerialidade”. Diante disso, aparece o desafio de ser um carisma reconhecido pelo Bispo diante da vocação para um serviço específico na Igreja, um reconhecimento que supera a discriminação de gênero.

São ministérios a serviço da vida da comunidade, e nesse sentido, conferir o ministério diaconal às mulheres é reconhecer e legitimar a diaconia que elas “de fato” já exercem nas comunidades, nas coordenações, ministérios da Palavra e da Eucaristia, na animação litúrgica, no cuidado com os pobres. É por isso que “com o reconhecimento, de fato e de direito, as mulheres sairiam do papel de suplência pastoral e de exclusão nas instâncias de decisão, para assumir um ministério a partir de sua dignidade ministerial”, sublinhou a religiosa.

Ela defende que a Igreja na Amazônia continua em busca de respostas criativas aos desafios de cada momento histórico, em vista do serviço da missão evangelizadora e da transformação social. Uma dinâmica que leva a refletir sobre o modelo de Igreja a levar adiante na Amazônia. Junto com os ministérios já existentes, aparece a possibilidade de novos ministérios: Ministério da Casa Comum e Ministério da assessoria, dentre outros.

“A ministerialidade do povo de Deus na Amazônia reluz sua construção sinodal”, segundo a religiosa. Uma dinâmica sinodal que reconhece a riqueza de todas as lideranças na Igreja e promove a participação de todos. Isso leva a Ir. Sônia Matos a pedir que a Igreja da Amazônia se amazonice, “a través de uma ministerialidade autóctone, pluriforme, pluricultural, para encarnar o Evangelho”, para viver a catolicidade com o rosto e o jeito amazônico, deixando de lado a tentação da uniformidade e da auto referencialidade, para se tornar uma comunidade ministerial, como jeito de viver e testemunhar o Reino.

 


domingo, 18 de agosto de 2024

AÇÃO DO MOVIMENTO FÉ E CIDADANIA NA PONTA NEGRA

 




Paolo Cugini

 

Domingo 18 de agosto 2024 às 16 horas um grupo de quase cem pessoas entre adultos e jovens, do Movimento Fé e Cidadania da paróquia são Vicente de Paulo da Compensa, se fez presente na calçada da Ponta Negra para um evento de conscientização. É desde o mês de abril que, este Movimento, depois de alguns encontros formativos em linha com as indicações da Arquidiocese de Manaus, está passando nas ruas do bairro Compensa, distribuindo e explicando um panflete com escrita a lei 9840, contra a corrupção eleitoral.



A novidade da ação de hoje é que, pela primeira vez, o Movimento Fé e Cidadania da Compensa saiu do seu território, para uma espécie de missão político-social. Na verdade, o fosso social entre os dois bairros é impressionante. Por um lado, a Compensa, um bairro pobre, cuja pobreza crônica não permite o desenvolvimento adequado do território. Do outro, a região de Ponta Negra, com seus ricos palácios e com os cuidados especiais com o desenvolvimento do turismo, bem visíveis no Anfiteatro, na linda praia e na rica infraestrutura da área. Enormes contrastes, que não passaram despercebidos aos jovens do Movimento que, juntos na frente do Anfiteatro, agacharam-se formando uma roda e apresentando alguns momentos de teatro de rua, reproduzindo a dinâmica da clássica compra de votos.

Foram significativas as palavras dos adultos que intervieram para comentar o teatro de rua, nas quais reiteraram o drama de uma sociedade altamente desigual, causada pela corrupção política, como sublinhou Jabá, coordenador do Movimento, que consome dinheiro público dado para o bem dos cidadãos. Antônio, também ele entre os coordenadores do Movimento, frisou o número espantosamente elevado – mais de novecentos- candidatos a vereadores, numa cidade como Manaus que verá as eleições de no máximo quarenta. Porque esta corrida, questionou Antônio? É difícil pensar que seja movida pelo desejo de servir o povo, apesar das palavras e das promessas dos mesmos candidatos que, no ano das eleições, não manifesta uma elevada fantasia, reiterando o mesmo discurso de sempre.



 É vendo esses jovens caminhando sorridentes pela larga calçada do bairro Ponta Negra, distribuindo o texto da lei 9.840 contra a corrupção eleitoral, que vem natural pensar que, apesar de tudo, ainda há esperança neste mundo.

terça-feira, 6 de agosto de 2024

DESCENDENDO DO SAGRADO IMPÉRIO ROMANO

 




 

Paulo Cugini

 

 

Esquecemo-nos disso com demasiada frequência, ou talvez já não pensemos mais nisso. No entanto, houve quinze (ou talvez mais) séculos muito longos e pesados ​​do Sacro Império Romano. Centenas de anos que formaram, moldaram as nossas almas, os nossos átomos, os nossos neurónios. Centenas, que depois se tornaram milhares de anos durante os quais o Sacro Império Romano distorceu, enganou, desvalorizou descaradamente as nossas já frágeis almas, os nossos neurónios muito fracos, as nossas moléculas muito pequenas. E, tão lentamente, mas inexoravelmente, tornámo-nos Ocidente e, como se não bastasse, como se a dose não bastasse, como se o peso já não estivesse a atingir níveis insuportáveis, acrescentamos: Cristãos. Como se não bastasse o peso do Ocidente, a arrogância do Ocidente europeu, deformado, exausto, desfigurado por séculos, por centenas, quase milhares de anos do Sacro Império Romano, acrescentamos a ele o que inicialmente começou como uma fraqueza, o cristianismo, mas que então em contato com o Império e os romanos, também se transformou em força, em peso.

O que nasceu fraco, no silêncio do deserto, no berço de uma manjedoura, ao longo do tempo, ou seja Jesus Cristo, com os séculos do Sacro Império Romano, tornou-se também estranhamente uma força, um poder, precisamente Sua Majestade o Cristianismo. E então eles tiveram que vestir lenta, mas seguramente o Cristianismo com as roupas luxuosas daqueles que vivem nos palácios, mesmo que Ele, Jesus, não tivesse nascido nos palácios e então, uma vez nascido, Ele nos tivesse dito para não procurá-Lo lá. E nós, cristãos ocidentais, não só o procuramos nos palácios dos reis, onde Ele não nasceu, mas ali o instalamos, engessado, como que mumificado. E durante gerações e gerações, durante séculos e séculos, durante centenas e milhares de anos não fizemos outra coisa, querido amigo, do que construir palácios cristãos, palácios luxuosos, castelos do Sacro Império Romano, catedrais cheias de rendas, ouro, muito fino coisas e muito luxuosas achando que era uma coisa linda, uma coisa certa, quando na verdade não tinha nada a ver com isso. Pelo contrário. Cada vez mais gerações, ao levantarem-se pela manhã, começaram a acreditar, a pensar que era exatamente assim, ou seja, que o Cristão era Romano, que o Sagrado era a mesma coisa que o Império. Tantos castelos, palácios reais, catedrais, tantas rendas, ouro, enfeites nos fizeram acreditar, nos fizeram pensar que o Império era a mesma coisa que o Sagrado e que o Ocidente estava na mesma perspectiva, estava passando pela mesma direção do cristão.

O que as pessoas viam quando o Sacro Imperador Romano passava, começaram a ver nas catedrais do Ocidente cristão. Procissões de incensários dourados, rendas refinadas e vestes luxuosas confundiram lenta, mas ao mesmo tempo inexoravelmente o Imperador do Sacro Império Romano com o Sumo Sacerdote do Ocidente Cristão. Pareciam a mesma pessoa, a mesma coisa; pareciam vir da mesma linhagem, estar do mesmo lado, pertencer à mesma classe social e dizer as mesmas coisas, apoiar as mesmas ideias, os mesmos princípios. Sim, meus queridos, dezenas de gerações, centenas e milhares de anos fizeram com que o Império se tornasse Sagrado e que o Sagrado se transformasse num Império com aquela pitada de Romano que nunca dói, mesmo que, como todos sabemos, dói definitivamente. E tão lentamente, mas cada vez mais inexoravelmente, aquilo que não lhe pertencia, aquilo que não tinha nada a ver com ele, absolutamente nada, se apegou a ele como um vestido, como uma segunda pele, mesmo que você pudesse ver de longe que era o vestido, essa segunda pele tão feia não tinha nada a ver com isso. Séculos de cobertura marcaram não só o destino do cristianismo, mas também o seu conteúdo. E assim, agora não entendemos mais nada sobre esse conteúdo estranho. Tentamos continuar com subterfúgios, com feitiçaria, mas não há o que fazer: não funciona. Tentamos a todo custo restaurá-lo, como era durante o Sacro Império Romano, mas não há mais nada a fazer: não vai se recuperar. O cristianismo tornou-se insignificante. Talvez possamos recomeçar a partir desta insignificância, possamos recuperar alguma coisa.



 O Cristianismo não era assim no início. No início, o cristianismo nasceu numa manjedoura, longe das luzes da cidade grande. No início o mistério foi visitado por alguns pastores: você entende o que lhe escrevo? E isto é, para entender melhor, todo o mistério de Deus manifestado numa criança - outra grande coisinha insignificante! - foi visitado por alguns pastores – outra coisinha enorme e muito mais insignificante que a primeira! - Você já pensou bem: todo o mistério de Deus, o mistério anunciado pelos profetas, o maior acontecimento da história, aconteceu, se realizou numa manjedoura. Que brincalhão Deus! Todo o grande poder de Deus se manifestou no pequeno berço de Belém, numa manjedoura, diante dos palácios dos Reis, das Catedrais, das rendas e das rendas douradas! Toda a glória de Deus contida em um bebê envolto em panos! Toda a força, a energia do cosmos, do universo, das estrelas e dos planetas, está escondida ali. E o pai de Jesus era carpinteiro e não imperador. E o pai do Filho de Deus se chamava José e não Herodes. E Jesus foi chamado de filho do carpinteiro e não de filho do rei. E o Menino Jesus, anunciado pelos profetas do Antigo Testamento, o filho mais esperado da humanidade nasceu em Belém e não em Jerusalém. E o Filho de Deus, o Senhor da história, aquele que mais tarde será chamado e reconhecido como o Rei dos reis, nasceu na periferia e não no centro, numa manjedoura, e não num palácio: consegue pensar nessas coisas? Até porque não se trata de detalhes, de coincidências, de detalhes pequenos e insignificantes, mas de escolhas, decisões, indícios. O mistério de Deus passa por ali e nós, durante dezenas de gerações, centenas e milhares de anos, o obrigamos a passar para outro lugar. É por isso que, embora tudo seja tão claro e simples, mesmo que o Evangelho seja tão transparente, não conseguimos compreendê-lo de forma alguma. Foram tantos séculos de desfigurações, manipulações, falsidades, que agora não entendemos mais nada. Estávamos demasiado habituados a pensar, a identificar o Império com o Sagrado e o Romano, a identificar o Evangelho como o livro do Império, que quando o lemos com atenção não acreditamos, parece-nos um conto de fadas.

E apesar disso, continuamos a procurá-lo nos palácios dos reis. Até quando continuará esta loucura, esta grande palhaçada?

 

sexta-feira, 12 de julho de 2024

OS DESAFIOS DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

 




Um importante congresso na Pontifícia Universidade Católica de Belo Horizonte

Paulo Cugini

 

Na segunda semana de julho participei numa conferência sobre inteligência artificial (IA) e o seu impacto na visão do homem e da religião. O evento aconteceu na sede da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Minas Gerais com sede em Belo Horizonte.

Por IA entendemos um sistema capaz de processar dados e informações de uma forma que se assemelha ao comportamento da inteligência humana e apresente aspectos do comportamento humano. Já hoje, através da IA ​​na forma de ChatGPT (já está disponível em vários aplicativos e em vários idiomas, até em português) é possível escrever textos, manipular fotos, produzir áudio. São muitas as possibilidades que, se utilizadas de forma positiva, auxiliam em diversas áreas do trabalho diário e aceleram significativamente os resultados com excelente qualidade. Só para dar um exemplo. Um padre americano revelou aos seus fiéis no final do ano passado que havia produzido as homilias feitas aos domingos do ano litúrgico com a AI: ninguém havia notado. A IA também é utilizada em previsões meteorológicas com melhor percentual de precisão do que o sistema utilizado anteriormente. No caso de previsões sobre o futuro, como é o caso do clima, a IA utiliza a base de dados disponível, que funciona recriando situações semelhantes à atual. Não se trata, portanto, de uma verdadeira projeção futura, no sentido de que a IA não é capaz de pensar no novo, mas consegue utilizar os dados existentes de uma forma melhor e mais rápida.

Mais delicada é a discussão sobre o fenômeno denominado transumano, ou seja, a união do ser humano com robôs e IA. No livro A Era das Máquinas Espirituais, o escritor e cientista da computação Raymond Kurzweil, citado diversas vezes durante o Congresso de Belo Horizonte, defende a ideia de que o crescimento exponencial da capacidade computacional, a aceleração no uso da inteligência artificial, o aprimoramento da capacidade neural as redes, o progresso dos algoritmos genéticos, o desenvolvimento da robótica e a enorme capacidade de processamento de dados e informações, permitiriam o surgimento de um ser humano superior: o transumano. Evidentemente, existem muitos desafios às propostas do movimento transumanista. A ideia de nos tornarmos transumanos imortais pode parecer muito interessante e convidativa, mas envolve implicitamente muitos riscos e inúmeras divergências científicas, filosóficas e teológicas. Um dos principais riscos é que um pequeno número de pessoas se torne uma raça superior, enquanto a maioria da humanidade se transforme numa sub-raça. Não é por acaso que por trás do desenvolvimento destas tecnologias existem grandes multinacionais apoiadas por um grupo de alguns super-ricos que estão investindo somas absurdas para a realização do projeto. O estudioso brasileiro Elio Estanislau Gasda, que discursou no Congresso, destacou a grande ligação que existe entre o desenvolvimento tecnológico e os interesses do capital e que o poder do digital está nas mãos do poder das finanças. Segundo Gasda, é muito difícil colocar forças de resistência a esta união, que ameaça a existência do próprio planeta. A par destes dados, há também todo o âmbito do delicado tema da relação entre verdade e democracia, de como alguns movimentos políticos em todo o mundo estão a utilizar a IA para desenvolver notícias falsas e manipular eleições em muitos países.

Do ponto de vista ético, surgem grandes questões e preocupações. Para não perder o valor acrescentado que a IA pode oferecer à vida quotidiana, é necessária a intervenção de grandes instituições políticas para salvaguardar a dignidade humana e os direitos dos homens e das mulheres. Foi isso que surgiu durante o Congresso. Na última mesa redonda, o professor falou. Magali do Nascimento Cunha, conhecida no Brasil por seu trabalho em defesa dos Direitos Humanos, que apoiou tanto a necessidade de não demonizar o que todos já usamos, quanto a importância de ativar, em todos os níveis, uma urgente educação midiática. Magali argumentou a necessidade de: “voltar à escola para aprender a ler, ou seja, aprender como se constroem as notícias que são veiculadas online. E então, aprenda a escrever usando novas linguagens de mídia. Por fim, participar ativamente com boa produção porque, se não fizermos, há outros que todos os dias produzem toneladas de merda (palavras exatas) que baixam na internet”.

Há muitas questões, algumas perturbadoras, que a posição transumanista coloca às religiões. O movimento transumanista defende a inutilidade do corpo no desenvolvimento do ideal de imortalidade, que as máquinas podem alcançar. Eles veem a velhice como uma doença e a morte como um problema que pode ser superado em poucas décadas. Na visão cristã, o corpo faz parte da dignidade da pessoa humana. Jesus Cristo ressuscitou com seu corpo, dando valor e dignidade à corporeidade. Trata-se, portanto, de estar vigilantes para que a tecnologia não distorça o significado mais profundo da integridade da pessoa humana. O perigo que, na verdade, acompanhou a humanidade ao longo dos tempos é que alguém se sinta no direito de substituir Deus e decidir por todos. Nesta perspectiva, as religiões possuem uma herança de valores que sempre defendeu o projeto de homens e mulheres de qualquer projeto manipulador. Só conhecendo os meios que a tecnologia nos disponibiliza poderemos acompanhar os processos em curso, garantindo um rosto humano. 

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Quarta Mesa Redonda - A Comunicação entre interesses econômicos e serviços à construção social

 



36º Congresso Internacional da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (Soter) - PUC Minas-Belo Horizonte, 9-12 julho 2024

 


 

Palestrante 1: Dr.  Moisés Sbardelotto (PUC Minas)

Palestrante 2: Dra. Magali do Nascimento Cunha (UFBA)

Moderador: Dr. Marco Túlio de Sousa - Centro Universitário Adventista de São Paulo (UNASP)

 

Síntese: Paolo Cugini

Dr.  Moisés Sbardelotto

Construção do bem comum que exige práticas de comunicação.

Midiatização digital. Ecologia midiática na qual a voz das máquinas se mescla á voz das pessoas. Transformações informacionais. A identidade da pessoa não é um conjunto de dados.

Humus simbólico: reviravolta linguística. Pela primeira vez na história o ser humano perde seu monopólio sobre o uso eficaz da linguagem. A eficácia linguística da AI desafia a capacidade humana. É preciso repensar o comum. O risco de deixar de lado a potência do indivíduo. (Sodré).

Humus tecnológico.  Mídias como espécies companheiras (T. Lenoir 2009). Comunicação é um processo artificial (Flusser, 2011). Repensar a ideia de sociedade. Alfabeto, gestos: é tudo invenção humano. A Inteligência é artificial por si mesma, pois utiliza sempre artefatos para apreender. Necessidade de superar o antropocentrismo. Necessidade de um antropo descentramento (Marchesini, 2010).

Humus sociocultural. Humanismo digital (Nidia Rumelin e Weindenfeld, 2019). Pensar um humanismo digital integral, mas a superação autocentrada do ser humano a partir das relações com as alteridades não humanas. Necessitamos de uma razão cordial. Busca de um encontro amoroso com os seres.

Proposta: pensar uma biocomunicação. Comunicação não viva e computacional e comunicação geradora de morte por meio da desinformação. Comunicação que é humanizante.

 

Dra. Magali do Nascimento Cunha

O direito a vida e à coexistência humana antes as novas modalidades de IA: desafios às religiões.

Reconhecimento facial para a segurança pública.

 

Safya Noble, Algoritmos de opressão

Tarcísio Silva, Racismo algorítmico.

Nós temos um processo de algoritmização. Temos um grande desafio como pessoas religiosas. Cada pessoa tem direito de viver.

Uso da mentira e do engano para interferir no interesse público. Conceito de desinformação: conteúdo deliberadamente criado, falso ou enganoso para convencer, captar apoios, confundir, destruir reputações com a finalidade de se obter ganhos econômico e políticos para interferência em temas e situações de interesse público.

Porque as pessoas acreditam. O segmento mais vulnerável a isso é o religioso porque tem o ponto da crença. Os cristãos são os mais vulneráveis. Os cristãos são os maiores divulgadores de desinformação.

Dois desafios:

a.       Intolerância algorítmica

b.      Propagação da mentira cujo alvo são os grupos religiosos.

Proposta: não podemos demonizar o processo. Necessidade urgente de educação mediática. Intender como funciona. Estamos despreparados. Educa Midia trabalha com três pontos:

·         Ler: entender como se constroem as notícias

·         Escrever: colocar que tem regras para produzir textos. Cada mídia tem sua linguagem.

·         Participar: cidadania digital, comentar, partilhar, etc. e pensar as consequências daquilo que postamos e comentamos.