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domingo, 24 de setembro de 2023

PADRE NO MUNDO PÓS-MODERNO

 




 Paolo Cugini

 

1. A conjuntura atual não apresenta um quadro positivo para vida do padre. Os escândalos da pedofilia solaparam a credibilidade do clero. A rapidez das mudanças culturais da pós-modernidade descortina a velhice do sistema eclesial e, sobretudo, a sua incapacidade de se atualizar, de elaborar uma proposta ao passo com os tempos. A cultura pós-moderna, que questiona as formas rígidas de racionalidade, não aceita mais as atitudes autoritárias, típicas das estruturas que se formaram na época medieval. O mundo caminha sempre mais na direção do diálogo democrático e quem tem dificuldade a sair das formas rígidas do pensamento corre o risco de ficar de fora do contexto. Enquanto até poucas décadas atrás o padre era uma figura respeitada e referência moral do povo, hoje, neste novo quadro sócio-cultural, o padre é uma figura ambígua, pouco crível e parte de uma estrutura que dia após dias perde de credibilidade.

2. O padre vive esta época com grande angústia, pois ele é ao mesmo tempo parte da estrutura rígida da Igreja e também parte desta cultura pós-moderna em continua mudança. De um lado, o padre se sente continuamente solicitado a ser fiel a uma estrutura na qual acredita, pois é nela que amadureceu a própria escolha de vida; do outro, percebe todo dia a urgência de uma mudança radical e o sofrimento pela lerdeza da Instituição a abraçar este caminho de mudança. O padre no diálogo cotidiano com as pessoas que encontra é solicitado a oferecer respostas a problemas que ele não vive na própria pele. Além do mais, o conteúdo que ele tem a disposição para orientar as pessoas não é atualizado, pois é fruto de uma elaboração conceitual de uma época que não tem mais a ver conosco. E, assim, o padre se encontra a toda hora num rumo cego, sem saída: sabe que o Evangelho de Jesus é o Caminho certo que a humanidade deve percorrer para realizar uma existência mais humana, mas, ao mesmo tempo, percebe que os conteúdos elaborados pela Instituição do qual ele é fiel servidor tem pouco a ver com a demanda e os questionamentos dos seus interlocutores.

3.  Acho extremamente importante entender este elemento da atualização, pois mexe com um dato fundamental do cristianismo, que é a vida no Espírito. De fato, Jesus não pronunciou um conjunto de dogmas rígidos e infalíveis, mas sim uma proposta viva par os homens e as mulheres de todos os tempos. Nesta história, o Espírito Santo tem um papel fundamental, pois é graça a Ele que a Palavra de Jesus é atualizada nos novos contextos culturais. Existem períodos na história da humanidade e, sem dúvida, o nosso que estamos vivendo é um deles, aonde é visível a tensão entre Espírito e Instituição, entre Carisma e Poder. O ideal seria o equilíbrio entre as duas forças, mas este equilíbrio é difícil alcançar em tempo de crise, que exige capacidade de resposta à altura da situação. É nessa altura que o padre deveria exercer um papel importante, pois ele vive a contato com o povo – pelo menos deveria – e por isso sente na própria pele as mudanças culturais que necessitam de respostas imediatas. Infelizmente, quando a Igreja elabora um documento sobre os temas da atualidade, raramente o padre é interpelado para expor suas opiniões. Quem faz os documentos da Igreja são pessoas que tem pouco contato com o povo, pessoas que vivem dentro de palácios, que conversam entre si sem entender bem o que se passa no mundo. Não é de estranhar, então, se os documentos oficiais da Igreja são uma citação contínua de documentos passados, tentando de adaptá-los e nem sempre com sucesso, ás novas exigências. O padre verdadeiro, aquele que ama Deus e vive a contato com o povo, sofre demais por esta distância entre a mensagem da Igreja, que deveria atualizar o Evangelho á luz do Espírito Santo e os problemas reais. O padre percebe que no Evangelho tem uma força explosiva, têm indicações suficientes para oferecer respostas uteis às pessoas que toda hora o procuram e o questionam sobre os problemas essências da vida. Ao mesmo tempo, porém, o padre sente que não tem a resposta certa, pois as respostas que ele tem a disposição tem pouco a ver com a realidade que ele vive e que o seu povo vive: fazer o que?

 4. Ser padre neste quadro não é fácil, pois se trata de viver num contínuo questionamento, numa continua ambigüidade. Num mundo em continua mudança o padre deve transmitir a toda hora valores eternos.  Num contexto cultural que, como nos lembra o sociólogo polonês Bauman é preciso não se identificar com algo de fixo, o padre é o sinônimo da estabilidade, daquilo que nunca muda. O padre deveria ser a pessoa capaz de repassar aos seus contemporâneos o testemunho da presença de Cristo, uma presença viva e clara do amor de Deus que se manifestou na sua ação e nas suas Palavras. O problema é que nunca como hoje este testemunho foi tão ofuscado, nunca como hoje a transparência da vida de Jesus foi tão danificada por aquela instituição que deveria manifestá-la. E ai vem o problema do padre, ou seja, daquele homem que sente-se chamado por Deus a viver integralmente o amor de Jesus, mas que percebe a dificuldade de fazer isso dentro uma Instituição que parece ter perdido o rumo, a alegria de servir a Cristo, a força moral de testemunhá-lo. Por isso vários deles, ao longo dos anos, deixam o ministério, outro se afrouxam, outros ainda se entregam aos vícios. Sem dúvida, tem muitos que continuam firmes no ministério servindo a Deus e ao povo com o maior carinho do mundo. Mas é visível o descaso, a perca de terreno, o constrangimento que os padres vivem para não conseguir caminhar ao passo com os tempos. Seria mais fácil e menos doloroso se o padre vivesse preso dentro num mosteiro, num palácio: mas o padre vive no meio do povo e o seu sentir é o sentir real do povo.

Como sair deste círculo viçoso? Que caminho percorrer para ajudar o padre a votar com força a ser testemunho vivo do Evangelho? Como ajudar a Hierarquia eclesiástica que está meio perdida, afastada dos problemas do povo?

sexta-feira, 30 de junho de 2023

QUANDO UM PADRE CASADO PODE SER UM RECURSO E NAO UM PROBLEMA

 

Mario trabalhou como padre na paroquia de Ipirà no 2008



 

Paolo Cugini

Mario é um italiano casado e feliz, pai de duas filhas que atualmente mora com sua família em Malmo, na Suécia. ele tem um excelente currículo escolar composto por um bacharelado em teologia, uma licença (Mestrado) em teologia espiritual; frequentou o curso de dois anos para consultores e gestores organizacionais em Milão gerido pelo consultório privado APS (análise psicossocial) e o curso para formadores em Torrazzeta (Pavia) com Manenti e Cencini . Mario combina habilidades específicas com qualidades humanas de primeira linha. Além disso, ensinou teologia espiritual por dez anos e foi responsável pela pastoral juvenil na diocese de Reggio Emilia, além de ter sido pároco. Pode-se dizer que serviu a Igreja e aqueles que o conheceram podem acrescentar com segurança que ela a serviu muito bem. Em 2008 ele conheceu Laura, eles se casaram e têm dois filhos. Mario não se considera um ex-padre, mas um padre que interrompeu um caminho e iniciou outro.

Laura


Após a viagem do Papa Francisco em 2016 para participar das comemorações dos 500 anos da reforma de Lutero, que aconteceram em Lund e Malmo, a associação comunitária Papa João XXIII, à qual Laura estava ligada há algum tempo, enviou a família de Laura e Mario para viver uma experiência ecumênica em diálogo com as outras igrejas. O surpreendente é que eles podem vivenciar esse diálogo dentro de outra Igreja, a luterana. Atualmente Laura trabalha com uma associação privada apoiada pelas igrejas, com vítimas de tráfico: a maioria são mulheres e transexuais. Mario, por outro lado, trabalha na paróquia luterana de San Matteo, que faz parte da unidade pastoral da cidade, dividida em seis grupos de paróquias. San Matteo faz parte do grupo de paróquias de San Giovanni: San Mateo, San Palo, Santa Maria e San Giovanni. Há 14 funcionários trabalhando na paróquia. Isso é possível porque na Suécia, quem quiser pode dar 2% (não 8 por mil) para sua Igreja. A função de Mario é a de educador com as crianças, o cuidado do catecismo e dos jovens. Trabalha na cozinha um domingo por mês porque, depois da missa dominical, há o almoço comunitário. Com as pessoas que trabalham na freguesia há uma reunião semanal de equipa para verificação e planeamento. Há também outros encontros com educadores.

Mário também trabalha na Igreja Luterana de Santa Maria. Embora na Suécia seja o Estado que cuida dos pobres, as igrejas também são ativas no tema da caridade. Na Igreja Diaconal de Santa Maria são realizadas atividades em favor das pessoas marginalizadas. Aqui Mário, juntamente com uma equipe, acolhe os mais pobres. Além disso, foi-lhe pedido que introduzisse a teologia da libertação como teologia de referência para o trabalho diaconal. A diaconisa Ninni é casada e está encarregada dos pontos de diaconia luterana da cidade. Há alguns anos frequentou cursos no Centro de Estudos Bíblicos de São Leopoldo, Brasil. Foi neste Centro de Estudos que, na década de 70 do século passado, alguns estudiosos da Bíblia ligados à Teologia da Libertação desenvolveram um método específico, denominado: Leitura Popular da Bíblia. Ninni conheceu a família de Mario e Laura, apreciou muito a prática do trabalho de escuta realizado por Mario e decidiu que a teologia da libertação deveria se tornar a prática do caminho dos diáconos. Neste novo percurso, houve dois acontecimentos que marcaram particularmente o percurso.

Mario junto com uma diacona da paroquia


O primeiro foi um trabalho de pesquisa-ação proposto por Mário com pais que participam de atividades musicais com crianças na igreja. Um projeto novo e inovador que tem permitido à equipa paroquial conhecer as motivações e expectativas dos participantes, muitas vezes não explicitadas, até por questões culturais. Este trabalho de investigação permitiu à equipa orientar melhor as escolhas pastorais e, ao mesmo tempo, conhecer as aptidões de Mário, que posteriormente foi convidado a realizá-lo noutras paróquias. O outro momento importante deste caminho formativo foi o dia passado em conjunto com o método de leitura popular da Bíblia, que correu tão bem que foram planejados mais cinco momentos no Outono.

A janta da pequena comunidade


Além desta caminhada dentro da Igreja Luterana, a família de Laura e Mario faz parte de uma "pequena comunidade" formada por elas, duas meninas que estão fazendo uma experiência comunitária em um apartamento da paróquia, localizado ao lado da casa dos nossos amigos, e outras quatro pessoas que moram nas proximidades. Esta comunidade nasceu em 2015, no período que viu o afluxo de uma grande onda de migração da Síria e um padre decidiu fundar uma pequena comunidade inspirada na espiritualidade de Taizé feita de oração e hospitalidade. Desde 2019 Laura e Mario estão nesta paróquia e foram convidados a fazer parte desta pequena comunidade.

Linnea e Ida, que fazem parte da pequena comunidade, casaram o ano passado.
Linnea està estudando teologia para se tornar padre


Ao terminar estas linhas apetece-me dizer: houve necessidade de ir à Suécia à igreja luterana para viver serenamente a própria fé? Não poderíamos recebê-los? Será que tanta competência e humanidade não poderiam estar à disposição desse pedacinho do Reino de Deus que está aqui perto de nós em Reggio Emilia?