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quinta-feira, 23 de outubro de 2025

O PROBLEMA DOS DOCUMENTOS NA PÓS-MODERNIDADE

 




Paolo Cugini

Uma característica específica do período cultural em que estamos imersos é que não é fácil fazer uma síntese. Existem muitas variantes culturais do novo paradigma que rapidamente mudam de horizonte ou desaparecem. Este é um aspeto novo. Até há algumas décadas, a cultura ocidental possuía uma estrutura interna, chaves de leitura claras, uma orientação de fundo partilhada. O mesmo pode ser dito das culturas de outros povos, cada uma com uma história, uma tradição bem distinguível. O problema do historiador, do investigador, do arqueólogo que estuda o passado, sobretudo nas culturas milenares, consiste em localizar documentos e, uma vez encontrados, poder interpretá-los.

Nas culturas dos séculos passados, nota-se o esforço de transmitir o conhecimento adquirido, especialmente de forma oral e, em alguns casos, por escrito ou através de outros meios, como a pintura, o desenho, a arquitetura. Quando são encontrados artefactos arqueológicos, o entusiasmo é sempre elevado, pois aumenta a possibilidade de conhecer um pouco melhor aquele povo específico, as suas tradições, os seus costumes. Hoje, o discurso mudou completamente. O problema da atualidade é a infinidade de documentos que todos os dias são produzidos em todo o mundo e colocados na rede. Existe uma disponibilidade de material documental de todos os tipos como nunca antes se viu na história. Este aspeto, em vez de simplificar as coisas, complica-as imensamente. Quem faz investigação hoje deve aprender a navegar no oceano infinito de material documental sobre cada tema específico que se pretenda estudar e aprofundar. Passou-se de um material disponível escasso e muitas vezes em más condições, ao ponto de dificultar a identificação do autor e a autenticidade do documento em questão, mas que, ao mesmo tempo, permitia delimitar a pesquisa, para uma tal quantidade de documentos que torna quase impossível ao investigador realizar um trabalho o mais objetivo possível.

Há um dado que une esta impressionante quantidade de material documental proveniente de todas as partes do planeta e que caracteriza as culturas: o facto de que cada ramo do saber atual partilha o prefixo "pós". Poderíamos dizer que estamos na cultura do depois, com uma dupla atenção ao presente e à projeção para o futuro. Por um lado, a obsessão pela imagem, de como aparecemos perante os outros, impulsiona o comportamento no esforço diário de permanecer em sintonia com o que aparece no mercado. Ser considerado atual significa existir. Por outro lado, a insatisfação de viver num presente cheio de uma miríade de ideias e modos de ser, com os quais se torna difícil identificar-se e encontrar um caminho próprio, leva à busca pelo futuro. São inúmeros os projetos, as projeções em mundos distópicos, seja na literatura, seja nas artes, que permitem habitar idealmente outros mundos sem demasiadas preocupações com os dramas do presente.

sábado, 21 de dezembro de 2024

ASSOCIAÇÃO CULTURAL MORINGA DE TAPIRAMUTA' (BAHIA): UMA HISTÓRIA EXEMPLAR

 





Paolo Cugini


Quase vinte anos se passaram desde que a Associação Moringa, fundada em Miguel Calmon para apoiar a biblioteca, também se instalou em Tapiramutà. 

Moringa é o nome de uma planta que purifica a água além de possuir propriedades antioxidantes que podem ajudar a regular o estresse oxidativo, reduzindo os níveis de açúcar no sangue e protegendo as células do corpo. Quando eu e Gianluca, no início de nossa aventura brasileira, procurávamos um nome para dar à associação cultural que estávamos formando, ao descobrirmos a planta da moringa não tivemos mais dúvidas: a associação se chamará moringa. 

A ideia por trás do projeto moringa era fornecer ferramentas, especialmente aos jovens que conhecemos das classes mais pobres, para poderem construir o seu próprio futuro. O primeiro projeto foi o de uma biblioteca, criada a pedido dos jovens que conhecemos. Em torno do espaço da biblioteca, construído através da reabilitação de um edifício da paróquia de Miguel Calmon, surgiram muitos projetos culturais, como o curso de preparação para o acesso à universidade, a par de outros cursos, alguns realizados em colaboração com a vizinha cidade universitária de Jacobina. Entre os projetos mais significativos destes vintes anos elaborados e levados em frente pala Associação Moringa, foram os projetos de conscientisação política em parceria com o Movimento fé e política (Miguel Calmon e Tapiramutá) e o Movimento Moringa em Pintadas. 

O Movimento Fé e Política de tapiramutá numa ação na cidade de Miguel Calmon


Essa ideia cultural deu frutos diversos nas cidades onde foi plantada. Em Pintadas e Ruy Barbosa, por exemplo, não deu muito certo e foi extinto. O local onde a associação da Moringa até agora trouxe mais frutos foi Tapiramutà. De fato, em torno do projeto da biblioteca, em Tapiramutà, foram desenvolvidos alguns projetos direcionados aos menores de rua, em colaboração com a paróquia e, de modo especial, na pastoral dos adolescentes. 

Uma virada fundamental na Moringa foi a descoberta da organização que repassa recursos do Estado da Bahia para entidades que desenvolvem projetos sociais para as classes mais pobres da sociedade. Ao longo do tempo, este contacto produziu a possibilidade de realização de cursos profissionais de diversas naturezas: pedreiro, eletricista, cabeleireiro, etc. Buscou-se contato com o estado. Este é um ponto importante. De facto, muitas vezes os projetos iniciados em terras de missão pelos missionários italianos, terminavam quando o missionário regressava à sua terra natal, até porque os projetos ativados geralmente dependem de dinheiro vindo de Itália. Com Gianluca, desde o início, tivemos ideias claras, também graças a algumas leituras que esclareceram as nossas ideias. 

Alguns dos tantos cursos de formação política realizados pela Moringa


Li o primeiro durante minha primeira viagem  Milão Salvador: O Banqueiro dos Pobres, de Yunus, ganhador do Prêmio da Paz 2006. Li-o porque uma resenha o indicou como um livro fundamental para os missionários. Yunus ensina como ativar o microcrédito em áreas de pobreza. O dinheiro não é doado, mas deve ser investido para produzir. Trata-se de permitir que as pessoas pobres saiam da pobreza, aprendendo a trabalhar, a produzir e a escapar de uma mentalidade de mendicância.

O segundo livro que nos abriu os olhos também vai nessa direção: A caridade que humilha da economista zambiana Dambisa Moyo. Dambisa afirma que o que destruiu África, reduzindo os africanos à pobreza, foi a ajuda humanitária. Pode parecer um paradoxo, mas não é. Na verdade, Moyo, com dados em mãos, afirma que os milhares de milhões de dólares doados pelas grandes potências e entidades de caridade acabaram nos bolsos de políticos corruptos nos países africanos. Esta ajuda, ao longo do tempo, contribuiu, portanto, para manter no poder políticos corruptos e ditadores inescrupulosos, impedindo os africanos de zelarem pelo seu próprio território. 

Um momento da confraternização deste ano em Tapiramutá


Apenas três anos após a fundação da Associação Moringa, Gianluca deixou não só a gestão, mas a própria associação. Eu o segui logo depois. A ideia desta escolha foi na ordem do que havíamos lido e meditado: deixar o povo brasileiro administrar os projetos criados por suas indicações específicas e, sobretudo, não criar novas formas de dependência colonial. O dinheiro que os amigos italianos ofereciam era sobretudo pra dar o pontapé e nada mais. 

Em Ruy Barbosa e Pintadas a experiência não durou muito. Apesar das aparências e dos muitos projetos realizados, não despertou muito interesse. Em Miguel Calmon a experiência continua ativa, sobretudo ligada à biblioteca. Atualmente está em fase de impasse e precisaria de uma reforma, principalmente no pessoal que administra a experiência.

A experiencia de Tapiramutà é diferente. Nesta cidade quem tem o comando é um grupo de pessoas, quase exclusivamente mulheres, que abraçaram a causa, considerando o projeto não só importante, mas necessário para a sua cidade. Entre estas mulheres há algumas com condições económicas significativas e com uma atitude crítica em relação à classe política. Como disse o dominicano Frei Betto, um dos protagonistas do caminho das comunidades eclesiais brasileiras: a opção preferencial pelos pobres é feita pela classe média e, sem ela, é difícil provocar mudanças radicais. E assim foi em Tapiramutà.



Além de acionarem um contacto com o município para pagar os salários dos responsáveis do projeto, estas mulheres conseguiram envolver muitas pessoas – cerca de oitenta – para apoiar o projeto, inclusive financeiramente. Este grupo de pessoas acompanha os projetos há vinte anos, fechando alguns, ativando outros e desde o início sempre procuramos incluir os vários projetos em colaboração com a pastoral social das paróquias e, consequentemente, aproveitando os seus espaços . A associação, com o contributo dos seus associados, compromete-se a manter a ordem e a renovar os espaços que utiliza. 


Nos últimos dias recebi fotos da festa de confraternização Natalina da associação Moringa presente em Tapiramutà. Muita gente festejando, feliz por contribuir para a realização de um sonho: ajudar os pobres a se levantarem e caminharem com os próprios pés, sem esperar durante toda a vida receber esmolas. Entre os que passaram pela aventura da ACMOR (Associação Cultural Moringa) nos últimos anos estão pedreiros, eletricistas, cabeleireiros, mas também engenheiros, arquitetos, farmacêuticos e até dois médicos. A maior satisfação para mim é que só estive presente no início deste projeto: elas, eles cuidaram do resto. 


sexta-feira, 28 de setembro de 2018

DICAS PARA UMA REVOLUÇÃO ESPIRITUAL




Paolo Cugini

Dizia Charles Péguy, grande poeta e filosofo francês, que a verdadeira revolução não se realiza com as armas, mas com o espírito. O problema de uma sociedade corrupta não se resolve com a violência, mas com uma educação moral e cultural. Se a podridão escancarada está tomando conta da classe política, isso é um reflexo daquilo que está dentro. Então não adiantam medidas exteriores: é um homem novo, uma mulher nova que deve ser construído/a. Quem acredita nas possibilidades do homem, reconhece que o caminho é por ai. Quem acredita que o homem foi criado a imagem de Deus, sabe que é a reconstrução desta imagem o grande trabalho a ser realizado.
O problema é sempre o mesmo: como? Como sair dessa situação lastimável?

Em primeiro lugar, é necessário criar espaços para ajudar as pessoas à pensar, se confrontarem, discutir, formar-se uma própria idéia. Em municípios onde quem não fica com a situação é sistematicamente perseguido ou, pior ainda, considerado um inimigo, torna-se urgente criar espaços culturais aonde as pessoas se sintam a vontade para expressarem as próprias idéias sem medo de retaliações. Uma das características da imagem de Deus contida no homem é a liberdade. Onde a liberdade estiver ameaçada, como é no nosso caso, deve ser feito tudo o possível para criar estratégias capazes de estimular a capacidade reflexiva das pessoas. A liberdade é de fato, ligada à capacidade de pensar típica do homem e da mulher. Sempre admirei a liberdade de expressão que, neste contexto sócio-politico de terceiro-mundo, torna-se coragem, ousadia. È isto que deveria produzir uma seria reflexão na liderança política dos nossos municípios. Não é possível, de fato, medir o desenvolvimento de um povo fazendo referencia somente aos indicadores econômicos. Não adianta expor a lista das obras realizadas, quando não se fez nada para ajudar a criar um clima social mais livre. A democracia é a convivência dos opostos, o respeito das idéias alheias. Aonde isto não acontece, não é possível falar de democracia, mas de oligarquia- governo de poucos-, ou de monarquia, governo de um só.  

Liberdade e cultura caminham juntas. Até quando é o prefeito da cidade que decide quem ensina aonde, não haverá crescimento cultural. Um professor amedrontado passa para os próprios alunos a própria covardia e, esta, não favorece o desenvolvimento de uma personalidade autônoma. Sendo que dificilmente mudarão no breve período estas leis feitas pela mesma elite na época do coronelismo, será necessário que os poucos homens e as poucas mulheres livres, ou seja não atrelados/as ao poder, inventem meios para despertar os espíritos mais ousados. Não basta, de fato debater, analisar. Precisamos de homens e de mulheres que saibam agüentar a maldade do poder, as suas mesquinharias para inventar estratégias novas. Nessa altura, fazer cultura significa inventar técnicas de resistência, um contra-pensamento que desmascare as armadilhas de morte escondidas nas mentiras do poder. Se quisermos reconstruir cidades aonde seja possível pensar, gritar a própria liberdade, falar com qualquer pessoa sem medo de sermos vistos pela posição, devemos considerar totalmente fracassado o atual projeto político. De fato, estamos nauseados de políticos corruptos, que cuidam discaradamente dos próprios interesses pessoais o familiares, que gostam cinicamente de humilhar aqueles que eles chamam de inimigos.  Chega de promessas mentirosas, de mascaras nas épocas das eleições, de palavras recheadas do nada. Precisamos de homens e mulheres autênticos, que tenham uma só palavra. Estes homens e estas mulheres não se encontram no atual poder político. Por isso não queremos nas nossas fileiras pessoas interessadas a subir a escada do poder político. Se no passado cometeram este pecado, serão perdoados se terão a força de libertar-se destes desejos impuros e imorais.

A libertação será moral o não será nunca: é este o nosso grito. Por isto é necessário ajudar os adolescentes e jovens para que eles descubram a riqueza da própria vida interior, não para fugir num narcisistico individualismo, mas para assumir com mais força a própria dignidade humana. Ser homem e mulher não é apenas um direito: é também um dever. Sentir o compromisso de cuidar de si mesmo e das pessoas que moram perto de nós; perceber a responsabilidade que ser pessoa é cuidar dos outros, interessar-se deles: é esta consciência que deve ser despertada e formada. Estamos, de fato, vivendo não em décadas economicamente perdidas, mas sum humanamente disperdiçadas. Recuperaremos este tempo somente se fizermos o esforço de ajudar as novas gerações para que aprendam a pensar com a própria cabeça, sem medo de ninguém, mas somente com um grande temor de Deus no coração. O tempo é de Deus e Ele está  com todos aqueles e aquelas que se esforçam de proteger as suas criaturas do mal, para que no mundo reine o bem.