terça-feira, 15 de novembro de 2022
sábado, 29 de outubro de 2022
Por um cristianismo pós-cristão. Olhando para o futuro
Talvez Collin esteja certo quando afirma que o cristianismo
ainda não existe (2020). Tomamos isso como um desejo e como indicação de um
caminho, como se dissesse que, quem deseja viver, experimentar a proposta
cristã, deve ir na direção oposta ao que havia sido indicado no cristianismo,
sem nostalgia do passado, mas olhando para frente com confiança. Neste último
parágrafo, após analisar algumas teorias que apresentam um olhar nostálgico ao
tempo que foi e não é mais, tentaremos traçar algumas linhas de desenvolvimento
no futuro pós-cristão.
Neste ponto do discurso é importante fazer um
esclarecimento. O fim da metafísica não significa o fim da religião, mas o fim
daquela forma religiosa que utilizou a metafísica para sistematizar seu próprio
pensamento. O fim da metafísica ao invés de ser o fim da religião, portanto,
abre caminho para novidades novas e interessantes. A seguir, ofereço algumas
breves indicações que, sem dúvida, carecem de um estudo mais aprofundado, mas
que, de qualquer forma, desejam oferecer uma contribuição ao debate sobre o
futuro do cristianismo. Por isso, procuro indicar alguns caminhos de
desenvolvimento que, na minha opinião, já estão em andamento.
A primeira delas é a possibilidade de um cristianismo não
institucional. Pode-se pensar que o protestantismo já percorreu esse caminho e
que, consequentemente, não há nada de novo na proposta. Na verdade, sabemos que
as coisas não são bem assim. Se, de fato, é verdade que o protestantismo no
início se distanciou das formas institucionais da religião, seu desenvolvimento
histórico o descansou no leito da institucionalização. Não é fácil pensar e
estruturar uma nova intuição. Na verdade, não basta a intuição, precisamos
também de um contexto que permita sua realização. Quando Lutero iniciou sua
reforma, a cultura moderna estava se enraizando no caminho do humanismo e afetando
todos os setores da sociedade, inclusive a religião. A evolução da teologia
moderna para manter um diálogo com o mundo cultural circundante, toma como
referência o método científico.
O que, então, significa uma abordagem não-institucional do
cristianismo? Como deve ser configurado? Significaria um retorno às origens ou,
pelo menos, retomar um caminho inacabado. O pós-cristianismo abre a
possibilidade não de restaurar o cristianismo, como gostariam Cuchet, Delsol e
Dreher, com diferentes nuances, mas de retomar o caminho interrompido pelo
próprio cristianismo, não para reproduzi-lo, mas para se inspirar em suas
origens. Abandonar os locais de culto institucionalizados, cada vez mais
vazios, para se encontrar lendo a Palavra de Deus em pequenas comunidades
domésticas, num movimento que se desenvolve a partir de baixo, sem necessidade
de referência institucional, que muitas vezes se torna a causa da lentidão do
caminho das comunidades: este é um primeiro desenvolvimento.
Em segundo lugar, apontamos a possibilidade de criar
comunidades em que o princípio da igualdade não seja uma utopia, mas o clima
natural da viagem. Se a instituição controla os conteúdos e as modalidades da
viagem, a liberdade em um caminho básico não institucionalizado lançaria as
bases para uma experiência comunitária em que os membros têm os mesmos direitos
e deveres, inclusive o da presidência na celebração. Em última análise, o
controle das relações em uma cultura patriarcal torna-se opressivo e exclusivo
como forma de controle do poder. O cristianismo se permitiu ser moldado pela
cultura patriarcal porque, desde seu início, reivindicou o poder. Pelo
contrário, numa comunidade que não se preocupa com nenhum poder, mas única e
exclusivamente com o bem-estar do povo, a igualdade dos membros torna-se uma
exigência implícita. Nesta perspectiva, a futura comunidade cristã será como um
ponto de referência seguro no qual todos podem sentir-se parte dela, sem
qualquer tipo de exclusão. Comunidades desse tipo, modeladas pelo estilo do
Evangelho, podem tornar-se caminhos constantes de humanização, lugares de
acolhimento, fraternidade e sororidade.
A comunidade que se estrutura na era pós-cristã, justamente
por não ser uma instituição, não precisa de líderes ou guias. Todos podem
celebrar e todos podem liderar a comunidade, porque a perspectiva não é mais
piramidal, mas circular. É toda a comunidade que se torna celebrante, também
porque o número de membros será pequeno e não haverá necessidade de um líder
estabelecido. Os membros da comunidade decidirão como distribuir as tarefas
para o funcionamento da vida comunitária. Relações igualitárias, que também
geram a necessidade de não haver desigualdades sociais entre os membros. Dessa
forma, entende-se que o estilo do evangelho exige um caminho em que as relações
sejam pautadas pela busca constante da igualdade entre os membros, sem qualquer
tipo de discriminação cultural e social. O Reino de Deus anunciado por Jesus
encontra no novo contexto cultural pós-cristão uma maior possibilidade de
realização, também porque o pós-cristianismo nasce sobre os escombros do
cenário moderno do cristianismo. O estilo coercitivo típico da modernidade,
deixa necessariamente espaço para um estilo dialógico e democrático.
Uma característica que marcou profunda e negativamente o
cristianismo ocidental foi seu entrelaçamento com o poder político e econômico,
que muitas vezes se tornou motivo de escândalo. A Igreja como potência do mundo
manteve afastados de seu próprio espaço aqueles que deveriam ser acolhidos. As
classes mais pobres da sociedade não só não se sentiram acolhidas pela Igreja,
salvo em algumas experiências muitas vezes dificultadas pela instituição
eclesial, como foram visadas, penalizadas com tributação no limite da
resistência. Não só isso, mas a rigidez de seus dogmas, consequentemente, criou
um número significativo de pessoas excluídas da comunidade. Divorciados,
separados, homossexuais, lésbicas transexuais: há todo um mundo que se sente
rejeitado por aquela instituição que deveria ter expressado o sinal tangível da
humanidade acolhedora de Jesus. Na era pós-cristã que começamos a viver, haverá
a possibilidade de constituir comunidades inspiradas no Evangelho e que se
apresentem como uma verdadeira sociedade alternativa à lógica do dinheiro e
toda a lógica da opressão.
Outra característica da caminhada eclesial pós-cristã é que
ela é contagiosa. Se as estruturas rígidas, os sistemas abrangentes que tinham
a pretensão e, sobretudo, a presunção de explicar tudo, de explicar todos os
aspectos da realidade, estavam entre as características mais significativas da
modernidade e do cristianismo moderno, na era pós-cristã que está dando seus
primeiros passos, a cultura é fluida e, portanto, contaminável. Enquanto a
característica de uma estrutura rígida é proteger-se de possíveis contaminações
que possam colocar em risco o sistema, em uma cultura pós-moderna e ao mesmo
tempo pós-sistêmica, a fluidez permite e exige a possibilidade de contaminação
cognitiva e espiritual. Transpor esses insights para o campo teológico
significa reconhecer a presença do Espírito Santo em todas as culturas e
reconhecer que o Espírito já está presente em tudo. Também havia conhecimento
desse dado teológico na era moderna, mas não era possível vivê-lo plenamente
devido à rigidez da mentalidade sistêmica. A contaminação na eclesiologia é um
aspecto da inculturação que implica uma atitude de escuta de outra cultura. As
comunidades que se desenvolvem no pós-cristianismo serão contaminadas, porque
não terão mais o problema de se defender, de proteger uma ortodoxia. Além
disso, serão contaminados porque considerarão os conteúdos vindos de fora como
uma possibilidade de enriquecimento, de troca e, consequentemente, de
crescimento e não uma ameaça.
A mudança não acontecerá da noite para o dia: levará tempo.
De qualquer forma, o certo é que a mudança está ocorrendo e a estrutura moderna
da cultura ocidental já faz parte do passado. Estamos, portanto, em uma espécie
de zona intermediária, na qual não há pontos de referência e esse estado gera
inquietação, insegurança, desejo de se apegar às lembranças do passado. Olhar
para o futuro em que se encontra Cristo vitorioso sobre a morte significa
confiar nele, na sua Palavra, no seu Evangelho, no que ele está fazendo entre
nós. Nunca como nesta época de transição para o pós-cristianismo, o mundo
precisa de comunidades alternativas, que experimentem todos os dias a bondade
da proposta do Senhor ressuscitado.
sexta-feira, 7 de outubro de 2022
quinta-feira, 29 de setembro de 2022
QUANDO O PASSADO É PRETEXTO PARA COBRIR O VAZIO DO PRESENTE
Paolo Cugini
Pintadas 2011
Estava falando outro dia com um amigo
meu, por telefone, e me chamou atenção uma coisa. Enquanto eu estava
partilhando a minha vida presente, os trabalhos pastorais na nova paróquia, o
trabalho como professor na faculdade, ele ficou lembrando somente os velhos
tempos que se foram. Logo, não percebi o teor do diálogo, mas depois, relembrando
essa conversa, fiquei matutando dentro de mim e me questionando: por que será
que este cara falou somente do seu passado? Será que não tem nada de bom no seu
presente? Qual é o seu problema?
Ainda hoje assistimos a situações deste
tipo não apenas em conversas entre amigos, mas também em situações políticas e
sociais. Lembro o papo furado de um candidato a prefeito de uma das cidades em
que passei nesses anos de Bahia. Toda vez que pegava no microfone, independente
do contexto, sempre fazia questão de citar a construção daquilo que ele
pomposamente chamava de “O maior prédio escolar da Bahia”. Anos de administração
pública pífia e muitas vezes corrupta, eram justificados somente com a referência
a um passado glorioso que não existia mais, conseguindo enganar o presente do
povo pobre, com um discurso vazio feito de lembranças passadas.
Quanta gente vive desfrutando o próprio
passado de glória! Quanta gente sentou sobre as cinzas quentinhas de um passado
glorioso, ou até heroico, mas que depois não correspondeu a um presente do
mesmo teor. Quanta gente se acomodou sobre os heroísmos da própria juventude,
sobre as conquistas realizadas no passado, mas que depois não tiveram
continuidade, acomodando-se no sofá da vida, vivendo de lembranças do tempo que
foi e que nunca mais será. Quantas pessoas encontrei nesses anos de Bahia que
estufam o peito falando das lutas sociais realizadas no passado, quando eram
pobres lascados e hoje estão com o bolso cheio! Quantos fantasmas encontramos
nas praças das nossas cidades, fantasmas de pessoas que já eram e que não são
mais, pelo simples fato de renunciara a lutar, a viver o próprio presente,
satisfeitos com as migalhas que ganharam com o passado de glória. Quantas
pessoas aprenderam a preencher o vazio da própria vida com as lembranças de um
tempo que se foi, renunciando viver o próprio presente e saborear a novidade da
vida!
O problema é que o passado não volta e,
sobretudo, não existe, pois existe somente o presente. Quem vive só de lembranças
não consegue saborear a força e a novidade do presente e, em outras palavras, não
consegue viver uma vida autêntica. Esta reflexão tem também um sentido evangélico.
De fato, já o profeta Isaías convidava o povo a esquecer o passado para se
concentrar na vida presente, que Deus estava querendo realizar. O mesmo Paulo
na carta aos Filipenses dizia: “Por causa
de Cristo tudo o que eu considerava como lucro, agora considero como perda”(Fil
3,8). É no presente da nossa vida que Deus vem ao nosso encontro. A atenção aos
sinais dos tempos que o Senhor coloca na nossa vida para nos mostrar o Caminho,
exige uma constante atenção ao presente da história. Quem vive com a mente
constantemente virada ao passado, não consegue perceber a passagem do Senhor no
presente da vida e, assim, fica endurecendo o coração, se tornando resistente à
Palavra de Deus, insensível à ação do Espírito Santo. Sobretudo, porém, quem
vive fora do tempo, perde uma ocasião propícia para se converter e colocar a
própria vida na trilha que o Senhor traçou.
Quantas vezes nas paróquias em que
passei, nas comunidades que encontrei me deparei com situações como esta!
Quantas vezes nas paróquias e nas comunidades de base encontrei pessoas com a
cabeça virada para o passado, incapazes de colher a novidade da presença do
Senhor na história! Quantas discussões e incompreensões por causa disto – a incapacidade
crônica de escutar a novidade, amarrados num passado que, graças a Deus, nunca
irá voltar. Somos humanos e humano é o medo da novidade presente. A vida
espiritual deveria servir a isso, ou seja, a caminhar de cabeça erguida,
fitando a glória do Senhor ressuscitado que está em nossa frente para que em
nosso presente possamos colocar sinais da Sua presença. A vida espiritual se
realiza no diálogo cotidiano com o Senhor da vida e da história que aponta a
novidade do caminho que precisamos percorrer. Que o grito do Senhor que
encontramos no livro da Apocalipse: “Eis
que faço nova todas as coisas” possa encontrar discípulos e discípulas acordados
e não dormindo sobre os sonhos do passado, mas atentos para os novos desafios
que o Senhor coloca em nossa frente.
A CONSOLAÇÃO ENGANADORA DO PASSADO
Paolo Cugini
Pintadas 2011
É sempre importante dar o nome às
coisas, aos eventos ou às situações, sobretudo quando não conseguimos
detectá-las e entendê-las. Existe toda uma literatura religiosa distorcida
sobre o importante tema do pecado, que não permite entender esse fenômeno
espiritual na sua justa profundeza. Sem dúvida, o pecado é uma experiência
negativa que provoca amargura e tristeza nas pessoas que buscam a Deus com
coração sincero. Além disso, o pecado se manifesta de várias maneiras e se
camufla de um jeito que, às vezes, podemos confundi-lo com algo de positivo. O
pecado é uma alternativa ao plano de Deus que, quando consegue penetrar em
nosso horizonte de vida, provoca um profundo mal-estar. Por que, então,
entramos nesses caminhos sombrios quando sabemos muito bem que nos causam
tristeza e mal-estar?
Os sábios de todos os tempos e culturas
indicam na felicidade o grande anseio do homem e da mulher. A busca da
felicidade, que se realiza no bem viver, é o foco das nossas preocupações, seja
de forma explícita ou implícita. A autenticidade da vivência Evangélica leva
para uma vida feliz, que se manifesta como plenitude. Quem na própria vida faz
a experiência do encontro pessoal com o Senhor não sente mais necessidade de
nada: só Deus basta! É nesse sentido que podemos entender os votos de
castidade, pobreza e obediência que, longe de serem imposições externas, são a
resposta pessoal a uma profunda experiência de amor, percebida como algo
incomparável.
Qualquer experiência humana, também a
mais profunda como pode ser a autêntica experiência de fé, é moldada na
estrutura antropológica humana. Somos humanos e não deuses; estamos sujeitos ao
tempo que passa, à caducidade com as suas influências na nossa estrutura
psíquica. As experiências humanas, por serem humanas, passam através do crivo
do tempo e, assim, tendem a esfriar, enfraquecer e, às vezes, a se derreter
para sempre. Quanto mais profunda for a experiência de fé ou uma experiência de
amor humano, maior será a força para aguentar o peso do sofrimento dos
problemas que encontramos no tempo presente. Infelizmente, nem sempre
conseguimos manter a concentração no nosso presente, sobretudo, nem sempre
conseguimos elaborar rapidamente novas motivações, necessárias para enfrentar o
tempo presente com os seus desafios.
É exatamente nessas passagens da nossa
vida que se insinua o pecado, assim viramos para o passado na busca da
consolação naquilo que não é mais, mas que já foi bom, muito bom. O pecado, nesse
sentido, busca empurrar o homem e a mulher no passado da vida, tirando-o do
presente, sobretudo quando este se apresenta como duro, insuportável e, então, dificulta
o anseio constante de felicidade humana. E, assim, insatisfeitos com o nosso
presente, nos transferimos ao passado, tentando ressuscitá-lo, mergulhando
nele, como se fosse algo real. É a necessidade humana da consolação que nos
leva a este sutil caminho do pecado, vivendo no presente com a cabeça no
passado. Claramente, não é a única forma com a qual o pecado se apresenta à
nossa consciência, mas é um dos caminhos que ele percorre, sobretudo nas
pessoas adultas, com uma discreta e significativa bagagem de sonhos.
Por que o pecado se manifesta, nestes
casos, como fuga no passado tirando-nos da realidade do nosso presente? A
resposta, para os cristãos, não é muito difícil. De fato, é no presente da
história humana que Cristo se manifesta. É no hoje da nossa vida que podemos
encontrar misteriosamente e, de fato, a presença real de Jesus Cristo, para nos
convertermos a Ele e segui-lo. “Hoje a
Salvação entrou nesta casa” (Lc 19). Foi com essas palavras que Jesus se
apresentou na casa de Záqueu, oferecendo para ele um caminho novo de vida.
Somente permanecendo no presente da vida teremos chance de encontrar o Senhor que
nos convida no Caminho da vida. Nesse sentido, podemos entender a vida
espiritual como um constante esforço de manter os pés no chão da nossa
realidade, desmascarando as insistentes tentativas de fuga na busca da
consolação do passado. E assim, a oração, longe de ser uma alienação, torna-se
um necessário exercício cotidiano de mergulho no presente da história – não de
qualquer presente, mas daquele presente que Deus nos apontou e continua nos
apontando como único espaço para alcançarmos a vida verdadeira.
COMO SE MUDA PARA NÃO MORRER
Paolo Cugini
São as palavras de um refrão de uma música italiana cuja autora é conhecida
também no Brasil, porque cantou com alguns cantores brasileiros: Fiorella
Mannoia. Uso estas palavras como ponto de referência para a reflexão que estou
realizando nesses dias. É difícil ficar coerente com os próprios ideais, com as
decisões tomadas na juventude. Percebe-se esta dificuldade, não apenas nas
pessoas superficiais, mas, também, naquelas acostumadas a refletir, a pensar e
ponderar os passos da própria vida. É difícil ser coerente a vida toda. É fácil
ser coerente quando a vida corre nas veias, quando tudo vai bem, quando o tempo
é nosso aliado, quando a nossa vida esbanja saúde. Muito mais difícil é ser
coerente com os próprios ideais quando o mundo anda do lado oposto ao qual
decidimos viver e tudo parece andar na corrente contrária. É difícil ficarmos
coerentes quando somos ameaçados, quando alguém nos pressiona, quando recebemos
ofertas extremamente vantajosas. É raro encontrar uma pessoa que fica de pé
quando é tentado pelo dinheiro ou pelo poder: se deita logo, nem precisa
apertar muito. Nesses casos, nos impele a tentação das massas, de fazer parte
da maioria, como se a Verdade fosse um problema de maioria e não de conteúdo.
Sentimos o sabor da vida boa, daquela que todo mundo quer: que se danem os
ideais!
Quantas
pessoas, até amigas, nesses anos todos de vida mudaram por medo de ficar de
fora, na minoria? Quantas pessoas mudaram de religião só porque não aguentaram
o confronto com os irmãos e as irmãs da caminhada? Quantas pessoas mudaram de
partido só por interesse pessoal? Quantas pessoas que um tempo eram doentes por
um partido ou uma ideologia, de repente, se tornam doentes do partido da
oposição? Quantos amigos e amigas se tornaram inimigos? Quantas pessoas
encostaram por um período na minha vida somente para tirar uma lasquinha e
depois “tchau!”? Muda-se para não morrer, para não ficar isolado, esquecido; só
que muitas vezes, são exatamente estas mudanças que acabam conosco, com a nossa
moral, com a seiva da nossa vida. E, assim, enquanto estamos fazendo de tudo
para não perder o trem da multidão e da massa e, sobretudo, da vida boa, na
realidade estamos perdendo aquilo que dava o sabor à nossa existência, que
fazia com que a gente fosse diferente, com uma qualidade, um valor autêntico:
uma ideologia, uma fé, um credo.
Ficando
bem atentos aos processos da nossa consciência, ou seja, com aquilo que
acontece em nossa vida interior, percebemos que, ao longo dos anos, a matéria
se torna sempre mais protagonista em nossa existência, exigindo sempre mais
espaço. É a lei da sobrevivência, do instinto que manda em nossos passos
corriqueiros. Se na juventude são os grandes ideais que nos emocionam e
empolgam, ao longo dos anos, a necessidade de sobreviver, de viver amparados, a
sedução da vida estética, o medo da morte e das doenças estimulam o nosso lado
instintivo. Como lidar com isso?
Seremos
pessoas autênticas somente quando ficarmos fieis aos nossos ideais. Por isso, a
verdade da nossa existência se realiza quando os ideais nos quais acreditamos
não se desmancham perante a força agressiva da vida instintiva. O exemplo de
tudo isso, mais uma vez, é Jesus. De fato, a prova da grandeza dEle, não
devemos procurá-la nos milagres que Ele fazia, mas sim na firmeza que Ele teve
na hora da paixão. Foi nessa hora de grande sofrimento, que os instintos
exigiam um compromisso com o mundo, e a consciência puxava pela fuga, que Jesus
demonstrou a toda humanidade o sentido da palavra homem, da palavra mulher.
Sim, o homem, a mulher é tal quando assume a própria identidade, quando não se
esconde atrás de nada e de ninguém e, sobretudo, quando sabe enfrentar as
consequências da fidelidade das próprias ideias. Jesus, na hora do sofrimento,
não mudou de religião, na hora do aperto, não mudou de partido: Jesus foi fiel
até o fim. É este o seu grande ensinamento. Jesus não mudou para não morrer,
mas morreu para dar um novo sentido à vida (Tapiramutà-2009).
PASTORAL DA JUVENTUDE – CONTINUANDO A REFLEXÃO
Paolo Cugini (2006)
No número de junho do Jornal “Caminhar Juntos” comecei uma
reflexão sobre a pastoral da juventude. Naquele artigo coloquei algumas
exigências que parecia-me imprescindíveis para participar de um grupo jovem da
Igreja católica: o amor a Cristo e o amor a Igreja. Salientei isto porque
perante a multidão de jovens que não freqüentam a Igreja, a tentativa para
atraí-los ou de conduzi as lideranças dos grupos abaixaram o nível da proposta.
Só, que desta forma engana-se os jovens. Também o problema não é este, os
salões no Sábado a noite de jovens, mas, criando ambientes vivos, onde os
jovens experimentam antes de mais nada uma amizade, um relacionamento humano,
uma atenção pessoal.
Isto que parece-me o ponto central do problema. O risco das
dioceses e das paróquias com falta de vontade e criatividade, é de apresentar
uma proposta morna, insossa, sem amor, aquela mesma proposta que o mundo
oferece, embora com conteúdos diferentes. As praças e as boates nas festas ficam
cheias de jovens anônimos que não se conhece, e continuam no anonimato depois
da festa. Tudo começa e termina na festa. A empolgação vai embora um dia depois
e nínguem lembra mais de ninguém. Pelo contrário Jesus quando encontrava alguém
parava para dialogar com ele, se afastava da mutidão e da confusão para que o
diálogo pudesse descer em profundidade. Sem dúvida quem encontrava Jesus
lembrava dele; era um encontro que marcava a vida. Encontrar os jovens dessa
forma é aquilo que está precisando. Nessa altura da pra entender que o problema
não está na sigla (PJ, MP, PJ, PJR, PJE, RNC...), mas na intensidade da relação
que conseguimos tecer com os jovens que encontramos.
Por isso queremos nos comprometer para formarmos grupos de
amigos, de pessoas que se amam, se respeitam, que aprende através da vida de
grupo, a se perdoar, a partilhar, a dialogar. O mundo não oferece nada disso
por isso para formar grupo jovem desse tipo é preciso passar para uma forte
experiência de Deus. Não se formam grupo jovem simplesmente porque quer
desenvolver um trabalho. Se começa um grupo jovem com o desejo de ajudá-los
assim encontrarem com Jesus Cristo para fazer a experiência dele, para viver
como Ele. O grupo jovem da Igreja católica tem uma identidade bem precisa: o
Evangelho de Jesus cristo. Se é assim, pode coordenar um grupo jovem só aquela
pessoa que está buscando conhecer a Jesus e está amando a sua Igreja.
Os trabalhos (políticos, sociais, educativos... ) que o grupo
desenvolve torna-se uma conseqüência e nunca a prioridade. De fato, a
experiência desses anos ensina-nos que quanto mais os jovens de um grupo se
esforçam para aprimorar a vida espiritual e a vivencia na Igreja, tanto mais se
comprometem com vontade e dedicação os trabalhos sociais. Pelo contrário quem começa
um grupo jovem para “fazer um trabalho” sem cuidar da vida espiritual é
destinado ao fracasso. “queremos ver Jesus: Caminho, Verdade e Vida”: O tema do
projeto pastoral da CNBB para os próximos anos. Que este desejo de ver Jesus
esteja nos corações de todas as pessoas de boa vontade que trabalham para e com
a juventude da nossa paróquia.
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