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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Uma liturgia que habita as margens

 




Paulo Cugini

 

 

Como podemos celebrar junto com pessoas que vivenciam exclusão, precariedade e a experiência de não serem ouvidas? A questão não se resume a adaptar um rito a um contexto diferente. Ela nos convida a refletir sobre quem pode falar, quais experiências estão incluídas na celebração e como uma comunidade pode se identificar com suas ações. Uma liturgia das margens começa quando as pessoas não são consideradas receptoras de uma proposta preexistente, mas interlocutoras na construção de uma experiência compartilhada.

Transportar um modelo festivo desenvolvido em outro lugar para um contexto marginalizado, sem questionar sua compreensibilidade e sua capacidade de abarcar a vida local, corre o risco de criar distanciamento. O problema não reside nas origens romanas do rito, nem no valor da tradição que ele preserva. Recai na ideia de que suas formas expressivas podem ser aplicadas igualmente em qualquer lugar, como se línguas, memórias e as circunstâncias concretas das pessoas fossem elementos secundários. A referência cristã à encarnação oferece uma perspectiva diferente: a vida concreta não é um obstáculo a ser superado para encontrar o Mistério, mas o lugar onde se busca a sua presença. Conceber uma liturgia inculturada, portanto, significa levar a sério as palavras, os corpos, os relacionamentos, as feridas e as esperanças cotidianas das pessoas. Não basta acrescentar uma canção local a uma celebração que permaneceu alheia ao seu contexto. Devemos nos perguntar se toda a forma de acolher, falar, ouvir e rezar permite que a comunidade esteja verdadeiramente presente.

Uma celebração capaz de habitar as margens exige pessoas dispostas a escutar, uma prática que amadurece com a familiaridade ao contexto. Não se trata simplesmente de reunir informações para melhor preparar uma reunião. Trata-se de aprender quais palavras são familiares, quais gestos têm significado e quais formas de participação podem deixar alguém desconfortável. Essa escuta requer tempo e a disposição de reconsiderar os próprios hábitos. Além disso, as margens não constituem um mundo uniforme. Mesmo dentro da mesma comunidade, diferentes histórias, sensibilidades e desejos coexistem. Conceber a celebração em conjunto significa não atribuir uma única voz a todos e não transformar o sofrimento em uma identidade obrigatória. Aqueles que vivenciam a exclusão também devem poder expressar gratidão, alegria e planos, ou escolher o silêncio. A participação autêntica inclui o direito de não compartilhar publicamente a própria dor.

No contexto de uma favela latino-americana, a questão inicial pode não ser sobre toalhas de mesa, candelabros ou vestes litúrgicas, mas sim sobre a possibilidade de cada pessoa se sentir acolhida e reconhecida. Isso não significa contrapor beleza à pobreza. Mesmo um espaço simples pode ser cuidadosamente preparado, e mesmo aqueles que vivem em circunstâncias precárias podem desejar uma celebração solene. A questão reside na ordem de prioridades: objetos e formas devem servir ao encontro, e não se tornarem o critério para medir o valor de uma comunidade. Ajudar as pessoas a se sentirem amadas pelo mistério revelado em Jesus significa oferecer espaço para orações compreensíveis, para cânticos com os quais elas se identifiquem e para gestos que não exijam o abandono da própria história. Na ideia de liturgia como uma ação do povo, surge, portanto, uma questão crucial: o povo participa apenas do que outros prepararam, ou contribui para discernir como celebrar? A criatividade não consiste em multiplicar novidades, mas em buscar em conjunto formas que possibilitem uma presença consciente.

Não existe uma estrutura única que possa ser proposta para todos os contextos marginalizados: ela se tornaria mais um modelo imposto de fora. No entanto, podemos vislumbrar um caminho de diálogo com a comunidade, levando em consideração a estrutura do Rito Romano e distinguindo o que pode ser preparado em conjunto das modificações que exigem discernimento e autorização específicos.

O desafio de uma liturgia inculturada não é escolher entre tradição e vida, mas buscar o encontro entre ambas sem apagar a singularidade de cada indivíduo. Uma celebração das margens não deve romantizar a precariedade nem fazer espetáculo da exclusão. Deve ajudar uma comunidade a reconhecer que sua experiência merece ser ouvida e que a alegria do Dia do Senhor pode ser expressa sem a adoção de palavras e sensibilidades estrangeiras.

A mudança crucial talvez seja esta: de um rito simplesmente levado a um lugar para um rito vivenciado pelas pessoas que ali vivem. Não uma celebração preparada para os marginalizados sem consultá-los, mas uma jornada para ouvir, discernir e celebrar juntos. A questão que deve ser preservada, no fim, permanece concreta: quem pôde estar ali com sua própria voz, sua própria história e sua própria liberdade?

 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

A liturgia inculturada: fidelidade ao mistério e atenção ao povo

A inculturação litúrgica não é simplesmente uma questão de adaptação externa, mas uma questão teológica e pastoral profunda. Requer a preservação da essência da liturgia, permitindo simultaneamente que ela ressoe na realidade concreta dos povos.




Paolo Cugini

 

Uma liturgia é verdadeiramente inculturada quando não está alienada da vida concreta das pessoas que participam dela. Ela está atenta ao contexto histórico, cultural e religioso do lugar onde é celebrada, porque o rito cristão nunca acontece em um espaço abstrato, mas dentro de uma comunidade real, marcada por uma língua, uma memória, símbolos, feridas, esperanças e suas próprias maneiras de habitar o mundo.

Falar de inculturação litúrgica significa, portanto, reconhecer que a celebração da fé deve ser capaz de proclamar o Evangelho de maneiras compreensíveis, significativas e vitais para um povo. O Concílio Vaticano II abriu claramente essa perspectiva, afirmando que, embora se preserve a unidade substancial do Rito Romano, deve-se deixar espaço para a legítima diversidade e as adaptações específicas de diferentes povos e regiões. De fato, a liturgia não é uma simples repetição de fórmulas, mas a ação viva da Igreja celebrando o mistério de Cristo dentro da história.

Por um lado, a inculturação exige atenção rigorosa para evitar distorções na herança litúrgica recebida. A liturgia tem sua própria essência, sua própria objetividade, um conteúdo que não depende do capricho do celebrante, do grupo que prepara a celebração ou das sensibilidades passageiras de uma comunidade. Ela pertence a Cristo e à Igreja: portanto, não pode ser transformada em uma representação folclórica, uma performance cultural ou uma composição subjetiva continuamente modificável.

O rito preserva uma memória, uma forma e uma teologia. As palavras, os gestos, os silêncios, os sinais sacramentais e a ordem da celebração não são elementos ornamentais, mas veículos da fé. Modificá-los sem discernimento enfraqueceria a capacidade da liturgia de introduzir os fiéis ao Mistério Pascal. Portanto, a inculturação não pode ser confundida com improvisação ou com a adição superficial de elementos locais. Por outro lado, porém, uma liturgia que não escuta o contexto corre o risco de se tornar muda, distante, incapaz de falar aos corações das pessoas. A sensibilidade pastoral exige que a celebração leve em conta a história de um povo, suas categorias simbólicas, suas formas de expressão, sua experiência religiosa e suas questões mais profundas. Não se trata de moldar a liturgia à cultura, mas de permitir que o mistério cristão seja proclamado e celebrado de maneira verdadeiramente encarnada.

A inculturação surge precisamente desta convicção: o Evangelho não destrói as culturas, mas as encontra, as purifica, as absorve e as transfigura. Cada povo possui línguas, gestos e imagens capazes de abrir caminhos para a compreensão do mistério. Quando esses elementos são acolhidos com discernimento, podem ajudar a assembleia a participar de forma mais consciente, mais ativa e mais profunda na celebração.

O ponto crucial, portanto, é o equilíbrio. Uma liturgia inculturada não é rigidamente uniforme nem arbitrariamente criativa. Ela não impõe modelos culturais estrangeiros como se fossem a única forma possível de fé, mas também não dissolve a liturgia em uma coleção de costumes locais. Ela surge de um discernimento eclesial capaz de questionar quais elementos de uma cultura são compatíveis com o Evangelho, quais melhor expressam a fé celebrada e quais, ao contrário, precisam ser purificados ou deixados de lado. Esse discernimento não se refere apenas a formas externas, como música, idioma, cores, gestos ou instrumentos. Refere-se, sobretudo, à qualidade do encontro entre fé e cultura. Introduzir um cântico tradicional ou um símbolo local não basta para que a liturgia seja inculturada. Esses elementos devem ser integrados de maneira orgânica, respeitosa e teologicamente fundamentada, de modo a servir ao mistério celebrado e não a obscurecê-lo.

No mundo contemporâneo, marcado pela pluralidade cultural e religiosa, a inculturação litúrgica é um desafio crucial. Ela permite à Igreja evitar tanto o colonialismo religioso, que busca identificar a fé com uma única tradição cultural, quanto o relativismo ritual, que perde de vista a unidade do mistério cristão. A liturgia inculturada demonstra que a universalidade da Igreja não coincide com a uniformidade, mas com a comunhão das diferenças em torno do mesmo Senhor. Portanto, uma comunidade que deseja celebrar de forma inculturada deve escutar: a Palavra, a tradição litúrgica, o ensinamento da Igreja e a vida concreta do povo. Só assim a celebração poderá ser fiel e viva, preservada e criativa, enraizada na tradição e capaz de dialogar com as mulheres e os homens de hoje.

Em última análise, a inculturação litúrgica não é simplesmente uma questão de adaptação externa, mas uma profunda questão teológica e pastoral. Requer a preservação da essência da liturgia, permitindo simultaneamente que ela ressoe na carne concreta dos povos. Quando isso acontece, a liturgia não perde sua identidade: pelo contrário, manifesta com mais força sua vocação mais autêntica, a de tornar o mistério de Cristo presente na história da humanidade e das culturas.

 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

LITURGIA - Documentos da Igreja Católica

 



 

Os documentos oficiais da Igreja Católica sobre a liturgia dividem-se entre constituições conciliares, instruções e os próprios livros litúrgicos (que contêm as normas práticas).

 

1. Documentos do Concílio Vaticano II

  • Sacrosanctum Concilium: A Constituição sobre a Sagrada Liturgia é o documento fundamental. Ela define a liturgia como o "cume e a fonte" da vida da Igreja e estabeleceu as bases para a reforma litúrgica moderna. 

2. Instruções e Documentos Pontifícios

  • Instrução Geral do Missal Romano (IGMR): Contém todas as normas sobre como celebrar a Missa, desde a disposição do altar até os gestos dos fiéis.
  • Redemptionis Sacramentum: Trata sobre o que deve ser observado e evitado em relação à Santíssima Eucaristia, combatendo abusos litúrgicos.
  • Desiderio Desideravi: Carta Apostólica do Papa Francisco (2022) sobre a formação litúrgica do povo de Deus.
  • Ecclesia de Eucharistia: Encíclica de João Paulo II sobre a relação entre a Igreja e a Eucaristia. 

3. Livros Litúrgicos (Contêm o Rito e as Rubricas) 

Estes são os livros usados diretamente nas celebrações e que possuem força de lei: 

  • Missal Romano: Para a celebração da Missa.
  • Lecionários: Contêm as leituras da Sagrada Escritura (Dominical, Ferial e Santoral).
  • Liturgia das Horas: A oração pública e cotidiana da Igreja (Breviário).
  • Pontifical e Rituais: Livros para a celebração dos sacramentos (Batismo, Crisma, Matrimônio, etc.) e bênçãos.

 

terça-feira, 5 de agosto de 2025

A liturgia como espaço de contaminação teológica

 




Diálogos entre tradição, cultura e fé no rito

Paolo Cugini

A liturgia, entendida como expressão ritual da fé, sempre representou um dos lugares privilegiados onde a teologia toma forma, se transforma e se confronta com as múltiplas dimensões da experiência humana. Nessa perspectiva, a liturgia não é um conjunto estático de gestos e palavras, mas um espaço vivo de contaminação teológica: um cruzamento onde diferentes tradições, sensibilidades e reflexões se encontram, dialogam e frequentemente se fundem, gerando novas formas de expressão do sagrado e novas interpretações da fé. Isso, pelo menos, é o que deveria acontecer, ou seja, a possibilidade de participar de liturgias que sejam um espaço autêntico de encontros de caminhos diversos e, sobretudo, a possibilidade de expressar o Mistério em uma linguagem que entre em sintonia com quem participa.

Ao longo da história, a liturgia sempre refletiu uma multiplicidade de tradições teológicas. Já nos primeiros séculos do cristianismo, as maneiras de celebrar a Eucaristia, o Batismo ou as Horas litúrgicas diferiam sensivelmente entre as diversas comunidades locais, de acordo com as influências culturais, linguísticas e teológicas do contexto. Essa pluralidade nunca esteve isenta de tensões: as lutas entre as diferentes escolas teológicas, os debates doutrinários e as necessidades pastorais atravessaram constantemente o espaço litúrgico, gerando contaminações fecundas mas também conflitos e cismas. A própria história da Igreja — basta pensar no contraste entre oriente e ocidente, entre rito romano e ritos orientais, entre protestantismo e catolicismo — pode ser lida como uma contínua dialética de contaminações e separações, frequentemente evidentes justamente na liturgia.

Falar de “contaminação” na esfera litúrgica e teológica não significa necessariamente pensar em corrupção ou perda de pureza. Ao contrário, a contaminação pode ser entendida como uma dinâmica positiva, capaz de gerar vitalidade, abertura e criatividade dentro da comunidade cristã. Ao longo dos séculos, a liturgia soube acolher e integrar elementos provenientes de culturas, povos e tradições mesmo muito diferentes entre si. As melodias gregorianas dialogaram com as escalas orientais, os textos litúrgicos se enriqueceram com simbolismos e mitos locais, as arquiteturas dos lugares de culto incorporaram estilos diferentes, dando origem a uma polifonia que reflete a riqueza e a complexidade da fé vivida.

Um dos conceitos-chave para compreender a liturgia como espaço de contaminação teológica é o da inculturação. A liturgia, longe de ser um monólito dogmático, é frequentemente o resultado de um processo sincrético no qual elementos pré-cristãos, práticas populares e novas sensibilidades espirituais encontram lugar ao lado dos ritos institucionais. As reformas litúrgicas, como a promovida pelo Concílio Vaticano II, representaram momentos cruciais de abertura e diálogo: a tradução dos textos para as línguas locais, a inserção de músicas e simbolismos típicos das diferentes culturas, e a participação mais ativa dos fiéis favoreceram uma contaminação capaz de renovar e tornar mais autêntica a celebração.

Se a teologia é reflexão sobre a fé vivida, a liturgia representa o laboratório onde essa reflexão encontra sua verificação e expressão concreta. Aqui, experimentam-se novas formas de oração, redefinem-se os símbolos, resignificam-se os gestos tradicionais. A contaminação teológica torna-se assim o motor de um processo criativo que renova a compreensão do mistério cristão e o torna acessível às gerações seguintes. Um exemplo emblemático são as liturgias ecumênicas, nas quais cristãos de diferentes confissões se reúnem para celebrar juntos, integrando elementos de suas respectivas tradições em um rito comum. Nesses contextos, a contaminação não é apenas tolerada, mas buscada, na consciência de que a diversidade enriquece a comunhão e abre novos caminhos para a busca teológica.

No mundo atual, caracterizado por uma crescente mobilidade e mistura de povos e culturas, a liturgia é chamada a se confrontar com a interculturalidade. As comunidades cristãs frequentemente precisam integrar pessoas de origens, línguas e sensibilidades muito diferentes, perguntando-se como celebrar uma fé comum sem apagar as identidades particulares. Nesse sentido, a liturgia torna-se um espaço privilegiado de contaminação teológica, onde se experimentam novas sínteses entre universalidade e particularidade, entre tradição e inovação. Os cantos, os símbolos, os gestos e até a disposição dos espaços celebrativos podem ser repensados à luz das novas exigências pastorais, abrindo caminho para uma teologia mais inclusiva e dialógica.

Naturalmente, a contaminação teológica no âmbito litúrgico não está isenta de riscos. O perigo de uma banalização do sagrado, de um sincretismo superficial ou de uma perda de coerência teológica está sempre presente. Cabe à comunidade, aos pastores e aos teólogos discernir, em cada caso, quais elementos podem ser integrados sem trair o núcleo essencial da fé cristã. O diálogo entre as diferentes tradições deve ser orientado pelo respeito mútuo, pelo conhecimento profundo das próprias raízes e pela capacidade de reconhecer o valor da alteridade sem temer a erosão da própria identidade.

A liturgia, entendida como espaço de contaminação teológica, configura-se como um laboratório vivo onde a fé se encarna na história, se abre ao encontro e se renova. Ela é o lugar onde a teologia deixa de ser mera especulação abstrata para tornar-se gesto, palavra, canto, relação. Em um tempo em que as identidades parecem se fechar em si mesmas, a liturgia convida à contaminação, ao diálogo, à acolhida do outro. Nesse movimento, a Igreja pode redescobrir a profundidade do próprio mistério e a riqueza inesgotável do Evangelho, sempre capaz de gerar novas formas de beleza, de comunhão e de sentido.

A liturgia como encontro: um espaço onde a teologia encontra a vida concreta das pessoas e das culturas.

A contaminação como recurso: um processo dinâmico que enriquece a fé e abre novos caminhos ao diálogo entre tradição e inovação.

A responsabilidade comunitária: O discernimento necessário para integrar sem perder o essencial.

Assim, na infinita trama da liturgia, cada contaminação é ocasião de crescimento, de escuta e de redescoberta da presença viva do mistério cristão no coração da humanidade.

 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

A DOENÇA DO TRADICIONALISMO LITURGICO

 



O Papa Francisco nunca hesitou em criticar os representantes "retrógrados" da Igreja. No entanto, suas declarações mais recentes sobre o tradicionalismo litúrgico em sua Igreja dificilmente poderiam ser mais incisivas.

A informação é publicada por Katolish.de, 14-01-2025.

O Papa Francisco fez duras críticas a representantes ultraconservadores da Igreja que continuam apegados à chamada Missa Tridentina. O Papa havia limitado fortemente esse rito litúrgico, no qual o sacerdote celebra em latim e de costas para os fiéis. Em sua autobiografia "Esperança", publicada na terça-feira, ele justificou essa polêmica decisão afirmando que não é produtivo transformar a liturgia em uma questão ideológica.


"É curioso esse fascínio pelo incompreensível, pelo som misterioso, que muitas vezes desperta o interesse das gerações mais jovens", disse o Papa. "Essa postura rígida geralmente vem acompanhada de vestes preciosas e caras, com bordados, rendas e estolas". Francisco criticou, afirmando que isso não é uma alegria pela tradição, mas pura ostentação de clericalismo, não um retorno ao sagrado, mas uma modernidade sectária.


Distúrbios emocionais e problemas comportamentais

"Às vezes, por trás dessas vestimentas, escondem-se desequilíbrios graves, distúrbios afetivos, problemas de comportamento ou um desconforto pessoal que pode ser instrumentalizado", escreveu o Papa. Ele relatou que enfrentou essa problemática em quatro ocasiões durante seu pontificado: três na Itália e uma no Paraguai.

Esses casos envolviam dioceses que aceitavam candidatos ao sacerdócio rejeitados por outros seminários. "Esses candidatos geralmente têm algo de errado, algo que os leva a esconder sua personalidade por trás de conceitos rígidos e sectários", alertou Francisco.

Ele também classificou como hipocrisia as resistências internas da Igreja contra a abertura dos sacramentos para divorciados recasados e contra a bênção de casais homossexuais. "O tradicionalismo, essa insistência recorrente em uma 'retrógrada' em cada século, é um fenômeno sociologicamente interessante, pois sempre remete a um tempo supostamente perfeito, mas que muda a cada ocasião", escreveu o pontífice, de 88 anos.


Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/647914-papa-francisco-confronta-tradicionalistas-da-liturgia  

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Uma liturgia com os traços da humanidade de Jesus

 




Paolo Cugini


Para compreendermos o significado da liturgia na vida da comunidade cristã buscando nas origens e, de modo especial, olhando para Jesus, para os Evangelhos, percebemos que há um traço marcante em seu modo de se relacionar com o mundo e com as pessoas: sua humanidade. É este aspecto da humanidade de Jesus que deve moldar a celebração litúrgica. Podemos logo afirmar que a lliturgia deveria reproduzir os traços da humanidade de Jesus, pois a partir de sua vinda, encontramos Deus através da humanidade de seu Filho Jesus.

Há um caminho de humanização que a vida cristã deve percorrer. A Gaudium et Spes (GS) recorda-nos que: “Quem segue a Cristo torna-se também mais homem” (GS 4). É na qualidade humana dos fiéis e das comunidades cristãs que a credibilidade da mensagem cristã se manifesta. É a qualidade de vida humana que faz a diferença. O humanismo evangélico, em sua profunda cumplicidade com o humano autêntico, representa o presente e sobretudo o futuro do cristianismo. Na humanidade de Jesus, nos seus gestos humanos encontramos a divindade de Deus. A busca de uma liturgia mais humana não consiste apenas em recordar a dimensão ética da liturgia, nem ainda outra estratégia pastoral. O problema é, de fato, de natureza teológica e, portanto, essencial para que seja uma liturgia cristã e não um mero rito religioso como muitos outros. A nossa liturgia é cristã, se estiver em conformidade com a humanidade de Jesus.

Se o mistério de Deus foi revelado através da humanidade de Jesus, da mesma forma a liturgia deve ser fiel ao modo desta revelação. Até a celebração da revelação de Deus deve ter a forma do Evangelho. O modo de celebrar na liturgia deve conformar-se ao modo como Deus se revelou em Jesus, em sua humanidade. A liturgia é revelação em ação. Precisamente o documento conciliar Sacrosantum Concilium (SC) nos lembra que “Através da liturgia se realiza a obra da nossa redenção” (SC 1). Foram estas ideias que orientaram a reforma do CV II, para reconduzir a liturgia às suas origens, isto é, ao Evangelho. Jesus falava a língua do povo, e não uma língua sagrada. Jesus falou e se fez entender. Ele celebrou a Eucaristia pela primeira vez em torno de uma mesa. Os primeiros discípulos partiram o pão em suas casas. Uma humanidade, a de Jesus, caracterizada por um convívio constante: Jesus sentava-se à mesa com todos e todas. A última ceia é o último de muitos jantares com seus discípulos e discipulas. A centralidade do altar nas nossas igrejas lembra-nos que a comunidade cristã é uma comunidade de mesa, porque Jesus assim quis e, consequentemente, a Eucaristia refere-se à relacionalidade, ao cuidado dos gestos entre as pessoas que dela participam.

A referência de Jesus na Última Ceia não é o contexto sacrificial, mas sim um contexto doméstico, comunitário, uma liturgia conduzida pelo pai de família, num contexto informal e próximo da vida. Jesus queria para sua comunidade uma mesa partilhada em contexto familiar; isto significa que: as formas rituais que o expressam não devem distanciar-se da vida. Por isso, são estranhas as atitudes reverenciais e distanciadas, próprias de um contexto sacrificial e sacro, mas totalmente alheias ao contexto familiar e humano desejado por Jesus. Se retirarmos da liturgia o que é autenticamente humano ao mesmo tempo tiramos o que é autenticamente divino . Na liturgia, devemos encontrar a gramática da vida. Isto também se aplica à linguagem da liturgia. O Vaticano II deu a possibilidade de aceder às línguas faladas precisamente para recuperar o fato primordial de toda relação autêntica: a linguagem. Não há possibilidade de relacionamento sem a possibilidade de compreender o que o outro diz. Jesus falava em aramaico, a língua de seu tempo, através da qual se fazia entender. Jesus não falava uma língua sagrada, mas usava expressões da vida das pessoas; não morava em sacristias ou universidades e usava o vocabulário da vida cotidiana, muito mais do que o religioso. “As multidões ficavam maravilhadas com o seu ensinamento” (Mt 7,28). “Nunca um homem falou assim” (Jo 7,46).

O anúncio do Evangelho, hoje, somente pode realizar-se com base em respostas credíveis à pergunta: “crer ajuda-me a viver”? A relação entre liturgia e vida apresenta-se de uma forma nova, em comparação com a época do Concílio. Hoje exprime-se, pedindo que a celebração seja um lugar vital, para regenerar a vida de cada crente. A liturgia como lugar gerador e regenerador do crente para a vida, fonte de vida comunitária, exige uma atenção constante à reprodução no contexto litúrgico dos traços da humanidade de Jesus. A liturgia, portanto, deveria ser uma continuação dos evangelhos, de tal forma que as pessoas que participam dos ritos se sintam envolvidas pela humanidade de Jesus e o reconheçam presente neles. Nos Evangelhos encontramos declarações que expressam o desejo de as pessoas de encontrar Jesus e que são verdadeiras expressões litúrgicas: “Senhor, ajuda-me!” (Mt 15,25); “Jesus, tenha misericórdia de mim!” (Mc 10,47); “Senhor, o meu servo sofre em casa” (Mt 8,6). Esta liturgia dos Evangelhos fala-nos do homem Jesus, que escuta os pedidos vitais do povo, que caminha com os homens e as mulheres de seu tempo, se deixa tocar, pára para ouvir, acaricia, ri, chora: há tanta humanidade em seus gestos! Por isso, a partir de agora, depois de Jesus, o sagrado não precisa mais ser coberto com os sinais de poder para induzir medo e reverência, mas deve ser despojado, porque o Pai, através do Filho, decidiu colocar uma tenda no meio de nós. É a simplicidade dos gestos humanos que fala da grandeza do amor de Jesus, que encontramos em sua humanidade. Diante da vastidão da mensagem cristã, do hiperativismo da vida paroquial, da complexidade de nossos ritos, de sua redundância barroca, a simplicidade da liturgia dos Evangelhos é impressionante. Retornar aos gestos simples da humanidade de Jesus é a tarefa atual da liturgia na Igreja, tarefa indicada pelo CV II.

Só uma liturgia humana pode celebrar a vida humana, seguindo o caminho traçado por Jesus e, o sofrimento, é o ponto mais alto da humanidade. O critério de verdade na liturgia é assumir o sofrimento: o abandono, a exclusão, a solidão. A tarefa de uma liturgia humana é contribuir para humanizar a realidade. Comunhão, caridade, hospitalidade: a liturgia é um recurso da humanidade. Tal como todos aqueles que se sentiam excluídos da sociedade se dirigiram a Jesus, também hoje todos aqueles que no mundo se sentem excluídos, marginalizados, ridicularizados, discriminados devem se sentir acolhidos na liturgia. É no sinal dos pregos que se vê o amor daquele que o Pai ressuscitou. Da mesma forma, é numa comunidade que coloca os pobres, os crucificados da história no centro das suas liturgias que o mundo pode reconhecer a luz do Ressuscitado. Na Oração Eucarística V lemos: “dai-nos olhos para ver as necessidades e os sofrimentos dos nossos irmãos e irmãs”. A celebração eucarística é o lugar da fraternidade e a Eucaristia é o ensinamento mais elevado da humanidade. Não podemos receber inocentemente o pão da vida sem compartilhá-lo com os necessitados. A nossa fé eucarística chama-nos a viver uma ética eucarística, que nos leva a experimentar uma humanidade mais profunda para com os necessitados. É Cristo quem vem ao nosso encontro na liturgia com os pobres, os migrantes, os excluídos. A Eucaristia é um protesto contra a desigualdade e ela contém uma utopia: não é possível sermos humanos ao celebrá-la e sermos desumanos ao sair da Igreja.


terça-feira, 1 de agosto de 2023

APRESENTAÇÃO DA CARTA APOSTOLICA DE PAPA FRANCISCO DESIDERIO DESIDERAVI (Lc 22,15)-(2022)

 

Pe Washington

 


Manaus-1.8.2023

 

Relator: Pe Washington Peranhos SJ

Síntese: Paolo Cugini

 

Desde o começo do seu pontificado, Papa Francisco falou claro a necessidade de uma reforma da Igreja e, de modo especial, da liturgia. Um dos eventos que estamos acompanhando é a desfiguração do sagrado. Nesta carta apostólica se encontram elementos da reflexão de Romano Guardini. Como nós celebramos revela o sentido da igreja.

Assunto da carta: a formação litúrgica do Povo de Deus.

Na realidade brasileira um problema foi de abandonar as comunidades para concentrar todo o trabalho pastoral na Matriz. Passar de uma mentalidade sacramental para uma mias pastoral, atenta ao povo. Papa Francisco fala da celebração litúrgica como arte que está ao serviço do ministério pascal e da sua beleza. Para que a reforma litúrgica aconteça é necessária uma formação litúrgica.

Guardini analisa as oposições polares que estão em jogo no ato litúrgico: alma e corpo, ser humano e coisa, individuo e comunidade, religião e cultura. Ritos romanos:

·         Rito romano promulgado depois do Concilio Vaticano II: é roto ordinário.

·         Rito extraordinário: possibilidade de celebrar em latino (Bento XVI).

·         Rito ambrosiano.

·         Rito romano adaptado para as comunidades anglicanas

·         Rito romano adaptado para as comunidades neo-catecumenais

·         Rito da Igreja do Congo

O rito romano é sóbrio e simples.

O clero di Manaus


Formação litúrgica. Um pontificado marcado pelas questões da reforma eclesial, da sinodalidade, do discernimento e da misericórdia, na fidelidade ao Concilio Vaticano II, não poderia não se interessar pela liturgia.

Traditionis custodes: moto próprio de Francisco. Indica como única expressão os livros litúrgicos promulgados por Paolo VI e João Paulo II.

Papa Francisco convida as comunidades a assumirem a recepção da Sacrosantum Concilium e da reforma litúrgica como dinâmica eclesial.

Problema: como o ser humano moderno pode se reapropriar do ato litúrgico­

A questão litúrgica: retomada do dato teológico da ação litúrgica. Sair de uma mentalidade rubricista ou jurídica. Questão litúrgica diz respeito a relação que as ações simbólico-rituais exercem para a identidade eclesial como lugar de acolhida da Revelação na fé.

A última ceia: toda criação, toda história foi uma grande preparação para aquela ceia.

Antes do Concilio Vaticano II tinha somente pregações e sermões, não tinha a homilia, que foi retomada no Concilio Vaticano II. Antes tínhamos a leitura do Evangelho. É a partir da celebração da Palavra escolho os prefácios. É graças ao rito que nós somos transportados ao mesmo único rito do evento fundador.

Guardini: o rito e o símbolo têm sido sempre menos compreendidos e não é mais acolhido.

Precisamos colocar a reforma litúrgica dentro do paradigma do Concílio Vaticano II.

Participação ativa dos fiéis: já estava presente no Movimento litúrgico. Não pode ser entendida como um fazer dentro da liturgia.

Reformar a liturgia (Andrea Grilo). A liturgia devolve a igreja a sua identidade de povo celebrante: participação ativa de todo povo sacerdotal.

sábado, 23 de abril de 2022

Uma liturgia com os traços da humanidade de Jesus

 



Paolo Cugini

Só podemos compreender o sentido da liturgia na vida da comunidade cristã voltando às origens e, de modo especial, olhando para Jesus, para os Evangelhos. Há um traço marcante no modo de Jesus se relacionar com o mundo, com as pessoas: sua humanidade. É este aspecto da humanidade de Jesus que deve moldar a celebração litúrgica.

Há um caminho de humanização que a vida cristã deve percorrer. A Gaudium et Spes lembra-nos que: "quem segue a Cristo, torna-se também mais homem" (GS 4). É na qualidade humana dos crentes individuais e das comunidades cristãs que se manifesta a credibilidade da mensagem cristã. É a qualidade de vida humana que faz a diferença. O humanismo evangélico em sua profunda cumplicidade com o humano autêntico, representa o presente e sobretudo o futuro do cristianismo. O que há para ver de Deus, vimos em Jesus: aqui estão todos os discursos possíveis sobre o sentido humano da liturgia. A busca de uma liturgia mais humana não é simplesmente evocar a dimensão ética da liturgia, nem mais uma estratégia pastoral, mas é de natureza teológica e, portanto, essencial para que seja uma liturgia cristã e não um mero rito religioso como muitos outros. A nossa liturgia é cristã se for conforme à humanidade de Jesus.

Se o mistério de Deus foi revelado através da humanidade de Jesus, da mesma forma a liturgia deve ser fiel ao caminho desta revelação. A celebração da revelação de Deus deve ter também a forma do Evangelho. O modo de celebrar na liturgia deve estar em conformidade com o modo como Deus se revelou em Jesus, na sua humanidade. A liturgia é revelação em ato. O documento conciliar Sacrosantum Concilium nos lembra que “ a obra de nossa redenção se realiza através da liturgia ” (SC 1). São essas ideias que orientaram a reforma do Concílio Vaticano II, para restaurar a liturgia à sua origem, ou seja, ao Evangelho. Jesus falava a língua do povo, e não uma língua sagrada. Jesus falou e se fez entender. Ele celebrou a Eucaristia pela primeira vez em torno de uma mesa. Os primeiros discípulos em suas casas partiram o pão. Uma humanidade, a de Jesus, caracterizada pelo convívio constante: Jesus sentou-se à mesa com todos. O jantar é o último de muitos jantares com seus discípulos. A centralidade do altar de nossas igrejas nos lembra que a comunidade cristã é uma comunidade da mesa, porque Jesus assim o quis e, consequentemente, a Eucaristia remete à relacionalidade, ao cuidado dos gestos entre as pessoas que dela participam.

A referência de Jesus na Última Ceia não é o contexto sacrificial, mas o contexto doméstico, comunitário, uma liturgia conduzida pelo pai de família, num contexto informal próximo da vida. Jesus queria uma mesa partilhada em contexto familiar para a sua comunidade; isso significa que as formas rituais que a expressam não devem afastar-se da vida. Por isso, não compreendemos as atitudes reverentes e distantes, típicas de um contexto sacrificial e sacral, mas totalmente alheias ao contexto familiar e humano desejado por Jesus. Na liturgia devemos encontrar a gramática da vida. Isto também se aplica à linguagem da liturgia. O Vaticano II deu a possibilidade de acessar as línguas faladas justamente para recuperar o dado primordial de toda relação autêntica: a língua. Não há possibilidade de relacionamento sem a possibilidade de compreender o que o outro está dizendo. Jesus falava em aramaico, a língua do seu tempo, graças à qual se fazia entender. Jesus não falava uma língua sagrada, mas usava expressões da vida do povo. Jesus não morava nas sacristias nem nas universidades e usava o vocabulário da vida cotidiana, muito mais do que o religioso. "As multidões se maravilhavam com o seu ensino " (Mt 7:28). " Nunca um homem falou assim " (Jo 7:46).

A relação entre liturgia e vida apresenta-se de uma maneira nova em relação ao tempo do Concílio. Hoje declina pedindo que a celebração seja um lugar vital, para regenerar a vida dos crentes individuais. A liturgia como lugar que gera e regenera o crente na vida, fonte da vida comunitária, exige atenção constante à reprodução no contexto litúrgico dos traços da humanidade de Jesus. Tudo o que os Evangelhos referem a Jesus com seu povo é uma antecipação do significado da liturgia. A liturgia, portanto, deve ser uma continuação dos Evangelhos, de tal forma que as pessoas que participam dos ritos, se sintam envolvidas pela humanidade de Jesus e o reconheçam presente neles. Nos Evangelhos encontramos afirmações que expressam o desejo do povo de encontrar Jesus e que são verdadeiras expressões litúrgicas: " Senhor, ajuda-me !" (Mt 15:25); " Jesus tem piedade de mim!" (Mc 10,47) ; " Senhor, o meu servo está em casa sofrendo " (Mt 8,6). Esta liturgia dos Evangelhos fala-nos de um homem Jesus, que escuta os pedidos vitais do povo, que caminha com os homens e mulheres do seu tempo, se deixa tocar, pára para ouvir, acaricia, ri, chora: há tanta humanidade em seus gestos. Por isso, a partir de agora, depois de Jesus, o sagrado não precisa mais ser revestido com os sinais de poder para induzir o medo e a reverência, mas deve ser despido, porque o Pai, por meio do Filho, decidiu colocar uma tenda no meio de nós. É a simplicidade dos gestos humanos que falam da grandeza do amor de Jesus, que encontramos na sua humanidade. Jesus travou uma batalha pela vida e lutou até a morte. Perante a vastidão da mensagem cristã, o hiperactivismo da vida paroquial, a complexidade dos nossos ritos, a sua redundância barroca, impressiona a simplicidade da liturgia dos Evangelhos. Voltar aos gestos simples da humanidade de Jesus é a tarefa atual da liturgia na Igreja, tarefa indicada pelo Concílio Vaticano II.

O teólogo alemão Christoph Theobald disse que: “ vida e fé estão intimamente ligadas ”. A fé não pode ser transmitida sem transmitir fé na vida. A celebração dos sacramentos da fé é um lugar de contato entre a vida de Cristo e a vida do homem e da mulher hoje. Nas passagens decisivas da vida, únicas e definitivas, onde a vida é mais vida, os sacramentos da Igreja projetam a luz do Evangelho. A finalidade dos sacramentos deve ser significar a vida à luz do mistério pascal, afastá-los da lógica do acaso e do destino. Toda a humanidade da liturgia se revela nos sacramentos. A pastoral dos sacramentos é hoje a Galiléia dos povos. Dentro da questão dos sacramentos há um sentido profundo da vida que deve ser reconhecido e honrado, há uma forma germinal daquela fé natural que todo ser humano tem na vida: é a fé em Deus, o autor da vida.

Só uma liturgia humana sabe celebrar a vida humana, no caminho traçado por Jesus: o sofrimento é o lugar mais alto da humanidade. O critério da verdade da liturgia é assumir o peso do sofrimento: abandono, exclusão, solidão. A tarefa de uma liturgia humana é ajudar a humanizar a realidade. Comunhão, caridade, acolhimento: a liturgia é um recurso da humanidade. Assim como todos aqueles que se sentiram excluídos da sociedade foram para Jesus, também hoje todos aqueles no mundo que se sentem excluídos, marginalizados, ridicularizados, discriminados devem ser acolhidos. É no sinal dos cravos que se manifesta o amor daquele que o Pai ressuscitou. Da mesma forma, é em uma comunidade que coloca os pobres, os crucificados da história no centro de suas liturgias, que o mundo pode reconhecer a luz do Ressuscitado. Na Oração Eucarística Va lemos: “ dai-nos olhos para ver as necessidades e os sofrimentos dos irmãos”. A celebração eucarística é o lugar da fraternidade. A Eucaristia é o mais alto ensinamento da humanidade. Não podemos receber inocentemente o pão da vida sem compartilhar o pão da vida com os necessitados. Nossa fé eucarística nos chama a viver uma ética eucarística, que nos leva a viver uma humanidade mais profunda para com os necessitados. É Cristo que na liturgia vem ao nosso encontro com os pobres, os migrantes, os excluídos. A Eucaristia é um protesto contra a desigualdade. A Eucaristia contém uma utopia: não é possível ser humano quando é celebrada e ser desumano quando se deixa a Igreja.

 

terça-feira, 12 de abril de 2022

UMA LITURGIA FORTEMENTE MARCADA PELO PESO DO PASSADO

 



Paolo Cugini

 

O tema da liturgia é importante porque reflete o modo de entender Deus: do modo como uma comunidade celebra a Eucaristia, entendemos o que Deus acredita. A insistência no preceito resultou no esvaziamento da dimensão relacional e comunitária, que está na base do sentido da liturgia eucarística, entendida como ação do povo. A pregação que durante séculos insistiu na obrigatoriedade do preceito dominical se, por um lado, fez difundir o costume da missa dominical como hábito necessário para a salvação, por outro o entregou definitivamente nas mãos da classe sacerdotal e a tirando-a, assim, ao povo de Deus. Houve, portanto, um processo de distorção em relação ao significado original que Jesus quis dar à Eucaristia, como sinal de sua presença no meio de seus irmãos e irmãs e como um momento dela entrega sua mensagem central à comunidade.

O novo contexto cultural em que estamos imersos, se por um lado se mostra insensível aos aspectos religiosos devido à sua marcada significância materialista, por outro nos permite recuperar alguns aspectos que foram perdidos ao longo do tempo. O esvaziamento da leitura metafísica e ontológica da realidade, completada na era pós-moderna, abriu caminho para a pluralidade de narrativas possíveis dos acontecimentos. Dessa forma, passamos de uma abordagem constritiva da religião, com preceitos, obrigações e deveres, que circunscrevem o modo de pertencimento ao sagrado, para um tipo de abordagem livre, baseada mais na compreensão subjetiva do que na coerção.

Hoje a geração jovem é totalmente indiferente às obrigações e ameaças aos preceitos religiosos. Passar de um estilo coercitivo para uma proposta que estimule o livre interesse das pessoas pela proposta religiosa, exige uma mudança radical de paradigma, que exige a disposição de não identificar a bondade da proposta com a quantidade numérica dos participantes. O controle coercitivo do povo pela casta sacerdotal, amparado pelo clima político e social que permitia esse estilo coercitivo, provocou de imediato a presença massiva dos fiéis nos momentos religiosos. A certa altura do caminho, a Igreja, ao invés de ter o cuidado de propor o estilo do fundador, deixou-se levar pela possibilidade real de controle das massas que, ao mesmo tempo, significava a possibilidade de contar com o poder político e debates sociais. Quem controla as massas controla o poder. Certos dispositivos doutrinários, como a confissão obrigatória diante da Eucaristia, exacerbaram o controle da classe sacerdotal sobre os fiéis, ao invés de propor um caminho de liberdade como proposto pelo Mestre. O mesmo se pode dizer da imposição do celibato sacerdotal aos candidatos ao sacerdócio, que estigmatizou um processo de diversificação do clero em relação ao povo e, em particular, às mulheres.

A jurisprudência canônica, a teologia e a espiritualidade que se desenvolve a partir do século X d.C. se aliam para sustentar o mesmo discurso da necessidade de uma classe sacerdotal para administrar o sagrado. A liturgia é o espaço mais adequado para se manifestar esse fenômeno mais político do que religioso. A arquitetura dos espaços religiosos é o documento histórico mais visível desse processo de desconstrução política da mensagem evangélica, em favor de uma instituição que, em determinado momento, decide seguir seu próprio caminho, esquecendo a origem do mesmo caminho. Nos edifícios utilizados para eventos litúrgicos, o espaço em que a classe sacerdotal administra o sagrado sofre uma dupla operação arquitetônica. Existe, de facto, um processo de separação do espaço atribuído ao sacerdote, que desempenha as suas funções do resto do povo. Essa separação é destacada por estruturas específicas - as balaustradas - que indicam até onde as pessoas podem ir. Em segundo lugar, há uma progressiva elevação da área denominada presbitério, com o objetivo de tornar visível o espaço sagrado. Os historiadores da liturgia nos alertam que essas mudanças ocorrem no período em que, devido às invasões bárbaras, que assolam o Império Romano, os dados bíblicos e patrísticos se perdem e a liturgia sofre a nova abordagem materialista do mundo religioso. Não busca-se mais a chamada dimensão ontológica dos acontecimentos que acompanharam a vida de Jesus, para repropor na liturgia, mas tenta-se reproduzir o mais fielmente possível o que aconteceu materialmente. A elevação do presbitério deveria, nesta perspectiva, significar o monte das oliveiras em que Jesus viveu a paixão.

Simultaneamente a esse fenômeno, há outro que o acompanha. Esta é a identificação progressiva da igreja com o Império Romano, que se tornou o Sacro Império Romano. Um sinal muito claro no campo litúrgico dessa identificação são as vestes litúrgicas, que mais do que sinal da presença da pobreza do mestre, são o símbolo do poder político do Império Romano. Além disso, nos séculos de dominação temporal da igreja, haverá liturgias nas quais se manifestará o poder da igreja sobre príncipes, reis e imperadores. Estas deformações da mensagem original convergidas para a liturgia, permitem compreender não só a necessidade de uma reforma litúrgica ocorrida no Concílio Vaticano II, mas, sobretudo, a dificuldade de implementá-la devido aos saudosos de plantão, que não conseguem libertar suas mentes das formas do passado.

Afinal, como disse Thomas Khun, as estruturas culturais se acomodam a tal ponto que mesmo uma revolução cultural não é capaz de provocar mudanças imediatas. Sessenta anos de história são quase nada comparados aos quinze séculos do cenário anterior.